sexta-feira, 28 de junho de 2013

O CÂNCER DA ALMA


* Coluna publicada no blog Ouro de Tolo em 23/6/2013

Tenho vontade de escrever sobre esse tema faz muito tempo e justo no momento que abro o Word pra escrever vejo uma pessoa que sigo no twitter falar que o tio cometeu suicídio.
                    
Não. O tema não é “simplesmente” suicídio, mas tentar fazer uma avaliação do mundo de hoje.

Começo fazendo uma pergunta. Você é feliz?

Acho que quase a totalidade das pessoas responde de imediato, sem pensar que “sim”. Responde porque desde pequenos somos condicionados a isso e responder algo diferente pode ser motivo de vergonha. Fracasso de não conseguir construir uma boa vida.

Depois de escrever isso refaço a pergunta pedindo que antes de responder pense um pouco. Você é feliz?

Eu respondo por mim. Não sei. Tenho situações na minha vida em que sou feliz, tenho orgulho e outras que me deixam triste, ainda mais por não conseguir mudar. Sou uma pessoa que teve perdas, algumas não cicatrizaram até hoje e volta e meia isso machuca.

O tempo fere todas as curas.

Particularmente acho muito difícil responder uma pergunta dessas porque todos nós temos momentos felizes e de tristeza. O conceito de felicidade também é variável, depende de cada pessoa. Um doente terminal de câncer pode se sentir feliz quando recebe abraço de alguém que ama e uma pessoa que tem saúde, família, amigos, dinheiro se sentir triste porque..porque..porque..

..Isso é o pior. No mundo em que vivemos hoje em dia muitas vezes ficamos tristes sem motivo nenhum. A tristeza, angústia, medo, sensação de morte vem sem um porque. Damos o nome desse sentimento de depressão.

Depressão pra mim é o grande mal do século. A maior doença do mundo atual, a mais agressiva e até, porque não, mortal que câncer e aids. É uma doença silenciosa, solitária, que toma conta e muitas vezes não se encontra forças para lutar. É o câncer da alma.

A vergonha de pedir ajuda, não entender o que ocorre consigo. O preconceito das pessoas que muitas vezes tratam como frescura algo que é muito grave.

Ah..Ele ganha bem, um milhão por mês, tem uma mulher linda, casa, carro, vai ficar de frescura? Quem tem que sofrer de depressão é quem acorda cinco da manhã pra ganhar salário mínimo.

Não..Não é assim. Pensar em depressão dessa forma é falta de conhecimento. É pensar como nos anos 80 quando achavam que abraçar um soropositivo trazia risco de contrair aids. Quem tem uma doença fica enfermo duas vezes. Pela doença em si e pelo preconceito.

Ninguém está livre da depressão.

O mundo em que vivemos contribui para isso. É um mundo solitário. Cada um por si tentando se dar bem na vida. As pessoas cada vez têm menos tempo para estar com amigos, bater um papo. Uma bebidinha em final de expediente ou cadeiras na calçada para conversar com vizinhos. Hoje é tudo no computador, notebook, tablet, IPAD, IFAD, IFODE..Amigos que são feitos de forma virtual. Vidas aprisionadas em um mundo virtual esquecendo que a vida de verdade é aqui fora. E aí? Como faz na hora de desconectar? Quando a bateria acaba? Não vive? 

Sou uma pessoa do mundo virtual. Fiz grandes amigos nele, passo em internet boa parte do tempo, mas tenho minha vida aqui fora. Meus amigos, minha filha, o filho que está vindo, sambas. É preciso saber dosar e mesmo dosando a vida não sai perfeita.

É preciso estabelecer relações verdadeiras. Ser com as pessoas como queremos que sejam conosco. A vida é cíclica e nem sempre estamos bem, por cima e nem sempre somos jovens.

Ontem estive na casa de um senhor com mais de oitenta anos. Reverenciado, querido, uma história de respeito, mas sozinho. Ele nos contou muitas histórias, os sambas, as mulheres que ele “pegou”..Mas não falou de nenhuma que se apaixonara, constituído família ou filhos. No fim agradeceu nossa visita porque é muito solitário.

