sábado, 4 de julho de 2015

AMOR: CAPÍTULO XIII - LUTANDO PELA VIDA




O médico começou a falar e parecia que um pesadelo começava. Ele falava com tato, mas as palavras que saíam de sua boca eram duras. Ele contava que havia alteração importante no exame de sangue de Camila e que precisava de mais exames.

Camila ouvia a tudo séria, sem mover o rosto e eu me sentindo desconfortável. Depois de um tempo falando, explicando tecnicamente tudo o que poderia ser Camila perguntou “Doutor, em português, o que realmente pode ser?”.

Ele deu uma enrolada e ela perguntou “Posso estar com leucemia?”. Ele disse que poderiam ser várias coisas e ela refez a pergunta “Pode ser leucemia?”. Sério o médico respondeu “pode”.

Séria Camila comunicou que na manhã seguinte estaria no hospital para fazer os exames e nos despedimos do médico.     

Saí dali devastado. Devastado e com medo. Não podia ser. Entrei ali feliz porque seria pai e saio com a mulher da minha vida podendo estar doente. Não podia ser, não podia acreditar. Não conseguia imaginar e nem queria imaginar minha vida sem Camila.

O médico disse que poderiam ser várias coisas, até mesmo simples, mas o nome “câncer” assusta pra cacete. É a hora que nos sentimos vulneráveis, mortais e eu já tinha o trauma de Jessé, a mesma doença.

Lutava contra minha mente tentando ser otimista, pensar que não era aquilo. Ela faria os exames e tudo ficaria bem.

Camila saiu em silêncio do hospital. Se para mim era ruim imagine para ela. Camila entrou ali esperando que em alguns meses seria mãe novamente e agora pode estar com a vida em risco.

Quando saímos apenas peguei forte sua mão e andamos pelo estacionamento de mãos dadas. Íamos entrar no carro quando ela pediu que não fizesse isso. Queria ir até o calçadão tomar um sorvete. 

Andamos até o calçadão de mãos dadas. Copacabana cheia de pessoas alegres, saudáveis e se divertindo. Fomos até a areia e ficamos alguns minutos lá olhando o mar. Sempre de mãos dadas.

De mãos dadas e em silêncio. Eu não tinha coragem de dizer nada, nem mesmo de encará-la. Olhava para ela disfarçadamente e via minha esposa olhar firme o mar. Olhava séria, mas não triste. Apenas séria.

Depois de um tempo ela pediu para que fôssemos tomar o sorvete e fomos.

Sentamos em um quiosque e trocamos as primeiras palavras dizendo o quanto nossos sorvetes estavam gostosos. De repente em um rompante Camila disse “não adianta não tocarmos no assunto. Ele está aqui nessa mesa com a gente”.

Minha mulher sempre foi mais firme que eu, mais direta. Me surpreendi dela entrar no assunto e disfarcei. Sorri e respondi “você não tem nada, isso é besteira”.

Camila olhou uns segundos para mim e falou “você sabe que não é besteira, você não me olha nos olhos, sabe disso”. Vi o olhar dela sério para mim e também fiquei sério. Respondi “Não é besteira, mas será porque você não tem nada”. 

Camila me disse que eu não podia garantir isso e respondi “eu garanto”.

Ela estava certa. Eu não podia garantir.

Fomos para casa. Gabriel estava com a babá e ao nos ver entrar correu para a mãe gritando “mamãe, mamãe”. Camila se agachou e abraçou forte nosso filho. Percebi lágrimas em seus olhos, mas preferi ficar em silêncio. 

Nos falamos muito pouco naquela noite, uma noite de medo e de incertezas. Ao deitarmos Camila se aconchegou em meu peito e pediu “não comente nada com ninguém até termos certeza de alguma coisa”. Dei um beijo em sua cabeça e respondi “não vou comentar até porque você não tem nada”.

Dormi e naquela noite tive um pesadelo. Sonhei que me afogava em alto mar e não conseguia chegar na superfície. Nadava, nadava até a superfície e algo me puxava para baixo. Tentava várias vezes sem conseguir e o desespero aumentava.

Acordei sem ar, desesperado e Camila acordou com meu susto. Minha mulher me abraçou pedindo que me acalmasse, pois era apenas um pesadelo. Aos poucos fui me acalmando e deitei. Camila me abraçou e fez cafuné até que eu dormisse.

