segunda-feira, 11 de novembro de 2013

ESCOLA DO MEU CORAÇÃO: UNIÃO DA ILHA




Esse texto foi desenvolvido para o blog “Ouro de Tolo” a pedido de seu dono Pedro Migão. Ele pediu a amigos que cada um escrevesse sobre sua escola do coração e a mim ficou a missão de escrever sobre a União da Ilha. O texto foi publicado na terça 5/11/2013.  



UNIÃO DA ILHA E EU 


O dono dessa bagaça, Pedro Migão, pediu para que falássemos das agremiações de nossos corações e a ligação que temos com elas. Eu, muito feliz, topei e respondi que escreveria sobre a Tribo Cacuia, glorioso bloco da Ilha do Governador fundado em 22 de abril de 1500 e desde então campeão dos concursos de carnaval indígena do Cacuia. Mas ele me pediu que escrevesse sobre a União da Ilha e como também gosto muito da Ilha topei.

A União da Ilha foi fundada em 7 de março de 1953. Rapidamente se tornou a maior agremiação de nosso bairro e em 1974 venceu o grupo de acesso chegando ao grupo especial.

Eu costumo dizer que ao lado do aeroporto internacional do Galeão e do Peixão a União da Ilha é o maior orgulho de nosso bairro. O mundo conhece a União da Ilha. Ok, nem todo mundo deve conhecer, mas o mundo conhece pelo menos um de seus sambas.

Quem nunca ouviu Festa Profana? O Amanhã? É Hoje? Não lembra? Tudo bem refaço a pergunta. Quem nunca ouviu “Eu vou tomar um porre de felicidade / Vou sacudir eu vou zoar toda cidade”, “Como será o amanhã/ Responda quem puder / O que irá me acontecer / O meu destino será como Deus quiser” ou então “Diga espelho meu / Se há na avenida alguém mais feliz que eu”?

Ah. Agora você reconhece né? E surpreso deve perguntar “São da União da Ilha?”. Sim, são.

União da Ilha não tem os mais belos sambas do carnaval, reconheço, mas tem os mais conhecidos, os mais “festeiros”.  Qualquer baile de carnaval ou bloco que você for ouvirá samba da União da Ilha, se for a um estádio de futebol ouvirá, se for pro Tibet ou uma tribo no Xingu ouvirá, se for a um enterro ou for visitar a Dilma ouvirá.

Alguns dos versos criados pelos poetas da União da Ilha ganharam não só o carnaval como a história da música popular brasileira. Poetas da estirpe de Didi, Franco, Aroldo Melodia, Aurinho da Ilha, Leôncio, Robertinho Devagar, Waldir da Vala, Mestrinho, Bujão, J.Brito, Márcio André, Djalma Falcão, Almir da Ilha, Carlinhos Fuzil, Marquinhus do Banjo, Mauricio 100, Gugu das Candongas entre outros.

Poetas inatingíveis pra mim. Pessoas que eu via com a idolatria que via Zico, Leandro, Júnior, Andrade, Adílio, Renato, Bebeto, Romário, Pet..Não tinha diferença pra mim entre o Flamengo e a União da Ilha. O amor era o mesmo.

Virei torcedor da União da Ilha na apuração do carnaval de 1985. Eu até aquele momento era Mocidade porque vira no RJTV uma cartomante dizendo pro Castor de Andrade que a escola seria campeã e achei aquilo interessante. Queria ver se era verdade.   

Gostei do samba, virei Mocidade e assistia feliz uma apuração que se encaminhava para o título da escola de Padre Miguel quando no meio da mesma descobri que tinha uma escola do meu bairro, a Ilha do Governador, na disputa e sendo rebaixada.

Tentei por alguns minutos resistir, mas não consegui. Deixei de ser campeão com a Mocidade, a única vez que tive essa chance e virei Ilha para ser rebaixado. Depois “viraram a mesa” e a escola ficou.

Eu, com oito anos, me apaixonei pela União da Ilha. Nunca tinha pisado numa quadra de escolas de samba, ninguém dos meus contatos mexia com samba ou mesmo curtia. Nada a favor e mesmo assim eu me apaixonei por carnaval e a União da Ilha.

Algumas vezes acompanhado, na maioria sozinho. Mas sempre. Todos os anos eu ficava na frente da tv assistindo os desfiles. Todos e ansioso com a União da Ilha. Na época de minha infância e adolescência só tínhamos notícias de samba na época do carnaval e aquele era o momento da União da Ilha. Momento em que me esquecia do Flamengo e concentrava meu coração e emoção nela.

