terça-feira, 10 de dezembro de 2013

BOIADEIRO TEM RAÇA, SE ESMERA


Escrevi essa coluna em homenagem ao Boi da Ilha no "Ouro de Tolo" em 2011 durante as eliminatórias do carnaval 2012. Nela informo que não estava no concurso, mas estava. Sim, eu menti, estava naquela situação que no samba chamamos de "Por fora". Dessa forma chegamos na final e ano ano seguinte vencemos.

Boto essa coluna hoje no meu blog porque quinta me sagrei pela 7° vez campeão no Boi da Ilha,e transcrevo aqui essa homenagem a uma escola tão especial em minha vida.

Vamos à coluna.



Boiadeiro tem Raça, se Esmera



Sábado, dia 17 de setembro, começaram as eliminatórias do Boi da Ilha pro carnaval de 2012 e eu como sempre estive presente. Mas dessa vez de uma forma diferente.

Pela primeira vez desde 1997 compareci a uma eliminatória da agremiação e não estava com um samba concorrente. Estive apenas para conhecer os sambas, rever os amigos e principalmente rever a agremiação carnavalesca da minha vida. 

Eu já contei em inúmeras colunas que sou torcedor da União da Ilha e como me tornei torcedor da escola e compositor da mesma.  Mas meu coração não é fiel: ele tem também o Acadêmicos do Dendê guardado em um cantinho, agremiação que venci cinco concursos de samba de enredo e agremiação que mais fiz sambas até hoje - e também o Boi da Ilha.


O Grêmio Recreativo Escola de Samba Boi da Ilha do Governador nasceu como o bloco carnavalesco Boi da Freguesia em 1965, se localizando (historicamente) na esquina da Rua Pio Dutra com a Rua Jussiapé na Freguesia, Ilha do Governador.  A Jussiapé é a rua que praticamente nasci, fui criado e moro até hoje, para verem como vem de longe minha ligação com a agremiação.

O Boi nasceu como bloco de sujos e depois se tornou bloco de enredo, desfilando na Avenida Rio Branco e Marquês de Sapucaí (sim, os blocos já desfilaram lá) oscilando entre o grupo I e II dos blocos. A agremiação é considerada o maior celeiro de sambistas da Ilha do Governador, tendo fornecido à sua irmã maior União da Ilha muitos de seus sambistas imortais. 

Do Boi surgiram Quinho que hoje é cantor do Salgueiro, João Sergio que foi mestre de bateria da agremiação da Freguesia e se consagrou sendo autor do samba “O Amanhã” da União da Ilha, Carlinhos Fuzil, maior vencedor do Boi juntando os períodos de bloco e escola de samba e cinco vezes campeão da União da Ilha... Além de Marquinhus do Banjo, maior vencedor do Boi como escola de samba, cinco vezes campeão na União e atual tricampeão da mesma e cantor do Boi da Ilha e Mauricio 100, também cinco vezes campeão na União e que foi cantor do Boi por mais de doze anos. 
                                                                                                                
Outros surgiram na escola: Bujão e J.Brito, compositores que surgiram nos anos oitenta no Boi e se consagraram na União da Ilha ganhando juntos três vezes - entre eles o antológico “Festa Profana”, que tem os versos “eu vou tomar um porre de felicidade/vou sacudir eu vou zoar toda cidade”. Bujão ainda ganhou mais um samba na União da Ilha e J.Brito dois na Mocidade Independente de Padre Miguel.

No Boi da Ilha também surgiu o hoje mestre sala da Mangueira Raphael e explodiu a carreira do mestre de bateria Jonas, que passou por Salgueiro, Mocidade e hoje está na Cubango. Boi da Ilha também foi morada de Aroldo Melodia, Ito Melodia, Aurinho da Ilha e Didi que competiram e venceram sambas na agremiação. O hino da escola por sinal é de Aroldo e Didi.

Sua quadra tinha o nome do compositor Jorge Bossa Nova, um dos mais importantes de sua história. Suas disputas de samba eram muito concorridas, com todas essas feras se enfrentando. O Boi chegou a ter mais de setenta sambas concorrendo e eram tantos sambas que eram divididos em chaves com suas disputas percorrendo toda a semana, como é a Beija-Flor hoje em dia. Carlinhos Fuzil conta que as disputas do Boi eram mais difíceis que da União da Ilha.

