sábado, 9 de novembro de 2013

ERA DA VIOLÊNCIA 2: CAP VIII - A AMIZADE




Foi uma tragédia na família Arcanjo. Delcimar perdeu a alegria de viver e se matou jogando da janela do apartamento que ficava no oitavo andar. Salvador, que já não ia bem das finanças, começou a beber, jogar e faliu.

João cuidou do avô até o fim da vida. Cuidava da farmácia do pai também e depois de anos vivendo apenas para o trabalho resolveu que devia cuidar de seus sonhos. Prestou vestibular e passou para comunicação social.

Dessa forma nos conhecemos.

Fechei o computador e deitei. Fui dormir pensando naquela história. Não era só eu que tinha problemas na vida e João Arcanjo já teve que suportar tanto que lhe via como uma panela de pressão perto de explodir.

A quanto uma pessoa consegue suportar de dor? Não sei. Mas sempre existe um limite.

No dia seguinte antes de entrar na sala de aula dei de cara com ele. João sorriu perguntando pelo carro. Respondi que estava na oficina e ele me fez um oferecimento “Se quiser dou carona”.

Agradeci e antes que entrássemos na sala ouvimos uma voz dizer “João Arcanjo?”.

Olhamos para traz e um homem branco, estatura mediana sorriu largo e em vez de perguntar afirmou “João Arcanjo!!”.

João fez cara de não reconhecer e o rapaz continuou “Não ta lembrado de mim? Você tem meu sangue no seu corpo”. Com aquela frase João fez cara de surpreso, abriu um sorriso e exclamou “Rui de Santo Cristo!!”. Os dois deram um forte abraço e eu sem jeito de parar aquele reencontro disse que entraria para dar aula e eles entrassem quando pudessem.

Os dois entraram alguns minutos depois e sentaram perto um do outro mal dando atenção à aula e conversando o tempo todo. Compreendi e deixei rolar.

Fui dar aula em outras turmas e no fim procurei por João Arcanjo cobrando a carona prometida. Ele estava com Rui e perguntou se eu não queria beber com eles.

Tempo que não fazia isso. Acabei topando.

Fomos a um bar próximo da faculdade e lá João e Rui contaram a história de amizade deles. João contou das brincadeiras e Rui brincou com o fato de João ser gordinho quando criança e usar aparelhos. Completou afirmando que o amigo estava bem melhor.

Achei bacana ver os dois amigos juntos depois de tanto tempo. Dava pra ver a amizade sincera que unia aqueles dois que, como diz a música, nem mesmo a força do tempo destruiu.  Lembrei de Juninho, irmão de Juliana. Amizade verdadeira que tive e que por essa amizade ajudei a acabar com sua vida, ou resto dela.

Lembrei de Pardal, Lucinho, Major Freitas, Pittinha e do senador, é, não estava tão bem de amigos.

Depois de um tempo bebendo João perguntou a Rui por seu pai. O rapaz respondeu que morrera e triste antes de beber mais um gole de cerveja João replicou “É, o meu também”. Percebendo o clima triste que ficou na mesa emendei “O meu também, melhor, os meus dois”.

João e Rui nada entenderam. Eu ri e pedi mais cerveja para o garçom dizendo “Vamos beber porque viver ta foda”.

Já bêbados, com o dono do bar querendo fechar João perguntou o que faríamos. Respondi que iria pra casa, pois já estava tarde e era hora de velho dormir. Rui riu e falou “Pra casa porra nenhuma, vamos pro puteiro”.

João gargalhou e comentou que há anos não ia a um puteiro. Rui emendou “Tem um aqui perto. De vez em quando vou lá e me dão moral porque sou policial, faço proteção ao estabelecimento”. Ergui o copo e poetizei “Está certo!! A lei tem que proteger as trabalhadoras!!”. Rui virou para João e perguntou “Vamos?” João olhou pra mim e falei “Vumbora João Arcanjo!! Vamos profanar!!”. João concordou e fomos.

Chegamos lá e já estava vazio. Horário da madrugada, mas ainda tinha algumas meninas e todas com disposição. A cafetina logo veio dar um beijo no rosto de Rui dizendo “Está sumido meu amigo!!”. Rui devolveu “Muito trabalho, mas trouxe uns amigos comigo”.

Rui virou para nós e completou “Vocês estão em casa!! Divirtam-se!!”.

Não lembro mais nada daquela noite.

Acordei no dia seguinte com a cara no travesseiro babado, pelado e com dor de cabeça. Não reconheci de cara o local, mas depois percebi que era um motel. Não vi a mulher, estava sozinho e falei baixinho “Espero que tenha sido divertido”.

Depois que falei ouvi uma voz dizendo “Ah sim, nos divertimos muito”.

Quando olhei para o lado era Pardal. Pelado.

Dei um salto, me cobri e perguntei “Que porra é essa?”. Pardal riu, se espreguiçou e comentou “Me diverti também!! Também sou filho de Deus!!”.

