segunda-feira, 13 de maio de 2013

OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE



O assunto agora é o Matemático.  Não, não é o Oswald Souza nem nenhum desses matemáticos que aparecem na reta final do campeonato brasileiro dizendo a porcentagem de chance que cada time tem de ser campeão ou rebaixado.
Matemático era mais um desses traficantes violentos que o Rio de Janeiro produz aos montes. Esses traficantes já são produtos tradicionais de nossa cidade como as escolas de samba e o mosquito da dengue.
Foi morto no ano passado como milhares já foram e a população mal soube na época. Evidente que a situação na favela que exercia sua função não foi resolvida, outro assumiu no lugar e assim a dinastia continua.
Teria passado despercebida a morte do tal Matemático se as imagens de sua morte não tivessem parado na Globo, pior, no Jornal Nacional que é provavelmente o programa mais visto pela tv brasileira.
Pronto. A polêmica foi criada e a situação dividida entre dois lados apaixonados defendendo fervorosamente seus pensamentos cuja imensa maioria não tira a bunda do sofá para que algo seja feito para mudar a cidade ou o mundo em que vivemos.
Eu me incluo nesses que fazem nada.
A operação foi bem sucedida. O traficante fã da matemática foi eliminado e nenhum inocente morreu. Essa inclusive é a tese dos defensores da operação, aqueles que vibraram com a morte do traficante e são favoráveis a política do “olho por olho, dente por dente”.
Do outro lado estão aqueles que são contrários a operação e apontam seus erros. Várias casas e prédios foram alvejados pelo helicóptero do BOPE na perseguição ao carro que eles achavam que o traficante estava. Sim manolos, eles apenas achavam, não tinham certeza.
Havia pessoas na rua também, pessoas inocentes que nada tinham a ver com a história ficaram no meio do fogo cruzado e não foram alvejadas por sorte.
Dessa forma a questão ficou dividida entre os que aprovaram a ação e os que foram contra. E eu? O que eu penso do assunto?
Antes de mais nada quero dizer que apesar de não ser adepto da política do “olho por olho, dente por dente” eu quero mais que traficante se exploda. Não só traficante como todos os bandidos. Evidente que se tiver que escolher entre a vida de um bandido e de uma pessoa de bem fico com a vida dessa pessoa de bem e não derramo uma lágrima por morte de bandido.   
Só que há uma questão nesse caso. Prédios e casas alvejados, pessoas inocentes expostas numa perseguição onde achavam estar trocando tiros com o traficante. Deu certo, mas política pública não pode depender de sorte.
Alguns defendem a ação por não aguentarem mais sofrer com a violência, a falta de segurança, os desmandos, a nossa fragilidade e eu não só entendo perfeitamente essas pessoas como aceito a tese. Eu sou um dos que não aguenta mais isso e tenho medo pelo futuro dos meus filhos.   
Mas tem os fascistas também. Aqueles que “fingem” serem normais e aproveitam as redes sociais onde existe um falso esconderijo e expõe todo o preconceito e todos os pensamentos retrógrados e racistas que tem.
Porque é mole pedir e aplaudir ação dessas em favela contra negro. Lembrando a data de hoje, da promulgação da Lei Áurea é mole atacar as novas senzalas e mandar tiro nos “negros fujões” como era feito no tempo da escravidão duzentos anos atrás.
Sim, eu até apoiarei um dia ação dessas. Sabem quando? No dia que as mesmas ações forem feitas na zona Sul do Rio de Janeiro ou até mesmo aqui na Ilha do Governador.
No dia que o BOPE sentar o dedo em bandido que estiver fugindo por Ipanema e Copacabana, no dia em que prédios da Vieira Souto forem alvejados ou quando um capitão Nascimento da vida der um chute na porta de um condomínio de luxo da Barra e botar o empresário corrupto, inescrupuloso e verdadeiro chefão do tráfico no saco.
Não tiro a responsabilidade dos traficantes de morro e acho que sim eles têm que ser presos ou mortos, mas até quando seremos ingênuos de pensar que pessoas sem escolaridade, pobres são capazes de articular facções criminosas tão grandes, capazes de arrecadar centenas de milhões de dólares sozinhos?
Isso não existe. Tem que ser muito idiota para acreditar em uma coisa dessas e o pior é que muita gente acredita ou finge acreditar.
Sabem quem acredita? Quem fermenta, espalha essa ideia e acaba prejudicando a chegada nos principais culpados? Esses que apoiam o “bandido bom é bandido morto”, esses que dizem “tem que atacar mesmo”, que aplaudem ações dessas. Esses que vivem reclamando da polícia, que cada vez mais ela parece com bandidos, mas aplaude e apóia ações como essas em que policiais agem como bandidos.
O brasileiro médio, aquele comparado com Hommer Simpson pelo Willian Bonner. A nossa classe média que aplaude policial matar em favela quando muitas vezes nem sabemos se o morto era bandido ou não, mas reclama da polícia quando é parada em blitz de lei seca, quando toma uma “dura” fumando maconha com os amiguinhos da faculdade ou diz que o filho é apenas um garoto quando esse provocou racha na rua e pede pra aliviar.
Nossa classe média é demagoga, pior que isso é burra e alienada, por isso esse país não avança porque em qualquer país do mundo é a classe média que cria as opiniões e as mudanças e aqui só conseguimos criar hipocrisia e demagogia.
Chegaram ao cúmulo de comparar a ação na favela com a prisão dos “terroristas” de Boston. Situações completamente diferentes. Primeiro que ninguém até hoje pode dizer que tem certeza do que aconteceu ali. Dois jovens foram acusados de terrorismo, um foi morto e o outro não pode falar. Isso é genial, é acabar com qualquer tentativa de defesa e já definir uma situação.     
Outra. Os dois estavam escondidos em um barco quando teve confronto com a polícia e até onde sei nenhum pedaço de grama ou gota de água da baía sofreu risco de vida.
Sim porque ao contrário da ação no Brasil não tinha inocentes em volta.
Quanto ao americano aplaudir ações de guerra e acharem que aqui devia ser igual só mostra que a classe média americana é tão burra quanto a brasileira. Somos todos Hommer Simpson com a diferença que a classe média de lá é burra, bélica e faz que essa guerra se volte contra eles.
Mais uma vez, repito, não defendo traficante (sempre é preciso deixar isso claro já que pra nossa classe média quem repudia ação assim gosta de bandido) por mim matavam esse desgraçado, mas não botando outras vidas em risco. Querem eliminar o cara? Eliminem na hora do “arrego”. O que? Como posso ter certeza que ele dava dinheiro a policiais pra não ser preso? Tolinhos..
Também não sou partidário do PSOL nem de qualquer organização socialista. Assim como a maioria da população acho esses órgãos de direitos humanos cretinos porque só aparecem quando bandido morre.
E também começo a achar que o deputado Marcelo Freixo só quer aparecer nessas histórias todas, cada vez mais me lembra mesmo o deputado Fraga do filme que foi defender bandido em Bangu I, mas nunca apareceu no enterro de um policial.
Mas não é por isso que acho que devemos dividir as pessoas em subclasses, não é por isso que apoiarei ações policiais que coloquem seres humanos em risco só porque são favelados.
Lugar de bandido é na cadeia ou morto, de criança é na escola, papel de polícia é proteger o cidadão. Tudo isso está na lei, é simples e o policial que hoje infringe a lei contra um favelado é o mesmo que te pedirá a graninha da cerveja amanhã.
O mundo é cíclico e quando defendemos o olho por olho, dente por dente em algum momento passaremos por essa situação.
É matemático. 


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