sábado, 18 de julho de 2015

AMOR: CAPÍTULO XIV - AMOR (PARTE I)




Corri muito, corri de forma desesperada. Corri gritando por Camila. Corria muito e não chegava no quarto. Corrida longa.

Passei pela recepção correndo e gritando por Camila. Bia, Osmar e minha mãe se encontravam na recepção e me perguntaram o que ocorria. Mas eu não conseguia ouvir nada, só queria saber de Camila. Só queria ver Camila.

Cheguei no quarto e vi uma grande movimentação. Gelei. Num rompante entrei no quarto para ver o que ocorria. A equipe médica tentava fazer voltar os batimentos cardíacos de minha amada. Saí de mim. Gritava seu nome e tentava me aproximar enquanto enfermeiros me seguravam e gritavam pelos seguranças. Eu via usarem o desfibrilador nela, a tentativa desesperada de voltar com seus batimentos cardíacos e ganhava uma força descomunal que nem enfermeiros e seguranças conseguiam me deter.

Junto com minha mãe, Bia e Omar conseguiram me levar até a porta. Eu era segurado por muitos, mas mesmo assim não me afastei da porta e gritava por Camila. Um pesadelo tomava conta de mim. Um pesadelo que não queria acabar.

Até que acabou.

Acabou no momento que a equipe médica parou e começou a se lamentar. O médico olhou seu relógio e passou a hora para que anotassem.

No meio do meu desespero eu não conseguia entender aqueles gestos. Até que olhei pro lado e vi Osmar chorando abraçado a minha mãe que também chorava. Ali entendi o que ocorrera.

Camila morreu.

Entrei em transe. Não dá pra explicar exatamente o que ocorreu naquele momento e acho que em minha vida nunca irei conseguir. Um flashback relâmpago passou em minha mente desde o dia que a conheci, passando pelo primeiro atropelamento até o reencontro, as aulas de dança, o concurso, meu sofrimento lhe vendo com Guga, nós na clínica de aborto, nosso primeiro beijo na praia depois que ela desistiu do casamento, nosso casamento na praia, eu cantando pra ela, nossos momentos, despedidas, reencontros como no aeroporto..

..no momento que esse flashback passava via cobrirem seu corpo totalmente. Aí caiu a ficha de vez. Aí um urro, um grito surgiu de dentro da minha alma, das minhas entranhas sugando toda minha força e saindo em minha voz de forma sofrida, em desespero.

Gritei por meu amor, gritei seu nome. Gritei “Camila”.

Mais uma vez gritava seu nome e tentava me aproximar de seu corpo. Tentaram me impedir de início, mas desistiram. Entrei no quarto, descobri seu corpo e abracei. Abracei forte como se daquele jeito pudesse fazer reviver. Seu corpo morto em meus braços, eu morto junto com ela.

Minha mãe tentou me tirar dali, mas Bia lhe segurou e deixou que eu tivesse aquele momento com Camila. Eu chorava e gritava “Volta pra mim Camila!! Não faz isso comigo pelo amor de Deus!!” e apertava ainda mais forte seu corpo contra meu peito.

Apertava na esperança que ela voltasse. Apertava como se quisesse lhe proteger, como se quisesse colocá-la dentro de mim e assim protegê-la de toda a impureza e maldade do mundo. Ser seu escudo. Apertar-lhe, guardar em mim e dizer que tudo acabaria bem.

Mas não ia. Ela não iria voltar. Aquilo era vida real, não ficção. Eu não tinha como fazer o tempo voltar como o superman, ela não iria reviver se uma lágrima minha caísse sobre seu corpo. Acabou. Nossa história acabava ali.

Nunca mais beijaria Camila. Nunca mais veria seu sorriso, ouviria sua voz ou faria amor com ela.

Camila morreu.

Peço desculpas aos amigos nesse momento, mas contar essa parte da história é muito difícil para mim. Não consigo falar nessa parte de minha vida sem me emocionar ou lágrimas rolarem por minha face. Como acompanharam até aqui nosso amor foi muito forte. Eu me apaixonei por essa mulher, que era menina ainda, de imediato e desde então vivi em função dela, em função desse amor.

Ali eu perdia aquilo para sempre. Perdia minha base, meu alicerce. Meu espírito.

Quantos de vocês já sofreram por amor? Acredito que todos. Quantos já perderam um amor? Acredito que todos também. Todo mundo já passou por isso.

Mas perder porque o amor da pessoa amada terminou é uma coisa.

Terminar porque perdeu a pessoa amada para outro também. Dói?
Dói pra cacete, mas o ser humano por pior que seja a situação sempre guarda para si uma esperança. Por menor que seja.     

