sábado, 21 de dezembro de 2013

ERA DA VIOLÊNCIA 2: CAP XIV: A ORGANIZAÇÃO




Visitei lugares carentes com Juliana e seu staff. Ela aprendera direitinho como ser política. Pegou crianças pobres no colo, comeu comidas estranhíssimas e tudo sem tirar sorriso do rosto. Pegamos uma van indo a outra localidade e comentei “Seu pai estaria orgulhoso de você”. Ela respondeu “Sou muito diferente dele”.

Ficamos mais um tempo em silêncio e arrumei coragem para perguntar “Você acha que ta tudo bem com o Guilherme?”. Juliana que olhava a janela virou-se para mim e perguntou “Por quê me pergunta isso?”. Respondi que achei estranha a reação dele no comitê e Juliana me cortou “Coisas de adolescente”. Achei melhor me calar.

Vendo Juliana agir em outra localidade senti a presença de Pardal. O bandido se aproximou e disse “Você tem razão”. Perguntei sobre o que e ele respondeu “Convivi anos com viciados, presta atenção no moleque”.

Enquanto isso João começava a reforma da farmácia aproveitando o dinheiro dado por Rui. Assistia os homens trabalharem quando Fernanda chegou lhe fazendo um carinho. João pegou sua mão e acariciou enquanto os pedreiros trabalhavam e a moça comentou “Terão muito trabalho”. João concordou e completou “mas vai ficar bonito”.

Ela se virou para o farmacêutico e perguntou “Você disse que estava sem dinheiro, como conseguiu começar a reforma?”. João, obrigado a mentir respondeu “Consegui um empréstimo”.

Fernanda lembrou “Te ofereci dinheiro emprestado e você não quis”. O homem pegou a moça pela cintura, fez carinho em seu rosto e falou “Não teria sentido pegar com você, não teria coragem, relaxa que vai dar tudo certo”.

Ela perguntou se o dinheiro era o suficiente para fazer toda a reforma e João respondeu que sim.

Não. Não era, mas ele daria um jeito.

Cheguei em casa depois de um dia de trabalho com Juliana e resolvi mexer no blog. Tempo que não fazia isso. Sentei-me à frente do note sem ideias para escrever e me lembrei das coisas que passei recentemente. Pensei se seria uma boa e Lucinho apareceu dizendo “Escreva, você gosta disso”. Reclamei “Você cismou que eu gosto de crime, violência”. O bandido completou “Você gosta, escreva”.

O bandido desapareceu e comecei, aos poucos, a digitar.

Escrevi sobre os dois assassinatos e publiquei. O blog bombou como há muito não ocorria. Acordei assustado com pessoas da imprensa me ligando e ao encontrar com Juliana ela me perguntou se o que escrevi era verdade. Respondi “Experiências passadas que resolvi colocar no papel”. Não sei se ela acreditou.

Na faculdade João gritou por Rui e correu a seu encontro. Perguntou ao policial se ele vira o que eu escrevi e Rui respondeu “Sim, ele trocou os nomes, então não tem problemas. Professor escreve bem”. Caminharam um pouco, João se encheu de coragem e pediu “Me explica como é essa história de limpar a área”.

Rui parou de caminhar, olhou o farmacêutico e perguntou “Gostou né?”. O farmacêutico respondeu “Preciso reformar a farmácia”.

Voltaram a caminhar e Rui comentou “De noite passo em sua casa”.

Antes Rui passou na minha. Preocupado perguntei “Quem vamos matar hoje?”. Rui sorriu e respondeu “Por enquanto ninguém, mas se você tiver alguma sugestão..”. Passamos na casa de João e Rui falou ao farmacêutico “vem comigo”.

João fez a mesma pergunta e Rui respondeu “Vocês acham que eu vivo só pra matar? Tenho um lado coração também, um lado dócil”.

Fomos a um galpão perto da Avenida Brasil e lá estavam Galalite e Scarface. Rui chegou dizendo “Vocês já se conhecem, não há necessidade de apresentações”.

