terça-feira, 19 de novembro de 2013

GAROTO MAROTO


*Conto da coluna "Enredo do meu samba" publicado no blog "Ouro de Tolo" em 17/08/2013


Acabei de digitar a história e parei pra pensar. Não conhecia tão bem o Jece Arruda, conhecia mais através do Dirceuzinho que era mais chegado, mas nem podia imaginar o fim triste que ele teve.

O amor tem dessas coisas infelizmente. A gente sonha que tudo dará certo. Sonha com um conto de fadas, um amor para a vida inteira. Com Richard Gere subindo uma escadinha com flor na boca para chegar até o apartamento de Julia Roberts. 

Amar dói. Seja um carnavalesco que se apaixona por um compositor garotão quando tudo eram apenas negócios para ele. Seja um jornalista idealista e duro que um dia amou, foi amado e tudo terminou como na música de Jorge Aragão e D.Ivone Lara “Na apuração perdi você”.

Sei lá. Já estou misturando as histórias.

Respirei fundo enquanto via Julinha assistir TV. Sentei-me ao seu lado e perguntei o que via. Ela gargalhava assistindo Tom & Jerry. Como pode, um desenho tão antigo, que já era antigo quando nasci e ainda faz rir dessa forma.

Rimos pela tarde inteira quando percebi que era hora de levar Julinha de volta. Minha filha pediu pra ficar e triste respondi que não tinha como. Ela completou que queria morar comigo e que a mãe morasse também.

Levei Ana Júlia pra casa e enquanto minha filha entrava fiquei com Bia na porta. Minha ex perguntou se tudo tinha corrido bem e respondi que sim emendando a pergunta se ela casaria com Zé.

Surpresa com a pergunta Bia respondeu que não sabia, era tudo muito recente. Perguntou-me o porquê queria saber e respondi que era apenas curiosidade.

Despedi-me, andei em direção do carro e antes que ela fechasse a porta perguntei se em algum momento ela se arrependera da separação. Antes que ela respondesse falei “precisa responder não, besteira minha”.

Fui pra casa, fiz um miojo e dormi. Sozinho como sempre e pensando na minha família longe de mim.

Acordei cedo no dia seguinte e fui para o trabalho. Entretido com o computador notei alguém chamando “tio Pedro, tio Pedro”. Olhei e vi um rapaz de uns dezoito anos me chamando. Não reconheci e com humor nada bom respondi “vê se eu tenho sobrinho com barba na cara”.

Ele riu e perguntou se não lhe reconhecia. É, a idade chegava pra mim, forcei os olhos e não reconheci. Ele respondeu “Luisinho Mandriola”. Aí reconheci, era filho de Luis Mandriola, grande amigo de meu pai. 

Levantei e dei um abraço no garoto mandando aquele clichê “Nossa! Você cresceu”. Como se todos não crescessem um dia. Perguntei pelo pai e Luisinho respondeu que estava bem. Assumira a direção de carnaval da Unidos de Lucas. Respondi que era bacana. Lucas era uma grande escola.

Perguntei o que ele fazia lá e me respondeu que arrumara um estágio. Desejei boa sorte e me sentei para trabalhar novamente quando ele disse que soube que eu estava fazendo um livro sobre carnaval.

Perguntei como ele sabia e Luisinho respondeu que meu pai comentara com o pai dele. Respondi “legal” e comecei a digitar no computador coisas de trabalho quando ele completou “tenho uma história legal pra você, aconteceu comigo”. 

Parei tudo e perguntei “Ah é?”. Ele balançou a cabeça positivamente então pedi que sentasse ao meu lado.

Pedi que me falasse e Luisinho contou mais um capítulo do livro.
Luisinho nasceu no samba já que, como eu disse, seu pai era um dos bambas. Grande diretor de harmonia Luis Mandriola era bastante requisitado e passou por “muitas bandeiras” mostrando seu trabalho e sendo respeitado.

Luisinho seguia os passos do pai. Desde pequenino fazia parte das alas mirins das escolas que Luis passava. Mostrava talento pra cantor e rapidamente passou a integrar o carro de som do Aprendizes do Salgueiro, escola mirim do Rio de Janeiro.

Na época que virou cantor do Aprendizes o pai virou um dos diretores de harmonia da Acadêmicos da Rocinha e onde o pai ia o filho ia atrás como um fã atrás do ídolo. Sim, Luis era o ídolo de Luisinho, o que o garoto queria ser.

Naquela época Luisinho estava com quinze anos e já participava de palcos em disputas de samba de adultos. Estava defendendo um dos sambas da disputa da Rocinha e aí que a história aconteceu.

Luisinho “passou o samba” com a parceria do lado de fora da quadra e entrou com o grupo para o sorteio da ordem de apresentação.

Enquanto os compositores participavam do sorteio Luisinho fez aquilo que sempre gostou. Parou para ver o trabalho de seu pai. O casal de mestre-sala e porta-bandeira se apresentava e logo depois pararam pra apresentação dos passistas.

Aí que aconteceu.

Entre as passistas tinha uma mulata linda, corpo escultural e que sambava lindamente. Mas Luisinho nem prestava atenção no sambar dela, só naquela bunda maravilhosa. O garoto estava enfeitiçado.

