sábado, 14 de dezembro de 2013

ERA DA VIOLÊNCIA 2: CAP XIII - IRMÃOS BARRETO



No dia seguinte Rui bateu cedo na casa de João. O farmacêutico abriu a porta com cara de quem não dormiu e perguntou o que o policial queria. Rui tirou um envelope do bolso e respondeu “Conta”.

João abriu o envelope e viu que era dinheiro. Contou as notas e impressionado perguntou “Quanto dinheiro! O que significa isso?” Rui respondeu “Seu pagamento por ontem”. João sorriu e disse que não poderia ficar com o dinheiro, não foi crime encomendado e sim vingança.

Tentou devolver o dinheiro e Rui não aceitou “Os caras já estavam jurados, só dei a oportunidade pra você. É justo que você receba também e está precisando, está sem a farmácia”.

João aceitou o dinheiro e Rui continuou “Minha proposta está de pé. Vamos limpar as ruas. Você é bom nisso, ta precisando e somos irmãos. Não vou te deixar sozinho”.

João agradeceu e Rui completou “Pense nisso”. Indo embora.

João fechou a porta, contou o dinheiro de novo e falou sozinho “Cacete, é muito dinheiro”. Sentou-se olhando o dinheiro, contou de novo e completou “Limpar as ruas não é má ideia”.

Enquanto João pensava em limpar as ruas eu pensava em tomar meu banho. Acordei atrasado para ir ao comitê de Juliana e tomei um banho correndo para ir ao local. Pneu vazio do carro não me restou alternativa e peguei um táxi.

Peguei logo o de Scarface.

O lunático passou a viagem toda falando nos Estados Unidos. Falava “To juntando uma grana Gilberto. Matando todo o tipo de filhos da puta pra pegar uma grana boa e me mandar pra América. Terra da oportunidade cumpadi, vou me dar bem lá, você vai ver”.

Perguntei se ele sabia falar inglês. O taxista ficou em silêncio um tempo e falou “Saber inglês pra quê? Nova York é a capital do mundo maluco, se fala todas as línguas. Vou me dar bem Gilberto!! Vou ter um táxi lá, rodar aquela porra toda de madrugada e trabalhar pra máfia!”.

Só conseguia rir daquele doente. Scarface tirou a arma enquanto dirigia e contou “Lá eu vou matar um mother fucker e na hora vou falar say hello to my little friend”.

Olhei o relógio e pedi para Scarface acelerar, pois estava atrasado e o taxista perguntou “Por quê você não disse antes? Chego em cinco minutos”.

A distância normalmente seria feita em vinte minutos, ele fez em quatro minutos e quarenta e sete segundos. Entrei no comitê e Juliana comentou “Três minutos atrasado”. Pedi desculpas e ela pediu que eu me sentasse, pois faria campanha no interior do estado e eu iria junto.

Conversávamos quando Rubinho Barreto entrou no comitê com Guilherme. Rubinho perguntou o que eu fazia ali e respondi “Bom dia pra você também Rubinho”. Juliana comentou que como eu perdera o emprego de uma forma estranha estava me contratando para a campanha perguntando se ele achava algo ruim “Não, você manda nos seus negócios e eu no meu” respondeu o homem. 

Guilherme se aproximou da mãe pedindo dinheiro e Juliana se espantou “De novo?”. O filho nada respondeu e ela entregou o dinheiro. Rubinho comentou “Você mima demais esse garoto”. Guilherme falou “Não fode” e saiu.

Observei todos os passos do menino e o alarme de problemas tocou.  Enquanto eu via Guilherme sair Rubinho e Juliana discutiam e o empresário foi embora. Juliana me chamou, não ouvi e me chamou de novo fazendo com que eu “despertasse”.    

Ela perguntou onde eu estava e respondi “aqui” voltando a nossa reunião. No lado de fora Rubinho pegou o telefone e ligou “Como é? Não paguei bem pra me livrar dele? Todas deram errado, na próxima quero eficiência”. Desligou e entrou em um carro chique.

Rubinho Barreto não era flor que se cheirasse. Ninguém daquela família era.

