sábado, 25 de julho de 2015

AMOR: CAPÍTULO XIV - AMOR (PARTE II)




O tempo passava e eu não reagia. Continuava bebendo e não arrumava emprego, com isso o dinheiro ia acabando. Morava de favor no apartamento que Osmar nos deu ao casarmos e gentilmente não pediu de volta mesmo com todas as besteiras que eu ia fazendo. Mas aos poucos tinha que vender minhas coisas para continuar me sustentando e bebendo. Dessa forma vendi meu carro que eu comprara com tanto sacrifício.

Tomava bronca diária de todos, principalmente de minha mãe que reclamava que eu me tornara um irresponsável e usava a morte de Camila como desculpa. Argumentava com ela que não era desculpa, estava doendo e minha mãe respondia “Você não é a única pessoa que sofre no mundo”.

A maior reclamação dela era que eu não visitava Gabriel. Já se passara alguns meses desde que perdi a guarda de meu filho e eu nunca lhe visitara.     

Até que  destino nos aproximou.

Eu andava pelo shopping, o mesmo que eu perdi meu filho, quando ouvi gritos de papai. Quando virei para ver era Gabriel com uma babá. O menino soltou a mão da babá e veio correndo me abraçar. Demos um abraço apertado e ele disse que tinha um presente para me dar. Curioso, perguntei o que era e ele abriu a sua mochila da escola. 

Tirou um desenho e me deu. No desenho estava ele, eu e sua mãe com asas de um anjo. Os três de mãos dadas. Me comovi com aquele desenho enquanto meu filho disse “te amo”.

Ali caiu a ficha. Ali eu vi que Camila não tinha morrido e nem morreria. Ela viveria para sempre em Gabriel. Nosso amor viveria para sempre nele que era o fruto desse amor. Eu não podia perder meu filho porque aí era perder de vez a Camila.

Saí daquele shopping e fui imediatamente para casa da minha mãe. Toquei a campainha de forma desesperada até que ela atendeu acompanhada de Osmar. Aflita, minha mãe perguntou se algo ocorrera e respondi.

“Preciso de ajuda”.

Minha mãe sorriu e me chamou para dentro dizendo “entra, essa casa sempre será sua”. No dia seguinte fui para uma clínica de reabilitação. Não que eu fosse viciado em bebidas, mas meu pai era o que tornava tudo mais perigoso, me deixava mais próximo do vício. Eu também precisava me desintoxicar e pensar em meu futuro.

Fiquei um mês lá e saí renovado, pronto para tentar viver. Não conseguia parar de pensar em Camila, ela não saía de meus pensamentos um segundo e isso me fazia sofrer. Mas eu tinha que pensar em Gabriel e assim eu também pensava nela.

Osmar ofereceu meu emprego de volta, mas não aceitei. Não tinha do que reclamar daquele emprego, era um bom salário e fiquei alguns anos lá. Mas eu queria ser feliz nem que fosse em meu trabalho.

Amava música, tanto que antes era Dj e queria trabalhar com música.

Batalhei emprego e graças também a ajuda de meu sogro e padrasto consegui trabalho em uma gravadora. Seria responsável por novos talentos. Pelo menos profissionalmente era um sonho que eu realizava.

Batalhei bastante, trabalhava mais de doze horas por dia encontrando no trabalho um “novo vício” para substituir a bebida. Chegava em casa exausto apenas tendo tempo de tomar um banho e cair na cama para dormir. Cheguei a um acordo com Suely e nos fins de semana via Gabriel. Levava a praia, parque, shopping, coisas que pais e filhos fazem.

Mas um novo projeto surgiu. Muito importante.

Um fim de semana fui com Gabriel até a casa de minha mãe e Osmar me disse que queria falar comigo. Sentamos no bar próximo para conversar, como fazia com Pinheiro e ele me contou sobre o “projeto de sua vida”.

A criação de uma ONG para cuidar de crianças com câncer. A Fundação Camila Pires.    

Respondi que era uma ideia bacana, comovente e ele pediu que eu tocasse o projeto. Agradeci e respondi que não tinha como, estava muito ocupado com a gravadora. Osmar bebeu um gole de cerveja e falou “confio em você”.

Não fujo de projetos, ainda mais ambiciosos como esse e que seria uma grande homenagem a Camila. 

Chamei Bia para me ajudar e juntos fomos tocando o projeto da ONG. Formalizamos o projeto, arrumamos o local e fizemos uma reforma. Em poucos meses estava de pé a Fundação Camila Pires.

