terça-feira, 12 de novembro de 2013

TODO MUNDO TEM SEU PREÇO




Conto da coluna "O buraco da fechadura" publicado no blog "Ouro de Tolo" em 09/03/2013

Orlandinho era aquele tipo que nos habituamos a chamar de “bad boy”. Filhinho de papai rico sempre teve tudo na mão, nunca precisou se esforçar para nada, nem para pegar um copo de água na geladeira.
Era filho de Antenor Graviota. Poderoso industrial que ao contrário do filho sempre batalhou na vida. Imigrante italiano chegou ao Brasil com uma mão na frente e outra atrás. Lavourando e trabalhando no comércio conseguiu criar um império com influência em vários setores da sociedade e no governo.
Ficou viúvo logo após o nascimento de Orlandinho e com a série de compromissos que tinha acabou se tornando um pai ausente. Orlandinho foi criado pelas empregadas e assim nunca conheceu a palavra “limite”.
Não foram poucas as vezes que criou arruaças na rua, se envolveu em pancadaria, confusões generalizadas e parou em delegacia.  Antenor já deixava um dinheiro com assessores para a fiança do rapaz. Quando ele ligava para casa de madrugada já sabiam o que era.
Além de arruaceiro, bad boy Orlandinho era um sedutor nato, aliás, isso com dinheiro é muito mais fácil. Vivia em prostíbulos fazendo orgias, bebendo uísque e gritando que o dinheiro comprava tudo, até o amor verdadeiro. Achava que poderia ter a mulher que quisesse, os amigos que quisesse. Pessoas para ele eram como carro e roupa que ele chegava, achava legal e comprava.
Chegava de manhã em casa bêbado, caía na cama e só acordava no meio da tarde pra pegar o telefone e com amigos combinar qual seria a arruaça do dia.
Orlandinho era tão safado, tão irresponsável, tão desprezível que um dia ainda acabaria deputado.
Mas teve um dia que extrapolou.
Ligou para Ananias, seu melhor amigo e combinou ida a uma boate que seria inaugurada naquela noite. Ananias era uma espécie de capacho dele. Era pobre, seu pai trabalhou por um tempo na casa dos Graviota, cresceram juntos e fizeram amizade.
Orlandinho comprou um carro novo naquele dia e a noite passou na casa de Ananias para pegá-lo. Encaminharam-se para a boate e nem precisaram pegar fila por serem vips.
Pegaram uma mesa, encheram de bebida e logo já estavam cheios de mulheres para acompanhar. Orlandinho bebeu muito naquela noite, sentia-se um rei, um sultão com seu harém. Colocava mulheres em seu colo e notas de cem reais nos decotes. Acendeu um charuto, deu uma tragada e gritou “eu sou o cara”.
Passou um tempo e disse para Ananias que precisava ir ao banheiro. Levantou-se cambaleante de tanta bebida que tomara e viu uma loira espetacular no caminho. Decidiu mudar sua trajetória e em vez de ir ao banheiro foi até a loira. Chegou em seu ouvido e disparou “quanto você quer pra me fazer um oral lá no banheiro?”.
A mulher sentindo-se ofendida deu um tapa na cara de Orlandinho e seu namorado chegou perguntando o que acontecera. Orlandinho folgado respondeu que o assunto era com a loira, não com ele e ela contou tudo ao homem.
O cara furioso deu um soco no rosto de Orlandinho e uma confusão generalizada se iniciou na boate. Garrafas e mesas voavam por todos os cantos e no fim a polícia chegou levando todo mundo.
Orlandinho já chegou na delegacia cumprimentando a todos, velhos conhecidos e foi levado direto pra cela com Ananias. O playboy olhou o relógio e comentou com o amigo que esperava que os assessores do pai não demorassem muito, pois, estava com sono.    
Algum tempo depois chegou o próprio Antenor em pessoa para surpresa de Orlandinho que falou “pai, o senhor pessoalmente, que honra!!”.
Segue-se o diálogo tenso..
Antenor: Honra o cacete, dessa vez você extrapolou todos os limites!!
Orlandinho: Ah pai, não exagera, foi o de sempre.
Antenor: Não foi o de sempre, você quebrou a boate toda de um policial e o pai dele é juiz de direito, você extrapolou tudo, terei um enorme prejuízo.
Orlandinho: Ops..
Antenor: Ops? Ops? Vai dormir hoje na cadeia pra pensar em seu ops..
Orlandinho tentou apelar em vão, o pai foi embora e ele pela primeira vez passaria a noite na cadeia. Olhou o restante da cela, cheio de caras mal encarados e preocupado soltou a pérola.
- Nem tentem me comer, tenho AIDS.
