terça-feira, 2 de julho de 2013

AMOR DE VELHA GUARDA


*Conto publicado no blog Ouro de Tolo, coluna "Enredo do meu samba" em 13/4/2013

Carlinhos contou toda a história e suspirou por Rose. Benito brincou dizendo que o rapaz era apaixonado por ela e Carlinhos respondeu “quem dera se me desse bola”.

Tobias perguntou se ela cumprira a promessa e voltado para desfilar na União da Ilha esse ano e ele respondeu “veio sim, mas dessa vez veio preparada”.

A menina veio com os pais, ficaram em um hotelzinho na Ilha e os três desfilaram em ala comercial. Juntaram dinheiro durante o ano e parcelaram as fantasias.

Comentei “menina esperta” e meu pai perguntou ao compositor se rolou alguma coisa. Carlinhos olhou para o céu e respondeu “ela está noiva”.

Lamentamos o fato e meu pai deu uma força pro garoto dizendo que na hora certa encontraria seu amor. Almeidinha deixou uma garrafa de cerveja na mesa e disse “pra vocês verem, não teve o caso do Alzair?”.

Perguntei de que Alzair ele falava e ao colocar bebida no meu copo ele disse “o velho guarda da Mocidade, que foi mestre-sala lá”.

Nunca tinha ouvido falar e meu pai emendou “mestre sala no tempo do Mestre André?”. Almeidinha respondeu “esse mesmo” e meu pai completou “esse era dos bons”.

Perguntei ao Almeidinha que história era aquela e ele me disse que quem estava mais por dentro era o Manolo e era uma história bacana que serviria pro meu livro.

Pedi licença a rapaziada e subi. No segundo andar encontrei Manolo mexendo em alguns papéis e o homem disse que se eu quisesse ter um livro teria que me apressar, pois foi tudo fechado com a igreja e ele entregaria a chave em trinta dias.

Lamentei o fato e o homem respondeu “lamento também, mas são muitas dívidas de impostos que não tenho como pagar, se tivesse não vendia”. Ouvi o homem e comentei que poderia tentar ver uma forma disso ser negociado. Manolo sorriu agradecendo e contando que não precisava e perguntou se eu precisava de algo.

Contei que ouvira no primeiro andar a história de um Alzair, velha guarda da Mocidade, mas o Almeidinha não soube me contar direito. Manolo sorriu e falou “ah, o do casamento”. Não entendi e ele me puxou.

Mostrou uma foto dele com um senhor e uma senhora. Perguntei quem eram e ele me respondeu “Alzair e Leila”. Continuei olhando a foto atentamente e Manolo me disse que contaria a história deles.

Para isso voltamos no tempo.

Era a virada dos anos 70 pra 80. Além das consideradas quatro grandes do carnaval “Portela, Império, Salgueiro e Mangueira” outras escolas começavam a surgir com força. Alguns anos antes a Beija-flor rompeu a “panela das quatro” e foi campeã do carnaval, a União da Ilha não foi campeã, mas conseguiu fazer sua presença e outras duas escolas também formaram posição.

A Mocidade Independente de Padre Miguel, campeã de 1979, a bateria “que não existe mais quente” e a Imperatriz Leopoldinense, campeã no ano seguinte. 

As duas agremiações começaram a dividir posições com as tradicionais, mostrar força que se consolidou ao longo dos anos e serviram como pano de fundo para essa história.

Como é tradicional escolas fazem visitas a outras e a Imperatriz fez visita a Mocidade. Alzair bebia uma cervejinha com amigos em uma mesa quando o diretor de harmonia lhe chamou para rodar bandeira.

Posicionou-se com a porta bandeira e olhou para o lado observando o casal da Leopoldina. Observou a beleza da porta bandeira e se encantou.

Os dois casais bailaram pela quadra mostrando toda elegância que casal deve ter. Leila era considerada uma das melhores da nova geração recebendo o apelido de “doce anjo da passarela” e Alzair era conhecido por suas notas dez.

Depois que dançaram Alzair chamou o casal convidado para sentar em sua mesa. Bateram papo por um bom tempo e evidente que Leila quem chamou a atenção de Alzair.

Conversaram por um bom período e Leila comentou que precisava ir embora. Alzair perguntou onde ela morava e a moça respondeu “Ramos”. O homem eufórico disse “que coincidência, moro lá também”. Mentira, Alzair morava em Caxias.

Ofereceu carona pra moça que aceitou.

Não conhecia muito a área e se perdeu várias vezes. Depois de muito tempo conseguiu encontrar a casa de Leila e parou o carro. Leila riu e comentou “pra quem mora no bairro até que você se atrapalhou bastante”.

Alzair olhou para frente e gargalhou. Depois pediu desculpas e respondeu que morava muito longe dali. Leila perguntou porque ele tinha feito aquilo e Alzair respondeu “para ficar mais um pouco com você”.