Apontei pra ele, pra mim, muito assustado e ele entendeu dizendo “Não seu retardado!! Tinha uma mulher aqui!! Ela já foi embora”.

Sentei aliviado e Pardal continuou “Ela tava muito doida. Bebeu, cheirou, nem percebeu que eu estava morto”. Olhei pra ele e tive que dizer “Puta que pariu, fiz ménage com morto, só me faltava essa”.

Pardal riu e completou “Põe no livro”. Levantei para me vestir e enquanto isso Pardal se espreguiçou de novo e perguntou “Aí Gilberto! Você imaginava que um fantasma tivesse uma jeba tão grande assim?”.   

Peguei um travesseiro e arremessei nele.

João, Rui e eu fortalecemos nossa amizade saindo todos os dias. Uma amizade sui generis já que a princípio éramos três pessoas completamente diferentes. João Arcanjo um farmacêutico todo certinho. Rui de Santo Cristo um policial, com seus desvios e eu um jornalista, traficante, etc.
  
Ao mesmo tempo João começava a se apaixonar.

Luciana, que falei no começo do capítulo. Branquinha, cabelos negros, jeito de bem cuidada, corpo bonito. João Arcanjo vivia babando por ela e Rui perguntou “Por quê não chega nela?”.

João, sem jeito, respondeu que não sabia como e Rui retrucou “Um homão desse tamanho não sabe como chegar numa mulher?”. João falou que era tímido e Rui completou “O tempo passa e eu continuo tendo que arrumar mulher para você”.  

Falou e caminhou em direção a Luciana com João pedindo para que ele parasse.

Rui chegou em Luciana e perguntou se ela gostava de cinema. Luciana não entendeu a pergunta e Rui repetiu. Ela respondeu que gostava e Rui completou “É que o meu amigo ali quer te convidar para ir ao cinema”.

João Arcanjo não sabia onde enfiar a cara de tanta vergonha.   

Luciana estranhou e perguntou “Por quê ele não veio me chamar? Precisou de um porta voz?” Rui respondeu que João tivera um acidente com a boca que não podia revelar qual por ser constrangedor e teria que ficar um mês sem falar.

Luciana riu, levantou da cadeira que estava sentada e caminhou até João que estava próximo da mesa dos professores. Abriu um de seus cadernos, escreveu em uma folha, arrancou e entregou a João dizendo. “Aqui está meu telefone e endereço. Se puder falar me ligue amanhã para combinarmos o cinema”.

Despediu-se e saiu. Rui rindo comentou com o amigo “Se não fosse por mim você morria virgem”.

João foi até a casa da moça e conheceu sua irmã Fernanda e o pai, que por coincidência vinha a ser o coronel Rodrigo Saldanha. O homem, que não era mais secretário de segurança, pediu que o rapaz deixasse sua filha em casa às dez. Tudo como à moda antiga.

João e Luciana foram assistir uma comédia romântica. Depois lancharam em um fast food e o farmacêutico levou a moça para casa dez da noite como o combinado. João se despediu de Luciana e virou-se para ir embora quando ouviu um “espera”.

Luciana puxou o rapaz e lhe deu um beijo apaixonado.

Ela se despediu e entrou. João Arcanjo ficou na frente da casa com cara de bobo e alguns segundos depois abriu um largo sorriso e foi embora pulando, comemorando, como se marcara um gol.

Quando entrou Luciana encontrou a irmã Fernanda que lhe esperava sentada na escada. Fernanda perguntou como fora o encontro e a irmã respondeu encantada “Ele é tímido, mas é maravilhoso”. Fernanda deu os parabéns, mas mandou que a irmã abrisse o olho com o pai. Luciana subiu às escadas como se subisse nuvens e falou “Deixa que da fera eu cuido”.

Quem cuidou foi João que no dia seguinte para surpresa até de Luciana foi até a casa e do jeito mais tradicional possível pediu a mão de Luciana à Rodrigo em namoro. O policial ficou surpreso com o gesto respeitoso do rapaz, mas gostou e acabou concordando.   

Nos encontros seguintes João levou Rui junto. Era uma forma de retribuir o favor do amigo lhe apresentando a Fernanda. A moça gostou de Rui e com autorização de Rodrigo os quatro saíam. João notou que Rui ficava diferente perto de Rodrigo e o policial comentou “Ele é uma referência na polícia, claro que fico mexido quando estou com ele”.    

Do resto eram só farras as saídas. Na maioria das vezes iam ao cinema. João e Luciana sentavam na frente comendo pipoca e assistindo ao filme comportados. Fernanda e Rui sentavam atrás e não assistiam ficando o tempo todo nos amassos. Rui era mais velho que João, mais experiente e Fernanda mais fogosa. Eles pegavam fogo.

Mas o rolo não deu certo durando apenas algumas semanas. Rui contou ao amigo que apesar de terem uma boa química ele não queria se prender enquanto Fernanda fazia planos românticos. João riu e Rui comentou “Esse negócio de casar é pra você, não pra mim meu amigo”.

