terça-feira, 22 de outubro de 2013

A APOSTA



Capítulo publicado na coluna "Enredo do meu samba" no Blog Ouro de Tolo em  20/07/2013

Depois do caso contado por Cardosinho que liguei o nome a pessoa. 
Lembrei-me de ter visto no noticiário por alto a história de um presidente de escola de samba preso por tráfico, mas não associava o nome à pessoa e nem tinha a mínima noção do quanto a história era louca.

Anoiteceu e notei que minha Julinha estava com sono. Bia falou que estava na hora de ir embora e concordei. Despedi-me de todos no bar. Antigos e novos amigos e peguei minha turma pra ir embora. 

Julia quis ir comigo e coloquei minha filha atrás com meu pai ao lado. No carro da frente Zé ia com Bia.

Ao chegarmos na casa de minha ex Julinha não quis descer falando pra mãe que queria dormir no meu apartamento. Olhei Bia e falei que não trabalharia no dia seguinte. Então ela topou e falou para que ela não aprontasse.

Fechei a porta e não consegui partir com o carro antes de ver Bia e Zé andarem abraçados até a porta de sua casa e trocarem um beijo antes de entrar.

Fiquei chateado com a cena. Meu pai percebeu, botou a mão no meu ombro e disse “o que os olhos não veem o coração não sente”.
Mas o meu já estava sentindo.

Deixei seu Jair em casa e parti com minha princesinha ao meu lado. Julia dormia enquanto eu pensativo me calara durante todo o trajeto. 

Chegamos, peguei minha filha no colo e conduzi até um quarto de hóspedes que era usado sempre por ela. Dei um beijinho e quando me levantava perguntou se eu estava triste com sua mamãe.

Virei para Julinha dizendo não entender sua pergunta e minha filha completou “também fico triste quando a mamãe beija o Zé, gosto mais de você que dele”. 

Sentei ao seu lado na cama, fiz carinho em seus cabelos e pedi para que não pensasse nisso. Ela então pediu que eu contasse uma história. Sem conseguir pensar em nada na hora contei a história do príncipe que perdeu o amor de sua princesa. 

Deitei pensando naquela situação toda e demorei a pegar no sono. Sonhei com Bia, Julia, Zé e naquele monte de sambistas que viraram amigos íntimos através de histórias. Dormi pouco, mal e acabei acordando cedo.

Decidi pegar meu gravador e fui até a sala botar no papel algumas daquelas histórias. Entrei em transe parecendo viver naquele universo paralelo do samba quando a campainha tocou.

Atendi e era o Panguá, um faz tudo da área. Tinha esquecido que na sexta-feira pedira que ele fosse ver um problema de encanamento no banheiro.

Enquanto Panguá trabalhava no banheiro eu continuava no livro. Meu transe era tão grande que só depois de uns cinco minutos percebi que o homem me chamava. Perguntei o que era e ele perguntou se eu tinha chave de fenda.

Peguei no meu quarto e entreguei a Panguá. O homem perguntou no que eu estava tão concentrado e respondi que escrevia um livro sobre casos ligados a carnaval.

Panguá fez sinal da cruz e disse “Samba? Cruz credo”. Estranhei e comentei que não sabia que ele era crente. O encanador respondeu que não era e completou “Depois que eu soube o que aconteceu com o Belezudo não quero saber de samba”.

O faro jornalístico falou mais alto e perguntei qual era o problema. Panguá me contou a história.

Belezudo era um malandro típico. Morador do morro do Dendê achava que levaria todas as mulheres “na gaita”. Boa pinta, tinha um caderninho com nome de todas as beldades que conquistava e se gabava de nenhuma mulher lhe dizer não.

Jogava sinuca numa birosca do morro e contou a Apolinério, seu amigo, que nem Brigite Bardot no auge lhe diria não. Apolinério bebeu um gole de cerveja, deu uma tacada e disse “todas não”.

Belezudo riu e perguntou qual mulher lhe diria não. Apolinério respondeu “Margarida”. Perguntou que Margarida era essa e ele apontou para a rua.