Rubinho e Donato, como vocês já perceberam, são irmãos. Donato é o mais velho e Rubinho o caçula de Rubens Barreto. Fundador da Construtora Barreto. Uma das maiores do mundo.

Rubens era filho de Gustavo Barreto que junto com dois sócios começou a pequena construtora BAP, representando os sobrenomes Barreto, Avelar e Pinheiro, sobrenomes dos sócios.

A pequena construtora aos poucos foi crescendo graças principalmente a Gustavo, jovem ambicioso e muito inteligente. Fernando Avelar era um playboy e Edgar Pinheiro um alcoólatra e viciado em jogo.

Fernando logo vendeu sua parte para Gustavo e torrou tudo por viagens pela Europa. Gustavo queria a posse completa da construtora, mas para isso precisava se livrar de Edgar.

Cada vez mais em dificuldades e tomado pelo vício Edgar apostou completamente bêbado uma enorme quantia em dinheiro em uma roda de pôquer e perdeu. O homem foi obrigado a assinar uma confissão de dívida e alguns dias depois bandidos fortemente armados foram cobrar. Edgar não tinha o dinheiro e foi espancado.

Procurou desesperado o sócio dizendo que era ameaçado de morte. Gustavo topou ajudar, mas em troca disse “Quero a sua parte da construtora”. Não restou alternativa a Edgar que vendeu por um preço bem abaixo do mercado.

Além de todos os problemas a perda do negócio amargurou Edgar que pouco tempo depois se matou.

Acham que aquilo abalou Gustavo? Ele era um Barreto e os Barreto não tem sentimentos. O rapaz prosseguiu. Ganhou muito dinheiro, se envolveu em negociatas, casou, teve filhos e a empresa só prosperava. Foi no momento que subia como um foguete que Rubens, o primogênito, assumiu a empresa.

Rubens herdou toda a perspicácia do pai e tornou a construtora em uma empresa multinacional.  Construiu estádios de futebol, prédios suntuosos, usinas, represas. Rubens se tornou queridinho dos governos e muita falcatrua, muito caixa 2 rolou nesse período. Muita gente ficou rica e Rubens Barreto bilionário.

Rubens casou com Marieta, uma socialite carioca e nesse universo nasceram os filhos. Donato e Rubinho.

Desde pequenos Donato e Rubinho foram criados para assumir a empresa, mas não parecia ser a vocação deles.

Donato era um artista. Exímio pintor, gostava de pintar telas e exibia para amigos da escola. Na mesma escola se juntou a um grupo teatral e ensaiava e encenava peças.

Rubens Barreto no começo não ligava muito para os hábitos do filho. Dizia “Por enquanto ele pode se divertir com essas besteiras, mas logo assumirá a empresa”.

Donato viajou o mundo, fez curso de fotografia, vendeu fotos e telas pela Europa, viveu uma fase hippie e voltou ao Brasil para fazer faculdade. Queria fazer turismo, mas obrigado pelo pai entrou em administração. A ideia de Rubens era que Donato assumisse a construtora assim que saísse da faculdade.     

Nas horas vagas Donato continuava fazendo teatro e nela conheceu Marcelo.

Poucas pessoas sabiam, mas Donato era bissexual, sim, curtia meninos e meninas.

Era livre. Transava com homens, mulheres, todo mundo ao mesmo tempo e conheceu Marcelo no auge da juventude, com os hormônios a flor da pele. Logo começaram um caso.

A mãe começou a desconfiar do amigo que Donato sempre levava em casa e um dia perguntou ao filho o que ocorria. Donato não se fez de rogado e contou a verdade.

A mãe se chocou, mas buscou compreender o filho, só comentou “Não deixe seu pai descobrir, ele te mata”.

Gustavo Barreto morreu e Marcelo estava ao lado de Donato na hora do enterro. Rubinho olhou aquilo desconfiado e perguntou ao irmão no fim o que significava. Donato respondeu apenas “Não se mete” e Rubinho entendeu.

Uma tarde Marcelo foi visitar Donato. O rapaz levou o namorado direto para o quarto e lá se atracaram em beijos e abraços indo para a cama.

