sábado, 7 de dezembro de 2013

ERA DA VIOLÊNCIA 2: CAP XII - VIRADA NA VIDA




O clima ficou estranho depois do acontecido. Rui e João só apareceram na faculdade três dias depois que tudo ocorreu. Não se sentaram perto nem trocaram palavras. Eu também estava constrangido, mas dei minha aula como se nada tivesse ocorrido.

Logo depois dei aula para a turma de Guilherme. Não conseguia tirar os olhos dele. Olhava suas feições, observava o jeito e pensava “Será que é meu mesmo? Será que parece comigo?”. No fim da aula lhe vi saindo da sala com fones no ouvido e perguntei por sua mãe. Sem nem parar Guilherme respondeu “Pergunta pra ela”.

Que moleque marrento. Pra quem disse antes que me admirava não esperava essa.

Andando pelo corredor no intervalo das aulas vi João encostado em um canto pensativo. Perguntei se estava tudo bem com ele e o farmacêutico respondeu “Que você acha? Na véspera do meu casamento minha noiva é estuprada e morta. Participo de uma chacina contra os assassinos e eu pessoalmente matei o líder deles”.

Comentei com o rapaz “É, não é fácil”. João respondeu que a vida dele acabara e falei que não era assim, a vida tem que continuar.

O rapaz pela primeira vez olhou para mim e disse “Falar é fácil”. Olhei em seus olhos e respondi  “Você ta falando com um cara que viu sua filha morrer no pior atentado da história dessa cidade. Ela morreu em meus braços”.

João me perguntou como consegui sobreviver aquilo e respondi “Ninguém recebe um fardo maior do que pode carregar. Sinto um vazio, às vezes me sinto pela metade. Mas tenho que continuar nem que seja por ela”.

João comentou que talvez eu estivesse certo e apontei para uma moça que chorava sentada em um banco “Talvez ela esteja pior que você. Talvez não, mas sua solidariedade pode amenizar a sua dor e a dela”.

Era Fernanda. A irmã de Luciana.

Completei “Vai lá”. João Arcanjo deu o primeiro sorriso em muito tempo, um tapinha em meu ombro e foi. Sentou-se ao lado de Fernanda que ao perceber sua presença aumentou o choro e disse “Não suporto mais viver sem minha irmã”.

João deu um abraço forte em Fernanda e os dois ficaram lá, sem dizer nada. Um entendia a dor do outro, um poderia ajudar o outro.

Andei um pouco pelo campus e vi Rui conversando com Galalite e Scarface.

Rui esbravejava “Vocês fizeram uma merda do caralho. A sorte que consegui ajeitar tudo e não reconheceram vocês pela morte do Sem Alma. Podiam ter me fodido e se foderem também. Era isso que vocês queriam? Me foder? Queriam me foder?”.

Os homens acenavam com a cabeça que não e Rui continuava “Podem falar. Queriam comer meu cu né? Com areia, podem falar. Mas tem uma coisa. O comedor de cus aqui sou eu. Entenderam? Se tentarem me foder meto uma pica de 30 centímetros antes”.

Os homens sinalizaram que entenderam quando me aproximei. Rui sorriu e disse “Olá professor. Matéria difícil que você passou hoje!”. Puxei os três em um canto e falei que era loucura se encontrarem na faculdade.

Rui sorriu de novo e falou “Que nada professor. O que pode ter de mal em um encontro de um policial com um taxista e..O que você é mesmo Galalite?”. “Eu faço bicos”. Respondeu o bandido. Rui retrucou “Ta na hora de você arrumar um emprego decente hein Galalite?”.

Comentei que ele entendera o que eu quis dizer e Rui perguntou como estava João. Respondi que mal. O policial contou que depois conversaria com ele.

E cumpriu. João estava em casa quanto tocaram a campainha. O homem atendeu e era Rui dizendo “Oi meu amigo”.

João respondeu e mandou que o amigo entrasse. Rui entrou, se sentou e perguntou como João estava. O farmacêutico respondeu que tentava se recuperar. Rui olhou para os lados e comentou “Sei que você está abalado, perguntando se fez o certo. Mas eu sou a lei, acredite, você fez o certo”.

