sábado, 1 de junho de 2013

PRIMAVERA PORTELENSE, INVERNO NO GATO MOLHADO


* Coluna publicada no blog Ouro de Tolo em 26/5/2013

E a esperança venceu em Madureira. Um dia mais tranqüilo que se prometia na rua Clara Nunes, mas tenso. Não apenas tenso para quem estava lá lutando por um sonho, mas para sambistas, portelenses ou não, de todo o país que pararam no domingo 19 de maio de 2013 para acompanhar o que ocorria nas eleições da Portela.

Muitos corações unidos em uma só vontade, trazer a maior campeã do carnaval de volta ao lugar que é dela. A disputa foi árdua, emocionante, eu tive que sair e toda hora enchia o saco do dono do blog tenso com a demora do resultado e ele veio.

Três votos. Apenas três votos. Para os pessimistas o susto e o pensamento que quase o Nilo ficou. Para os otimistas o susto, mas o grito de liberdade e a estrondosa vitória em um sistema eleitoral viciado e preparado para a perpetuação de um comando escuso, sombrio e terrível para a Portela.

Uma vitória consagradora, emocionante. Fiquei arrepiado e com olhos marejados depois ouvindo pela rádio Arquibancada o momento do anúncio e os depoimentos com voz embargada pelo choro da felicidade de amigos que prezo tanto. Ri e entendi perfeitamente a emoção do amigo Pedro Migão ajoelhado no vídeo mostrado pela Globo. Sou emocional, sou passional, passei por muitas emoções no samba e fico feliz de verdade quando vejo amigos passando por isso.

É a primavera portelense. A liberdade, o Sol que há de brilhar mais uma vez, que apesar de você amanhã há de ser novo dia e todas as músicas possíveis para se cantar que lembram a liberdade.
Nilo partiu num rabo de foguete para nunca mais voltar. A Portela não será mais subtraída em tenebrosas transações. Dará certo? Não sei. A Portela passa pelo mesmo momento que meu Flamengo, o Flamengo do Migão e acho que ali está dando certo. Partindo da premissa da teoria de Tiririca que pior que está não fica e confiando nas pessoas que estão agora no comando da Portela acho que vem essa virada.

Não acho que será rápida. A nova direção passará percalços, terá que mapear uma dívida que promete ser indecente e como toda administração de pessoas sérias equacionar essa dívida. Nosso Migão é agora do conselho fiscal e como entendedor de economia será um dos responsáveis por ajudar as finanças portelenses. Conhecedor de sua capacidade e do seu amor pela Portela desejo boa sorte.

Confio tanto nessa nova administração da Portela que no começo do ano recebi sondagem para fazer samba na escola caso a oposição vencesse e farei.

Fiz uma tentativa no carnaval 2003 de fazer samba para a Portela. Minha primeira tentativa fora da Ilha, com parceria de amigos, mas sem nenhuma estrutura. Só acostumado com Boi da Ilha (mesmo já tendo vencido o Estandarte de Ouro) e na administração Carlinhos Maracanã que anda meio esquecido, mas é fato que foi tão desastrosa quanto do Nilo.

Na época tinha a opção covarde de cortar samba na fita, fato que privilegia compositores com maior poder aquisitivo em relação a outros. Não tínhamos grana e fomos cortados dessa forma. O samba não era grande coisa, mas podia ter ido pra disputa.

Esse ano volto com uma parceria estruturada, com passagens por Beija-Flor, Imperatriz e Mangueira, campeão na União da Ilha e acredito que mais amadurecido para entender a Portela.

Não será fácil. A Portela é uma espécie de seleção brasileira do samba. A casa dos mestres, dos melhores compositores e estou indo pra aprender com esses mestres. Evidente que não sou bobo, estou me cercando bem e faremos samba de qualidade. Mas ali é outro nível e eu e meus parceiros queremos chegar a esse nível.

É tempo de colher as flores da primavera portelense.

Até porque não são em todas que podemos colher flores, nem mesmo passam por primavera. Outras estão em pleno inverno e não acredito que saiam dele tão cedo como é o caso da Acadêmicos do Gato Molhado.

A Acadêmicos até vem sendo administrada por pessoas inteligentes, com influência e é inegável seu crescimento nos últimos anos. Acontece que você ser inteligente, influente e bom gestor não faz de você o “pica das galáxias”, uma pessoa imune a erros e melhor que as outras.

A Gato Molhado vem pecando em seus concursos de samba-enredo, seu calcanhar de Aquiles. Começou dando preferência aos sambas do filho do diretor de carnaval e do cantor da escola. O cantor é aquele que não assina sambas, mas está em todos vencedores e acaba ganhando duas vezes, como compositor “por fora” e na parte retida do direito de arena dos compositores pela escola. É um rapaz muito inteligente.  Está no meu dinheiro e o de vocês também. 