Ela passando por aquela situação difícil e a impressão era que eu que estava sucumbindo.

Acordamos cedo no dia seguinte e fomos ao hospital. Durante os dias seguintes Camila fez uma série de exames. Praticamente nos isolamos. Eu pedi licença do trabalho para resolver coisas pessoais e nossos amigos próximos não entendiam o que ocorria. Minha mãe foi atrás de mim perguntar se algo acontecia e disfarcei.

Os dias eram longos, a espera tensa para saber o resultado.

Até que o dia chegou.

Sentamos na frente do médico e apertamos forte nossas mãos. O médico nos olhou sério e sem rodeios disse “é leucemia”.

Naquele instante fechei os olhos e senti Camila apertar forte minha  mão.    

O médico explicou todos os detalhes técnicos, tudo que teria que ser feito como início de tratamento e como ele seria. O médico disse que não tinha metástase, o que era boa notícia, mas era maligno.

O mais importante foi que ele disse que era curável.

Saímos de lá em silêncio e entramos no carro. No meio do caminho pra casa Camila pediu que fôssemos ao Arpoador. O nosso cantinho.

Sentamos nas pedras olhando o mar em silêncio. Camila na minha frente, encostada em mim e eu abraçando minhas mãos sobre seu corpo. Depois de um tempo ela perguntou “Me ama?”. Respondi “pra sempre”.

Depois disso ela começou a chorar. Compulsivamente.

Eu estava atordoado. Pra dizer a verdade nem conseguia dizer ao certo como estava. Sem chão, sem ar, sem teto...A ficha não queria cair, Camila tinha câncer!! Meu amor tinha câncer com apenas vinte e três anos de idade!!

Não dava pra aceitar, não dava pra me conformar. Eu não podia aceitar a possibilidade de um dia ficar sem a Camila, principalmente dessa forma, principalmente tão jovens. Abracei forte a Camila, quase que lhe sufocando, com toda força que eu tinha, com toda raiva que estava daquela situação.

Ma não chorei. Eu tinha que ser forte. Eu tinha que ser o suporte da Camila naquele momento.

Chegamos em casa e tivemos que tratar de detalhe chatos. Como seria em relação aos outros? Contaríamos? Camila faria quimioterapia, radioterapia, as pessoas acabariam percebendo que tinha algo errado.

Camila respirou fundo e respondeu que faria uma reunião.

Todos os nossos conhecidos foram chamados. Estávamos na sala comendo, bebendo e eles se divertiam. Estavam Osmar, minha mãe, Samuel, Bia, Nando e Ananias. Em determinado momento minha mãe perguntou qual era o motivo da reunião e Camila pediu que todos se aproximassem.

O nossos convidados se aproximaram e eu sentei ao seu lado. Camila apertou minha mão e começou a falar.

“Uma reunião entre nós sempre foi motivo de muita alegria, amor, de confraternização entre pessoas que se amam e eu quero que seja sempre assim. Viver é tão bom? `Porque perder tempo com mágoas, tristezas e amarguras se não sabemos o dia de amanhã? Eu quero levar pra sempre isso. Nós todos reunidos e por isso escolhi uma reunião nossa para contar a todos vocês uma coisa. Eu tenho câncer. Eu estou com leucemia”. 

O ar ficou pesado, dava para ouvir a respiração de todos e ela continuou.

“Não quero tristeza, não quero choro até porque estou doente, mas não morri ainda e vou lutar. Vou lutar, vou vencer e vamos lembrar com orgulho desse momento. Mas caso o pior aconteça quero que lembrem também de hoje. Que somos uma família e que celebramos.”

Logo depois Camila disse que estava “varada de fome” e queria kibe.

Foi uma das últimas vezes naquele período que ela sentiu fome. No dia seguinte levei Camila ao hospital e ela começou tratamento. O tratamento é pesado, cruel e era horrível ver minha mulher se debilitando a cada dia. Passando mal, vomitando, não era fácil explicar a Gabriel o que acontecia.   

Os cabelos começaram a cair. Ela não teve dúvidas e pediu que eu raspasse. Comprei uma máquina e raspei o cabelo dela deixando careca.

Um dia ela entrava em casa com minha mãe depois de mais uma sessão de quimio e me encontrou careca e Gabriel com cabelinho baixo.