João comentou que tinha dúvidas e o policial continuou “João. Eu to faz tempo nessa vida. Combatendo crimes. O que eu mais vejo nesse mundo são injustiças. Eu prendo em um dia e a justiça vagabunda solta no outro. Justiça de merda”.

João continuou ouvindo e Rui fez perguntas “A polícia prendeu seus sequestradores? Não, só foi feita justiça porque um matou o outro. A polícia prendeu quem matou seu pai? Não. Sabe o que aconteceria com esses vagabundos? Iriam continuar estuprando e matando por aí”. 

João falou “Só quem pode matar é Deus” e Rui não concordou “Deus? Porra João, Deus? Que porra de Deus João! Você ta bem grandinho já pra saber que esse papo de Deus não cola! Deus não evita que uma criança tenha câncer como você quer que ele faça justiça num caso desses?”.

João contou que acreditava em Deus e Rui continuou “Também acredito. Vou à missa todos os domingos. Mas Deus tem um porralhão de coisas pra cuidar. O que eu faço é ajudá-lo. O que meu grupo faz é limpar a área”.

João perguntou de qual grupo o amigo falava e Rui respondeu “Faço parte de uma organização que elimina esses filhos da puta do mundo. Que faz pais de família dormirem mais tranquilos. Que evita que homens de bem como você passem pela dor que está sentindo agora e ainda ganhamos uma graninha pra isso”.

João comentou “Esquadrão da morte” e Rui retrucou “Esquadrão da justiça”.

João levantou e disse que não estava se sentindo bem e iria deitar. Rui também levantou e contou que tinha uma proposta para fazer ao amigo “Você atira bem. Mandou muito bem contra aquele filho da puta! É um cara que sofreu injustiças na vida, que a bandidagem já tirou muito! Se junte a mim no grupo!”.

João se espantou, riu e perguntou “Ta me chamando pra fazer parte de um esquadrão da morte?”. Rui respondeu “To te chamando pra se juntar a mim e evitar que pessoas passem por nossa dor e ainda ganhar dinheiro com isso”.

João agradeceu e respondeu que o negócio dele era farmácia e quem sabe comunicação social. Rui sorriu, apertou a mão do amigo e disse que a proposta estava de pé e precisando era só procurá-lo.

Rui saiu da casa, colocou óculos escuros e comentou sozinho “Esse ta no papo”.

Mas João Arcanjo não estava pensando nisso. O rapaz devastado pela dor encontrava em Fernanda uma forma de tentar reviver. Um dia de surpresa apareceu na casa da moça. Ela atendeu a porta e João perguntou se não queria ir ao cinema.

Antes que ela respondesse Rodrigo surgiu de dentro da casa e falou “Já não me basta levar uma ainda quer me levar a outra?”. João abaixou a cabeça e indignada Fernanda gritou “Pai!!”. Falou a João que pegaria um casaco e sairia.

Enquanto Fernanda entrou Rodrigo comentou com João “Sabe rapaz. Fui policial muitos anos. Chefe de segurança desse estado por dois governadores. Muito estranha a forma que esses assassinos de minha filha morreram”.

João engoliu em seco e perguntou porque achava estranho. Rodrigo respondeu “Me pareceu coisa encomendada”.

João disse mais nada. Fernanda apareceu e pediu que o pai não se metesse em sua vida. Fernanda era mais descolada que Luciana que era tímida e a “queridinha” do papai.

Os dois foram ao cinema, comeram pipocam, tomaram sorvete e se divertiram muito. Não rolou nada naquela noite nem nas seguintes que saíram. Tudo a princípio era amizade. Conforto para os dois. 

Conforto que não chegava a mim.

Fui chamado na reitoria da Universidade. Perguntei se ocorrera algum problema, se eu falhara em algo e o reitor respondeu que não, eu era um excelente professor, mas estava com problemas.

Perguntei qual tipo de problemas e ele respondeu “A universidade está em crise Gilberto. Somos uma entidade particular então não recebemos dinheiro do governo. A verdade é que estamos trabalhando no vermelho, muitos alunos inadimplentes e temos que fazer cortes”.