Mas perder pra morte? Perder para morte não lhe dá mais esperanças de nada. É o fim. Vão bater na minha porta e eu não poderei ter a ínfima esperança de ser ela. Vão ligar para meu telefone e eu não poderei ter meu coração ansioso esperando que seja ela.

Minha vida foi ceifada. Minha alma foi arrancada de meu corpo e jogada em um buraco escuro e sem fundo. Antonio não existia sem Camila.

Eu não era mais eu.

Me deram um remédio para me acalmar e me levaram para a recepção. A coitada de minha mãe se dividia entre eu e Osmar que, inconsolável, chorava a perda de sua única filha. Bia não saía um segundo do meu lado segurando minha mão. As pessoas foram chegando, me abraçando, tentando me consolar, mas eu não prestava atenção. Não estava ali.

Suely chegou desesperada, chorando, gritando e foi acalmada por amigos. Ouvia-se muito choro no local, muito desespero. Quase todos choravam.

Eu não.

Eu tinha olhar perdido, vazio, como se tivesse morrido também. Bia e minha mãe perguntavam se eu queria alguma coisa e eu nada respondia. Eu não queria nada. Aliás, queria sim, queria morrer com Camila.

Continuei na mesma posição, afundado no sofá sem esboçar nenhum tipo de reação quando me percebi sozinho. Não havia ninguém ao meu lado e despertei. Aproveitei que por alguns segundos ninguém prestava atenção em mim, me levantei e saí do hospital.

Só depois de algum tempo perceberam que eu não estava mais lá. Um grande alvoroço tomou conta do local e as pessoas, tensas, procuravam por mim. Ligavam para meu celular até que perceberam que eu não levara o telefone. Tinha deixado no sofá.

Eu não queria ser encontrado.

Eu vagava pelas ruas do Rio de Janeiro. Andava sem direção, sem rumo. Tropeçava em meu sofrimento. Não chorava, não mostrava desespero, apenas andava em parar. Não queria parar de andar.

Andava, pegava ônibus, metrô, andava mais sem ter a mínima ideia de onde estava. Nem queria saber na verdade. Queria me perder. Queria me perder até de mim.

Enquanto isso as pessoas nem podiam passar por suas dores. Enquanto Samuel agilizava velório e enterro os outros me procuravam.

De tanto andar parei no mesmo lugar de sempre. O Arpoador.

Parei lá com o dia já amanhecendo. As pedras do Arpoador estavam desertas com uns poucos surfistas praticando o esporte. Caminhei pelas pedras lembrando todos os momentos que passei ali com Camila. A ficha caía de vez. Eu saía daquele transe que tanto me fez andar e me tocara que nunca mais voltaria ali com Camila.       

Comecei a chorar, chorar muito e gritar pelo nome de Camila. Eu não queria viver sem ela. Tudo bem, tinha Gabriel para criar, mas eu nem conseguia pensar nisso, nem conseguia pensar nele. Só pensava em mim e na minha dor.

Decidi ali que iria me matar. Andei pelas pedras em direção a uma queda. A queda seria grande em direção ao mar. Tive a esperança que aquela queda seria o suficiente para me matar e me levar para perto de Camila. Respirei fundo, disse “te amo Camila” e me preparei pra pular.

Quando iria pular ouvi uma voz me gritando e mandando parar. Olhei para trás e tomei um susto.

Era meu pai.

Olhei para ele perguntando como tinha me achado. Meu pai estava diferente do que eu acostumara a ver. Estava com calça preta, sapato, camisa branca e um livro na mão que depois percebi ser a Bíblia. Ele estendeu sua mão e implorou que lhe acompanhasse. Perguntei novamente como tinha me achado.

Meu pai respondeu que me contaria se eu saísse da beira. Falei que não sairia e Turco disse “tudo bem, vou aí me matar com você”.

Meu pai andou até a mim enquanto eu perguntava se ele ficara louco e o que estava fazendo. Meu pai ficou ao meu lado e comentou “É, daqui é alto mesmo. Vamos morrer na hora”.

Respondi que não queria que ele morresse, ainda mais naquele instante que ele parecia tão bem. Meu pai contou que já passara por muita tristeza na vida, depressão por conta do vício, mas tinha sobrevivido a tudo. Mas não sobreviveria a perda de um filho.

Me irritei e falei que não era seu filho, nunca tinha sido tratado como filho por ele e que meu pai era Pinheiro, homem que a vida também tinha me levado. Turco respondeu:

“Eu sempre te acompanhei, mesmo de longe te vi crescendo, virando homem e me orgulhando de você. Você se transformou naquilo que eu sempre quis ser. Tudo que a bebida não deixou e agradeço muito ao Pinheiro  que ele fez por você e sua mãe. Seja um Pinheiro para seu filho, não seja um Turco. Seu filho e sua mãe precisam de você. Não precisam de mais tragédias em suas vidas”.