Quinze anos. Auge dos hormônios, tudo explodindo por dentro e com o menino não era diferente. Luisinho vidrado conseguia nem piscar. A mulata notou e deu um sorriso diretamente pra ele.

O jovem cantor nem notou e os compositores tiveram que lhe puxar pra dizer que o samba deles era o primeiro e tinham que ficar na beira da escada que levava ao palco. Luisinho foi conduzido pela parceria sem tirar os olhos da mulata.

Apresentação dos passistas acabou e o locutor chamou o primeiro samba ao palco. Luisinho pegou o microfone, testou e disse ao operador de som que estava tudo ok. Quando olhou para baixo viu que muita gente olhava esperando a apresentação. Inclusive a mulata.

Cantou como nunca e no fim viu a mulata entre os que aplaudiam. Desceu do palco e o pai chamou para irem embora. Luisinho não queria ir, mas não teve jeito.

Sonhou com a mulata sambando e fazendo sinal com o dedinho para que chegasse perto. Acordou no susto e quando viu o short estava molhado. Gritou “merda” e levantou para ir ao banheiro.

Passou pela sala e a mãe, sentada com uma mulher na mesa disse “bom dia” ao filho. Sem olhar Luisinho respondeu até que teve um “crec” em sua cabeça e ele olhou pra mãe. Como eu disse ela estava acompanhada por uma mulher. Era a mulata!!

Luisinho voltou sem nada entender e a mãe contou que ela era a nova empregada. A mulata se apresentou como Cristiane e comentou que já conhecia o rapaz, era passista da Rocinha.

Gaguejando Luisinho confirmou e disse que tinha que ir ao banheiro. Demorou mais tempo que imaginava.

Os dias foram passando e era um tormento para Luisinho ver aquela mulata faceira todas as manhãs lhe dando bom dia com um vestido curto e perguntando o que ele queria de café. A vontade do garoto era dizer “você”, agarrar Cristiane e jogá-la em cima da mesa, mas gaguejando ele respondia pão, manteiga e leite.

Do nada a casa de Luisinho foi ficando mais cheia que do costume. Os amigos de colégio e samba não saíam mais do local dando a desculpa de jogar com o vídeo game novo dele, mas não era bem isso.

E aos sábados Luisinho via Cristiane de biquini e salto alto sambando na Rocinha. Os pais já planejavam fazer um banheiro novo já que o menino praticamente morava no da família.

Um dia Luisinho tentava se distrair jogando vídeo game quando o pai pegou o telefone e ligou para a seção de classificados de um jornal. O rapaz nada entendeu quando percebeu que o pai colocara um anúncio pra contratar empregada nova.   

Quando desligou Luisinho perguntou o que acontecia. O pai respondeu que Cristiane conhecera um alemão e iria morar na Alemanha com ele.

Aquilo bateu profundamente no coração de Luisinho. Como assim sua musa indo embora? E ele nunca se declarou, nunca fez nada!!

Sua despedida da Rocinha estava marcada para o sábado e Luisinho decidiu que faria alguma coisa, se declararia pra Cristiane.

Chegou o dia do ensaio e enquanto Cristiane se apresentava Luisinho decidiu beber pela primeira vez na vida. Encheu a cara sem o pai perceber e resolveu que era o momento de se declarar pra passista.

Chegou em Cristiane e contou que precisava falar com ela. Do lado de fora da quadra.

Os dois saíram e Cristiane perguntou qual era o problema. Luisinho muito nervoso tentava se encher de coragem e gaguejava tentando falar. Doce, Cristiane pedia pro menino não ter medo e falar.

Na hora que conseguiria Luisinho vomitou nos pés de Cristiane.

O moleque tomara um porre brabo e quando deu por si estava na cama deitado e com ressaca.  Tudo escuro no quarto assim como estavam os pensamentos de Luisinho que só conseguiu chorar pela vergonha e por ter perdido a chance de se declarar.

Enquanto se lamentava bateram na porta. Quando abriu Cristiane estava lá com um baby doll curtíssimo. Maliciosa a mulata disse “vamos continuar nosso papo”. 

Cristiane empurrou Luisinho na cama e lhe beijou. Ligou o rádio para que o restante da casa não ouvisse o que faziam e na estação tocava “garoto maroto” de Alcione. Cristiane sussurrou no ouvido de Luisinho “faz de mim seu pequeno brinquedo querendo brincar”.

O resto vocês podem imaginar. Foi a primeira vez do moleque. A primeira vez com quem tanto queria.

No dia seguinte Luisinho acordou com a cara mais feliz do mundo e sentou-se a mesa com os pais pra tomar café. Luis reclamava ainda do porre que o filho tomou enquanto a mãe contou que Cristiane já fora embora. 

Luisinho bebeu um gole de leite e respondeu que já sabia quando a mãe contou que a passista deixara uma caixa em seu quarto para Luisinho.

O menino foi até o quarto da empregada e viu a caixa em cima de sua cama. 

Abriu e estava lá o biquini que a passista usava nos ensaios. Junto com o biquini tinha um bilhete e nele escrito “garoto maroto”.

Naquele instante o garoto pegou o biquini, colocou no rosto suspirando..


..e virou adulto.



ENREDO DO MEU SAMBA (CAPÍTULO ANTERIOR) 

CASO PASSIONAL
 

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