Era uma morena bonita, na altura de seus quarenta anos e realmente valia a pena o investimento de Belezudo. Mas como diria Paulinho da Viola “porém, ah porém..” a mulher era crente.

Belezudo balançou e gaguejou. Apolinério pegou um pedaço de frango a passarinho e debochou “e aí galã? Perdeu a voz?”. Belezudo tentou argumentar que a mulher era crente e o amigo depois de outra tacada vociferou “sabia que iria amarelar”.

Aquilo tocou na alma de Belezudo atingindo em cheio seu ego. O homem chegou na frente do amigo, olhou bem nos seus olhos e perguntou “vai apostar quanto?”.

Apolinério sorriu e comentou “Quero uma calcinha dela, você tem um mês pra trazer a calcinha dela, se trouxer te dou cinco mil reais”. Belezudo enfeitiçado com a proposta perguntou o que teria que fazer se perdesse, lembrando que não tinha dinheiro.

Apolinério disse que se o homem não conseguisse teria que vestir uma calcinha no ensaio do Acadêmicos do Dendê.

Os dois eram ritmistas da escola. Belezudo era “cobra criada”, figurinha carimbada da agremiação e gelou se imaginando de calcinha na quadra.

Apolinério notou que o amigo balançou e perguntou “ e aí?”. Belezudo engoliu em seco e topou.

Apolinério pela última vez falou “conquiste a crente, leve para a cama e me traga a calcinha”. Os dois apertaram as mãos. A aposta estava feita.

Belezudo sabia que como malandro de samba ele não conseguiria nada. 

Passou numa loja no Cacuia, comprou roupas novas, um sapato, cortou o cabelo e descolou uma bíblia.

De noite enquanto todos oravam na igreja um novo frequentador, com cabelos com gel, óculos, bíblia na mão e todo sem jeito se aproximou na porta. O pastor notou a presença do irmão e lhe convidou para entrar.

Era Belezudo, ou melhor, irmão Jonas.

Belezudo pediu licença e devagar se aproximou dos outros fiéis sentando-se ao lado de Margarida. Pediu licença a mulher e começou a prestar atenção nas palavras do pastor. 

Prestar atenção é modo de dizer né? Ele estava era de olho nas pernas escondidas, mas bem torneadas de Margarida.

Ameaçou cochilar algumas vezes, mas se manteve firme e forte até perto do fim do culto quando o pastor pediu algum testemunho. De forma espontânea e surpreendente Belezudo levantou o braço.   

O pastor pediu que Belezudo se levantasse e fosse até a frente. O homem se sentindo um Al Pacino foi até a frente para ganhar o Oscar de melhor canastrão coadjuvante.

Contou sobre uma vida de drogas, orgias e entregas a Satanás que nunca teve. Disse que estava cansado dessa vida de perdição e queria entregar sua vida ao senhor.

Começou a chorar e o pastor gritou que ele estava no lugar certo, tinha encontrado a salvação e a casa do Senhor. Colocou a mão em sua testa e gritou que o demônio se afastasse daquela alma pecadora que a partir daquele momento passaria a servir a nosso senhor Jesus Cristo e gritou aleluia sendo acompanhado por todos.

Belezudo se ajoelhou no chão gritando “amém senhor” sendo acompanhado por toda a igreja que passou a lhe aplaudir com entusiasmo. O malandro olhou para frente e notou Margarida emocionada chorando e aplaudindo. O salafrário deu um sorriso de canto de boca e falou baixinho “já era, vou comer”.

Saiu de lá passando de propósito por Margarida e caminhando quando ouviu uma voz lhe chamar. Olhou para trás e viu que era a mulher. 

Aproximou-se. 

Margarida parabenizou Belezudo por seu testemunho dizendo que era uma das coisas mais lindas que já tinha ouvido. O malandro agradeceu e pediu a força não só dela como de todos os irmãos da igreja para não fraquejar.


Margarida respondeu que Belezudo parecia um homem forte, de bem e Deus não deixaria fraquejar. Belezudo aproveitou pra atacar. Perguntou se ela já iria pra casa e se poderia lhe acompanhar. A mulher surpresa pelas perguntas respondeu que sim e dessa forma os dois caminharam. 

