sábado, 26 de outubro de 2013

ERA DA VIOLÊNCIA 2: CAP VI - ESSA TAL LIBERDADE




Enfim livre. Mas a liberdade por si só não bastava, algumas coisas tinham que ser resolvidas. Onde iria viver? Do que iria viver? Por quê Assassino com cara de bebê, que foi um cara que eu ajudei quis me matar? Por quê o negão antes quis me matar? Por quê o Assassino citou o negão?

Será que tinha alguém por traz disso tudo querendo me matar?

Bem. Era hora de recomeçar. Peguei a graninha que economizei na cadeia, do salário da coluna e aluguei uma quitinete. Fui até o jornal para me apresentar, ver como me utilizariam. 

Fui direto ao diretor do jornal perguntar se eu iria fazer reportagens, além de continuar com a coluna e o homem pediu que eu me sentasse. Sentei e ele contou que infelizmente não contariam mais com meus serviços.

Perguntei qual era o problema e o diretor foi franco. Eu era um cara marcado, cercado de problemas, com um péssimo histórico e poderia não ser bom pra imagem do jornal me ter ali. 

Estranhei o fato e perguntei “Mas não fui problema para a imagem de vocês na cadeia, muito pelo contrário, minha coluna era popular”. O diretor respondeu “Acontece que você era um presidiário, uma situação curiosa, agora você não passa de um ex detento”.

Ex detento. É, era isso que eu era, um ex detento. O diretor pediu que eu passasse no RH e não me deu mais atenção. Saí do jornal desempregado e tinha que arrumar um emprego para sobreviver.

Bati na porta de vários jornais, de alguns conhecidos, pessoas que me deviam favores e consegui nada. O preconceito já é grande com um ex presidiário, difícil alguém dar oportunidade a quem sai da cadeia e a minha situação parecia ainda pior. Eu parecia uma figura queimada na grande mídia. As atitudes que tive, os rolos que me meti parece que fizeram as pessoas criarem repugnância por mim. Seria ainda mais difícil recomeçar. Mais do que eu pensava.

Vivia fazendo bicos aqui e ali para sobreviver. Ainda tinha um pouco de dinheiro do trabalho na cadeia e dessa forma continuava procurando um emprego fixo. Apesar de não ter computador em casa continuava atualizando meu blog, agora contando como era a vida de um ex detento, as agruras que passa alguém que tenta se consertar na vida, mas a sociedade não permite.

Apesar de ter uma visitação expressiva eu não conseguia patrocinadores para o blog. Ninguém queria associar sua marca a um ex presidiário, principalmente a mim. Todos viraram a cara, ninguém estendia a mão. Até Pardal e Lucinho sumiram.

Minha rotina todos os dias era essa. Passava uma hora por dia numa lan house atualizando o blog e o restante do tempo procurava emprego ou patrocínio para o blog. Como jornalista já via que não conseguiria nada. O jeito era procurar outros tipos de emprego.

Andava “limpo”. Tempo que não me drogava e nem bebendo estava. Muito também por falta de dinheiro. Mas eu queria provar que estava recuperado.

Até que finalmente consegui arrumar um emprego. Não era grande coisa, mas foi o melhor que conseguiu. Empacotador de compras em um supermercado.  

É parceiro. Parecia que eu chegava ao fundo do poço. Eu que era um jornalista foda, fui rico, tive luxo, tudo do bom e do melhor, amigos importantes e sempre fui vaidoso agora trabalhava em um supermercado colocando as compras de madame em sacos plástico. Maluco, como eu odiava aquilo, mas precisava sobreviver.

Oito da manhã estava no mercado trabalhando até seis da tarde.  Quando saía ia até a lan house mexer no blog e contar aos leitores como estava minha vida. Desistira de procurar emprego como jornalista ou patrocínios, procurava aceitar minha nova condição.

