quarta-feira, 27 de novembro de 2013

27 DE NOVEMBRO: O REENCONTRO




Fim de setembro. A situação não está nada boa. Entre os muitos problemas que minha vida tem e se acentuaram de 2005 para cá surgiu um novo, um que nunca me preparei para encontrar. Filho doente.

Gabriel, tadinho, tem nem cinquenta dias ainda e está internado em um hospital aqui na Ilha do Governador. Não sabemos ainda o que ele tem e essa situação aflige demais. Nesses últimos dias apareceram suspeitas de meningite e leucemia. Corri para o google para saber mais sobre as doenças e amigos, não é fácil.

O mundo todo caindo sobre a cabeça, um peso enorme nas costas que não se tem com quem dividir. Tenho que ser forte perante as meninas que fraquejam, paciente com a Bia que não sabendo o que ocorre está especialmente bagunceira, poupando minha avó que já tem oitenta anos e infelizmente não pode fazer nada. Apesar das dezenas de amigos e pessoas na internet que mal conheço e rezam por ele me sinto sozinho. Sinto falta de uma pessoa e dá vontade de gritar por ela.

Mããããeee!!

Sim, minha mãe. Muitas vezes de 2005 para cá, quando morreu, ela fez muita falta, em alguns momentos mais ainda e nunca tanto quanto agora. Fui filho por vinte e oito anos, protegido por todo esse tempo e virei pai sem querer. Queria alguém para dividir esse drama, poder chorar em seu colo em vez de sozinho no quarto como venho fazendo.

Ou me acalmar como no momento que estou agora, exatamente nesse momento que fui render a Michele e estou com ele no hospital.

Cheguei quase meia noite, os seguranças me deixaram entrar e Michele foi descansar. Estou no quarto com ele, quarto escuro, silencioso. Não tem ninguém nos corredores. Estou praticamente sozinho com mais três mães que dormem com seus filhos. Uma delas, novinha, dorme num sofá e o seio está aparecendo. Não vou olhar, não é momento para isso, é, até que é bonitinho..

Deito no sofá ao lado de Gabriel e ele começa a chorar. Pego no colo, as mães acordam, para não atrapalhar o sono de ninguém saio do quarto e falo baixinho para que ele pare de chorar porque “papai está ali”. Ele para, retorno ao quarto e o coloco no berço. Deito e ele volta a chorar.

Assim vai a noite quase toda. Já estou bem cansado. Cansado com o drama do pequeno Gabriel, menos de dois meses de idade e todo furado, revirado, machucado por agulhas. Cansado pela noite que passo. Penso “Ai mãe, bem que precisava de você agora” e novamente ele para de chorar.

Coloco no berço, ele se mexe um pouco, mas dorme. Nem acredito, vou poder descansar. Deito, olho mais um pouquinho a menina com a blusa aberta e ouço uma voz “Pare de olhar o seio da menina, que coisa feia”. Me assusto pensando que alguém percebeu, olho para os lados, mas vejo ninguém.

Penso “Devo estar com sono mesmo”. Fecho os olhos e antes de dormir me vem à mente “Conheço essa voz”.

Durmo e acordo sobressaltado, como se tivessem falado comigo. Olho em volta e nada. Levanto, olho o Gabriel e ele dorme. Aproveito e vou ao corredor beber água. Encho o copo, coloco na boca e quando estou bebendo ouço uma voz que diz “Você não está sozinho”.

Olho e vejo ninguém, falo baixinho “Isso ta ficando estranho”, ouço novamente a voz que pergunta “Não reconhece mais minha voz?”. Olho e vejo minha mãe.

Claro que saio correndo, paro no meio do caminho e penso “Por quê to correndo? Isso foi só impressão minha, não devia ter visto o sexto sentido ontem”. Volto a andar no corredor e a vejo de novo dizendo “Você já foi mais corajoso”.

Pergunto se é ela que responde “Não Pedro Bó, sou sua avó”. Só ela me chamava de Pedro Bó, personagem do humorístico do Chico Anysio que era burro e ela citava quando eu fazia alguma burrice.

Pergunto o que ela faz ali e ela devolve perguntando “Você não me chamou?”. Respondo que sim, mas tinha chamado muitas outras vezes e nunca aparecera. Ela sorri e responde “Você que pensa”.

Não entendo e ela continua “Estive ao seu lado esse tempo todo. Lembra no dia do meu enterro quando você sonhou comigo e eu disse que estava bem e não se preocupasse?”. Respondo que sim e minha mãe completa “Era só um sonho mesmo, não fui eu, mas nunca te deixei”.