Outras duas máximas que Carlinhos Fuzil fala sobre o Boi é que para você se tornar sambista de verdade e ter condições de encarar uma União da Ilha tem que passar pelo Boi e para você ser famoso tem que ganhar um samba no Boi.  

E o Boi sempre teve respeito dos sambistas: era um dos maiores blocos, com uma das baterias mais poderosas do Rio de Janeiro, com muitas vezes emprestando integrantes e peças pra irmã maior.
                                                                                                                  
Em 1988, como muitos outros blocos, virou escola de samba tendo como presidentes ao longo desse tempo Gino, Luizinho (que voltou agora a ser presidente) Cadu Zugliani (compositor campeão da Mangueira) e o que ficou mais famoso: o professor Eloy Eharaldt. O Presidente com o qual comecei na agremiação. 

Chegou a hora de começar a contar minha história no Boi.

Apesar de ser torcedor da União, sempre tive carinho pelo Boi mesmo nem pisando em sua quadra apesar de ser na minha esquina. Mas de casa ouvia seus ensaios e cheguei quase a decorar um de seus sambas, o de 1992 que falava em versos como “Oh Rei Nagô axé/Olhai por nós os seus filhos de fé”. Na minha opinião esse é o melhor samba da história do Boi da Ilha.

Toda quarta feira de cinzas depois de acabada a apuração do Grupo Especial começavam as apurações dos grupos de Acesso e eu ficava ligado na rádio Tropical ouvindo e esperando a apuração do Boi. Muitas vezes essa apuração batia com a “Voz do Brasil” e depois tinha o lançamento da "Campanha da Fraternidade" que a Igreja Católica faz todos os anos e eu perdia a apuração e ficava desesperado querendo saber o que ocorria. Ia na frente da minha casa ver se rolava alguma movimentação na quadra. 

Se ficasse tudo quieto era porque a escola perdeu, se rolassem fogos e samba é porque tinha vencido. Eu dava um pulo até lá, ficava uns cinco minutos dentro a comemorar a vitória e ia embora porque eu tinha nada a ver com o ambiente. Apesar de o meu pai ser passista antigo de lá, eu achava que tinha nada a ver com o mundo do samba e me sentia um peixe fora d´água.

Isso começou a mudar em 1997 quando aconteceu aquilo que já contei anteriormente. Vi o jornal anunciando o enredo da União da Ilha e botei samba na escola. No dia da eliminação um compositor da União chamado Peçanha disse que era presidente da ala de compositores do Boi da Ilha e me convidou para pegar a sinopse.

Fui com Paulo Travassos na agremiação, pegamos a sinopse e decidimos fazer parceria. Chamamos Cadinho da Ilha e Dãozinho e pela primeira vez via um samba meu se classificar em uma eliminatória. Não foi só isso: chegou à final.

Perdemos a final, mas foi inesquecível. Pela primeira e última vez até hoje vi a porta lateral da quadra do Boi ser aberta para colocar uma torcida de samba dentro dela, tamanha era a quantidade de gente. Cadinho pegou o microfone sem fio e foi para o meio da galera cantar. Cena que me impressionou e só vi repetir domingo passado, quando o Quinho fez o mesmo com nosso samba na eliminatória da União da Ilha. 

No ano seguinte coloquei samba com Paulo, sem os outros dois parceiros, mas tiramos o mesmo no meio da disputa e em 1999 fizemos mais uma final. Naquela altura o Boi já era a agremiação mais importante pra mim como compositor: afinal foram duas finais, a única escola que já havia chegado a finais. Mas o melhor ainda estava por vir.

Veio um tricampeonato - os três primeiros sambas que ganhei na vida. Em 2001 história que já contei em uma coluna com samba que foi Estandarte de Ouro, 2002 com um samba sobre a cidade de Holambra que ganhará uma coluna mais pra frente e em 2003 uma junção polêmica no enredo sobre Cabo Frio. Nesta tive que acalmar meu amigo e então diretor da escola Anderson Baltar inconformado com o resultado.

O próprio Anderson surgiu no Boi e depois teve passagens pela União da Ilha, Império Serrano e hoje participa de uma rádio de internet.