Camila sorriu e abracei minha mulher dizendo “na saúde e na doença”.

A vida continuava mesmo com a doença de Camila. A nossa também continuava. Eu continuava trabalhando, Gabriel na escolinha e Camila realizando seus afazeres.

Bia engravidava de seu primeiro filho. Ela e Nando viviam uma eterna Lua de mel. Não tinha mais notícias de Jéssica, nem Guga. Minha mãe e Osmar também caminhavam felizes.

O mercado estava cada vez mais próspero. Já deixara de ser um minimercado para ser um verdadeiro supermercado. Osmar tinha vontade de expandir, abrir filiais do mercado e minha mãe respondia dizendo não haver necessidade. Minha mãe não queria ser rica, nunca teve necessidade de ser rica, só queria ser feliz.

E ela já sofrera tanto. Tantas perdas, a falta que Pinheiro fazia. Ela merecia sim ser feliz.

Infelizmente era a minha hora de sofrer.

Um dia minha mãe e Osmar foram passear no shopping. Depois de fazer umas compras pararam na praça da alimentação para lanchar. Dona Hellen sorria, tomava um milk shake e percebeu a presença de Suely em outra mesa. Chamou a atenção de Osmar e apontou dizendo “olha quem está ali”.

Osmar pediu que minha mãe lhe acompanhasse. Os dois se levantaram e foram até a mesa de Suely. A mãe de Camila foi pega de surpresa pela presença dos dois e Osmar dizendo ‘Oi Suely”.

Suely perdeu a pose por apenas alguns segundos. Logo se recompôs e respondeu o cumprimento. Sem deixar respirar Osmar perguntou “Você sabia que nossa filha está com câncer?”.

Suely se assustou e respondeu que não sabia. Osmar completou “Ela mora no mesmo lugar desde que se casou, se quiser depois te dou o endereço”. Suely agradeceu e os dois se despediram.

Caminhando minha mãe perguntou se Osmar achava que Suely iria nos visitar e sem titubear Osmar respondeu “não”.

Lembram que não falei de Samuel ao relatar como estava a vida de todos? É porque daí veio a surpresa.

Camila encerrou um de seus períodos de tratamento e teve uma melhora. Cresceu um pouco de cabelo e se sentiu mais feliz. Bia já tinha uma barriguinha mostrando que a gravidez avançava e numa noite dessas Samuel nos convidou para ir a seu apartamento.

Lá fomos para a cozinha e fizemos um belo empadão de carne com batatas coradas. Depois da janta enquanto todos papeavam fui para a cozinha lavar as louças com Samuel. Brincando comentei com meu amigo “Como é cara? Tempo que não te vejo com namorada. Ta pegando ninguém não?”.

Samuel respondeu que sim, estava namorando. Curioso, perguntei quem era a felizarda e brinquei completando “apresenta logo que já estamos pensando que está namorando esse amigo inseparável”.

Samuel apenas sorriu.

Depois de lavarmos tudo sentamos todos para tomar café na sala. Conversávamos quando Samuel interrompeu dizendo que tinha uma coisa para contar.

Comentei baixinho com Camila “ele arrumou uma namorada”. Samuel respirou fundo e contou “estou namorando”.

Todos ficamos felizes, felicitamos e perguntei “E aí? Qual o nome da menina?”. Samuel sorriu e respondeu “Anderson”. Apenas esbocei um “Oi?”.

Samuel confirmou “É o Anderson”. O amigo dele completou “Sim, sou eu”. O amigo dele, inseparável, que estava com ele em todos os cantos e já citara aqui se chamava Anderson.

Ficamos em silêncio até que Bia se levantou, abriu um sorriso e abraçou os dois dizendo que faziam um casal lindo. Todos fizeram o mesmo, menos eu.

Samuel perguntou se eu não iria cumprimentar e sem graça respondi “assim que passar a vergonha do vexame que cometi”. Samuel gargalhou, abriu os braços e disse “vem logo”. Levantei, abracei meu amigo, seu namorado e disse “você merece muita felicidade meu amigo e to muito feliz por você”.   

Depois de tudo comentei “To lembrando agora que sempre tomei banho contigo, me trocava junto com você...Não ficava me olhando não né?”. Samuel, sério, respondeu “Não, você tem pinto pequeno”.