Luciana e João realmente tinham planos de se casar. Ficaram noivos e começaram a ver tudo para o casório. Parecia que João Arcanjo encontrara o amor.

E eu?

Eu era mais velho que eles e não conseguiria acompanhar o ritmo. Continuei amigo deles, mas botei a cara no trabalho. Dava aulas todas as noites e palestras no fim de semana. Estava feliz dessa forma, mesmo sentindo saudades de Juliana.

Uma noite o sinal tocou e todos os alunos saíram da sala enquanto eu fazia anotações em um caderno. Menos um.

Um rapaz, bem jovem ainda, se aproximou de mim e disse que gostava muito de minhas aulas e eram uma inspiração para ele que queria ser jornalista.

Agradeci e pedi desculpas por não lembrar seu nome perguntando a ele. O rapaz me respondeu. Guilherme.

Coincidência. Mesmo nome do filho de Juliana. Que eu achava que poderia ser meu.

Falei para Guilherme que ele continuasse investido nos estudos porque apesar de tudo valia a pena ser jornalista. Guilherme respondeu “Serei um grande jornalista, como você” e aquilo me tocou.

No fim se despediu e disse que tinha que ir, pois a mãe naquele dia iria lhe buscar na faculdade. Riu e completou “Sabe como é mãe né? Pensa sempre que somos crianças”.

Concordei com ele, disse que isso era muito bom e ele devia aproveitar enquanto podia porque eu sentia falta da minha. Guilherme concordou e se despediu indo embora.

Voltei a anotar achando graça da coincidência quando Lucinho sentado à minha frente falou “coincidências não existem”.

Parei e perguntei o que o fantasma queria dizer. Lucinho respondeu “Nada, mas se eu fosse você ia lá fora ver quem é a mãe dele”.

Com a pulga atrás da orelha saí.

Descendo a escadaria já deserta da faculdade vi o rapaz entrando no carro e me aproximei do veículo. Coloquei a mão no ombro de sua mãe que se virou e falei.

Juliana.

Sim. Era a Juliana, a minha Juliana e ele era o Guilherme que estava em meus pensamentos. Juliana, sem surpresas, perguntou como eu estava e respondi que bem completando “Sou professor do seu filho”.  

Juliana respondeu que já sabia e perguntei se o menino sabia de nossa relação. Minha ex respondeu que sim, ele sabia de tudo e perguntei porque ele não comentara comigo.

Juliana apenas comentou que era uma decisão dele, respeitava e que tinha que ir embora, pedindo desculpas pela pressa. Deu-me um beijo no rosto e disse “Bom ver que você está tentando ser um homem de bem”.

Dessa forma partiu.

Na noite seguinte não dava aula para a turma de Guilherme, mas mesmo assim fui procurá-lo pra saber porque ele não me contara que era filho da Juliana, minha ex e com quem tive uma filha que seria sua irmã. Guilherme de forma serena olhou para mim e respondeu “Não vi necessidade”.

Só disse isso, não vi necessidade. Não tive argumentos.

Guilherme entrou para assistir aula quando Rui e João passaram me puxando.  

Perguntei para onde estavam me levando e Rui respondeu “para uma boate”.

Os dois me carregaram para uma boate mesmo onde tinha vários alunos da faculdade, inclusive Luciana e Fernanda. Era fim de semestre e o casamento de Luciana e João se aproximava. Iríamos celebrar a isso tudo.

Era noite “Anos 70” na boate e tudo muito divertido, tirando quando tocou a música “você” de Tim Maia, a minha música com Juliana.

Estávamos sentados em uma mesa batendo papo quando começou a tocar “A noite vai chegar”. João gritou “Lady Zu” e puxou Luciana para a pista. Fernanda puxou Rui dizendo “somos amigos”.

Rui e Fernanda realmente dançavam como bons amigos enquanto Luciana e João se beijavam com todo o amor que tinham. Eu fiquei sozinho na mesa bebendo meu uisquinho quando uma menina se aproximou e perguntou “Vamos dançar professor?”.

Ela me estendeu a mão e aceitei. Levantei e fomos dançar o restinho da música. Dançando a moça chegou em meu ouvido e disse “Meu nome é Bianca e te acho um gato professor”. Logo após apertou a minha bunda.

Dançávamos curtindo a noite quando começou a tocar Ronaldo Resedá. Gritei “Marrom glacê” e os seis. Eu, Rui, João, Fernanda, Luciana e Bianca nos abraçamos e começamos a pular.

Espuma começou a cair e encharcados e felizes cantávamos “Toda essa gente louca / Alegre em sedas a se desbundar /A festa nunca vai acabar”.

Uma grande alegria.

Pena que a festa estava perto do fim.



ERA DA VIOLÊNCIA 2 (CAPÍTULO ANTERIOR)



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