Estávamos apenas os cinco no local e perguntei o motivo da reunião. Rui respondeu “João queria saber mais sobre o que fazemos. Você é jornalista, escreveu sobre nós em seu blog, então achei que quisesse saber mais sobre”.

Respondi “É, talvez queira” e Rui explicou.

Rui, Galalite e Scarface faziam parte de um esquadrão da morte chamado de “Cachorros velozes”. Uma organização que em sua maioria contava com policiais militares e civis, mas também continha gente da sociedade insatisfeita com os rumos do Rio de Janeiro.

Eles não andavam dentro da lei, até porque a lei nem sempre representava a justiça. Os cachorros se viam como “Limpadores da área”. Pessoas que faziam justiça aonde ela não chegava e também aceitavam encomendas, isto é, receber dinheiro para eliminar algumas pessoas. 

Perguntei “Mas e se a pessoa que for encomendada for de bem? Não tiver problemas com a sociedade e for coisa pessoal?” Rui respondeu “Sempre existe algo, ninguém morre por nossas mãos à toa”.

Continuou “Somos cerca de trinta, mas nos dividimos em grupos. Eu comando um que também fazem parte Scarface e Galalite, grupo para o qual estou te chamando João”.

Olhei para João e perguntei “Você vai entrar nessa?”. O homem respondeu “Preciso reformar minha farmácia”. Rui se aproximou e comentou “E vai conseguir, o dinheiro é bom. Scarface comprou seu táxi assim”. Scarface mostrou a arma na cintura, deu tapinhas nela e respondeu “Graças ao meu amiguinho”.

Galalite se meteu na conversa “Assim que tenho sustentado minha casa. Mulher e filha. Não consigo arrumar emprego por ser ex-presidiário e acho que to fazendo um bem eliminando esse tipo de gente”.

João ouviu todas aquelas histórias e respondeu “To dentro, mas só até acabar a reforma”. Comentei “Você não vai sair” e Rui completou “Fechado”.

O policial virou para mim e fez proposta “Você vem com a gente e cobre todas as ações, depois escreve no blog. É bom pra gente. Nossos contratantes através de você vão ver nossa eficiência e nos indicar a amigos”.

Respondi que não saberia se teria estômago e Rui rindo comentou “Terá sim, você já fez coisa pior”.

Fui para casa e não consegui dormir. Levantei, abri o note e escrevi sobre o encontro no galpão. É, eu tinha aceitado.

O tempo foi passando e os “trabalhos” acontecendo. No começo João se perturbava, vomitava depois de matar e ainda sofria. Com o tempo já era um deles. Matava como se comprasse um picolé na vendinha. A farmácia foi reaberta e como eu previa ele não parou.

Contava a história dos “Cachorros velozes” no blog. Semeava a dúvida se era verdade ou não. O blog explodiu de vez e fui convidado por outra faculdade para dar aula. Topei. Também fui convidado por um jornal para trabalhar, mas não aceitei.

Preferia contar tudo no blog. Ganhava mais dinheiro ali e ainda trabalhava com Juliana. Não teria tempo.

Eu me aproximava de Juliana cada vez mais. A campanha entrava em reta final e ela era favorita ao senado. Percebia os olhares raivosos de Rubinho Barreto para mim, mas ele que se fodesse. Ela era minha porra, o intruso era ele!!

Ao mesmo tempo João e Fernanda engataram namoro com planos de se casarem. Eu comentava com o farmacêutico “Como você vai fazer com essa vida dupla? Uma hora ela vai descobrir e vai dar merda”. João sempre respondia “Não posso parar, não tem mais como”.

Um dia Juliana fez campanha perto da farmácia de João. Ele estava lá comentando que iria a um bar com karaokê à noite com Fernanda e Juliana me perguntou “Vamos?”.

Não esperava e só respondi “Oi?”. Ela repetiu “Vamos lá. Tempo que eu não canto”. Surpreso, perguntei “E o Rubinho?”.

Juliana como se nem estivesse aí respondeu “Ta viajando a negócios, deixe o Rubinho pra lá”. Rubinho realmente viajara, por coincidência Flávia, a mulher de Donato também viajara com pretexto de ver a mãe.

