sábado, 2 de novembro de 2013

ERA DA VIOLÊNCIA 2: CAPÍTULO VII - JOÃO ARCANJO




Entrei na sala de aula, dei boa noite e contei que era meu primeiro dia como professor. Quando fui contar meu nome alguém gritou “Sabemos, Gilberto Martins”. É, sou popular.

João Arcanjo estava em sala de aula, assim como Rui de Santo Cristo, mas eles não se conheciam ainda, pelo menos na fase adulta. Luciana também não. Depois vocês verão quem é Luciana e sua importância na história.

Respondi que sim, eu era Gilberto Martins, jornalista profissional a um bom punhado de anos e que como eles imaginariam eu tinha muita história para contar. Meu primeiro dia foi mais palestra que qualquer coisa. Contei sobre minha vida, inclusive os detalhes sórdidos e consegui uma boa interação com os alunos.

Saí de sala de aula me sentindo vitorioso e até Lucinho veio me cumprimentar. Eu andava pelo corredor e o fantasma ao lado com óculos estiloso me perguntava se ele não poderia ser um bom jornalista.

Respondi a ele que não. Ele era bandido, pior, fantasma e fantasmas não podem ser nada, apenas fantasmas e assombrar as pessoas.

Antes de entrar na sala da próxima aula ainda tive que aturar Lucinho me chamando de preconceituoso.

Dei mais três aulas na noite e percebi que nascera para aquilo, era minha vocação. Saí feliz da faculdade mandando uma mensagem por celular para Bia contando que tudo dera certo e parti com o carro.

Andei apenas alguns metros com ele e senti que perdeu potência. Perdia, perdia até que parou de vez. Furioso, desci do carro, abri o capô e saiu uma fumaceira. Peguei o celular, liguei para algumas oficinas que eu conhecia. Todas fechadas.

É. O dia estava muito bom para ser verdade. Agora estava no começo da madrugada em um lugar deserto e carro enguiçado. Só faltava aparecer algum maluco querendo abusar do meu corpo.

E apareceu.

Não para abusar do meu corpo, mas para ajudar. Enquanto eu xingava até a décima oitava geração dos japoneses que fizeram meu carro ouvi uma buzina acompanhada de um “Tudo bem professor?”.

Era João Arcanjo.

Olhei para ele sem reconhecer. João sorriu e disse “Sou seu aluno da turma 102A. Vi o senhor aí em apuros e queria ajudar”. Aliviado por perceber que era uma figura conhecida sorri e respondi que não sabia qual era o problema do carro.

João desceu e disse “Sou farmacêutico, não entendo tanto de carros, mas posso dar uma olhada”.

Agradeci. Deu uma olhada, mexeu aqui e ali, no carro diga-se de passagem e respondeu. “Problema no radiador, só levando a oficina”.

Feliz da vida me perguntei o que faria. João perguntou para qual lado eu iria e respondi. João perguntou “Eu vou pra lá, quer carona?”.

Argumentei que o carro ficaria sozinho e João respondeu “Esse lugar é deserto, ninguém vai mexer nele, além do mais ele está quebrado. Nem anda”.

Aceitei a carona.

Conversamos durante o trajeto e ele me contou um pouco sobre sua vida. Fiquei sabendo que ele era o famoso garoto sequestrado da Haddock Lobo. Caso que deu bastante repercussão quase vinte anos antes. Lembrei que na época estava na cadeia, em minha primeira prisão e um dos acusados parou lá em nosso pavilhão.

João contou que esse homem morreu como todos os envolvidos no caso. Eu, jornalista vinte e quatro horas por dia, perguntei se ele não achava estranhas essas mortes. João respondeu que não, se mataram por dinheiro.

Perguntei se o assunto incomodava João. O farmacêutico respirou fundo e respondeu “Faz parte da minha vida, não tenho como esconder. Incomoda, tive sequelas, traumas, mas a vida continua, não é verdade?”.

Sim. É verdade.

Ele me deixou em casa, agradeci e desci. Entrando no apartamento fui direito ao computador saber mais sobre o sequestro da Haddock Lobo. Saber mais sobre João Arcanjo.

João Arcanjo era filho único de Delcimar e Paulo Arcanjo. Paulo era também filho único, de um empresário poderoso dono de uma rede de lojas de tecidos. Salvador Arcanjo.

Delcimar era empregada na casa dos Arcanjos e Paulo se apaixonou à primeira vista por ela. Delcimar resistiu o quanto pôde imaginando que ele só queria brincar com ela, mas aos poucos Paulo foi vencendo a resistência. Delcimar era virgem, Paulo também e juntos tiveram a primeira noite de amor.

A menina engravidou dessa transa e Salvador foi terminantemente contra o namoro. Tentou que Delcimar abortasse, ofereceu dinheiro para que isso ocorresse, mas ela se recusou. Paulo comprou briga com o pai que lhe expulsou de casa e jurou que lhe deserdaria.

