segunda-feira, 8 de julho de 2013

1989: O ANO QUE NÃO TERMINOU


Existe um livro chamado “1968 o ano que não terminou”, de Zuenir Ventura. Sempre achei esse título interessante e acho que cabe bem para um ano que eu vivi: 1989. De todos os anos até hoje é o mais marcante pra mim, não somente pela vida pessoal como pelos acontecimentos no mundo. 


O ano é marcante não só porque foi a primeira vez que me apaixonei, o ano do divórcio dos meus avós e o ano que fiquei reprovado na escola, mas também me marcou por acontecimentos que não tinham a ver comigo diretamente. 

O ano logo no seu primeiro dia teve o acidente com o barco chamado “Bateau Mouche”. Ele levava pessoas para curtirem na baía de Guanabara a virada do ano e afundou com muita gente morrendo, entre elas a atriz Yara Amaral. Algumas semanas depois o país parou para descobrir quem matou Odete Roitman na novela “Vale Tudo”, sem imaginar que aquela seria apenas a primeira novela do ano. 

Uma outra novela me marcou. Top Model que marcou não só a mim, mas toda nossa geração. Todo mundo queria fazer arte da família Kundera. A novela tem uma das mais sensacionais trilhas musicais de todos os tempos.

Foi o ano que um livro fez barulho. O livro “Versos satânicos” de Salman Rudshie provocaram ódio no mundo islâmico ao ponto de Aiatolá Komehini decretar sua pena de morte e oferecer dinheiro por sua cabeça. O escritor teve que viver durante anos escondido até a pena ser revertida.

Teve a novela da vida real. A primeira eleição presidencial direta em 29 anos. Personagens importantes de nossa história participaram da disputa como Ulysses Guimarães, Paulo Maluf, Leonel Brizola, Mário Covas e alguns folclóricos que começaram a ganhar fama como Enéas Carneiro e outros. 

No final a eleição ficou polarizada entre o ex-sindicalista e presidente do PT Luiz Inácio Lula da Silva e o ex governador de Alagoas, o “caçador de marajás” Fernando Collor de Mello. 

A eleição mobilizou o Brasil que se dividiu. Collor sempre foi o líder das pesquisas, mas nas últimas semanas recebendo apoio de Brizola, de toda a esquerda, dos artistas e intelectuais Lula começou a ameaçar a vitória de Collor. 

Essa ameaça teve como conseqüência fatos estranhos como o presidente da CNI (Confederação Nacional das Indústrias) Mario Amato dizendo que os empresários iriam embora do país numa vitória do PT. Logo depois apareceu uma mulher no programa eleitoral de Collor contando que o candidato do PT a teria engravidado e pedido que abortasse.

Tem mais: uma edição manipulada do Jornal Nacional pró Collor quando as campanhas já estavam proibidas e o ato final: a prisão dos sequestradores do empresário Abílio Diniz vestindo camisa do PT. Collor venceu e as consequências nós sabemos.

Jingles dos principais candidatos.


Lula e a filha. 


A esquerda tomou esse golpe no Brasil - e pelo mundo também. Caiu o muro de Berlin, a União Soviética avançava fundo em suas transformações e os países do leste europeu abandonavam o comunismo. Na mesma ocasião jovens foram às ruas na China lutar por mais liberdade e aconteceu a famosa foto de um rapaz solitário na frente dos tanques da praça da Paz Celestial

Em 1989 o Botafogo finalmente acabou com seu calvário de 21 anos se tornando campeão carioca em cima do Flamengo de Zico. A seleção se classificou para a copa em partida contra o Chile no Maracanã onde o goleiro Rojas simulou ser acertado por um foguete atirado pela anônima Rosemery Mello que virou capa da playboy.

No mesmo ano na F1 acirrava a disputa entre Ayrton Senna e Alain Prost. Rivalidade que chegou ao auge no Grande Prêmio do Japão quando os dois bateram e Senna voltou à corrida vencendo. Acabou desclassificado por ter recebido ajuda na volta e Prost foi campeão. Mas no ano seguinte Senna se vingou.

Na música o ano foi o último de domínio do rock nacional, chegando às rádios a lambada e a música sertaneja. As rádios FM conheciam a até então desconhecida língua portuguesa. Músicas como “Uma barata chamada Kafka” "Adelaide" e “Astronauta de Mármore” fizeram grande sucesso. 