Belezudo deixou a mulher em casa e despediu-se com um singelo e respeitoso beijo no rosto. Saiu assoviando e cantando vitória. Passou pela frente do bar onde Apolinério se encontrava e disse “ta no papo”.  


O malandro dessa forma se aproximou bem de Margarida. Todos os dias passava em sua casa para levá-la ao culto e depois levava para casa. Conversavam sobre a vida, Deus e sonhos. Em um domingo Belezudo achou que estava na hora de dar novo passo.

Chamou Margarida para o cinema. Viram um filme romântico e depois foram até a sorveteria. No meio do papo enquanto Belezudo contava que sonhava com esposa e filhos Margarida de forma audaciosa lhe deu um beijo.

Belezudo se surpreendeu, mas não perdeu a pose e disse que ela não podia fazer isso, pois Deus poderia não gostar. Margarida sorrindo falou que Deus nada tinha contra o amor então foi a vez de Belezudo beijar.

No dia seguinte Belezudo jogava sinuca com Apolinério e esse lembrou que o tempo se esgotaria em dois dias. Belezudo riu e respondeu que estava no papo e que ele fosse no banco pegar o dinheiro. Apolinério perguntou o que dava tanta certeza ao malandro e esse depois de uma tacada disse.

“Ela me chamou para jantar em sua casa. Amanhã estou lá e ganho a aposta”.

Na noite seguinte Belezudo estava lá. Jantaram e foram ver na sala um filminho romântico. Abraçados viam o filme quando Margarida pegou a mão de Belezudo e colocou em teu seio.

Belezudo se assustou enquanto Margarida disse “vamos para o quarto”. Pegou sua mão e o conduziu.

Margarida jogou Belezudo na cama e deram beijos e amassos. A mulher tirou a camisa do malandro beijando e mordendo seu corpo todo enquanto o homem apartava seus seios. O clima já estava bem quente quando ela chegou em seu ouvido e perguntou.  
  
“Você não se importa que eu seja um travesti né?”

Belezudo ficou azul e branco. Nas cores do Acadêmicos do Dendê. 

Levantou-se rapidamente, lembrou-se de tudo que fez com a “mulher” e quando ela com voz grossa perguntou se ocorria algum problema ele saiu correndo da casa.     

Entrou em disparada no bar, pediu uma cerveja, bebeu num gole só limpando desesperadamente a boca e pediu outra. Apolinério perguntou pela calcinha e Belezudo respondeu que não estava com ele. O homem perguntou o motivo e o malandro respondeu que ela era um travesti.

Apolinério impassível respondeu que a aposta era uma calcinha não importando o sexo dela. O relógio bateu meia noite e o amigo chegou no ouvido de Belezudo e disse “perdeu a aposta, te vejo sexta no Dendê”.

Na sexta Apolinério já estava na quadra quando Belezudo chegou. A galera do Dendê toda já sabia e começou a gritar “calcinha, calcinha”. Apolinério entregou a calcinha e um cabisbaixo Belezudo foi ao banheiro botar.

Voltou com uma camisa que ia até o joelho e Apolinério mandou que levantasse. Belezudo tentou desconversar, mas a galera botou pressão e ele mostrou que estava com a calcinha rosa. A quadra inteiro vibrou e a bateria fez um rufar.

Naquele momento Margarida entrou na quadra e tascou um beijão em Apolinério. Belezudo começou a gargalhar e o amigo perguntou o motivo. Belezudo respondeu “eu boto calcinha porque perco aposta, pior você que beija travesti”.

Margarida começou a rir e respondeu “pior você que não sabe diferenciar mulher de travesti, eu sou mulher”. Apolinério completou dizendo “sim, é mulher, minha gata e se passou de crente pra te enganar e fazer perder a aposta”.

A bateria fez novo rufar com os ritmistas gritando “calcinha, calcinha” e Margarida, a nova rainha de bateria do Dendê, foi para frente de seus súditos sambar.

É..Deu ruim pro Belezudo.

Todo malandro tem seu dia de otário.




ENREDO DO MEU SAMBA (CAPÍTULO ANTERIOR) 

TROCANDO AS BOLAS

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