Perdi em 2004 e 2005, derrotas que doeram. Para dizer a verdade as derrotas que mais me doeram em samba até hoje foram no Boi. Eu tinha uma tese que se ganhasse cinco sambas no ano e perdesse no Boi dava o ano como fracassado e muitas vezes ouvi pessoas falarem que os melhores sambas que fiz até hoje foram pro Boi.

Em 2006 não teve disputa porque o Boi reeditou o samba da União da Ilha “O amanhã” e voltei a vencer em 2007 com o enredo “Alô alô, se liga tem boi na linha”. Uma vitória emocionante pra mim por ser a primeira na escola depois da morte da minha mãe e a primeira em quatro anos lá.

Em 2008 ocorreu aquela que é a que considero a pior derrota. O enredo era sobre a teoria de Gaia. A teoria diz que a terra é um ser vivo, que sofre como ser vivo e usa seus anticorpos para eliminar aqueles que lhe causam dor, no caso o ser humano. Acredito que tenha feito ali a melhor letra da minha vida e o samba, ao lado de Boi 2001, o que concorremos na Beija-Flor em 2004 e no Boi em 2011 os quatro melhores sambas que eu concorri. 

O presidente Eloy estava doente, com câncer e o Cadu, que é meu amigo até hoje, parceiro de samba e era diretor de carnaval da agremiação assumiu o comando. Chegamos à final com favoritismo e com conversas que venceríamos. Mas perdemos e não dormi naquela noite. 

No ano seguinte veio a quinta e até o momento última vitória, em uma junção de sambas perfeita. Cadu juntou nosso samba com o dos compositores Ginho, Professor e Marquinhos Silva e dessa junção vieram dois prêmios: o S@mbaNet e o troféu Jorge Lafond.

Foi o ano do adeus também do presidente Eloy que perdeu a luta contra a doença. O presidente que me levou à primeira final de samba e primeira vitória. Presidente que tive minhas rusgas, brigas, mas respeitava e tenho certeza que ele a mim também. Homem que tenho gratidão até hoje. 

Em 2010 no enredo sobre bois pela primeira vez fui eliminado e fiquei fora de uma final da escola e em 2011, com outro samba que considero um de nossos melhores cheguei à final. No enredo sobre guaraná que consegui homenagear minha mãe com os versos “amor de mãe gera frutos no pomar/amor de mãe doce como guaraná” perdi outra final considerada por muitos ganha.

Daí decidi dar um tempo da escola. Ergui a cabeça e saí da quadra como entrei em 1997 para pegar a primeira sinopse, com a cabeça erguida e olhando pra frente. E no sábado que citei no começo voltei ao Boi. Não era mais aquele menino recém saído da adolescência para fazer o segundo samba de sua vida.

Entrei na quadra sábado com currículo de doze sambas feitos pro Boi, onze finais, cinco vitórias, um Estandarte de Ouro, um S@mbaNet, um troféu Jorge Lafond, três sambas de quadra vencidos e ex presidente da ala de compositores. 

O Boi da Ilha foi uma verdadeira escola pra mim, onde aprendi muito de samba e principalmente sobre o mundo. Entrei na escola com vinte anos aprendendo sobre a vida e hoje com trinta e cinco não sei muito ainda. Mas do que aprendi boa parte foi naquela quadra, na esquina da minha casa, que há dois anos está vazia desde que o Boi foi obrigado a sair de lá.  

A escola nesse período de catorze anos oscilou entre os grupos A e C, tive histórias de amor e ódio lá, lágrimas de alegria e tristeza.

No Boi aprendi que a nossa força vem da humildade, que se pode balançar a roseira, que o Rei Momo pode brincar Cabofolia, que índio agora quer falar de celular e que boiadeiro tem raça, se esmera.

Mas aprendi principalmente que eu posso escrever lá, não escrever, mas eu nunca sairei do Boi nem ele de dentro de minha alma. Hoje humildemente tento seguir os passos dos grandes sambistas que surgiram na agremiação. Eu, Cadinho da Ilha, Ginho, Professor, Junior Nova Geração, Vinicius do Cavaco e outros sambistas que surgem no Boi a cada ano prontos para aprender e depois ensinar.

O Boi da Ilha é um caso de amor sem fim.

"Pedindo licença para apresentar
A nossa escola o Boi da Ilha que acaba de chegar
"



CAMPEÃO NO BOI DA ILHA EM 2001/2002/2003/2007/2009/2013/2014




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