Até conseguia ser feliz na medida do possível. Sem dúvidas era melhor que estar na cadeia. Mas a vida sempre foi difícil pra mim malandro, não seria ali que ela facilitaria.

Um dia estava no trabalho e fiquei até o fim normalmente como todos os dias. Fui para a lan e depois para minha quitinete dormir. Estava lá sonhando com a Kelly Key, sim sou um tradicionalista, quando bateram na minha porta quase arrombando.

Sonolento abri a porta para ver o que era e o dono do mercado entrou com mais dois caras perguntando onde estava o dinheiro. Respondi que sabia de nada e perguntei de que dinheiro que ele falava.

Ele deu um soco na parede de ódio e gritou “O dinheiro da caixa registradora que você trabalha sumiu, sobrou nada, nem um centavo!!

Ainda tentei argumentar que sabia de nada. Saí do trabalho e a menina do caixa disse que anda ficaria alguns minutos contabilizando o dinheiro quando um dos capangas me deu um soco no rosto que me fez cair no sofá.

Levantei com a mão no rosto perguntando qual era o problema e furioso o dono do mercado gritou “Não se faça de santo seu filho da puta!! A grana sumiu e quem estava preso até outro dia era você!! Devolve logo o dinheiro seu merda!!”.

Mais uma vez contei que sabia de dinheiro nenhum e o homem mandou que os dois capangas me batessem.

É..Bateram muito em mim naquela noite e como eu não sabia de dinheiro nenhum nada faria com que parassem de bater. 

De manhã eu já estava todo quebrado, sem forças nenhuma e o dono do mercado limpando o suor de seu rosto mandou que os capangas parassem dizendo “Isso é bandido casca grossa, não vai dizer onde colocou meu dinheiro”.

Agradeci pela ordem para pararem de bater e o homem esbravejou “ladrão filho da puta”. Antes que saíssem perguntei “Será que posso faltar ao trabalho hoje? Não estou em condições físicas, depois apresento um atestado”.

O homem nem respondeu. Os três saíram e fiquei com a leve impressão que estava despedido.

Sim. Eu estava e o que era ruim ficou ainda pior. Além de estar queimado em toda as redações de jornais agora estava com o comércio local. Não conseguia um novo emprego e o dinheiro foi acabando..acabando até que acabou.

Não tive mais como pagar o aluguel da quitinete até que fui despejado. Sim, parei na rua com uma mão na frente, outra atrás e uma mala com roupas sem saber o que fazer. Não tinha para onde ir. Não tinha a quem buscar. Não me restou alternativas.

Fui morar na rua.

Sim amigos. Eu disse acima que chegara próximo ao fundo do poço. Ali eu poderia dizer que cheguei. Eu, o grande jornalista, o bandidão, parei embaixo de um viaduto com minha mala, tirei uma coberta de dentro dessa mala, pois estava frio e com chuva e dormi ali, na rua.

Tentando dormir com barulho de chuva e frio ouvi a voz de Pardal “Que vergonha hein? Virou mindingo”. Virei para ele e corrigi dizendo que não era mindingo e sim mendigo. O fantasma completou. “Você não anda com moral pra corrigir alguém”.

Mantive a pose e revidei “Pior você e Lucinho que sumiram quando viram que eu estava na merda”. Pardal riu e comentou “Já tive uma vida de merda, quer que eu tenha uma morte também? Se vira aí” sumindo no ar.

É. Eu estava na merda mesmo.

Tentava sobreviver catando latinhas nas ruas para vender. Dessa forma conseguia comprar alguma comida pelo menos uma vez por dia e não morrer de fome. De noite era aquele inferno. Dormir na rua. No frio, no calor, embaixo de chuva ou Sol forte, assim eu tentava sobreviver.

Fora às vezes que eu tinha que sair na porrada com algum mendigo maluco que achava que eu estava tomando seu ponto de dormir.

Era o inferno na Terra. Foram quatro meses assim.

