segunda-feira, 24 de junho de 2013

A DOR DE COTOVELO


Algumas semanas atrás escrevi um texto chamado “Eles, eu e minha avó” quando eu relatava um pouco de minha infância e a influência musical que recebi da minha avó. Influência que me fez gostar de artistas que não costumam ser muito lembrados por minha geração.

Mas não foram só eles que se tornaram influentes no meu gosto musical. Na verdade eles marcam um gênero que carrego comigo até hoje, um dos meus gêneros preferidos de música que é conhecida como “Dor de cotovelo”. 

Quando se ouve uma música do gênero logo se entende o porque do nome dado. São músicas que fazem sangrar. Aquele amor louco por uma pessoa que não é correspondido ou acaba e deixa o cantor (a) sofrendo e cantando esse sofrimento.

Assim como eu costumo dizer que poeta feliz não tem credibilidade eu ouso dizer que não existe amor mais verdadeiro que o amor rejeitado. Dói muito, dá vontade de morrer, mas é puro, verdadeiro, poético.

O amor rejeitado. O amor que se perde no caminho entre quem ama e é amado. O amor triste. Um amor que é bonito demais.

Amor que deu fama, reconhecimento e imortalidade a muitos de nossos compositores. São tantos que um simples texto não conseguiria homenagear a todos então escolho os cinco que me influenciam mais, a quem eu sou fã de carteirinha.

Cinco artistas imortais que representam muito bem o gênero. Artistas de diferentes gerações, mas que souberam chegar ao coração do público e daqueles que amam.

Os donos da dor de cotovelo. Os donos do amor rejeitado.

Lupicínio Rodrigues


Gaúcho de Porto Alegre nasceu em 16 de setembro de 1914 e morreu em 27 de agosto de 1974. Lupicínio é um dos grandes mestres do gênero expressando como ninguém a melancolia de um amor perdido. É dele a invenção do termo “dor de cotovelo” que se referia a prática de quem crava os cotovelos em um balcão ou mesa de bar, pede um uísque duplo, e chora a perda da pessoa amada. Sempre me identifiquei muito com essa imagem. A única diferença é que eu pediria uma fanta uva.

Constantemente abandonado pelas mulheres Lupicínio buscou em sua própria vida inspiração para as canções onde a traição e o amor andavam sempre juntos.

É o autor do hino do Grêmio e deixou mais de cento e cinquenta canções. Outras centenas estão perdidas, esquecidas ou a espera de alguém que as resgate.

São muitas as músicas de Lupicínio que amo. Mas “Nervos de aço” mexe comigo especialmente pela dor e poesia da letra.

Você sabe o que é ter um amor meu senhor?   


Chico Buarque


Músico, dramaturgo e escritor o carioca Francisco Buarque de Hollanda nasceu em 19 de junho de 1944 e é considerado um dos maiores compositores de nossa história.

Chico, como eu já disse acima, é um multi-artista com várias realizações. Nas composições de suas músicas também é assim. O compositor fez sambas, músicas de protesto, cantou o mundo, o Brasil, a banda que passou cantando coisas de amor e também a dor de cotovelo.

Sim. Chico Buarque também é um dos grandes nomes do gênero. Um homem que conhece a alma feminina como ninguém e um dos melhores que soube traduzir essa alma em canções. Canções algumas vezes irônicas, outras doídas seja com lirismo masculino ou feminino a gente sabe que alguém é um grande poeta quando ouve as letras de sua música e pensa que é impossível que a pessoa não tenha passado pelas dores que retrata. Com as músicas de Chico são assim.

São várias que poderia destacar. Gosto de duas em especial “Trocando em miúdos” e “Olhos nos olhos”. Como a primeira dá nome ao blog e já retratei em um conto optarei pela segunda.


Antônio Marcos  


O paulistano Antônio Marcos Pensamento da Silva nasceu em 8 de novembro de 1945 e morreu em 5 de abril de 1992. Foi ator, compositor, humorista e cantor.

Não conheci a fundo a vida de Antônio Marcos, seu auge musical foi nos anos 70 década que eu nasci, então me tornei mais íntimo de sua obra musical que da pessoal.

Mas a impressão que passa é que Antônio Marcos foi um homem que viveu intensamente as músicas que fez. Um homem que viveu demais, amou demais e isso pode ter acelerado sua morte prematura.