Caímos na gargalhada. Foi uma grande noite. Camila precisava disso. Eu precisava disso.

Samuel sempre namorou mulheres e mulheres lindas. Nunca mostrou qualquer tipo de afetação, tendências homossexuais e depois de adulto se viu atraído por um homem. Nem posso dizer se Samuel era hétero ou gay, ele simplesmente se apaixonou e quis viver essa paixão.

Pra dizer a verdade uma das maiores bobagens que existe é esse rótulo. Não somos produtos para virmos com embalagens. Toda forma de amor vale a pena não importa por qual sexo, por bicho, por uma lembrança, qualquer coisa. Minha mãe teve a sorte de encontrar Osmar, Bia de encontrar Nando, Samuel a Anderson. Encontrar algo ou alguém que amamos e somos correspondidos é até mais que sorte. É uma dádiva.

Assim como eu e Camila.

Chegamos animados em casa. Tempo que não via Camila tão animada. Chegamos abraçados e rindo com Camila lembrando da minha cara quando Samuel disse o nome Anderson.

Eu ri e comentei que preferia lembrar de outra coisa. Camila perguntou o que e fui até o som. Liguei e começou a melodia conhecida.

Respondi “Raspberries”.

Insinuante, Camila perguntou o que eu queria. Desabotoando minha blusa respondi “o mesmo que quero desde a primeira vez que te vi. Você”. Começamos a nos beijar, nos despir e fizemos amor ali mesmo na sala acompanhados de nossa trilha sonora.

No dia seguinte estávamos deitados no sofá olhando para o teto e em silêncio. Roupas jogadas pelo chão mostravam a intensidade do amor daquela noite.

Camila interrompeu o silêncio dizendo que não queria morrer. Aquela frase nos trouxe de volta a realidade, me fez lembrar do inimigo invisível que nos deixara em paz naquelas últimas horas.

Engoli em seco e respondi que ela não iria morrer, só iria morrer quando eu deixasse. Minha mulher então disse que tinha um pedido para me fazer. Curioso, perguntei que pedido era e ela me respondeu.

“Eu amo a nossa música. Mas você colocou no repeat e está tocando há horas. Tire por favor”. 

Gargalhamos e levantei concordando com ela. Já tocara demais.

Os meses passavam e Camila intercalava bons e maus momentos. Os períodos de tratamento eram terríveis, meu amor sofria muito e eu nunca abandonava seu lado, o tempo todo com ela, apenas ela me importava.

O filho de Bia e Nando nasceu, se chamava Jessé em homenagem ao nosso querido e inesquecível amigo. Fomos na maternidade visitar Bia e conhecemos o garotão. Gordinho, grande, lindo.

Camila pegou Jessé no colo enquanto Nando e Bia trocavam carinhos. Perguntei se minha amada lembrava de Gabriel daquele tamanhinho e ela respondeu “claro, uma mãe nunca esquece essas coisas”.  

Olhou mais um tempo pra ele e continuou “queria tanto ver nosso filho e esse menino lindo crescerem”. Minha voz embargou, mas me mantive sereno e respondi que ela veria. Camila completou “Não deixe nosso filho se esquecer de mim”.

Aquele pedido me desconcertou. Por sorte não precisei responder. Bia nos chamou e disse que tinha um pedido para fazer. Nos convidou para ser padrinhos de Jessé.

Muito felizes e orgulhosos aceitamos na hora.

Na hora de nos despedirmos dei um beijo em minha amiga e parabenizei dizendo “parabéns pelo filho, ele é lindo”. Bia respondeu “Dessa vez foi com amor” e não entendi sua resposta. Antes que perguntasse o motivo dela Camila nos apressou para irmos embora.

Três meses depois ocorreu o batizado e estávamos lá firmes e fortes. Camila nem tanto. Ela estava fragilizada por estar em um momento de tratamento. Magra, colocou um chapéu para disfarçar a falta de cabelos.

Mas aquele sorriso estava lá. Aquele sorriso que me cativou tanto. Aquele sorriso que me apaixonou de imediato e me apaixonava todos os dias. 

O tratamento de Camila continuava e chegamos a ter boas notícias. Em determinado momento o médico disse a Camila que o câncer desaparecera, mas que aquela notícia não era definitiva, pois existia risco de voltar.

Mas evidente que era uma excelente notícia.