Um dia consegui grana para almoçar, não era todo dia que conseguia. Parei em um bar e pedi a refeição do dia. Devorava a comida como se fosse um prato de comida. Ok, pra esse tipo de situação não serve essa velha metáfora. Não conseguia nem parar pra respirar quando uma mulher bonita entrou e se sentou ao meu lado com cara de cansaço, se abanando devido o calor e pedindo uma água.

Olhei para ela com aquele jeito de “conheço você de algum lugar”. A mulher tentou disfarçar, mostrou claramente que estava incomodada quando lembrei de onde conhecia e falei:

“Bia!!”.

Bia para quem não lembra é Beatriz Quintanilha. A mulher que no presídio apareceu com a proposta que eu publicasse um livro.

Ela ouviu seu nome e olhou para mim não me reconhecendo de cara. É, minha imagem depois de quatro meses na rua não era das melhores. Dei um sorriso e ela reconheceu “Gilberto?”.

Fiquei feliz, tentei lhe dar um abraço. Mas antes disso, lembrei que fazia um tempinho que não tomava banho e desisti. Assustada Bia perguntou o que acontecera comigo, respondi que era uma longa história e a mulher disse “Tenho tempo, vem comigo”.

Fomos ao seu apartamento. Antes de qualquer coisa ela me entregou uma roupa que o irmão esquecera, uma lâmina de barbear, toalha e disse que me esperava na sala.

Tempo que não tomava um banho tão gostoso, água tão quentinha! Fiz a barba ficando com cara de bebê. Não, prefiro não lembrar essa expressão. Voltei para a sala e Bia elogiou “Uau, parece outro homem!”.

Sentei na sala agradecendo a ajuda e ela pediu que eu contasse o que ocorreu. Contei tudo. Desde minha fuga da casa de Juliana quando ela me ameaçou entregar à polícia, como virei dono do morro do Trololó, a prisão pelo BOPE e minha passagem pelo presídio com todas as agruras. Terminei contando minha via crucis como ex presidiário que não conseguia se restabelecer.

Bia ouviu a tudo atentamente e no fim disse “É uma grande história, mais uma grande história”.

Pegou minha mão e disse “Vem comigo”. Levou-me até a editora que lançou meu primeiro livro e foi direto à sala do diretor. O homem cumprimentou Bia efusivamente e perguntou “Que grande história tem pra mim agora?”.

Bia apontou pra mim e perguntou “Lembra dele?”. O diretor colocou os óculos e respondeu “Sim, claro. Gilberto Martins, o jornalista bandido. Umas das histórias mais fascinantes da crônica policial carioca”. Não sei se era pra agradecer, mas meu ego, como sempre inflado mandou e sorrindo disse “Sim, sou eu sim”.

Bia continuou e contou ao homem que o meu livro tinha sido o mais vendido da editora nos últimos vinte anos e somente um livro poderia superar aquela venda. O homem perguntou qual e ela respondeu “A continuação”.

Bia pediu que eu contasse como foi minha vida nos últimos quinze anos, mais ou menos o período após o livro e contei. O homem ouviu fascinado e no fim comentou “É um best seller”. Bia respondeu “Vai vender um milhão de livros e virar filme!!”.

Empolgado o dono da editora pediu que eu escrevesse a história que ele queria publicar o livro. Bia respondeu que eu iria escrever, mas precisava de um adiantamento. O homem na hora pegou um talão de cheques, uma caneta, abriu e perguntou quanto.

Naquele dia mesmo comecei a escrever “Era da violência 2 – Os senhores da morte”.

Fiquei no apartamento de Bia, no quarto que era de hóspedes e escrevia praticamente dezesseis horas por dia. Não parava para comer, dormir, nada. Bia que levava lanches para mim e mandava descansar. Reativei o blog, parado desde que parei nas ruas e graças ao conhecimento de Bia arrumei patrocinadores. Voltava a viver um bom momento.