Não. Não era coincidência.

No horário combinado fui até a mansão buscar Juliana. Ela surgiu linda. Comentei sua beleza e olhei mais uma vez a casa. Juliana comentou “Muitas lembranças né?”. Respondi que sim. Era a mesma casa em que fui criado, da minha última noite com Juliana, muita coisa junta.

Na porta do local nos encontramos com João e Fernanda. João Arcanjo já conhecia bem casa, chegou ao porteiro e cumprimentou “Fala Tarantino!!”. Realmente, o porteiro era a cara do Quentin Tarantino.

Sentamos, pegamos bebidas, tira gostos e conversamos. Rimos bastante, contamos histórias. Era muito bom estar assim com Juliana. Parecia que eu voltava no tempo, um tempo feliz e já tão distante.

Vimos umas pessoas cantando, rimos da maioria e em determinado momento Juliana comentou “Vou lá”. Antes que eu falasse algo minha ex levantou e foi até o palco.

Pegou o microfone e cantou “Nunca” de Lupicínio Rodrigues. Cantou olhando para mim. Eu no começo não sabia onde enfiar a cara, mas me deixei levar e olhava para a mulher que eu amava enquanto ela cantava “Saudade, diga a esse moço, por favor, como foi sincero o meu amor, como eu lhe adorei tempos atrás”.

Depois emendou com a nossa música “Você” de Tim Maia. Eu não aguentava mais aquela situação. Ser irmão da mulher que amava, não pode estar com ela, fazer nada quando eu via que ela também me amava ainda era demais pra mim.

Cantou, foi bastante aplaudida e voltou para a mesa. João e Fernanda foram só elogios a minha ex e ela sem me olhar, pegando um copo me perguntou se eu gostara. Sem olhar para ela também respondi “Você sempre cantou muito bem”.

No fim da noite levei Juliana para casa. Ela agradeceu pela noite e respondi que ela sempre fora uma ótima companhia. Juliana se aproximou para beijar minha boca e desviei dizendo que ela tinha bebido e era melhor descansar.  

Juliana olhou séria para mim e disse “Tem momentos que te odeio”. Abriu a porta e saiu. Coloquei minha cabeça no volante e sozinho respondi “Eu também”.

Dei um soco no volante e quando ia partir reparei na chegada de Guilherme. Ele chegou desconfiado, olhando para os lados e em vez de abrir a porta principal fez escalada até o segundo andar entrando pela janela. Observei a tudo e pensei “Esse moleque ta aprontando”.

Não sabia como agir, tinha que fazer alguma coisa.

A noite não tinha sido agitada apenas pra mim. Também para Rui de Santo Cristo.

O homem foi numa favela, pegou seu arrego, cheirou todas e decidiu que aquela seria sua noite. Pegou o carro e saiu por aí. Foi fechado em uma esquina, desceu, discutiu com o motorista, deu um monte de tiros no cara e saiu como se nada ocorrera.

Atravessou a cidade dessa forma e passou em um famoso ponto de prostituição. Viu algumas prostitutas no local e escolheu uma. Parou com o carro perto e a mulher se agachou na janela perguntando “Quer se divertir?”.

Rui respondeu “Não, quero debater o novo plano econômico do governo. Que você acha benzinho?”. A mulher falou “Vinte reais, meia hora” e o homem gargalhou.

Ela perguntou qual era o problema e ele respondeu “Vinte reais? Vinte reais dou de gorjeta pro moleque que engraxa meus sapatos, que puta pobre que você é”.

A mulher se ofendeu, levantou da janela e Rui completou “Espera! Desculpe benzinho. Te dou duzentos reais e você passa a noite comigo”.

A prostituta topou e entrou no carro. Foram a um motel caindo aos pedaços e sentaram na cama. A mulher começou a tirar a roupa. Rui mandou “precisa não”. Tirou um cigarro do bolso, acendeu e perguntou se ela queria.

A prostituta aceitou. Ele acendeu o dela e pegou um saquinho do bolso. Era cocaína. Abriu o saco, espalhou na cama e disse “vamos nos divertir”.