Suas músicas são de uma enorme profundidade e nas gravações ele não parece apenas que canta, mas que interpreta como ator também. É visceral, passa exatamente aquilo que quis quando escreveu e quando menos percebemos já estamos envolvidos naquele universo de dor de cotovelo querendo desesperadamente ligar para a amada com lágrimas nos olhos apenas para perguntar “como vai você?”.

Antônio Marcos foi casado com a cantora Vanusa, a atriz Débora Duarte e é pai das também artistas Aretha e Paloma Duarte mostrando que a arte é uma coisa da família. Compositor não só de músicas dor de cotovelo, mas de outras obras primas como “O homem de Nazaré”. Um hino de amor a Jesus Cristo.

Mesmo mais de vinte anos de sua morte não foi esquecido. É até hoje regravado pelos mais diversos artistas passando sua mensagem de fé, de amor e a dor que esse amor pode causar.

Bem..Já meio que adiantei acima minha música preferida de dor de cotovelo de Antônio Marcos. “Como vai você” machuca. É uma obra prima onde consegue musicalmente e poeticamente passar uma conversa que todos nós tivemos ou já quisemos ter com alguém que amamos.

Não é recomendável a quem sofre de amor. Mas é para todos que amam por mais contra-senso que pareça.     




Gonzaguinha


O carioca Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior nasceu em 22 de setembro de 1945 e morreu em 29 de abril de 1991.

Filho do rei do baião Luiz Gonzaga, Gonzaguinha cresceu pelas vielas do velho Estácio em uma relação conflituosa com seu pai. As experiências de vida acabaram lhe transformando em uma pessoa revoltada, mas que conseguia transformar essa revolta em poesias.

Foi um dos maiores compositores de protesto que tivemos com algumas músicas que volta e meia reaparecem para ilustrar o momento em que o país vive.

Mas Gonzaguinha não era apenas o “cantor rancor” autor de músicas ásperas. Com a abertura na segunda metade dos anos 70 Gonzaguinha começou a mudar um pouco o tom de suas músicas e passou a cantar mais o amor.

Amor de seu jeito carioca, jeito urbano, de quem trazia consigo a revolta, mas também paixão pela amada, pai, música ou vida. Seu jeito irritadiço contrastava com a doçura das letras quando falava de sentimento. A suavidade que nos faz sorrir quando ouvimos uma de suas canções.

“Explode coração”, “Sangrando”, “Espere por mim morena”, “Grito de alerta” são alguns desses exemplos. Mas destacarei “Começaria tudo outra vez” que nem é tão dor de cotovelo assim, mas me identifico por já querer várias vezes ter recomeçado alguma história.


Cazuza



O carioca Agenor de Miranda Araújo Neto nasceu em 4 de abril de 1958 e morreu em 7 de julho de 1990. Xará de Cartola, um dos maiores compositores de nossa história, Cazuza é o nome do rock nacional dos anos 80.

Rebelde, sarcástico, debochado, carismático. A cara do Rio de Janeiro, a alma dos anos 80 Cazuza pode ter vários adjetivos, mas um lhe marcou mais. Exagerado.

Exagerado no estilo de vida que lhe abreviou a mesma, exagerado no seu jeito de ser, exagerado em sua forma de amar. Mas em amor existe exagero? Não sei, como também não sei se só as mães são felizes.

Mas não estamos aqui para falar de felicidade e sim de dor de cotovelo que por incrível que pareça também pode resvalar na felicidade. Não só na felicidade como na ironia. Cazuza sabia muito bem colocar ironia e irreverência nas suas dores de amor e dores da vida como ao dizer que viu a cara da morte e ela estava viva.

Era assim também nas suas canções românticas como “exagerado”. Era malicioso como em “Faz parte do meu show”. Regravou a dor de cotovelo cultuando os velhos mestres.

Exagerado. Muitos em um só. Assim era Cazuza. Assim era seu jeito de amar.

Para Cazuza abrirei uma exceção e colocarei duas músicas. Uma que ele canta, mas não é sua, é de Cartola “O mundo é um moinho”. Dessa forma também homenageio esse grande compositor e brasileiro.


E abaixo a dor de cotovelo mais apurada de Cazuza. Aquela que ele deixou um pouco a irreverência de lado e chegou mais próximo do estilo dos quatro citados acima.

A nossa música nunca mais tocou...


Aí está uma humilde homenagem minha a esses grandes artistas que cantaram como ninguém nossa dor de amor. Que nos fizeram sorrir em momentos de tristeza. Deixaram nossas lágrimas mais doces e saudades mais vivas.

Amar dói, machuca demais, mas é bom. Sabem quando vou desistir do amor?



Nunca.



   

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