E quando ela entrava na avenida eu me arrepiava, me emocionava. Ligava rádio, tv não me importando a hora do desfile ou se eu estava no Rio ou no Mato Grosso como fiquei dois anos na adolescência. Aflito para que tudo desse certo, lágrimas de emoção quando alguém elogiava. Tensão e frustração na apuração com o título que não vinha, mas tudo bem, no ano seguinte tinha mais. 

Duro era ficar quase um ano sem notícias da escola. Mas lá estava eu em novembro ou dezembro comprando o LP ansioso para decorar o samba. 

Foi assim essa história de amor até que ela teve uma reviravolta brusca em 1997. Naquele ano eu lia o jornal “O Dia” e o Cláudio Vieira em sua coluna disse que na quinta-feira seguinte a União da Ilha distribuiria a sinopse de “Fatumbi, a Ilha de todos os Santos” aos compositores e que qualquer pessoa poderia pegar a sinopse e escrever.

Pensei “Por quê não?”. Fui até a escola pegar a sinopse.

Não conhecia ninguém, nem sabia o que fazer. Um dos compositores perguntou se eu já tinha escrito alguma vez e respondi que não. Assim fui até um dos camarotes da escola ouvir a palestra do Milton Cunha sobre o enredo e fui até a frente pegar a minha sinopse e dar meu nome.

Por quê eu fiz isso? Até hoje não sei. Um ato desses, de ir a um lugar que não conheço ninguém, fazer uma coisa que não tenho a mínima ideia do que seja, num ambiente que nunca frequentei é muita coragem, mais, eu diria que é loucura. Sempre fui um cara tímido, reservado, que me sentia ameaçado em um local sem conhecidos. Imaginem numa escola de samba?

Esse ato tem nada a ver com minha postura, meu jeito de ser. Nunca fizera algo assim antes e nunca mais fiz depois. Se fosse pra fazer hoje não faria. Mas fiz. Acho que foi coisa de Deus sei lá.

Lógico que me dei mal no começo. Não sabia nada, não conhecia nada. Indicaram a mim dois cantores que nunca tinha ouvido falar, fiz um samba sozinho nem nunca ter composto um,  não sabia que se usava torcida em disputa de samba ou mesmo cavaquinho. Assim fui pro concurso e lógico que caí de cara.

Assim como caí nos três anos seguintes.

Outro fato que tem nada a ver com minha personalidade. Fracassar e insistir. Sempre desisti fácil.

Mas a coisa foi acontecendo, mesmo fora da União e voltei pra escola em 2009 para ser finalista, fui de novo em 2011. Até que..

..Até que para o carnaval de 2012 realizei um feito que aquele garoto que via pela tv, tinha a escola como alvo de paixão e seus baluartes como ídolos nunca imaginou. Eu me tornei um deles.

Foi junção, foram apenas quatro versos, mas me tornei campeão de samba-enredo da União da Ilha. Sim “seu moço”, meu nome está lá. Se você consultar o site oficial da escola, algum livro sobre sua história e for até o ano de 2012 meu nome está lá como um dos campeões da escola.

Hoje muitos daqueles baluartes são meus amigos e faço sambas com eles para diversas escolas. A quadra é minha íntima e já sei todas as técnicas para fazer um samba-enredo. Não vejo mais pela tv, eu desfilo. Eu faço parte de tudo aquilo. 

E fico pensando se não tem algum menino hoje se apaixonando pela escola através dos sambas que eu e meus companheiros de ala fazemos. Penso que tudo que criamos é acompanhado por apaixonados do mundo inteiro. Gente de fora do Rio e até fora do país. É incrível pensar nisso. Fazer parte de algo que gente que nunca chegou nem perto da escola ama e tem como algo importante em sua vida.

Daquele ato louco em 1997 vieram três finais na agremiação e uma vitória. No geral faltam três sambas compostos para chegar a cem concursos e já ganhei trinta. Sou o maior vencedor da história do Acadêmicos do Dendê, o segundo maior do Boi da Ilha, ganhei os principais prêmios do carnaval e sou chamado de baluarte da União da Ilha.

Tudo começou em um ato insano. Em uma loucura ao na cara e na coragem pegar uma sinopse na União da Ilha.

A União da Ilha caiu para o grupo de acesso no dia seguinte que conquistei um Estandarte de Ouro. Voltou para o especial no mesmo dia que ganhei um S@mbaNet.

Coincidências não existem. A minha história estará pra sempre ligada à União da Ilha e pensando bem, sobre o meu ato louco. Amor exige loucura, exige atos assim e só quem eu amo pode puxar isso de mim.


E eu amo a União da Ilha.


E a nossa história está muito longe do fim.

 

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