Uma barata chamada Kafka e Adelaide


 Astronauta de Mármore.



E por falar em música cheguei aonde queria: O principal motivo de eu achar que 1989 não terminou.

Um motivo que venho falando bastante na série das escolas em samba em cinco carnavais.

Nesse ano aconteceu o maior desfile de escolas de samba que eu vi. O disco que teve a maior vendagem de todos os tempos trouxe sambas belíssimos como o da campeã do ano anterior Vila Isabel - com o lindo refrão “clareou / despertou o amor/ que é fonte da vida/ vamos dar as mãos e cantar/ sempre de cabeça erguida”. O disco trazia outro belo samba, mesmo historicamente errado, o da Imperatriz Leopoldinense e seu famoso “Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós”

E não com um samba bonito, mas com um samba alegre e empolgante a União da Ilha desfilou com “Festa Profana” e o seu refrão histórico “eu vou tomar um porre de felicidade/ vou sacudir eu vou zoar toda cidade”. A União da Ilha nunca foi campeã do carnaval e com esse samba e o desfilaço que fez teria sido campeã em todos os anos que vi carnaval, mas... 

...Mas não em 1989, não com Imperatriz e Beija-Flor daquele ano. A Imperatriz que já citei como tendo um samba belíssimo, do meu "Top 5", fez um desfile magistral, rico, luxuoso, nada parecido com a escola que foi rebaixada no ano anterior e só ficou no grupo especial por "virarem a mesa". Era a campeã de fato e de direito se mendigos não tivessem invadido a Sapucaí. 

O que falar daquele desfile da Beija-Flor? Do Cristo censurado e com plástico preto o cobrindo e os dizerem, “mesmo proibido olhai por nós”. Falar o quê do impacto que foi ver a Beija-Flor sempre luxuosa, imponente, vir maltrapilha, com panos e farrapos. Ver o gênio Joãosinho trinta naquela manhã de terça-feira vestido de gari?

E depois no desfile das campeãs descobrirem quase todo o Cristo deixando só a cabeça coberta e a transmissão ser interrompida
pelos berros emocionados de Fernando Pamplona falando que aquilo era povo? 

Eu por mais que seja contraditório costumo falar que a Imperatriz fez o melhor desfile do carnaval de 1989 e a Beija-Flor o maior carnaval da história naquele ano. Quesito por quesito acho que a Imperatriz foi melhor e no impacto e emoção a Beija-Flor. Acho que os Deuses do samba concordam comigo porque o desfile da Imperatriz foi o campeão do carnaval e o da Beija-Flor o campeão da história do carnaval. 

Beija-Flor.


Imperatriz.


Em 1989 víamos o Brasil e o mundo esperançosos esperando por mudanças na década de 90 que viria. Foi o ano que pedimos que a liberdade abrisse suas asas e fomos tomados por ratos e urubus, tudo inebriados por um grande porre de felicidade. 

Não sabíamos que aquele começo de esperança na verdade era o fim de uma era. Os anos 70 e 80 foram ricos em arte, política, acontecimentos em geral e 1989 acabou servindo como o “grand finale”.

Por isso acho que o ano de 1989 não terminou...


 ..Ou pelo menos não devia.


6 comentários:

  1. Nossa, que ano histórico! Pra mim com certeza o melhor ano de todos os tempos, afinal foi o ano em que nasci...;)
    Adorei o texto e os vídeos....

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Foi um ano importante mesmo, dos que vivi o mais importante e mostra o quanto to velho hahaha

      Excluir
  2. Verdade foi um ano marcante!!! Assim como 1994... Mas 1989 foi muito mais forte. Faltou falar do Cazuza se declarando soropositivo e recebendo o premio Sharp numa cadeira de roda, acho que foi pela musica BRASIL e o álbum IDEOLOGIA.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Verdade, bela lembrança do Cazuza. Foi um ano histórico

      Excluir
  3. 1989 foi o ano que marcou a minha vida, tanto pessoal como na política! Jamais me esquecerei... e também acho que ele jamais deveria ter acabado!

    ResponderExcluir
  4. meu ano de nascimento, não sabia que tinha acontecido tantas coisas

    ResponderExcluir