terça-feira, 18 de junho de 2013

OS FILHOS DA MISÉRIA


Em um momento mais revoltado escrevi uma coluna para o blog “Ouro de Tolo” chamada “Os filhos da miséria”. A coluna foi publicada no dia 9 de setembro de 2012 aproveitando o recente aniversário de nossa independência.
Nela falei da história do Brasil, da passividade que foi construída no país ao longo do tempo e que todas as mudanças que ocorreram aqui teve interesses por trás.
Também escrevi o tipo de revolução que eu acreditava.
Ontem alguma coisa de diferente aconteceu. Não era o Brasil passivo que acostumei a ver. Mais de 250 mil pessoas por todo o Brasil foram às ruas protestar contra muitas coisas e todas com motivos. Um movimento que começou pequeno em São Paulo protestando contra aumento de vinte centavos em passagens de ônibus ganhou proporções poucas vezes vistas em nossa história.
Longe do que descrevo no texto de setembro de 2012, mas algumas coisas que descrevi ali ocorreram. Os filhos da miséria, a gente do povo decidiu soltar a voz. Sem bandeiras políticas, sem tendências, apenas manifestando o seu direito de ser cidadão.
Vamos ao texto. Polêmico na época, com contestações de quem leu, mas um pouco visionário.
  
OS FILHOS DA MISÉRIA
  


Como todo mundo já sabe desde criança 7 de setembro é o dia de nossa independência. Aprendemos garotos no colégio, pelo menos na minha época era assim, a cantar o hino do nosso país, o da bandeira, o da independência e que D.Pedro I é um grande herói nacional.

Com o tempo vemos que não foi bem assim.

Assim como é uma balela esse papo que fomos descobertos. Descobertos apenas pelos “civilizados” porque muito antes do Brasil Pindorama já existia com seus índios, cultura e riqueza. O que pode ter ocorrido em 22 de abril de 1500 foi a “Invenção do Brasil”. Inventaram um país da forma que eles queriam que fosse e que é dessa forma até hoje.

Exploraram nossas riquezas, acabaram com nosso pau brasil, seduziram nossos índios com espelhinhos, dormiram com as índias, implantaram a catequese impondo religião e deixaram em troca a escória da Europa.

Os criminosos, os condenados, aqueles que Portugal queria se livrar foram mandados ao Brasil para povoar e comandar nossa terra. Na nossa “invenção” Pero Vaz de Caminha na famosa carta ao rei de Portugal pediu emprego para seu sobrinho!! O nepotismo e o jeitinho brasileiro nasceram junto com esse país continental.

Depois a burguesia se fartou com as capitanias hereditárias. Feudos que existem até hoje foram criados, não duvido que a região do Maranhão tenha sido dada ao primeiro Sarney e revoltas que surgiam vinham à tona por interesses próprios.
Esse país não foi formado por heróis, foi formado em oportunidades.

Os inconfidentes mineiros pensavam em si em sua rebelião. Nos impostos que pagavam. Em nenhum momento pensaram, por exemplo, na libertação dos escravos. Na hora que “deu ruim” todos “tiraram da reta” e sobrou para Tiradentes que assumiu o papel de “bucha”.

Tiradentes bateu no peito, disse “é comigo mesmo”, assumiu a liderança do movimento e parou na forca.

Mas o Brasil precisa de heróis e depois que viramos República criaram o perfil de um Tiradentes barbudo, cabeludo, igualzinho Jesus Cristo mesmo ninguém sendo enforcado dessa forma e por fim criaram Milton Nascimento cantando “Coração de estudante” para o herói ser definitivo.

Também colocaram essa música na trilha da agonia de Tancredo Neves pra provar que originalidade não é nosso forte.

O processo da nossa independência também começou com “arregada”. A família real portuguesa fugiu pra cá com medo de Napoleão. Imaginem aqueles portugueses todos, eram milhares, correndo para os barcos e desembarcando aqui nesse país tropical e subdesenvolvido? Só por isso desenvolveram o Brasil, para que pudessem morar em lugar decente.