Sim. Roteiro de novela das 18 horas, mas era a vida da família Arcanjo.

Paulo foi embora só com a roupa do corpo e com dinheiro economizado de mesadas alugou um quarto e sala na Tijuca. Delcimar foi demitida da casa dos Arcanjos, mas conseguiu trabalho em outra residência. Paulo arrumou emprego em uma farmácia e dessa forma os dois foram se virando como podiam.

Casaram em uma cerimônia simples e alguns meses depois ganharam o único filho. João Arcanjo. Delcimar teve problemas durante o parto e não poderia mais engravidar.

O tempo foi passando e a situação melhorando aos poucos. Paulo virou gerente da farmácia e ainda arrumou um segundo emprego como entregador de jornal. Acordava antes do galo cantar e de bicicleta entrega jornais por toda a Tijuca. Delcimar parou de trabalhar como empregada e começou a fazer doces e bolos em casa.   

De tanto economizarem e juntarem dinheiro Paulo conseguiu comprar uma farmácia. Isso tudo sem depender do dinheiro do pai, sem ter mais contato com ele. O que dava um grande orgulho.

Mais alguns anos se passaram. João já tinha sete anos de idade e era um garoto cheio de vida e estudioso. Orgulho da família. Família que já tinha condições de morar em um lugar melhor e alugou um apartamento na rua Haddock Lobo, na Tijuca mesmo.

Enquanto a família fazia a mudança um menino montado em uma bicicleta observava tudo e chamou João perguntando se ele queria brincar.

Era Rui de Santo Cristo.

Como eu disse no começo do capítulo eles estavam na sala de aula, cada um em um canto e não se conheciam, mas na fase adulta. Eram amigos quando crianças.

João respondeu que não sabia se podia brincar porque tinha que ajudar os pais na mudança quando ouviu de dentro do prédio “Vá João, divirta-se”. Era o pai.

João pegou a bicicleta e assim foi passear com Rui que era dois anos mais velho. João Arcanjo e Rui de Santo Cristo dessa forma estabeleciam amizade. Rindo, passeando e indo até um parquinho que era o preferido de Rui.

Tornaram-se muito próximos. Mais alguns anos se passaram e Rui mesmo sendo de uma turma mais velha levava João para todos os passeios. João tornou-se o mascote da turma. Rui também protegia João no colégio, principalmente quando via que alguém queria provocar bullying no amigo. Rui dizia “Com o João Arcanjo ninguém mexe”.

Foi Rui que fez a ponte entre João e uma menina que ele ficou afim em um bailinho. Fez questão de ir até a garota e levá-la até João. Apresentou um ao outro e lhes deixou a sós pra se conhecerem melhor. Não durou muito para surgir o beijo e no fim da noite pra comemorarem Rui pagou a João uma saideira no bar da esquina de casa.

Saideira de refrigerante, que fique bem claro.

Amizade forte. Daquelas que guardamos para sempre.

Já fazia uns cinco anos daquela amizade quando um escândalo tomou conta da rua. Inácio de Santo Cristo foi preso acusado de pedofilia. Tirara fotos nuas e abusara de algumas menores. Foi solto alguns dias depois por insuficiência de provas, mas sua imagem já estava arruinada.

Todos nas redondezas viravam a cara para a família. A situação ficou insustentável e a família “Santo Cristo” teve que se mudar.

João correu de bicicleta para a rua e chegou a tempo de ver a família do amigo colocar as últimas coisas no caminhão. João se aproximou de Rui com lágrimas nos olhos pedindo para que o amigo não fosse embora.

Rui respondeu “Engole o choro que isso é coisa de bicha”. Pediu que João estendesse um dos dedos polegares. João estendeu e Rui furou o dedo saindo sangue.

João deu um grito de dor enquanto Rui furava seu próprio dedo e juntava ao dedo de Rui dizendo “Pronto, nosso sangue se misturou, somos irmãos pra sempre”.

João sorriu enquanto Inácio gritava por seu filho pra partirem. Rui deu um tapa na cabeça do amigo e disse “A gente se vê por aí”.

Assim Rui de Santo Cristo partiu e João Arcanjo ficou sem o amigo.

Mas as coisas estavam para piorar. 

Um dia João desapareceu. A pedido da mãe saiu para fazer compras em um supermercado próximo e não voltou. Os minutos passavam e Delcimar se aborreceu com o filho reclamando por sua demora “Esse menino vai topar uns tabefes quando chegar” comentou Delcimar.

Só que além dos minutos as horas passavam. Paulo chegou em casa e Delcimar mostrou preocupação ao marido pelo sumiço do filho. Paulo mandou que a mulher não se preocupasse e pegou o carro para procurar.