Pouco depois Rubens chegou andando em disparada. Marieta percebeu e perguntou o que ocorria. O homem subiu as escadas sem dar ouvidos a mulher que foi atrás tendo a certeza do que era. Rubens foi até a porta do filho e Marieta se meteu entre ele e a mesma dizendo Não faz isso”. Rubens disse “Sai da frente” e a mulher se recusou.

Rubens ordenou e um segurança tirou a mulher que gritava. Mandou que outro arrombasse a porta e ele o fez. Rubens pegou o filho com o namorado na cama.

Ordenou e os seguranças pegaram Marcelo saindo com ele do quarto. Donato perguntou o que fariam com o rapaz e Rubens respondeu “Se preocupe com o que vou fazer com você”. Rubens tirou o cinto da calça e deu uma surra no filho.

Donato era fraco de personalidade. Mesmo nunca mais tendo visto Marcelo, nem sabendo o que ocorreu com ele não se virou contra o pai, muito pelo contrário, acatou todas as suas exigências se formando em administração e trabalhando com o pai.

Rubinho era o contrário de Donato.

Rubinho lembrava mais Fernando Avelar, o antigo sócio do avô. Bom vivant, playboy, curtia tudo o que a vida e o dinheiro podiam dar. Gostava de viajar, beber, carros, de mulheres. Seu passatempo preferido era torrar o dinheiro da família.

Ao contrário de Donato planejava assumir a construtora, era sua grande ambição, mas tudo em seu tempo. Primeiro queria curtir a vida e isso fazia ter grandes discussões com o pai, ao contrário de Donato que acatava suas ordens.

Andava com uma turma de playboys que se achavam acima do bem e do mal e curtiam fazer arruaças. Arrumavam brigas em boates, quebravam tudo e não foram poucas as vezes que o pai teve que he tirar da cadeia.

Rubens esbravejava e dizia “Você nunca será alguém na vida”. Rubinho devolvia “Muito pelo contrário, eu que sou seu legítimo herdeiro”.

Rubinho sabia que Donato era o preferido do pai, mas pensava “Algum pobre o Donato tem e eu vou descobrir”.

Um dia Rubinho foi para uma boate, provocou as mesmas confusões de sempre, mas não foi preso. Ele e sua turma conheceram umas garotas e levaram para um flat que ele mantinha.

Lá fizeram uma grande orgia. No fim quando as garotas iam embora uma virou-se pra ele e perguntou “Você não é irmão do Donato?”. Rubinho respondeu “Sim, daquele viadinho”. A menina riu e comentou “Viadinho mesmo, namora um amigo meu”. Rubinho que não chamara o irmão de “viadinho” naquela intenção sorriu e pediu “Me explique isso garota”.  

No enterro do avô Rubinho ficou o tempo todo prestando atenção em Donato com Marcelo e comentou baixinho “Viadinho”. Fez a pergunta que eu comentei acima, recebeu a resposta e teve certeza.

Apareceu de surpresa na construtora e Rubens perguntou se algo ocorrera. Rubinho comentou “Vá pra casa que algo sério está acontecendo”. Rubens perguntou o que era, Rubinho relutou em responder até que o pai ordenou e ele contou “Donato é bicha e ta com o namorado no quarto”.

Rubens não acreditou e o filho jogou a maldade “Vá ver então”. Rubens aceitou e comentou “Se for mentira eu acabo com você”.

O homem foi para a casa e aconteceu tudo aquilo que descrevi. Enquanto a briga ocorria no segundo andar Rubinho sentou no sofá da sala, abriu um uísque e bebeu calmamente.

Um pouco depois de Donato se formar em administração e começar a trabalhar com o pai Rubens sofreu um pequeno AVC. Teve que se afastar dos negócios e o filho assumiu. Aquela nunca foi a vocação de primogênito e ele recorreu ao irmão caçula para ajudar.

Rubinho deixou um pouco as farras de lado para assumir seu principal objetivo. Começou a trabalhar com o irmão e aos poucos tomou as rédeas da construtora.

Rubens convalescia, sabia que não se recuperaria totalmente e fez um pedido. Que os filhos casassem.    