Seja para receber a família real ou as Olimpíadas o Brasil só evolui no tranco. Só fazem grandes obras, grande desenvolvimento pra primeiro melhorar as condições da burguesia e o mundo ver como somos empreendedores.

Nenhuma gota de sangue foi derramada para nossa Independência. Ela foi um grande acordo de gabinete para que Portugal de certa forma mantivesse o poder. O “maior herói da história do Brasil” decidiu proclamar nossa independência em meio a uma diarreia.

E nosso maior herói era namorador e morreu de doença venérea.

Nossa maior guerra entramos sob ordem da Inglaterra para dizimar um pequeno país vizinho. Nosso maior guerreiro, Duque de Caxias, era um facínora. Outra grande guerra que entramos, a 2°guerra mundial, o Brasil demorou a decidir que lado estava e também decidiu por interesse.

A “revolução” de 1964 foi feita com interesses da burguesia e a derrubada do Fernando Collor de Mello em 1992 com interesse da Globo.

O Brasil é um país que deu errado? Por incrível que pareça, com tudo isso que citei acima, não.

Tudo bem, o futebol era nosso maior orgulho, éramos os melhores e deixamos de ser pelo menos por enquanto, mas somos mais que o futebol.

Somos um país com um povo maravilhoso com defeitos, evidente, mas de uma gente valente, guerreira, mais que Tiradentes e Duque de Caxias, que entra na guerra do dia a dia com tudo contra e vence.

Somos o país também de Pelé, Chico Xavier, Irmã Dulce, Santos Dumont, Betinho, Villa Lobos, Tom Jobim, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Chico Mendes, Paulo Freire, Machado de Assis, Darcy Ribeiro, Nelson Rodrigues, Fernanda Montenegro, Elis Regina, Clara Nunes, Carmem Miranda (sei que era portuguesa, mas brasileiríssima) e tantos outros que nos orgulharam e orgulham.

O problema, como eu disse acima, é que todas as nossas grandes mudanças, guerras, revoluções foram por interesses pessoais ou de uma coletividade. Nunca foi uma coisa para o país todo e nos momentos que poderíamos ter nos fortalecido como a independência que comemoramos essa semana ela veio de uma “cagada”.

Isso nos transformou numa nação passiva, que diz que “é assim mesmo” e vê a vida passar no Gatonet.

Só acredito em revoluções de baixo pra cima, que venha dos “filhos da miséria”, da “gente do povo”.

Porque há uma hora em que todo mundo cansa, até o que se acostumou apanhar.

Há de chegar a hora que os filhos da miséria, os mendigos, os delinquentes, as prostitutas, os bêbados, os crackudos, os loucos, os desempregados, os favelados, os negros, as mulheres, os operários que arriscam suas vidas em construções, os presidiários, os estudantes, o camelô que acorda cinco da manhã, os que sofrem de amor, os que sofrem de vida, que todos eles vão acordar e ver que a independência é uma falácia, ninguém é independente.

E essas pessoas, elas que estão à margem da sociedade, do politicamente correto e do Brasil inventado em 1500 tomarão de volta Pindorama. Não para os índios, porque esses infelizmente foram dizimados pela “cultura” e pela “civilização”.

Mas tomarão das mãos de quem rouba. De quem desvia dinheiro da saúde, da educação, do saneamento básico, segurança, quem compra votos e ri da nossa cara todos os dias em câmaras de vereadores, assembléias legislativas e governos municipais e estaduais.

E os filhos da miséria irão marchar até Brasília, nadar naquele lago em frente ao congresso e entrar lá naqueles dois prédios tomando de volta o que é dele, pois, dizem ali ser a casa do povo e não de mensaleiros.

No STF eles darão as ordens e não vão absolver bandidos e vão fazer rolar pela rampa do planalto todo o desmando e humilhação que sofreram até hoje.

Aí sim acreditarei em revoluções e independência. No dia que a bandeira nacional for substituída por uma camisa rasgada e suja de graxa e sangue.     

Enquanto isso vamos aproveitando o feriado de 7 de setembro, para alguma coisa serve essa mentira.

Na nossa pátria mãe gentil não há lugar para os filhos da miséria.


 Ainda...




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