Três meses depois o livro estava pronto e em mais três meses sendo lançado em uma grande livraria. A imprensa toda presente, eu com um lindo terno lembrando em nada o mendigo de tempos atrás.

Ou “mindingo” como disse Pardal que também compareceu ao evento.

Dei autógrafo para muitas pessoas, algumas delas personalidades da cidade. Entre elas Rubinho Barreto.

Rubinho comandava a construtora Barreto. Parceiro de vários governos não só pelo país como pelo mundo. Responsável por algumas das grandes construções de nosso tempo, que faturava muito com as Olimpíadas do Rio de Janeiro que se aproximavam e o pior.

Novo marido de Juliana.    

Bia levou Rubinho até a mim para apresentar e o cumprimentei dizendo que já lhe conhecia. Além de ter ouvido falar dele esteve com Juliana na noite de autógrafos de meu primeiro livro. Rubinho sorriu e comentou que lembrava bem daquela noite.

Perguntei por Juliana e Rubinho respondeu “Foi a Brasília em uma reunião do partido, se lançará em campanha para o senado”. Assinei o livro, entreguei a Rubinho e comentei “Dê lembranças a ela”. Rubinho apertou minha mão e se afastou.

Antes que eu me sentasse novamente Rubinho se virou e disse “Ela pediu que você não se metesse em confusões novamente e fique fora da cadeia”.

Respondi que iria me esforçar para isso e ele se afastou, ainda falei baixinho “Filho da puta”.

A noite foi maravilhosa e emendei em um restaurante com Bia. Bebemos muito, rimos mais ainda e quando percebi já estava aos beijos com ela em sua cama.

No dia seguinte nos encontramos na sala de seu apartamento em um silêncio constrangedor. Um não conseguia olhar para o outro até que ela me estendeu a mão sorrindo e perguntou “Amigos?”.     

Sorri e apertei sua mão respondendo “Amigos”.

Livro já estava lançado, minha vida encaminhada e no mesmo dia me mudei para um apartamento que alugara. Bia era minha amiga e eu amigo dela e isso era mais importante que qualquer foda. Como um anjo que some e aparece sempre na hora necessária Bia sumiu de novo. Foi lançar projetos culturais pelo Brasil e só continuamos a ter contatos por telefone e internet.

Mas era muito importante pra mim. Sempre será. 

Precisava trabalhar, ganhar dinheiro. Ganhava com os direitos autorais dos livros, mas sabe como é direito autoral no Brasil né? Também ganhava uma graninha com o blog e, por sugestão de Bia, comecei a fazer palestras pelo Brasil sobre jornalismo, tudo o que passei e como dar a volta por cima.

Quem diria. Virei exemplo.

Mas não era o suficiente. Precisava de um emprego fixo e isso ocorreu no fim de uma de minhas palestras. Uma das pessoas que assistiu veio até a mim parabenizando não só pela palestra, mas pela história, que conhecia bem e perguntou se eu nunca pensara em ser professor.

Olhei para ele e respondi que não, nunca passara por minha cabeça, mas poderia ser interessante um dia. Enquanto eu arrumava minha pasta ele fez a proposta “Sou coordenador do curso de comunicação de uma Universidade e adoraria contar com você como professor. Tem muito a ensinar”.

Olhei para ele. Lembrei que precisava de um emprego e de supetão respondi com uma pergunta “Por quê não?”.

Dessa forma virei professor de jornalismo. Que chique.

Alguns dias depois, nervoso e com minha pasta me encaminhei para sala de aula pensando “Vai dar tudo certo, já fui traficante, mendigo, presidiário, fiquei no meio de tiroteios, dar aula é fichinha”.

Respirei fundo e entrei na sala de aula. Primeiro dia de aula daquela turma.

Turma de João Arcanjo e Rui de Santo Cristo.



ERA DA VIOLÊNCIA 2 (CAPÍTULOS ANTERIORES) 




LINK RELACIONADO (LIVRO ANTERIOR)


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