sexta-feira, 4 de outubro de 2013

SAMBA SE APRENDE NO COLÉGIO


*Coluna publicada no blog Ouro de Tolo em 29/9/2013


Alguns dias depois da grande decepção na Portela (Explicada, mas não totalmente entendida) Cadinho, meu eterno parceiro de samba, apareceu em minha casa com uma proposta inusitada.

Ensinar crianças a fazer samba-enredo.

Como assim? Nunca ouvi falar que se ensinasse a fazer samba-enredo. Vários sambas pela história mostram que não se ensinam como em versos consagrados como “samba não se aprende no colégio” ou “Ninguém faz samba só porque prefere”.

Parei pra pensar. Será? Tudo bem que fazer samba-enredo é um dom que você recebe de Deus ou compra de outra pessoa que recebeu o dom e assim assinar, mas é um dom. Como se ensina um dom?

A coisa parece mais simples quando lembramos que muitas aulas que temos por aí envolvem dons. Aulas de futebol, aulas de capoeira, aula de tamborim, aula de canto, aula de teatro. Todas envolvem dons. Ninguém aprende a ter um dom, mas quando passa por uma aula quem tem pode desenvolver.

Topei o desafio. Cadinho me entregou um papel com a sinopse do enredo que era uma homenagem ao estado de São Paulo e um outro ensinando como se fazia samba. Li esse rapidamente e desisti com medo de desaprender.

Não que o papel estivesse errado. Mas tem certas técnicas que não são necessárias.

Assim começou o projeto.

O projeto consistia em fazer um samba-enredo para que as crianças do Colégio Municipal Rotary disputassem com crianças de outras escolas do Rio de Janeiro a chance de emplacar o samba na escola de samba mirim “Escola de Bamba”, que abre os desfiles de terça-feira de carnaval na Marquês de Sapucaí.

Não seria fácil. Primeiro tínhamos que passar a técnica de um samba-enredo e como defendê-lo numa quadra a crianças de classes “não muito comportadas”. Depois elas, que assim como o Rotary nunca participaram do concurso, enfrentariam crianças de não sei quantas escolas e mais experientes para chegar ao carnaval.

Mas mesmo assim encaramos. Estudei bem a sinopse. Fiz uma letra e essa letra foi discutida com as crianças em salas de aula juntamente com os professores. Cadinho ensinou como se faz uma melodia e canto. Vários ensaios foram realizados no colégio até que partiram para a gravação em um estúdio profissional aqui na Ilha do Governador. Na parte final do projeto contamos com a ajuda do grande amigo e compositor Walkir que arrumou o estúdio.

O samba estava pronto. Ficou bacana. As crianças preparadas.

Faltava o grande dia. 

Que foi na terça-feira anterior a essa coluna.

Acordei cedo. Tomei banho, naveguei na internet, dia normal como outro qualquer e fui almoçar em um bar próximo de casa com Cadinho e Serjão do cavaco, um dos melhores e mais antigos cavaquinistas que conheço e que seria responsável pela harmonia no concurso. 

Comecei a sentir o clima da disputa quando passando em frente ao colégio vi o ônibus lotado com crianças e professores mesmo com as escolas da cidade em greve.

Elias, filho de Cadinho, seria o cantor principal do samba. Vestido como legítimo malandro, com camisa em listras vermelhas e brancas ele seria o grande nome do dia.

A disputa seria no lendário bloco Cacique de Ramos. Eu nunca pisara no local e quando cheguei me impressionei. Não é enorme, nem luxuoso, mas transpira história.

Chegamos juntos com ônibus de várias escolas. Muito tempo que não via tantas crianças juntas. Correndo, animadas, cantando. Era um clima de final. Mas um clima gostoso ao contrário das disputas de samba que acompanhei nos últimos anos.

Como legítimo “turista” tirei diversas fotos da fachada, algumas fotos históricas que a quadra guarda, bonecos, de tudo. A quadra estava cheia, bateria da Corações Unidos do CIEP. Cadinho chamou crianças e professores em um canto para ensaiar.

Não dava para ser exigente. Eram crianças. O ensaio teve falhas, mas Elias se saiu bem  e a expectativa era que passariam com dignidade. 

Sete sambas foram selecionados para a final. O primeiro começou assustando. Colégio com ligações com a Corações Unidos com boa parte dos ritmistas sendo da mesma. O mestre de bateria, adulto, também sendo dela e vibrando e o cantor, oficial da Corações Unidos, devia ter uns 18 anos e cantava com a segurança de quem já atravessou a Sapucaí.  