Caminhamos um pouco por aquele corredor vazio e comento que não estava sendo fácil, ela responde “Nunca foi fácil, a diferença é que antes tinha alguém pra resolver por você”.

Eu digo que preferia assim, não queria ter que resolver tudo e ela retruca “Você precisa passar por isso, passar por todos esses problemas, essas aflições”. Pergunto porque e ela responde “Foi assim que você cresceu”.

Continuo olhando para ela. Minha mãe passa a mão em meu rosto e diz “Eu tinha uma missão nesse mundo, ter você. Eu sempre disse que meu maior sonho era ser mãe e você realizou esse meu sonho”. Respondo que era verdade e ela emenda “Minha missão foi cumprida, tive você e você cresceu. Mas faltava a última coisa”.

Pergunto o que era e dona Regina responde “Eu precisava partir pra você nascer de verdade. Você precisava sair de sua redoma de vidro. Ter só a si pra resolver tudo”. Comento que cometi muitas burradas e ela me conta “Eu sei, eu estava lá limpando suas lágrimas todas as vezes que você se conscientizava da besteira que cometeu”.

Minha mãe olha para meu rosto por um tempo e eu digo”Não deve estar reconhecendo né? Eu envelheci. Esse ano então tenho a impressão que envelheci uns vinte anos. Os sorrisos diminuíram. Fiquei mais sério, mais triste”.

Minha mãe me dá um beijo na testa e fala “Você não envelheceu, virou homem e os sorrisos vão voltar. Eles sempre voltam”.

Pede para ver Gabriel e eu levo até o quarto. Ficamos os dois olhando meu menino dormir no leito e ela comenta “Eu que te assoprei no ouvido para que você registrasse a Bia, naquela tarde no ônibus quando você teve a ideia”. Lamento que nunca veria as duas juntas e minha mãe responde “Não vê porque não quer. Eu estou sempre ao lado dela. Preste atenção que me verá”. Olhe nos olhos dela na hora que a Bia der uma gargalhada e me verá em seus olhos”.

Minha mãe pega Gabriel no colo, dá um beijo em sua testa e diz “Está curado”. Olho para ela que completa “Deite, você tem que estar bem para criar meus netos”.

Deito e ela se aproxima da porta. Antes que ela saísse chamo. Ela me olha e eu digo que queria fazer uma pergunta desde o dia que ela morreu. Minha mãe responde “Sim, tenho orgulho de você, muito orgulho”.

Agradeço e antes que ela saísse chamo novamente dizendo que tinha outra pergunta. Ela pergunta qual e eu faço “No céu tem pão?”.

Minha mãe ri, me chama de palhaço e manda que eu feche os olhos. Fecho e ela diz “te amo”. Respondo “Pra sempre” e adormeço.

Acordo com a médica examinando Gabriel. Pergunto como ele está e ela responde que muito bem. Dois dias depois ele está em casa. Tiro foto com ele e Bia para mostrar a sua vitória e a minha família.

Não estamos só os três. Minha mãe também está. Se forçar os olhos você pode ver. 

Hoje é dia 27 de novembro. Ela faria 56 anos e resolvi contar essa história. Os sorrisos realmente voltaram pelos mais diversos motivos. Talvez seja meu melhor momento nos últimos dois ou três anos e sei que tem muito dela nisso.

Feliz aniversário mãe. Sim, eu digo que não há mérito em fazer aniversário morto, mas quem disse que você morreu?

Acho que o título dessa história está errado. Não é um recomeço. Porque nunca acabou.

Ah, evidente que essa é uma história de ficção.

Ou não.



O ESPELHO E A ESTRADA


O espelho que reflete minha vida
Que um dia já mostrou um choro meu
A face do adeus na despedida
Lamento que o poeta escreveu

Agora só reflete esperança
Amor que o destino escolheu
Na forma de um sorriso de criança
Olhar que vê no espelho um filho teu

A vida, que é bonita, também causa dissabor
A tristeza desceu meus olhos, a saudade em mim morou
Perdi quem mais amava, pra sempre hei de amar
Me senti sozinho tendo estrada pra andar

Mas a vida se fez poesia
E alguém lá em cima de mim cuidaria
Mandou duas estrelas brilharem e descerem do céu
Filhos de seu filho, continuam seu papel

Mas a vida se fez poesia
E alguém lá em cima de mim cuidaria
Nessa estrada eu vou, com a luz que apaga jamais
O espelho refletiu a minha paz


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