quinta-feira, 6 de junho de 2013

O BRASIL ATRAVÉS DAS ARTES


*Coluna publicada no blog Brasil Decide em 2/6/2013

Fiz duas colunas recentemente mostrando o Brasil através das novelas e das escolas de samba. O tema é muito fértil e pensei “por quê não algo mais abrangente?”.  Sim, as artes sempre andaram de mãos dadas com os momentos que o país vivia.

Somos um país continental e que respira cultura. Cultura essa que vem dos povos que vieram povoar o Brasil ao longo dos séculos. Europeus, africanos, asiáticos se juntaram a cultura indígena provocando a miscigenação.

E a arte sempre foi uma forma de resistência do povo brasileiro desde as pinturas de guerra dos índios passando ao ritmo negro da senzala.

Podemos partir daí para mostrar o Brasil através das artes. O batuque do negro, a capoeira já era uma forma de mostrar seus ancestrais, cultura, povo e um grito de resistência. Resistência, palavra que nunca sai de moda no Brasil não importa o momento em que vivemos e a arte encontrou nessa palavra e ação um modo de existir.

Sempre esteve presente, desde os primórdios da nossa música na virada do século XIX para XX quando Chiquinha Gonzaga pedia “abram alas que eu quero passar”. A primeira mulher a cantar marchinhas de carnaval enfrentando a resistência de um mundo dominado por homens.

Carmem Miranda fez sucesso no exterior e não gostaram, foi vaiada em sua volta. Para isso lançou “disseram que eu voltei americanizada”. Tom Jobim disse anos depois que fazer sucesso no Brasil era ofensa.

Tom, aliás, foi um dos que “vendeu” o Brasil de sua época, a época do “presidente bossa nova”. Apelido dado a JK, ritmo criado por Tom, Vinicius, João Gilberto entre outros.

Um sambinha cantado em tom menor, voz baixa mostrando um Brasil sedutor como era a canção. Tempo de esperança, canções felizes. Tempo de riso com os filmes de Oscarito e Grande Otelo, mas também de “O pagador de promessas” sendo premiado pelo mundo.

Uma era de esperança na política, nos esportes com futebol e basquete campeões do mundo, a bossa nova tocando no Carnegie Hall, cinema conquistando Cannes.

Tudo isso acabando em 31 de março de 1964.

Mudou o país, mudaram as artes. Momento sombrio, soturno, de trevas que fizeram ensolarar nossas artes. Nunca fomos tão criativos, nunca fomos tão audaciosos. As armas travestidas de letras, melodias e vozes. Cenário de guerra eram os palcos e as telas de cinema. Era a resistência.

Festivais de música ferviam o país. Músicas “tapa na cara” como “Pra não dizer que não falei de flores”, que disfarçavam tão bem a ponto de serem vaiadas como “Sabiá”. Músicas que se eternizaram como “Roda viva”, “Alegria, alegria”, “É proibido proibir”, “Disparada” ..

Nos palcos “Arena canta zumbi”, “Roda viva”, o teatro do oprimido, teatro opinião..No cinema o cinema novo com obras de Glauber Rocha.

A opinião, o modo de pensar contrário sempre teve revide. Assim como Graciliano Ramos parou na prisão e Jorge Amado sofreu repressão da ditadura Vargas os que combateram os militares tiveram que se exilar como Caetano, Gil e o irmão do Henfil que partiu num rabo de foguete.

Assim como os contra existiam os pró. Na era Vargas Ary Barroso cantava que o coqueiro dava coco em “Aquarela do Brasil”, um verdadeiro hino nacional.  Dom e Ravel nos anos 60 compuseram “Eu te amo meu Brasil, eu te amo”. Teve também aquele que não se posicionou e por sua alienação e “marra” pagou com a carreira e porque não com a vida como no caso de Wilson Simonal.

Simonal mandou bater em seu contador dentro do DOPS e acabou sendo acusado de “dedo-duro”. Desde Judas nos primórdios de nossa existência esse é o pior dos crimes. A esquerda lhe arrasou, a direita não ligou e assim acabou Simonal. Nada foi provado até hoje.

Veio a abertura. Músicas como “O bêbado e o equilibrista” e “Vai passar” viraram hinos. Filmes como “Pra Frente Brasil” denunciaram pela primeira vez o que ocorreu no período de regime militar enquanto filmes como “Lucio Flávio, o passageiro da agonia”, “República dos assassinos”, “Eu matei Lúcio Flávio” mostravam a violência que tomava conta das grandes cidades. 

Os democráticos anos oitenta trouxeram a rebeldia do rock. A crítica nas vozes de gênios como Cazuza e Renato Russo. O excesso de liberdade no cinema como “Rio babilônia”, a musicalidade de uma época como em “Beth Balanço”, “Menino do Rio”, marcas de uma geração.

Que país é esse? Brasil? Mostra a tua cara!! Hiper inflação, corrupção, Luis Inácio falou, tem trezentos picaretas.  Os anos oitenta e começo dos noventa muito falaram, poucos ouviram.   

O cinema começou a definhar, sem a Embrafilme, sem subsídios foram os primeiros indícios do que vivemos hoje.

Não se faz mais música, filme ou peças de protesto. Não que a vida tenha melhorado, mas uma acomodação que marca a nossa geração.

Hoje vivemos a era do individualismo. Cada um por si. A classe C, como eu já disse, foi a paraíso e vemos essa classe C nos filmes atuais de comédia e fácil entendimento da Globo filmes. Assim como no teatro a era stand up. O humor fácil, sem necessidade de pensar.

E na música sertanejo universitário e funk, com letras fáceis, quase monossilábicas sobressaem. As artes de hoje foram feitas para a classe C. Uma inversão de valores que faz a cultura se aproximar de determinado público e não determinado público se aproximar da cultura.

Uma era artística nunca é definitiva assim como a situação que um país vive. Não sabemos como será no futuro, só que sempre vão caminhar juntos.

Um ator, escritor ou cantor tem tanta força quanto um soldado armado, amado ou não. Não existe poder maior, que amedronte mais governantes que um povo que pensa.

E pensar não pode ser um fenômeno cultural, tem que estar dentro de nós em todos os momentos.

Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.





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