Família, alicerce. Podem parecer coisas banais, sentimentais, mas são importantes para uma vida. Muito bom curtir, muito bom ser jovem, mas se tudo der certo envelheceremos um dia e nossa velhice nada mais será que a conseqüência do que somos jovens.

Pode ser por velhice, por perda pessoal como conheci alguns, genético como na minha família, é, sou um cara propenso à depressão genética. Várias são as formas de depressão e perigos se não for bem cuidado, se não houver ajuda.

Como disse, hoje o tio de um conhecido do twitter se matou, esse ano o avô de uma conhecida se jogou do oitavo andar de um prédio por não agüentar de saudade de sua amada que morrera. Temos casos famosos como o idolatrado e amado roqueiro bem sucedido Kurt Cobain que mesmo tendo tudo a favor se matou.

Recentemente o grande ator Walmor Chagas que deu um tiro na cabeça por não suportar as limitações da velhice.

Casos que nos chocam. Chocam porque não percebemos. Chocam porque estamos tão vidrados em nossos egoísmos, nossas vidas, a se dar bem em tudo que não ouvimos uma voz rouca pedindo ajuda. Não enxergamos uma mão estendida pedindo que lhe puxe.

Paramos de olhar nos olhos das pessoas. Paramos de por trás de um sorriso ver o que os olhos dizem. Achamos que por uma pessoa rir, ser bem humorada ela é feliz. Não, a função do palhaço é fazer rir, não ser feliz.

As pessoas sofrem e não percebemos. Tornam-se solitárias, se fecham em um mundinho de angústia e aflição e não nos preocupamos em bater na porta e perguntar se está tudo bem.

Isoladas, não porque querem, mas porque a doença e a tristeza fazem isso. Num choro que não para e não se sabe o porque, num desespero que não se sabe de onde vem e lhe corrói a alma. Numa saudade que machuca. Nesse momento pensa que só há uma solução.

E quando cometem tal ato que percebemos como somos incapazes. Não conseguimos estender a mão, entender a alma, olhar nos olhos e desolados perguntamos o porque quando muitas vezes a pessoa quis responder e não ouvimos.
Juro que entendo suicida. Não sou daqueles que tacam pedras, chama de covarde e diz que será punido em outra vida. Quem sou eu pra definir com exata dimensão como é a vida depois da morte e quem ou não merece compaixão por cometer algum ato? Ninguém nunca morreu pra dar a certeza de como é.

Quem sou eu pra tentar dimensionar a dor de alguém? Cada um sabe o tamanho de sua dor, de seu desespero. Nós, tolos e pequeninos seres humanos gostamos de julgar os outros, condenar por seus atos como se fôssemos pessoas perfeitas. Ninguém quer ser triste, ninguém quer morrer. Como diria Gonzaguinha “Só saúde e sorte”.  

Só lamento. Acho uma pena alguém acabar a vida assim. Alguém sofrer tanto e por isso achar que morrer é melhor.

Já passei por períodos sérios de tristezas. De querer ficar sozinho, chorar, sofrer e todo mundo achar que estava bem, feliz, falando coisas engraçadas. Às vezes pra viver infelizmente temos que ser personagens de nós mesmos. Não devia ser assim.

Por isso entendo e por isso sou observador. Porque se não quero isso para mim também não quero para aqueles que amo. Por isso que quando percebo que alguém não está bem chamo pra conversar, tento achar soluções, fazer rir, mesmo que possa estar tão mal quanto. Ajudar alguém é ajudar a si próprio.

Você é feliz?

Ninguém é feliz o tempo inteiro, não se culpe.

O tema da coluna de hoje pode ter sido mais pesado, mas a vida também é feita desses momentos.
Até pra darmos mais valor a alegria que vem depois. 

Ninguém merece sofrer.

A gente merece ser feliz.



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