Uma casa simples, mas bonita. Com quintal, parquinho e muito amor para receber crianças carentes com câncer. Dar tratamento a elas em um local que pudessem brincar, se divertir e esquecer aquela doença maldita que já tinha me levado duas pessoas queridas.

No dia da inauguração, com Gabriel ao meu lado, lembrei Camila e disse em discurso que só uma coisa poderia ser maior que qualquer enfermidade. O amor. O amor fez com que aquela fundação fosse criada e o amor ajudaria aquelas crianças.

Bia ficou de frente depois do projeto iniciado, mas eu passava todos os dias lá ficando algumas horas para ver como tudo acontecia e brincar com as crianças. Algumas vezes levava Gabriel e ele se divertia com os meninos. Via meu filho brincar naquele ambiente criado com tanto amor para oferecer amor e pensava que Camila poderia estar lá.

Ocupava minha mente com a fundação e a gravadora. A vida continuava e a de todos andava. Meu pai se recuperou totalmente do vício virando pastor e se aproximando mais de mim. Samuel e Anderson se uniram fazendo um contrato já que casamento ainda não era permitido e partiram para adoção. Ralaram, enfrentaram preconceitos,mas conseguiram adotar um menino que se curou de câncer na fundação.

Samuel, Anderson e Francisco, esse era o nome do menino, constituíram uma família feliz e normal como qualquer família feliz.

Bia virou um grande nome de nossa cidade ganhando notoriedade por seu trabalho social. Fazia também uma família feliz com Nando e Jessé e começavam a planejar um segundo filho mesmo com Bia tão atarefada. Minha amiga, apesar de nunca esquecer, conseguiu deixar a tragédia do estupro pra trás e seguiu sua vida. Sobreviveu como me disse.

A maior surpresa veio de Hellen e Osmar.

Minha mãe, perto da menopausa, se descobriu grávida. Uma grande festa foi feita por todos e no meio da mesma minha mãe brincou com Osmar e disse que não seria mãe solteira. Osmar respondeu “Então vamos nos casar”. Minha mãe achava que o homem estava brincando, mas ele falava sério.

Os dois se casaram alguns meses depois. Minha mãe já com barriguinha de grávida e eu conduzindo até Osmar. Assim como Camila e eu os dois inovaram. Decidiram fazer o casamento no mercado que minha mãe trabalhava, Osmar comprou e tudo começou.

Alguns meses depois nasceu o filho deles, meu primeiro irmão que na verdade era irmã. Uma menina linda chamada Ericka.

Que lembrava demais Camila.      

Ai Camila..Os meses passaram, completou um ano, passou, mas o meu sentimento não mudava. O amor era imenso, a saudade tão grande quanto e doía. Doía demais. Eu trabalhava bastante, tentava viver, tentava sorrir, mas não conseguia, não era a mesma coisa. Todas as noites me deitava na cama que era a nossa e chorava de saudades antes de dormir. Invariavelmente sonhava com ela e acordava gritando seu nome.

Até que frustrado por perceber que tudo era sonho voltava a me deitar. Não há nada mais cruel que o sonho porque o sonho lhe dá esperanças de ser real e não passa daquilo. Ilusão.

Não era fácil. Não era fácil ser eu. Ainda mais sem Gabriel no meu dia a dia.

Um dia estávamos todos reunidos na casa de minha mãe. Eu brincava com Gabriel e minha mãe comentou que eu me transformara em um pai de verdade. Agradeci e respondi que tinha que viver para ele. Osmar perguntou se eu não tentaria a guarda novamente dele.

Respondi que sim. Tentaria quando me sentisse totalmente seguro que poderia ser um bom pai. O homem então respondeu “Acho bom você se apressar”. Perguntei porque e ele disse “Suely decidiu voltar aos estudos e vai pros Estado Unidos fazer economia em Harvard”.

Gelei e comentei que ela não podia fazer isso, não com Gabriel. Osmar respondeu “Pode sim e pode levá-lo já que a guarda é sua”.

Me desesperei e quando levei Gabriel de volta para casa de Suely pedi para conversar com ela. A mulher perguntou o que eu queria e perguntei se era verdade que ela se mudaria para os Estados Unidos.

Suely respondeu que sim e argumentei que ela não podia fazer isso, não levando Gabriel. Ela respondeu “Posso sim, a guarda é minha” e tentei amansar seu coração dizendo que era seu pai e não podia ficar longe dele. Suely respondeu “Você já provou que não é um bom pai. Perdeu seu filho em um shopping. Eu vou para o Estados Unidos e vou levar o Gabriel”.