Nisso o mestre sala passou a mão no rosto da porta bandeira e lhe beijou.

Leila respondeu ao beijo, mas depois disse que não podia fazer aquilo. O mestre sala quis saber o motivo e ela respondeu “estou noiva”.

Alzair ficou desolado e ela desceu do carro mais uma vez pedindo desculpas.

O mestre sala não conseguia parar de pensar naquela mulher e decidiu que a história não ficaria assim. Resolveu comparecer ao ensaio seguinte da Imperatriz.

Foi a paisana mesmo, sem porta bandeira, sem roupa de mestre sala, nada. Como um folião comum comprou uma cerveja e ficou no bar da escola observando o ensaio e com os olhos procurando a amada.

Um diretor lhe reconheceu e avisou ao locutor da escola que ele estava na quadra. Rapidamente o locutor anunciou a presença de Alzair e sobre o rufar da bateria pediu a presença dele no palco.

Alzair subiu e o locutor pediu para que ele falasse alguma coisa. Alzair viu Leila olhando para ele da quadra e contou ao microfone que o que lhe movia até a quadra da Imperatriz era o amor. A quadra ficou um instante em silêncio e ele emendou “amor ao samba”.

Foi bastante aplaudido e desceu do palco. Leila lhe puxou pelo braço e perguntou o que ele fazia ali. Alzair respondeu “vim te ver”.

Leila disse “louco” e puxou Alzair para o lado de fora da quadra. Ali isolados em um local que ninguém teria como ver Leila beijou Alzair. Beijaram-se por minutos, freneticamente, ardentemente.

No fim Leila pediu que Alzair parasse e comentou “é a primeira e a última vez”. Alzair tentou argumentar, mas em vão. Leila se despediu e voltou para a quadra.

Triste Alzair voltou para a casa e retomou os ensaios. Veio o carnaval, tirou as notas 10 e cada vez mais era reverenciado como um grande mestre sala. Mas não conseguia esquecer Leila e a vontade de lhe procurar era enorme.

Uma noite estava em casa quando bateram na porta, abriu e era ela. Leila.

Alzair perguntou o que ela fazia ali, Leila pôs o dedo em sua boca e respondeu “fala nada, só me beija”. Os dois se beijaram e rapidamente estavam na cama.

Fizeram amor e no fim feliz Alzair fazia um monte de planos enquanto Leila começou a chorar. O mestre sala perguntou qual era o problema e a porta bandeira respondeu “me caso amanhã”.

Alzair deu um pulo da cama e perguntou o que significava tudo aquilo, se ela tinha brincado com ele. Leila respondeu que não, lhe amava e precisava pelo menos uma vez estar em seus braços. 

Alzair só balbuciava a pergunta “por quê?” E Leila pediu desculpas enquanto se arrumava. Já vestida Leila se aproximou de Alzair e perguntou “Por que você não apareceu antes?” Lhe deu um beijo e foi embora.

Leila realmente casou com um oficial do exército e largou o samba se mudando para Brasília. Alzair não teve mais notícias suas e depois de muito sofrer decidiu seguir sua vida.

Os anos passaram e o homem continuou brilhando na Sapucaí e tirando suas notas 10. Casou, teve dois filhos e se separou. Sentiu o peso dos anos e se aposentou decidindo entrar para a velha guarda.  

Mais de trinta anos depois do último contato com Leila Alzair era presidente da velha guarda da Mocidade e decidiu fazer uma festa para todas as velha guardas do Rio de Janeiro.  Apesar dos pesares o homem conseguiu ser feliz, apesar de todos os dias lembrar de Leila e imaginar como ela estaria.

No dia da festa Alzair observava de um canto tudo dando certo quando pediram que ele fosse até a portaria, pois tinha uma pessoa querendo falar com ele.

O homem logo pensou que fosse algum “bicão” pedindo para entrar, mas mesmo assim se encaminhou ao local. Ao sair teve uma grande surpresa. Era Leila.

Trinta anos mais velha, com as mudanças normais que todos nós temos ao envelhecer, mas Alzair não demorou nem um segundo pra reconhecer sua amada. Tímida Leila brincou contando que era uma ex-porta bandeira e perguntou se podia entrar.

Alzair estendeu a mão para Leila e disse “pode entrar e se quiser nunca mais vai embora”.

Leila ficara viúva e finalmente os dois puderam viver seu romance. Casaram-se na quadra da Imperatriz Leopoldinense e durante a festa na quadra a porta bandeira da atualidade da agremiação ofereceu a bandeira para que ela dançasse.

Leila perguntou se Alzair lhe acompanharia e pela primeira vez os dois dançaram como um casal de mestre sala e porta bandeira. Dançaram aplaudidos por todos e rodeados por casais de várias agremiações do carnaval carioca que também se apresentavam.

Na dança do tempo eles ganharam o 10.


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