Tivemos meses felizes, em paz. Osmar acabou convencendo minha mãe a abrir filiais do mercado e Camila virou uma espécie de diretora da nova empresa. Minha mulher sempre foi inteligente, com ideias rápidas e em sua mão o negócio de nossos pais ia de vento em popa.

Ela fazia exames regularmente para ver se o câncer estava realmente controlado. Os primeiros exames foram animadores, nada de alteração.

Mas infelizmente depois de seis meses a alteração veio.

Camila desmaiou no trabalho e foi levada ao hospital. Lá foi constatada que a leucemia voltara e mais agressiva ainda. Minha esposa ficou internada e eu aflito por notícias que ninguém conseguia dar. Até que o médico convocou a mim e a seu pai para uma conversa.

Fomos até sua sala e no local o médico disse que o caso era grave. Fiquei gelado no momento, acredito que meu coração parou por alguns segundos e não consegui esboçar nenhuma reação. Coube a Osmar ter a serenidade e fazer a pergunta óbvia.

“Grave como?”.

O medico respirou fundo e disse que a leucemia voltara pior e que Camila teria que fazer um transplante de medula. Teríamos que com urgência achar uma medula compatível.

Fechei os olhos e virei a cabeça para cima deixando uma lágrima cair do meu olho. Continuei em silêncio enquanto o médico falava que teria que ser um parente de primeiro grau pela possibilidade de compatibilidade ser maior. Osmar imediatamente disse “eu doou a medula”. O médico então contou que ele teria que fazer alguns exames para ver se a medula era compatível.

Saí da sala arrasado enquanto Osmar saiu com o médico para marcar os exames. Fui até o quarto onde Camila estava. Ela magrinha, com soro na veia e um respirador no rosto que me cortavam o coração me viu e esboçou um sorriso. Fui até seu encontro e beijei sua testa. Camila abaixou o respirador e perguntou o que o médico dissera.

Respondi que ele disse que ela estava bem. Camila então perguntou “me ama?” e eu sorrindo em minha tristeza respondi “pra sempre”.

Osmar fez os exames e a sua medula não se mostrou compatível com a de Camila. Um desespero tomou conta de nós. O médico perguntou por mais algum parente de primeiro grau e Osmar respondeu que a menina era filha única. Até que minha mãe lembrou “Suely”.

Nos olhamos e eu decidido contei “Vou falar com ela”.     

Fui até a casa de Suely. Toquei a campainha e falei com a empregada que precisava falar com urgência com sua patroa. Ela foi chamar e Suely desceu.

Suely se aproximou e perguntou o que eu fazia ali. Sem rodeios respondi “A Camila dona Suely. Ela precisa urgente de um transplante de medula e precisa que o doador seja um parente de primeiro grau. Seu Osmar não é compatível, só restou a senhora. Te imploro, salve meu amor”.

Suely me olhou por alguns segundos e respondeu “vamos”.

Fomos para o hospital e entramos no quarto de Camila no momento em que ela estava com Osmar e minha mãe. Camila tomou um susto e abriu um sorriso dizendo “mãe!!.

Suely se aproximou, fez carinho na cabeça da filha e respondeu “vim fazer os exames, você vai sair dessa”.

Suely fez todos os exames e pouco tempo depois recebemos o resultado. Infelizmente não deu certo.

O chão desapareceu para nós. Devastados nos comovíamos e tentávamos não nos entregar quando ouvi um choro compulsivo, desesperado. Quando olhei era Suely.     

A mulher chorava desesperada e repetia “Faz de novo doutor, faz esse exame de novo, minha filhinha não poder morrer!! Minha filhinha não!! Ai meu Deus!! Eu amo minha filha!! Meu perdoa meu Deus!! Me perdoa!!”.

De repente Suely ganhou um abraço forte e correspondeu chorando em seu ombro e pedindo perdão a Deus. Foi de minha mãe.

Camila iniciava uma via crucis. Melhorava saía do hospital, piorava e voltava. Existiam certas ocasiões em que ela recebia alta de dia e voltava a noite. Era um inferno, um pesadelo.

Um dia, internada, enquanto eu estava na recepção ouvi uma voz me perguntando “Qual o quarto que ela está?”. Olhei e tomei um susto. Era Guga.

Fiquei sem falar nada e ele repetiu a pergunta. Apontei respondendo “segunda a direita”.