O primeiro a atender o pedido foi Donato.

Apesar de bissexual a pedido do pai Donato sufocou esse lado “entrando no armário”. Passou a se relacionar apenas com mulheres e conheceu Flávia, funcionária da construtora.

Rubinho percebeu os olhares do irmão para a moça e fez a aproximação. Os dois saíram e quando perceberam já estavam namorando.

Na véspera do casamento Donato curtia a despedida de solteiro lamentando a falta do irmão que viajara a negócios quando na verdade o negócio de Rubinho era outro.

O safado estava num motel comendo a noiva do irmão.

Comeu a mulher de todas as formas e no fim suados, abraçados na cama Flávia perguntou como seria a vida deles depois daquela noite. Olhando o teto Rubinho respondeu “Você vai ser uma esposa devota, terá filhos com meu irmão e de vez em quando vou te comer”.

Flávia virou-se para o amante e perguntou “Você só pensa em sexo?”. Rubinho olhou para a mulher e respondeu “Também gosto de ganhar dinheiro”.    

Donato e Flávia se casaram e um pouco depois Rubinho conheceu Juliana, minha dileta ex-esposa e irmã. Juliana abalada com meu desprezo foi presa fácil para o canalha. Um pouco depois nasceu Guilherme.

Rubens morreu e Rubinho assumiu de vez a empresa. Donato, que não levava jeito para os negócios, resolveu seguir a carreira política se tornando deputado federal. De uma certa forma ele continuou prestando serviço para a construtora já que ali construiu uma grande teia política para atender aos interesses da empresa e a lavagem de dinheiro de políticos corruptos.

Ganharam várias licitações entre elas as mais importantes para as Olimpíadas que seriam realizadas no Rio de Janeiro. O lucro deles triplicou, quadruplicou. Fizeram sociedade com o governador Roberto Vergara, sucessor de Juliana no governo do estado e todos ganharam dinheiro de forma absurda no período.

Até que surgiu Edgar Pinheiro Neto, sim, o neto de Edgar Pinheiro, antigo sócio de Gustavo reclamando por direitos.

Rubinho recebeu Edgar na construtora e perguntou quais direitos ele achava que tinha. Edgar olhou fixamente os olhos de Rubinho e respondeu “Meu avô foi enganado pelo seu e eu tenho como provar. Tenho documentos e vou pegar metade dessa empresa”.

Rubinho propôs dar um dinheiro para Edgar e assim ele esquecer a história e o homem respondeu “Não vou esquecer esses anos de humilhações. Meu avô se matou, a gente ficou na merda e vocês enriqueceram. Eu vou tomar metade da empresa”.

Rubinho ameaçou “Você não vai conseguir nada” e Edgar revidou “Vamos ver”. O homem foi embora e Rubinho pegou o telefone ligando para o irmão e dizendo “Temos problemas”.

Os irmãos se encontraram em um bar e Rubinho contou todo o problema. Donato não tinha nada mais daquele rapaz sensível, artista. Transformara-se em um homem frio, sem escrúpulos e mostrando essa mudança ouviu a tudo calmamente, pegou o telefone e respondeu ao irmão “Eu resolvo isso”.

Alguns dias depois Rui acompanhado de dois policiais e alguns jornalistas olhavam um carro todo perfurado de balas com um corpo dentro. Era o de Edgar Pinheiro Neto. Rubinho estava ao lado dos policiais e desolado comentou “Sim, é o meu amigo”.

Rui ainda olhando o corpo prometeu “Faremos todos os esforços para descobrir os assassinos. Prometo ao senhor que esse crime não ficará impune”. Rubinho respondeu “Te agradeço policial, era um grande amigo meu e quero justiça”.

Rui e Rubinho se afastaram e caminharam em silêncio até o carro de Rubinho. O empresário entrou no veículo, ligou e antes de partir olhou para Rui em pé do lado de fora e comentou “Bom trabalho”.

Rui respondeu “Sempre a seus dispor doutor”.

Rubinho foi embora e ali ficou a certeza que uma parceria macabra começara.


ERA DA VIOLÊNCIA 2 (CAPÍTULO ANTERIOR)




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