Não sou otário, logo respondi “E eu faço parte desses cortes, estou sendo demitido, não é?”.

O reitor comentou “Eu acho demissão uma palavra muito forte, ainda mais para um homem com gabarito como o seu”. Perguntei qual palavra era a mais adequada então. O reitor pensou um pouco e respondeu “É, é demissão mesmo”.

Saí da reitoria sem emprego pensando em como iria manter meu padrão de vida apenas com as palestras que eu nem fazia mais tanto quando o reitor, já sozinho, pegou o telefone e ligou.

Do outro lado atenderam e ele disse “Pronto Dr Rubinho, já foi feito, espero agora aquela ajuda do senhor. Sim, muito obrigado”. O filho da puta logo depois desligou.

Filho da puta de marca maior. Daquele tipo que a mãe dá o cu por 10 reais e sem KY.   

Rubinho ao desligar o telefone notou a presença de Juliana. A minha ex perguntou com quem ele falava de forma tão animada ao telefone e o empresário respondeu que discutia negócios. Rubinho levantou e foi até Juliana lhe dar um beijo. Ela estranhou e comentou que fazia tempo que ele não era romântico. Perguntando qual era o problema.

Rubinho se afastou e falou que a mulher só sabia reclamar. O telefone de Juliana tocou. Era Guilherme.

Conversaram um pouco e Juliana desligou comentando “Demitiram o Gilberto”. Baixinho Rubinho comentou “Notícias correm rápido”. Juliana ouviu e perguntou “Como é que é? Repete o que você disse!”.

Rubinho explicou que falou nada e Juliana indignada falou “Disse sim, foi você que mandou demitir o Gilberto, não foi?”. Rubinho negou e acusou Juliana de sempre me defender, “Defender um bandido que só fez mal a você” quando Juliana retrucou “Não Rubinho. Gilberto só fez mal a ele mesmo. E você vai jantar sozinho”.

Juliana saiu e puto Rubinho comentou “Esse filho da puta sempre no meu caminho”. Pegou o telefone e ligou para Flávia Barreto, esposa de seu irmão.

Ao telefone disse “Flávia? Donato taí? Viajou? Ótimo. Quero te ver hoje, Juliana saiu”.

Filho da puta! Além de querem me foder, evidente que aquela altura eu sabia de nada, ainda traía Juliana com a mulher do irmão.   

Eu estava em casa. Vendo um pornô na tv tentando aliviar a tristeza de ser demitido quando bateram na porta. Pensei se não era uma encanadora gostosa querendo consertar minha torneira e abri.  

Era Juliana.

Não tinha trocado de canal então os gemidos ressoavam alto. Juliana viu o estado de meu short também e comentou “Você não muda”. Entrei correndo para mudar de canal e convidei minha ex para entrar.

Juliana entrou. Falei para se sentar e perguntei se queria beber alguma coisa. Juliana se sentou e respondeu “Quero nada, apenas conversar”. Sentei perguntando se ocorrera alguma coisa e ela falou.

“Soube que você perdeu o emprego. Eu quero te dar um”. Pedi que ela me explicasse e assim Juliana fez “Você sabe, estou em campanha para o senado e preciso de alguém para cuidar da comunicação. Não conheço ninguém melhor que você pra isso”. Perguntei se era sério e ela respondeu “Na verdade conheço, mas você ta precisando e é um bom jornalista”.

Agradeci o emprego e Juliana me deu um cartão “Endereço do comitê. Passe oito da manhã lá”. Respondi que estaria sem falta e Juliana levantou para ir embora.

Abri a porta, agradeci novamente e antes que ela saísse pedi para fazer uma pergunta. Minha ex falou “Faça” e eu fiz “Guilherme é meu filho?”.

Juliana respondeu “Oito horas, não atrase” e saiu.

No dia seguinte estaria lá. Sem a resposta.

Algumas horas depois João trabalhava na farmácia quando Fernanda apareceu. O homem sorriu com a surpresa e a moça comentou “Vim te chamar para tomar um sorvete”. João tirou o jaleco e disse “Já estava fechando mesmo, vamos?”. Os dois saíram e João arriou as portas.