Cheiraram a noite toda. Rui parecia possuído pelo Demônio. Pelado, pegou a arma e foi para a janela dizendo “Minha missão nesse mundo é acabar com os filhos da puta! Vou matar um por um! Os filhos da puta que emporcalham o mundo em que vivemos, os filhos da puta que se metem no meu caminho! Todos! Todos!”.

Virou-se para a mulher e continuou falando enquanto ela cheirava e não parecia prestar muita atenção “Eu vou ser o dono dessa porra toda! Podre de rico, com poder! Vou mandar nisso aqui! Mandar nos milionários babacas que pagam meu serviço! Mandar em putas de vinte reais! Eu vou ser o rei dessa porra!”.

A mulher parou de cheirar, coçou o nariz e perguntou a Rui “Tem mais aí?”. Rui olhou sério para ela e perguntou “Você não prestou atenção em nada do que eu falei né?”. A mulher perguntou “Você estava falando?”.

Rui olhou para a janela, voltou a olhar pra ela e atirou na mulher matando. Sentou-se na cama, pegou outro saquinho e abriu para cheirar dizendo “Falta de consideração”.

No dia seguinte eu estava lá nas ruas trabalhando com Juliana. Não trocamos muitas palavras e minha ex parecia com cara de quem chorou a noite toda. Eu queria pedir desculpas, mas não podia. Ela iria me perguntar porque lhe evitava e eu acabaria contando a verdade, o que não queria.

Voltamos a comitê e para minha surpresa Rodrigo Saldanha estava lá. Juliana chamou a todos para comunicar que Rodrigo, que fora seu secretário de segurança, era candidato a deputado estadual e faria campanha junto com ela a partir de então. Também se juntaria Donato Barreto, candidato à reeleição como federal.   

Depois do comunicado nos dispersamos e Rodrigo se aproximou de mim “Olhem só quem eu encontro”. Notei sua presença e falei “Nem vem que eu to limpo”. Rodrigo sorriu e disse “Relaxa, somos uma equipe”. O policial se afastou e eu me preocupei. Não confiava naquele homem.

Mais um tempo passou e chegou o casamento de João e Fernanda. Na noite anterior do casamento João bateu na porta da moça. Ela abriu e o noivo estava lá com duas taças e um champanhe. Fernanda sorriu e perguntou “Não vai pra despedida de solteiro?”, João respondeu “Prefiro passar essa noite com você e todas as outras da minha vida”.

Entrou e passaram a noite juntos. João Arcanjo tinha trauma de sua última despedida de solteiro e achou por bem passar com sua noiva.

O casamento foi bacana. Não foi nada suntuoso, mas bem caprichado e bonito. Sentei afastado de Juliana, mas ficávamos trocando olhares enquanto Rubinho, ao seu lado, nem se preocupava. Estava mais interessado em fazer o mesmo com Flávia Barreto.

Na festa continuamos trocando olhares. Lá Rubinho percebeu e quando eu pegava bebida o empresário se aproximou e disse “Nem pense. Se você ousar tentar algo com minha mulher eu acabo com você”. 

Olhei para ele e respondi “Mas eu quero é você. Acabou de deixar minha calcinha molhada”.

Rubinho repetiu “ta avisado” e se afastou. Bebi um gole e comentei baixinho “babaca”.

Todos se divertiam. João feliz como há muito tempo. Menos eu e Juliana que sentados afastados um do outro nos olhávamos. Depois de um tempo Rubinho convidou minha ex para ir embora e eles foram. Sem ter Juliana lá fiz o mesmo.

Cheguei em casa e me deitei no sofá ainda com a roupa do casamento. Liguei a tv para ver filme e adormeci.

De manhã tocaram a campainha insistentemente. Acabei acordando e gritando “já vai” abri a porta. Era Juliana.

Ela, chorando, entrou e me abraçou. Assustado, perguntei o que ocorria e ela me respondeu.

“Nosso filho precisa de ajuda”. 


ERA DA VIOLÊNCIA 2 (CAPÍTULO ANTERIOR)




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