Ouvi atentamente a tudo que meu pai disse e ele completou “Sei que você nesse momento está duvidando de tudo. Até se Deus existe e que se ele existe se gosta de você. Acredite. Eu durante anos tive essa dúvida também. Mas Deus está em todas a coisas. Está na minha luta contra o vício e no amor que uniu você e essa moça”.

Chorei e perguntei como viveria sem Camila. Meu pai, sereno, respondeu “Da mesma forma em que vivo sem a bebida. Um dia de cada vez”.    

Meu pai saiu de onde estávamos e novamente estendeu a mão para mim. Dessa vez aceitei e lhe dei a mão também saindo.

Enquanto caminhávamos saindo do Arpoador perguntei novamente como ele tinha me encontrado ali. Meu pai respondeu que aquele também foi muitas vezes seu refúgio em momentos que precisava de paz.

Quem diria que eu e o Turco teríamos algo em comum.   

Meu pai me levou até o cemitério onde ocorria o velório. Entramos com ele me amparando e chamando atenção de todos que se espantaram com minha chegada repentina e por ter ocorrido acompanhado de meu pai.

Minha mãe se aproximou, fez carinho em meu rosto e agradeceu a meu pai dizendo “Obrigado Turco”. Meu pai respondeu “Apenas estou cumprindo minha obrigação de pai, antes tarde do que nunca”.

Minha mãe me conduziu até a sala que ocorria o velório e todos os meus amigos se encontravam lá com Suely chorando a beira do caixão. As pessoas abriram caminho para mim para que assim eu me aproximasse do caixão. Suely me viu, cumprimentou, respondi o cumprimento e finalmente me aproximei do caixão.

Olhei para dentro dele e vi Camila. Já sem cor, magrinha pelo sofrimento da doença, mas com rosto tranquilo, sereno, rosto de quem não sofria mais. Fiz carinho em sua cabeça e pedi baixinho que me levasse com ela.

Fiquei o tempo todo ali ao seu lado e fazendo carinho em sua cabeça até que senti uma mão em meu ombro. Me virei para ver quem era.

Era Guga.

Guga chorava muito e vendo meu amigo tão querido ali daquela forma comecei a chorar também, como de imediato nos abraçamos forte chorando um no ombro do outro.

Nunca conversamos sobre o assunto, mas acredito que Camila também foi o grande amor da vida de Guga, com agravante para ele por não ter vivido com ela tudo que eu vivi. Amamos a mesma mulher e naquele momento sofríamos pela mesma mulher. Éramos sócios na dor.

Depois de um tempo abraçados sentimos a aproximação de Bia e Samuel que também no abraçaram. Os quatro amigos lá abraçados e unidos como há muito tempo não ocorria, unidos como quando éramos crianças. Mas infelizmente unidos na dor.

Fiquei mais um tempo sozinho ao lado do corpo de Camila me despedindo e ao mesmo tempo não querendo me despedir. Eu não queria me despedir de Camila, não queria me despedir de nossa história. Mas a hora chegava e chegou a da missa.

O padre rezou uma missa encomendando sua alma e logo depois meu pai falou algumas palavras. Era a hora de fechar o caixão.

Na hora do fechamento gritei e pedi para que esperasse.

Chorando muito, me abaixei, beijei sua boca pela última vez e disse “te amo atropeladora”. Minha mãe me puxou e me abraçou enquanto o caixão era fechado.

Assim foi a última vez que vi a Camila.

O cortejo foi até o túmulo e lá em silêncio os trabalhadores desceram o caixão. Antes que fechassem o túmulo peguei uma rosa, beijei e joguei. Uma salva de palmas marcou o fim do enterro.    

Depois todos caminharam em direção a saída do cemitério. Para alguns a vida continuaria normalmente após sair do local, para outros depois de um tempo de luto.

A minha vida nunca mais seria a mesma.

De lá fomos para a casa de Bia e Nando. Ficamos um tempo reunidos, comendo e bebendo algo, coisa que não tínhamos feito desde a morte e relembrando Camila. Eu não falava nada , também não comia nem bebia.

Eu olhava distraído pela janela quando Bia se aproximou e pôs a mão em meu ombro. Eu não falava nada e minha amiga perguntou como eu estava. Respondi apenas “mal” e minha amiga sorrindo comentou “pergunta idiota a minha”.