Os dois conversavam amenidades na pracinha quando João tomou coragem e beijou Fernanda. O primeiro beijo. Fazia tempo que o homem não era feliz. Parecia que João reencontrara a vida.

Mas foi por pouco tempo. Enquanto se beijavam na praça um moleque apareceu gritando “Seu João!! Seu João!!”. O farmacêutico interrompeu o beijo e perguntou o que o moleque queria. Ele respondeu “Sua farmácia ta pegando fogo!!”.

João levantou correndo com Fernanda lhe acompanhando. Chegou e viu o estabelecimento em chamas, todo tomado pelo fogo. Desesperou-se e tentou entrar na Farmácia. Gritou “Minha vida ta aí dentro!! A vida da minha família!!”.

Pessoas presentes impediram que João entrasse e os bombeiros chegaram. João desesperado sentou-se no meio fio com Fernanda lhe consolando enquanto bombeiros tentavam apagar o fogo. De longe Rui de Santo Cristo observava tudo. Pegou telefone, discou e disse “Tira daqui quem fez isso que eu vou entrar em ação”. 

Os bombeiros conseguiram apagar o fogo, mas a destruição foi total. João entrou ainda sentindo cheiro de fumaça, viu tudo queimado e comentou com Fernanda “Não tinha seguro. Perdi tudo, tenho nem mais como viver”. Fernanda abraçou o homem enquanto os bombeiros aconselharam que ele fosse pra casa.

Fernanda levou João Arcanjo até sua casa e perguntou se queria que ela ficasse. João agradeceu e respondeu “Seu pai me mata. Vai pra casa, eu vou ficar bem”. Fernanda deu um beijo em João e foi embora.

João sentou no sofá e começou a chorar desesperadamente. Tinha ódio no coração. Ódio por tudo dar errado em sua vida, em não conseguir ser feliz, da violência e o crime sempre lhe perseguirem. Sentia-se um idiota, injustiçado.

Bateram na porta. Ele levantou pensando que Fernanda esquecera algo e abriu.

Eram Rui, Galalite e Scarface.

Sem entrar Rui comentou com João “Sei quem fez e onde estão. São pessoas que já foram encomendadas a mim. Quero saber se você vem junto”.

João respondeu que sim e saiu da casa com os homens. Naquele momento eu chegava na casa de João pra saber como ele estava e dei com os quatro saindo. Rui só disse para mim “Vem”.

É. Sou o cara errado na hora errada.

Saímos de carro até um local mais pobre. Rui perguntou se Scarface sabia onde era o beco e o taxista respondeu que sim. Chegando lá tinha três homens cheirando. Galalite falou “São eles”.

Rui deu uma arma para João e disse “Vamos”. 

Os quatro desceram armados, menos eu. Cercaram os três homens e apontaram armas. Um deles percebeu e perguntou o que significava aquilo. João gritou “Filhos da puta!! Queimaram minha farmácia!! Estão tocando o terror no bairro!!”.

Um segundo homem respondeu que não sabia do que eles falavam e Rui gritou “O galão!! O galão de gasolina ali atrás!!”. Realmente tinha um galão ali e os homens juraram que não foram eles que colocaram no local. 

Rui, João, Galalite e Scarface abriram fogo. Foram tantos tiros que perdi a conta. Rui se aproximou, pegou o galão, despejou a gasolina neles e tacou fogo.

Depois nós cinco voltamos ao carro e fomos embora. O mesmo silêncio da outra vez, mas nessa em vez de olhar vazio João Arcanjo mostrava de ódio.

Realmente Rui de Santo Cristo já tinha sua alma.

Fomos deixados em casa, mas João não entrou. Foi até a casa de Fernanda e tocou repetidamente a campainha em plena madrugada até que ela atendesse. A moça, assustada, atendeu perguntando o que ocorrera.

João pediu “Me dê um abraço”.

Dessa forma se abraçaram e Fernanda nada entendeu, mas confortou o farmacêutico. Ficaram um bom tempo abraçados.

João Arcanjo entregara de vez sua alma.


ERA DA VIOLÊNCIA 2 (CAPÍTULO ANTERIOR)




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