Os quatro sambas seguintes já pareciam ser de crianças como as nossas e o sexto também ligado ao Corações Unidos,  mas era enorme o que me fez pensar que dava.

E deu.

O Rotary, anunciado como caçulinha da disputa, se preparou muito bem. Em vez se botar crianças fazendo coreografia botou com bolas de gás e cantando. Era a maior torcida. Cadinho sentiu que as crianças de apoio ao Elias não tinham dominado o samba e pediu ao cara do som que deixasse mais baixo seus microfones. Dessa forma começou a apresentação.

Elias não se vestia apenas como malandro, ele era malandro. Acostumado com o pai cantor foi o primeiro a dar boa tarde ao público. Como os cantores de samba fazem repetiu que não estava ouvindo até que recebeu o “boa tarde” que queria. Começou a cantar o samba e foi o primeiro a “Soltar o samba” pra torcida. Depois se aproveitou do microfone sem fio e desceu para o meio do público. Doze anos e é um artista.

Carismático, talentoso, conquistou a todos numa grande apresentação, de gente grande. Via aquelas crianças vibrando, sambando, cantando, os nossos pupilos e uma grande emoção tomou conta de mim. Não mais que ao Cadinho que no fim da apresentação se escondeu para chorar.   

Assim que acabou a apresentação o Chopp, famoso harmonia de escolas cariocas chamou Elias a um canto. Era convite que ele fizesse parte do Cacique de Ramos. Como cantor revelação.

Imaginem só. Doze anos e já tinha a oportunidade de começar no topo. No Cacique.

Mais ou menos quarenta minutos depois veio que eu no íntimo já tinha certeza. A vitória da molecada.

Tempo que eu não sentia uma felicidade tão grande no samba. Ver aquelas crianças pulando, vibrando, chorando. Professores se abraçando. Todos invadindo o palco para comemorar. Ali estava a essência do samba, aquilo que me fez gostar dele. Fui até a eles dar aula de samba e fui eu que aprendi. Aprendi que sim, o samba tem jeito.

Uma tarde consagradora para o pequeno Elias e seus amigos que lhe carregaram nos braços e voltaram no ônibus da escola cantando e gritando que eram campeões. Crianças que desceram do ônibus comemorando e abraçando os pais dizendo que eram vencedores.

São crianças de famílias humildes. Muitas devem esconder mazelas, tristezas, mas naquela tarde eram vencedoras. O samba proporcionou isso a elas e àquele colégio que passa por dificuldades. Colégio que fica na rua ao lado da casa que nasci e moro até hoje e que os fundos de minha casa dão para ele.

O que a tarde dessa terça-feira vai significar na vida daquelas crianças? Na vida do colégio? Como as lembranças daquela tarde gloriosa vão lhes acompanhar pela vida?  O Rotary com o samba que fizemos vai representar 1700 colégios de ensino público na Marquês de Sapucaí. Como isso ficará na alma delas? Será que tudo que passamos fará surgir novos sambistas?

Não sei. Só sei que em tempos de pombos, sambas de escritórios, sambas de celebridades, super produções com dvds de gravações, shows pirotécnicos e estruturas hoolywoodianas, de recalls, sambas bons eliminados por não serem da casa ou pra limpar caminho a outros, de escolhas viciadas, recalls ou esperanças que caem na vala vazia da decepção àquelas crianças me fizeram novamente sonhar.

Ninguém faz samba só porque prefere.


A gente faz samba porque ama.   

4 comentários:

  1. Oi! eu sou a intérprete da Corações Unidos do Ciep. Adorei o seu texto! foi muito emocionante ver toda aquela criançada participando e contribuindo para o futuro do samba. Torci pelo samba de vocês antes mesmo de ser cantado e fiquei muito feliz em poder cantá-lo na avenida, espero interpretá-lo com a mesma garra e emoção do menino Elias, ele tem uma voz marcante e uma simpatia enorme. Bjs!

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    1. Obrigado Juliana. Já ouvi a versão oficial do samba na sua voz e gostei muito, você tem muito talento, parabéns e boa sorte na avenida, Bjs

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    2. De nada :D Espero que tenha visto o desfile, foi lindo! bjs.

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    3. Vi sim. Estava na frisa do setor 7 cantando junto e vcs deram um show, parabéns

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