Mais uma vez implorei e pedi que ela me devolvesse a guarda. Suely repetiu “Eu vou para o Estados Unidos e vou levar o Gabriel”.

Aquilo foi um baque para mim. Saí da casa, entrei no carro e encostei a cabeça no volante desesperado, sem saber o que fazer. Pedi uma luz a Camila, um caminho para que não perdesse nosso filho e meu telefone tocou.

Era Bia.  

Aproveitei e contei toda a situação para ela. Bia pediu que me acalmasse e que procurasse um advogado para retomar a guarda.

Passou-me o nome e o endereço mandando que procurasse. Ouvi o nome e perguntei “tem certeza?”. Minha amiga respondeu “Sim, procure imediatamente.”  

No dia seguinte cedo bati na porta do advogado. Ele abriu a porta e falei.

“Oi Guga”.

Guga ficou surpreso com minha presença. Perguntei se podia entrar e ele fez sinal com a mão que sim.

Pois é. Não sabiam que o Guga se tornara advogado né? Nem eu.

Sentei e ele perguntou qual era o problema. Contei tudo o que ocorreu depois do enterro. Minha irresponsabilidade, a perda da guarda, minha retomada de vida e o fato de Suely ir morar nos Estados Unidos levando meu filho.

Guga ouviu atentamente e no fim perguntei se ele poderia me ajudar. Ele olhou para mim sério por alguns segundos e estendeu a mão dizendo “Tamos juntos, vamos trazer seu filho de volta”.

Começamos a conversar quase diariamente para montar a estrutura do requerimento de guarda. Contei a ele tudo da minha vida, o que estava realizando, porque devia ter a guarda de volta. Formamos uma equipe como era antigamente.

Não podia deixar Gabriel ir embora. Devia isso a Camila.

Com tudo estruturado entramos na justiça pedindo a guarda.

Guga conversou com as pessoas que me cercavam. Familiares, amigos, todos que viram meu processo de recuperação. Serviriam como testemunhas e Guga, otimista, me dizia “Não vão tirar o Gabriel de você. Não vão tirar um filho de um pai”.  

Suely resolveu marcar sua viagem para logo após o julgamento o que me deixava aflito, se eu perdesse até conseguir um julgamento de recurso ele estaria nos Estados Unidos.   

Chegou o dia. Suely chegou na audiência e cumprimentou cordialmente. A juíza abriu os trabalhos e as testemunhas começaram a ser convocadas. As minhas eram meus familiares e amigos, inclusive Osmar, ex-marido de Suely. As dela eram funcionários do shopping e policiais que encaminharam Gabriel para a Vara de Infância e Juventude.

A advogada de Suely batia muito na tecla de minha irresponsabilidade no período pós-enterro e Guga me pedia autorização para citar a tentativa de aborto que Suely quis fazer em Camila sem que a mesma soubesse. Pedi para que ele não fizesse isso. Não queria abaixar o nível para ganhar a guarda de Gabriel.

O último a falar fui eu. Fui convocado e a advogada de Suely me fez uma série de perguntas. Depois foi a vez de Guga que me fez perguntas e na hora da última me surpreendeu perguntando o que era o amor pra mim.

Ninguém entendeu. Pedi que ele repetisse e Guga repetiu “O que é o amor pra você?”.

Comecei a tentar falar, conectar as ideias.

“O amor? O amor é você ser atropelado por uma pessoa e não esquecer mais seu rosto e sua voz. Amor é reencontrar essa pessoa e não querer nunca mais que ela se afaste de sua vida. Amor é se tornar amigo dela só para não ficar distante. Ajudá-la em problemas amorosos só para se sentir útil. É vê-la feliz mesmo que isso signifique minha infelicidade. Amor é saber sua comida e bebida preferida e pedir ao garçom antes mesmo dela e ela olhar pra você aprovando. Amor é achá-la linda quando está maquiada ou quando acorda. É rir das piadas dela por mais sem graça que sejam. Ter um silêncio preenchido de carinho e afeto. Ter uma música preferida com ela, se entenderem por pensamento e não saber como será viver sem essa pessoa. Amor é perder essa pessoa, mas seguir em frente porque esse amor deu frutos. E morrer de medo de perder esse fruto porque sabe que caso ocorra essa perda seria como se ela morresse de novo e viver sem ela é meu fim”.

Guga, com olhos marejados, disse que eu estava dispensado e a juíza saiu para definir o que fazer. Algum tempo depois ela voltou e deu sua sentença. A guarda voltaria pra mim.