Olhamos um pouco para fora e para poder dizer algo falei que Jessé estava lindo. Notei minha amiga respirar fundo e me perguntar se eu lembrava porque tinha dito que daquela vez era com amor.

Sim. Eu lembrava. Realmente ficara intrigado com aquelas palavras e perguntei a Bia o que queria dizer. Bia ficou um pouco em silêncio e respondeu.       

“Alguns anos atrás eu saía de um trabalho e dois homens me cercaram. Roubaram minha bolsa, documentos, cartões, dinheiro, mas não queriam só isso. Me levaram a um terreno baldio e me estupraram”.

Eu não sabia daquilo. Ninguém sabia daquilo. Estarrecido continuei ouvindo.

“Fui até uma delegacia e me trataram muito mal, me fazendo sentir culpada por tudo. Voltei pra casa cheia de vergonha, tomei um banho e decidi tentar esquecer aquele assunto. Mas não se esquece uma violência assim. Ainda mais quando se engravida.”    

Comentei que não sabia de nada daquilo e ela confirmou que ninguém sabia e continuou.

“Sozinha corri atrás de resolver aquela situação. Tomei remédios e não deu certo. Corri atrás de clínicas de aborto até que encontrei aquela que a Suely levou a Camila. Por isso conheço tantas clínicas de aborto e conhecia aquela”.

Lamentei por tudo que ela passou e Bia pediu segredo dizendo que ninguém sabia, apenas eu que era seu melhor amigo. Agradeci sua confiança e comentei que devia ser uma barra passar por tudo aquilo, ainda mais sozinha.

Bia respondeu “É uma barra sim, mas a gente sobrevive”. Passou a mão em meu rosto e repetiu “A gente sobrevive”.

Entendi o recado, mas não conseguia trazer para a minha vida. Fiquei uns dias com Gabriel na casa de minha mãe, mas rapidamente fui embora por achar que estava incomodando mesmo eles dizendo que não. Voltei com meu filho para o apartamento que construí com Camila. Mas sem ela. 

Não era fácil. Apesar de ter babá eu tinha virado pai e mãe. Tinha que tentar cuidar de Gabriel e seguir minha vida. Mas cadê que eu conseguia? Deixava o Gabriel cada vez mais nas mãos da babá e me tornava relapso em relação a ele. Bebia demais, cada vez mais e não eram raros os dias que passava a madrugada fora de casa bebendo. Algumas vezes com desconhecidos, outras sozinho.

A babá não aguentou a carga extra e pediu demissão. Outras surgiram e também pediram. Eu praticamente jogava o Gabriel para cima delas e nenhuma aguentava o ritmo.

Eu mesmo pedi demissão. Cheguei atrasado no trabalho e Ananias me deu bronca. Eu ainda estava bêbado da noite anterior e mandei que ele enfiasse o trabalho me mandando. Osmar me ligou diversas vezes para tentar entender o que ocorria, mas não atendia as chamadas. Queria falar com ninguém.   

Minha família e meus amigos me davam bronca dizendo que eu devia pensar em Gabriel. Eu tinha um filho com Camila e o melhor modo de respeitar sua memória era criando bem esse filho, mas eu não queria saber. Continuava a passar as noites bebendo, chegava em casa com o menino dormindo com a babá e ia para meu quarto me abraçar a uma foto de Camila e chorar a noite inteira.

Essa era minha rotina até um dia que decidi sair com Gabriel.

Peguei a mão de Gabriel e passeamos pelo shopping. Até parecíamos uma família de verdade. Andando pelo local, encontrei uns conhecidos e parei para beber. Bebi bastante com eles até que decidimos emendar em um bar na Lapa. Bebemos muito e só voltei para casa de manhã.

No fim da manhã eu hibernava na cama quando o telefone tocou. Atendi e era Suely querendo falar com o neto. Levantei da cama, fui até seu quarto e encontrei a cama vazia. Só ali me toquei da merda que tinha feito, pus a mão na cabeça e gritei “Puta que pariu!! Esqueci meu filho no shopping!!”.  

Foi uma mobilização. Família e amigos se juntaram para procurar Gabriel. Fui até o shopping e nenhum sinal dele. Suely socava meu peito e gritava que eu era irresponsável. Percorremos a cidade inteira e nada de achar o menino. Até que minha mãe teve a ideia mais lógica. Foi na vara da infância e adolescência e encontrou meu filho.

Foi um alívio para todos, principalmente para mim. Mas esse alívio para mim foi apenas na alma porque eu teria prejuízo com aquela irresponsabilidade. Seria processado por abandono de incapaz e Suely entrou com um processo ganhando a guarda de Gabriel.

Agora eu estava sozinho mesmo, sem Camila e sem Gabriel.

Continua... 


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