Ano passado a Gato Molhado quis mostrar que seu concurso era sério e não deu samba nem pro filho do diretor nem pro cantor, justo no ano em que vieram melhor. O presidente bateu no peito, disse que quem mandava era ele e escolheu o pior da final.

Tomou pau na avenida, como tomou nos outros anos. Mas o presidente é malandro e sempre culpa outras situações. A desse ano escolhida pelo presidente gato molhadense foram as alas comerciais.  

Agora pra 2014 a Acadêmicos do Gato Molhado inova. O presidente chama compositores de fora da comunidade para fazer samba na agremiação, melhor, indica com qual parceria esses compositores devem se acertar. Isso provocou uma situação única na fauna nacional. O engarrafamento de pombos.

Vários pombinhos branquinhos, bonitinhos, vindos da Europa, de Niterói, da Zona Norte do Rio se enfileiraram em uma porta e bateram nela pedindo para entrar e se protegerem do frio do inverno gatomolhadense.

Mas na verdade o presidente queria um pombo específico e avisou a parceria. Essa já tinha acertado com outro e teve que mudar para assim atender o presidente.

Dessa forma o presidente montou a parceria para esse ano. Montou a dedo, mas faltava um. Tirou um integrante de uma outra parceria e levou para essa.

Assim chegou Mané Toquinho. Um bom compositor e cantor que sempre falou mal de uma parceria, tinha verdadeiro ódio por ela, xingava, brigava com amigos por se aproximarem dela, levava a disputa com eles para o lado da guerra e no fim se juntou a esse grupo que tinha nojo.

Tudo por ordem de seu padrinho que sempre combateu essa parceria, fez de tudo para que ela fosse aniquilada e agora se rendeu e colocou seu pupilo para assinar com eles.

Quanto custa um homem? Não sei. Não sou romântico nesse aspecto e acredito que realmente todo mundo tenha seu preço. Mas tenho o orgulho de não saber qual é o meu por nunca chegarem nem perto dele.

Pra que eu me venda, para que eu traia amigos, posições, pensamentos têm que ser muito caro. Para que eu chegue em casa e não tenha hombridade de olhar nos olhos da minha filha tem que ser muito dinheiro, mas muito mesmo. No mínimo um que mude o futuro dela.

Enquanto não chegam a esse preço posso bater no peito e dizer. Não traio amigo, não traio pensamento, não traio valores. Não viro amigo de quem não gosto, não me sujeito, não me deprecio em troca de trinta moedas. Ganhei sambas nas escolas que EU QUIS GANHAR, ganhei os prêmios QUE EU QUERIA TER sem nunca me vender, me rebaixar, me prostituir, bajular.

Não freqüento escolas de samba o ano inteiro, não vou a festinhas de alas, não sou simpático quando não quero ser ou com quem não quero. Sou tímido, caseiro, introvertido com quem não conheço e não vou fazer festinha pra ninguém só por interesses, visando disputas de samba. Posso errar elogiando alguém, mas se elogio é porque naquele momento achei que merecesse, não pra ganhar na frente. Só falo “sou seu fã” e “tamos juntos” com quem sou fã e quero estar junto mesmo.
Sou amigo de 99,99% dos compositores com quem já concorri. Por isso já fiz sambas com quase todos eles. Por causa disso nunca cuspi pro alto pra depois não cair na minha testa. Por causa disso nunca passei pelo constrangimento que passa agora Mané Toquinho.

Na minha opinião ficar em camarote presidencial é merda, ganhar pulseirinha pra ir a camarotes ou mesas é merda, tendo dinheiro eu compro, não tendo fico em pé. Ganhar samba-enredo é legal, mas tenho ambições muito maiores para minha vida e se tenho é porque sou maior que isso. Sou maior que uma vida de compositor de samba-enredo.

Ganhei samba pra cacete em 16 anos, só um no especial, mas tenho exatamente a quantidade de vitórias e sucesso no samba que corresponde a meus valores e pensamentos e isso é meu maior orgulho no carnaval.

Aliás, curioso que tem gente que não me valoriza da forma que mereço e todos os anos se surpreende com os sambas que faço parte. Das duas uma. Sou um cara imprevisível ou são muito burros e apenas vivem em seus mundinhos.

Pequenos poderes conquistados por pequenas pessoas.

Mas enfim, qual o preço do homem? De alguns vinte mil reais. Dinheiro que já ganhou uma vez e durou nem dois meses. Pobre Mané Toquinho, desse jeito terá que continuar “invadindo” parceria dos outros.

Mas assim segue a vida. Primavera para alguns, inverno para outros.

Cada um tem a estação que merece.  



2 comentários:

  1. Não é a primeira vez que leio esse texto. Nem a primeira vez que me identifico tanto com ele e com o seu autor. Só digo uma coisa, Poeta: Orgulho de ser seu parceiro na PORTELA, em plena primavera da Escola. É hora de colhermos as flores.

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    1. Orgulho é meu poeta, vamos colher as flores

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