Todos comemoraram. Abracei forte Guga agradecendo por tudo. A advogada de Suely disse a ela que iriam recorrer, mas ela pediu que parasse e se aproximou de mim colocando a mão em meu ombro.

Virei para Suely que me disse “Você sabe que posso recorrer, não sabe?”. Respondi que sim e ela continuou “Não vou fazer isso. Lugar de uma criança é com seu pai e você está pronto para ser pai”.

Agradeci a ela que complementou “Em junho estarei no Rio. Quero passar uns dias com ele”. Concordei e ela passou a mão em meu rosto indo embora.          

Estava no lado de fora, tomando um café, quando uma mulher se aproximou e com sorriso largo disse “Antonio, quanto tempo!!”. Olhei para ela, sorri amarelo cumprimentando e ela rindo perguntou “Não está lembrando de mim né?”.

Antes que eu passasse a vergonha de responder que não ela me contou “Amanda, viagem para Aparecida”.

Claro! Como poderia me esquecer dela? A menina linda que me fez companhia em Aparecida enquanto eu sofria por Camila?

Com sorriso, dessa vez genuíno, respondi “claro que sim” e começamos a bater papo. Ela me contou que agora era advogada e perguntou o que eu fazia ali. Respondi que era um processo de guarda e ela comentou “sempre chato se separar brigando”.

Respondi que não era contra minha ex-esposa, era contra minha sogra e que minha mulher falecera. Amanda lamentou e completei “pelo menos venci”.

Amanda me deu parabéns quando Guga surgiu. Ele se apresentou e na hora de se apresentar Amanda olhou para mim e disse:

“Meu nome é Amanda, mas pode me chamar de recomeço”.

Logo depois a moça me deu um cartão seu. Era com seu telefone e e-mail. Me deu um beijo e pediu “me liga?”. Indo embora logo depois.

Guga olhou pra mim e com aquele jeitão dele que tanto senti saudades e comentou “Caramba!! Te deu muito mole!!”. Eu sorri e respondi que era nada daquilo e meu amigo comentou “Tempo que não via um sorriso seu, devia sorrir mais vezes. Faz bem”.

Logo após completou “Sabe que sua história daria um livro?”. Falei que era bobagem dele que continuou “Sério, dá um livro sim. Essa história de amor, tudo que ocorreu. Pensa nisso com carinho, é sério”.

Será?

Caminhamos para o lado de fora do Fórum tendo uma conversa inusitada. Guga ameaçou “É bom correr atrás dela logo senão eu vou correr e vou tomar essa mulher de você. Te dar o troco”.

Ri e comentei que tomara mulher nenhuma, eu conheci Camila antes dele e ele que me tomou. Guga gargalhando disse “Ninguém mandou você ser um Zé mané com mulher!!”.

Andávamos e eu gargalhei perguntando “Como assim Zé Mané?”.

Guga era um querido amigo e seria para o resto da vida.

Saí do Fórum e fui direto para o cemitério. Desde o enterro não ia lá.

Desci do carro com um buquê de flores na mão e caminhei até o túmulo de Camila. Olhei para o túmulo onde o amor de minha vida estava enterrado e me emocionei.

Segurei o choro e comecei a falar:

“Tempo que não venho aqui né? Me desculpe, mas acho sinceramente que você não está aqui, está em um lugar bem melhor. Mas como precisava de um lugar que você estivesse fisicamente para te dizer algumas coisas eu vim. 

Vim te entregar essas flores que você tanto gosta e dizer que ganhei a guarda de nosso filho. Ele ficará comigo como sei que você queria. Pra finalizar eu trouxe uma carta pra você. Acho que essa carta diz tudo
que eu queria te falar nesse momento. Dizem que não existe nada
mais bobo que carta de amor. Mas o que é o amor senão uma grande e maravilhosa bobeira?”.

Fiz o sinal da cruz, pedi que ela ficasse com Deus e saí.

Fui para a praia encontrar meu filho que estava com a babá. Antes de chegar vi um rapaz quase ser atropelado por uma menina. Ela desceu apavorada, com o rapaz no chão e o levantou perguntando se ele estava bem. O rapaz sorriu dizendo que sim, mas só ficaria melhor recebendo seu telefone.

Eles ficaram conversando enquanto eu continuava meu trajeto e ia encontrar meu filho.

Rindo, mas com o coração doendo.

A seguir: A praia (último capítulo)


CAPÍTULO ANTERIOR:

Nenhum comentário:

Postar um comentário