quarta-feira, 22 de julho de 2015

GHIGGIA: O POETA DE NOSSA DOR





E morreu Ghiggia...

O ícone, a lenda. O único ainda vivo daquele que ouso dizer ser o maior jogo da história do futebol, portanto, Ghiggia foi o autor do gol mais importante desde que os homens das cavernas fizeram de bola a cabeça de um tiranossauro rex morto na queda do asteroide.

Uruguai 2 x 1 Brasil é provavelmente o jogo mais longo da história, dura 65 anos e também provavelmente é a primeira história que uruguaios e brasileiros aprendem depois da Chapeuzinho vermelho e da Branca de neve. Todos nós estivemos naquele jogo no Maracanã em 16 de julho de 1950, mesmo os que nasceram muito depois lembram perfeitamente de todos os lances da partida e daquele gol. 

Aquele gol.

O gol do silêncio. O gol mais silencioso que já existiu. O maior de todos os silêncios. Alcides Ghiggia não calou apenas o maior estádio do mundo, calou um país. O silêncio que Ghiggia provocou no segundo tempo daquela partida acompanhou a alma dos 11 jogadores da seleção brasileira para o resto de suas vidas. Castigou Barbosa e lhe fez ser mais odiado que corruptos e safados que habitam por essa terra tupiniquim desde 22 de abril de 1500.

Num país sem grandes guerras pra contar Ghiggia foi nosso inverno russo ou nossa batalha de Waterloo. A nossa bomba de Hiroshima numa comparação descabida e concebida apenas em países que não conhecem o horror de uma bomba atômica. Ghiggia nos provocou dor, sofrimentos, traumas imortais, mas não lhe odiamos.

Não odiamos porque Ghiggia foi o carrasco gentil. O malvado do bem. Um homem que, como aqueles 22 homens que orgulharam e fizeram história no futebol mundial naquela tarde de 1950, sabia lutar o bom combate. Com honra, respeito e compaixão.

Compaixão com os vencidos. Com a dor de quem perdeu. Ghiggia nunca nos tripudiou, sempre foi cortês com o Brasil e nosso futebol assim como o mais velhos nos contam sobre as inúmeras lendas surgidas após o apito final do juiz.

Faltava ele para a forra. Agora Obdulio Varella vira para Zizinho e Ademir dizendo que podem começar a revanche. Barbosa grita com Juvenal e manda que ele tome cuidado com a ponta do campo, para não se esquecer que o recém chegado gosta de surpreender e chutar em vez de cruzar.
O juiz apita, a torcida formada por uma legião de anjos grita. Começou a revanche.

Nunca saberemos o resultado e ele pouco importa. O que importa é sabermos que o bom futebol e o homem de respeito vão para o céu.

Certeza que Ghiggia foi pra lá. Deixando órfãos milhões de uruguaios que lhe veneram. Deixando o agradecimento de milhões de brasileiros por fazer parte de sua história.

Descanse em paz Ghiggia, o mais adorável vilão da história do futebol brasileiro.

Tem vitórias que nos envergonham e fracassos tão gloriosos que dão até orgulho e a copa de 1950 e suas histórias são muito encantadoras para serem contadas com tristeza.

Se um dia pudesse ter visto o Ghiggia teria apertado sua mão e dito "Obrigado por nos fazer sofrer de forma tão bonita" Existe poesia na derrota e Ghiggia era o poeta de nossa mais doce lágrima.



O poeta da nossa dor.


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