Voltou algum tempo depois com ar preocupado dizendo “Nada Delcimar”. A mulher se desesperou e começou a chorar. Paulo abraçou a esposa e disse “Calma mulher, vai ficar tudo bem”.

Chamaram a polícia e enquanto prestavam depoimento o telefone tocou. Paulo atendeu. Era um sequestro.    

Paulo ouviu a tudo quieto e desligou. Sentou-se e contou que os sequestradores pediram um milhão de reais para soltar o filho senão matariam o menino. 

Delcimar começou a chorar desesperadamente enquanto Paulo apenas apoiou a cabeça nos joelhos.

O caso ganhou repercussão. A imprensa “caiu dentro” da história chamando de “O sequestro da Haddock Lobo”. Era questão de honra para a polícia a resolução do caso e entre os que investigavam estava Rodrigo Saldanha, sim, aquele que virou secretário de segurança.

Paulo não tinha como arrumar o dinheiro. Não era rico e sim seu pai. Tentava argumentar com os sequestradores que diziam estar perdendo a paciência. Paulo implorava para que libertassem o filho e ao telefone o sequestrador ordenou “Peça a seu pai”.

Paulo contou que o pai não falava com ele e antes de desligar o sequestrador disse “Vou provar que estou falando sério”.

Dois dias depois o casal estava na sala do apartamento com a polícia quando tocaram a campainha. Era dos correios com uma encomenda para Paulo Arcanjo. Uma caixinha.

Tenso Paulo pegou a caixinha e a polícia mandou que ele abrisse. Lentamente o homem desfez o laço que protegia a caixa e abriu a mesma.

Assustado, largou a caixa no chão e virou para o lado pra vomitar.

Um policial pegou a caixa no chão e viu o que era. Era um pedaço da orelha de João Arcanjo.

Delcimar entrou em estado de choque e teve que ser internada. Paulo teve que segurar a barra toda sozinha em desespero. Não tinha dinheiro, não sabia o que fazer.

Até que recebeu uma visita. Era seu pai. Salvador Arcanjo.

Paulo ao ver o pai apenas balbuciou “pai”. Salvador tirou os óculos escuros e comentou “Vi que sequestraram o garoto e arrancaram sua orelha. Por quê não me procurou?”. Paulo respondeu que o pai não queria saber deles e o homem respondeu “Somos uma família Paulo”. Paulo Arcanjo emocionado abraçou o pai.

Salvador Arcanjo arrumou o milhão de reais pedido pelos sequestradores e levou ao lugar marcado. A polícia tentou armar um flagrante, mas foi ludibriada com os bandidos conseguindo levar a grana sem serem percebidos. Todos no apartamento da família Arcanjo esperavam ansiosos por notícias quando o telefone tocou.

Na ligação um homem dizia para procurarem por um Santana abandonado na estrada Grajaú Jacarepaguá.

Paulo e Salvador Arcanjo foram ao local acompanhados pela polícia. Rodrigo Saldanha pediu que os dois ficassem afastados enquanto a polícia vasculhava o carro. Abriram o porta malas.

E lá estava João Arcanjo amarrado, com venda nos olhos, pano na boca e nu.

Libertaram João e o levaram pra casa. Chegando na rua um grande conglomerado de pessoas esperava pelo menino. Imprensa toda no local disparando flashes e tentando ouvir alguma coisa de um abatido João que entrou cercado pela polícia no prédio.

Alguns suspeitos surgiram, mas misteriosamente antes que a polícia metesse as mãos neles um a um foi sendo eliminado. O dinheiro nunca mais foi localizado e aos poucos João foi se recuperando.

Fez uma cirurgia reparadora na orelha onde ninguém conseguiria dizer que a mesma foi decepada. Paulo e Delcimar fizeram as pazes com Salvador e a vida continuou.

A família Arcanjo parecia livre da violência.

Anos depois Paulo e João que já trabalhava com o pai na farmácia bebiam uma cervejinha no bar perto de casa em um fim de tarde quando o garoto disse que iria ao banheiro. Paulo ainda brincou dizendo “Leva o meu”.  

João foi e Paulo tomava mais um gole quando uma moto parou perto. O motoqueiro protegido pelo capacete desceu, sacou uma arma e fez três disparos contra Paulo Arcanjo que morreu na hora.

Um grande tumulto tomou conta do bar enquanto o motoqueiro subia na moto e saía em disparada. João saiu assustado do banheiro e viu o pai caído no chão baleado.

Desesperado correu em sua direção e pegou o pai nos braços com as pessoas em volta olhando.  Fez carinho em seus cabelos e gritou, mas parecendo um urro “Pai!!!”.

Estava morto, nada podia fazer.  

A violência não abandonara João Arcanjo.


ERA DA VIOLÊNCIA 2 (CAPÍTULO ANTERIOR)



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