Guga caminhou até lá e entrou. Respeitei e fiquei do lado de fora esperando. Exatos cinco minutos depois ele saiu. Nos encaramos, olhos nos olhos, e ele me pediu “cuida dela”.

Respondi que cuidaria. Ele agradeceu e viu Samuel. Os dois caminharam para o lado de fora conversando.

Entrei no quarto e encontrei Camila emocionada, chorando. Aproximei e não disse nada. Camila virou para mim e falou “ele me perdoou”. Respondi apenas “que bom” e ela afirmou “sabe o que isso quer dizer? Ele acha que eu vou morrer”.

Respondi que era nada disso e ela continuou “Não ocorreu nada, nenhum motivo especial para que ele viesse aqui e me perdoasse. O único motivo plausível é que ele acha que eu vou morrer e veio para não carregar esse peso na consciência”.

Argumentei que as pessoas amadureciam, esfriavam a cabeça e aquietavam o coração, mas ela continuou chorando.

Camila continuou internada. Vários tratamentos eram tentados o que prejudicavam sua saúde ao tentar salvar sua vida. Já caminhava com dificuldades e passava boa parte do tempo dormindo.

Já estava internada há dois meses e chegou nosso aniversário de casamento. Levei Gabriel e fomos os três até um parquinho que tinha no hospital. Ele foi para o balaço enquanto eu a conduzia em sua cadeira de rodas até um cantinho.

Sentei ao seu lado e disse que tinha um presente para ela. Curiosa Camila perguntou o que era e entreguei uma caixinha de músicas. Camila abriu e tocou “Don´t want to say goodbye”.

Camila ouviu nossa música e disse “Don`t want to say goodbye, não posso dizer adeus”. Nos olhamos e como se pedisse Camila falou “eu não quero morrer”.

Abracei minha esposa dizendo que ela não iria morrer. Viramos e ficamos vendo Gabriel brincar. Camila pediu que eu cuidasse bem dele. Respondi que iríamos cuidar, juntos, e dei um beijo em sua cabeça.

Ficamos em silêncio, abraçados, vendo nosso filho brincar.

Minha mãe levou Gabriel embora e como era um dia especial decidi que tornaria a noite especial. Voltamos para o quarto e peguei Camila em meus braços para deitá-la na cama. Ela pediu “Não me deite na cama, me dê seu celular”.

Não entendi, mas entreguei.

Camila mexeu no celular até conseguir colocar uma música. Botou “El dia que me queiras”. 

Camila me pediu “me ajude a dançar”.

Coloquei minha mulher em pé no chão. Ela bambeou, mas conseguiu e firmar em pé. Dançamos a música lentamente. Dançamos com o mesmo sentimento, a mesma intensidade de quando ganhamos o concurso de música. Mas naquela noite tinha um algo a mais. Eu não sabia responder.

Coloquei Camila na cama e aproveitando que não tinha nenhuma enfermeira pra me encher deitei ao seu lado. Ficamos abraçadinhos e enquanto eu fazia carinho nela Camila me perguntou “me ama?”. Respondi “Pra sempre”.

Depois ficamos em silêncio até adormecemos. Não trocamos uma palavra, apenas silêncio, apenas olhares.

Como diz um poeta e compositor amigo meu chamado Aloisio Villar “o amor é uma poesia recitada pelo olhar”.

Na manhã seguinte fui até a cantina tomar café. Tomava uma xícara olhando a tv quando ouvi alguém comentar “tira esse bicho daqui!! Abre a janela para que saia!!”.

Quando, curioso, olhei para ver o que era meu coração parou.

Era uma borboleta voando.

Lentamente deixei a xícara cair no chão se espatifando toda. Gritei por Camila e saí correndo.

A corrida mais desesperada da minha vida.



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A RETOMADA

2 comentários:

  1. Como sempre, belo texto, amor...
    "...na saúde e na doença..."
    Chorei...
    Muito sutil e bonito...

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  2. Acompanho suas histórias e peças aqui e no Recanto das Letras. Posso dizer que Camila é uma das personagens mais fortes e admiráveis que já tive o prazer de conhecer. Corajosa, que transmite carinho e ternura. Como leitora, peço licença pra dar uma dica: homenageie Raspberries no ''Sobe o som'', Camila merece isso. Sucesso

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