Na manhã seguinte ele e Ananias foram liberados. Cheio de sono ao chegar em casa foi direto para o quarto e desabou na cama. Nem cinco minutos depois o pai invadia o lugar e mandava ele acordar.
Orlandinho tentava colocar o travesseiro sobre a cabeça para não acordar, mas o pai pegou o objeto, arremessou longe e mandou que ele levantasse para trabalhar.
Orlandinho riu e falou que a piada era boa, mas Antenor continuou sério e respondeu que tinha piada nenhuma, era sério, ele teria que pagar o prejuízo da boate.
Orlandinho começou a acreditar, viu que sua situação estava preta e tentou argumentar, mas em vão. Antenor irredutível ordenou que Orlandinho estivesse em uma hora no escritório da Tijuca, seria o novo chefe do local.
Bateu a porta saindo e Orlandinho ligou na hora para Ananias mandando que o rapaz levantasse da cama e fosse em sua casa. Meia hora depois Ananias estava lá e encontrou um Orlandinho vestido de terno e gravata. Riu perguntando qual era a armação e Orlandinho sério respondeu que era bom que ele estivesse vestido da mesma forma no dia seguinte no segundo dia de trabalho deles.
Ananias gargalhou e Orlandinho continuou sério e aí o rapaz percebeu que não era brincadeira. Perguntou o que ocorria e Orlandinho respondeu que teria que assumir o escritório da Tijuca para pagar o prejuízo da boate e ele seria seu assessor.
Ananias tentou fugir da situação contando que nem da família era e tinha nada a ver com a história e Orlandinho respondeu que se ele não fosse acabaria a mamata, não levaria mais o rapaz em suas noitadas. Resignado Ananias aceitou e disse que Orlandinho era bom de chantagem.
Foram ao escritório para o primeiro dia de trabalho e Orlandinho quando entrou se sentiu em sua Disneyworld particular. Mulheres, muitas mulheres lindas, gatas, tremendos aviões. Orlandinho cutucou Ananias e pediu que ele prestasse atenção naquelas coisas lindas, mais cheias de graça. Ananias sorriu e respondeu que trabalhar não seria tão ruim.
Sim, Orlandinho e Ananias começaram a trabalhar no local e sim trabalhar era uma expressão muito mentirosa, os patifes fizeram tudo, menos trabalhar. Eram festas todos os dias, secretárias e afins caíam no papo e no bolso de Orlandinho e transformaram aquele escritório num tremendo pardieiro. A vida de festas do playboy continuou só que não era mais em boates e sim no trabalho. 
Os rapazes “passaram o rodo” em todas as mulheres do escritório. Fossem casadas, solteiras, viúvas, velhas, novas, loiras, morenas, mulatas, anãs, gordinhas nenhuma escapou da fúria sexual da dupla. Em determinado momento Orlandinho e Ananias já estavam entediados na sala do playboy, já conquistaram todas, levaram todas para a cama. Nada restava.
Orlandinho e Ananias jogavam cartas na sala de Orlandinho e o patrão disse que estava entediado e eles teriam que arrumar algo pra fazer. Ananias propôs que eles trabalhassem um pouco e Orlandinho perguntou se ele estava louco.
Ananias então perguntou se o amigo tinha alguma ideia e Orlandinho respondeu que sim, mandou que Ananias desse uma volta pelo escritório pra ver se achava algo interessante.    
Assim que Ananias saiu voltou esbaforido e pediu a Orlandinho que fosse a porta ver uma coisa. O rapaz foi e quando viu ficou louco. Uma mulata espetacular bebia água no bebedouro. Orlandinho perguntou a Ananias quem era e ele não soube responder.
Ananias devolveu a pergunta e disse que Orlandinho tinha que saber, ele era o chefe. O rapaz olhou bem e respondeu que claro que não sabia quem era, ele tava nem aí pras decisões da empresa.
Orlandinho apressou-se em ir até o bebedouro e cumprimentou a mulata, perguntou seu nome e ela respondeu Joyce. Orlandinho então se apresentou dizendo ser o chefe do local e herdeiro de todo aquele império.
Joyce bebeu um gole de água, respondeu “legal” e foi embora deixando Orlandinho plantado sozinho. Ananias viu aquela cena e não acreditou indo até o amigo e contando que fora a primeira vez que viu o rapaz ser tratado friamente por uma mulher.
Orlandinho respondeu que aquilo não ficaria assim e a mulher seria dele.   
No dia seguinte convocou Joyce até sua sala. Ela entrou e mandou que a moça se sentasse. Joyce sentou e Orlandinho mandou que pegasse um bloco, caneta e fizesse uma anotação.
Joyce se preparou pra anotar e Orlandinho mandou que ela anotasse seu convite para jantarem mais tarde. Joyce parou de anotar e olhou para Orlandinho que acendeu um charuto e mandou que ela passasse seu endereço que lhe pegaria as oito.
Joyce olhou sério para patrão, levantou-se e contou que era noiva e que se aparecesse algum assunto profissional que lhe chamasse. Virou-se e saiu da sala quase que atravessando sobre Ananias que entrava.
Orlandinho surpreso via a mulher saindo e Ananias comentou que por sua cara devia ter dado tudo errado. Orlandinho enfurecido socou a mesa e disse que aquela mulher seria sua, Ananias mandou que ele desistisse porque Joyce não era igual as outras e Orlandinho insistiu que seria dele.
E o rapaz insistiu, insistiu, mas arrumava nada com Joyce, já entrava em desespero por não saber como conquistar a mulher. Na verdade estava até se apaixonando, não queria mais saber de farras, de outras mulheres, queria Joyce.
Ananias preocupou-se com o amigo. Tentou apresentar mulheres, levar para a noite, mas Orlandinho não queria. Comentou brincando que a única solução seria que ele pagasse.
Orlandinho levou a ideia a sério e gritou “é isso” mandando que Ananias chamasse a moça imediatamente. O amigo ainda tentou argumentar que talvez não fosse uma boa ideia, mas ele não quis ouvir.
Joyce entrou na sala e perguntou o que o patrão queria. Orlandinho pegou um talão de cheques, preencheu e deu um na mão de Joyce mandando que ela lesse o que estava escrito ali. Joyce leu “cem mil reais”. Orlandinho de bate pronto falou “é seu”.
Joyce sem entender nada pediu que ele explicasse. Orlandinho então contou que daria cem mil reais por uma noite com ela, apenas uma noite. Joyce fraquejou vendo o cheque e aquele monte de zeros e gaguejando respondeu que era noiva.
Orlandinho pegou o cheque de volta e disse que aquele dinheiro era o suficiente para ela casar e iniciar a vida com o marido. Joyce tremeu na base e balbuciou “não sei”. Orlandinho deu até o fim do expediente para a moça decidir.
Joyce saiu da sala, Ananias entrou perguntando como foi e Orlandinho respondeu “batata, ela vai topar!!”.
O dia demorou pra passar. Orlandinho ansioso olhava o relógio e parecia que os ponteiros andavam mais devagar até que deu a hora e ele foi atrás da mulata. Encontrou Joyce e perguntou sua resposta.
A moça sem conseguir encarar Orlandinho nos olhos perguntou “apenas uma vez?”. Orlandinho entusiasmado respondeu que sim, só uma noite e Joyce perguntou quando, Orlandinho respondeu no dia seguinte a noite e entregou um cartão com seu endereço dizendo que lhe esperava lá e ela nem precisava trabalhar no dia seguinte para se preparar.   
Chegou o dia e Orlandinho, uma pilha de nervos, comprou champanhe, flores e mandou que Ananias comprasse algo especial para o encontro.  O rapaz voltou com uma calcinha vermelha e Orlandinho disse que era uma boa ideia, pediria para Joyce usar.
Combinaram de filmar e Ananias se escondeu para que não perdesse nenhum momento. A campainha tocou e ansioso Orlandinho correu para atender. Era Joyce.
A moça entrou e Orlandinho entregou as flores. Ela agradeceu e perguntou pelo cheque. Orlandinho perguntou se ela não queria beber antes e Joyce respondeu que não, queria o cheque. Orlandinho abriu a carteira e entregou o mesmo para a moça. Cem mil reais. 
Joyce olhou bem, agradeceu e se despediu de Orlandinho virando-se em direção a porta. O rapaz perguntou que brincadeira era aquela e Joyce tirou o celular do bolso ligando em uma gravação.
Era de Orlandinho assediando Joyce. O rapaz ouvia a gravação e Joyce contou que tinha mais, de todas as vezes que o rapaz lhe assediou, inclusive com a proposta indecente e perguntou se ele queria que levasse para a polícia e a imprensa. Seria péssimo para os negócios do pai.
Orlandinho branco feito papel sentou-se no sofá e ficou quieto, Joyce disse “ótimo” colocou o cheque na bolsa dizendo que aquele valor bastava para seu silêncio. Foi até a porta, virou-se, disse “até amanhã chefinho” e foi embora.
Orlandinho continuava estatelado no sofá quando Ananias apareceu perguntando “e agora?”.Orlandinho olhou a calcinha vermelha que segurava, olhou para Ananias e entregou a peça na mão do amigo dizendo “toma, veste”. 
Ananias olhou o amigo, deu um sorrisinho de canto de boca e foi ao banheiro vestir.
A vida às vezes surpreende


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