terça-feira, 27 de setembro de 2016

A CRIANÇA E O ADULTO


Eu sou um cara que trago comigo alguns orgulhos e não vejo isso como pecado da vaidade, nada disso. Temos que ter orgulho de coisas que fazemos.

O maior orgulho que eu tenho é de não ter traído a criança que fui um dia. Isso não é fácil porque a vida dificilmente se apresenta para nós como pensamos quando somos garotos. A maturidade nos faz mudar modo de pensar, de agir e em certos momentos pensamos "Era isso mesmo que queríamos?". Pois bem. Hoje eu posso dizer com firmeza que nunca cantarei aqueles versos "E aquele garoto que ia mudar o mundo / Agora assiste a tudo em cima do muro".

Não, isso não ocorreu. Evidente que não sou exatamente aquilo que eu queria ser quando era criança. Não fiquei milionário, por exemplo, tem mês que é difícil levar até o fim. Esperava chegar aos trinta anos com um milhão na conta e devo ter uns dois reais nesse momento.

Mas mantive minha essência e isso é o mais importante.

O moleque contestador, que não abaixava a cabeça para o que achava ser errado, que debatia com professores quando não concordava com seus pontos de vista e queria contribuir com um mundo melhor continua aqui. Nunca me conformei, nunca fui para cima do muro ou entrei pra turma do "Tudo bem, é assim mesmo". Continuo contestador, inconformado e debatendo quando acho estar certo. Continuo querendo contribuir com um mundo melhor ou pelo menos a sociedade e o local em que eu vivo.

Hoje sou um agente cultural do meu bairro. Pode não parecer muito, mas o bairro é o mundo em que vivemos. Se cada um conseguir contribuir para que o local em que vive ficar melhor naturalmente o mundo se torna um lugar melhor para se viver. Sou um agente cultural daqui e tenho trabalhado junto com abnegados que estão na estrada há mais tempo que eu pela Ilha. Somos discípulos de grandes artistas como a tia Elbe de Holanda e podemos hoje dizer que a Ilha do Governador cresce na área cultural como disse em uma coluna duas semanas atrás. Tenho consciência que faço parte desse crescimento com a Cia de Teatro que ajudei a formar, com essa Cia reabrindo um teatro tradicional como o Óperon e atuando por espaços do bairro. Por meus textos virem sendo encenados e pedidos por artistas daqui e de fora e pelas coisas que venho falando. Que venho falando e fazendo não só no teatro como nas escolas de samba quando fundei um movimento para resgatar o Boi da Ilha e fui um dos fundadores da Nação Insulana.

Tenho consciência de meu papel importante e meus pares também tem a partir do momento que me homenageiam como ocorreu. Isso é se manter fiel ao garoto.  

Também me mantenho fiel ao garoto que gostava de escrever e tinha isso como válvula de escape pela timidez que possuía. Único jeito de me fazer notar quando moleque era escrevendo já que era gordo, tímido, não tirava grandes notas, péssimo nos esportes, enfim, tudo errado. Mas sempre gostei de criar, mesmo antes de ser alfabetizado criava historinhas com meus bonecos e exatos trinta anos atrás, em 1986, comecei a criar histórias em quadrinho. No começo da adolescência o moleque percebeu que escrevendo podia se fazer notar. Era ali que eu brilhava, quando surgia as aulas de redação, eu mandava bem e a professora lia essas redações na frente da sala. Quando eu descobri que a única forma de me fazer notar pelas meninas que eu gostava era escrevendo historinhas para elas. Nada deu certo, não consegui namorar com elas, nem perto de um beijo fiquei. Mas hoje posso dizer que sou escritor e dramaturgo por causa dessa época e não sou dramaturgo e escritor "de gaveta". Minhas peças são encenadas e livros publicados.

Não é mais professora na frente de sala. São trezentas pessoas em teatro de Ribeirão Preto, dezenas e dezenas nos acompanhando pela Ilha do Governador, peças sendo realizadas por quase todas as regiões do país e exterior. Livro lançado longe do meu bairro, meu habitat e as pessoas indo ao evento. Uma editora acreditar em mim e me publicar sem eu gastar um real para isso, algo tão difícil para os escritores novos nos dias de hoje. Eu consegui.

O garoto descobriu que sabia escrever e o adulto acreditou nesse garoto. Resultado taí.

Essas coisas, essa relação de confiança entre a criança e o adulto me faz feliz. Poder escrever e saber que vão ler e assistir o que escrevo me faz feliz. Essa crônica que estou escrevendo agora não vai para uma gaveta, será publicado em meu blog que tem visitação diária de pelo menos 600 pessoas. Quando não é pra cá é para o Ouro de Tolo que tem um público maior ainda ou pro Batuque.com. Quando não é texto é vídeo é para o site Carnavalesco, maior site de carnaval da atualidade e que vem me trazendo uma repercussão enorme. São muitos os motivos de orgulho e que até me fazem rir quando ao falar tudo que venho conquistando perguntam "E dinheiro? Entrando bem?".

Não, não está e claro que eu quero muito e tenho certeza que virá naturalmente. Mas dinheiro não é e nem pode ser tudo na vida. Prefiro contar moedinhas e continuar podendo falar e pensar o que quiser e continuar escrevendo. Seria muito frustrado se tivesse emprego em escritório de segunda a sexta de oito às cinco sem poder realizar as coisas que amo mesmo se ganhasse bem. Maior exemplo que tenho é meu avô. Sonhava em trabalhar em rádio, foi forçado pela mãe a ser militar, ganhou muito dinheiro, construiu uma casa linda e foi um homem triste e sério.    

Não quero isso para mim.

Dá um prazer enorme assistir uma peça que escrevi e ver as pessoas aplaudindo de pé. Autografar um livro que eu escrevi. Um livro que imaginei com 15 anos de idade e escrevi na época pensando na menina que eu gostava, reescrevi com 38 e agora ele existe, é vivo. Um livro feito em conjunto entre o garoto e o adulto. Mais que respeito pela história de cada um uma parceria foi estabelecida. Assistir uma eliminatória de samba na União da Ilha ao lado do presidente, trocando confidências e passando minhas impressões, dando conselhos. Para mim que entrei na escola saído da adolescência sem conhecer ninguém dessa agremiação já consagrada poder com o tempo conquistar esse respeito é sim importante. Ter o primeiro exemplar de meu livro vendido ao vice presidente da Portela, que infelizmente pelas circunstâncias trágicas do destino virou presidente dois dias depois, é importante. Sinal que eu venho fazendo o certo, construindo minha história de uma maneira correta.

A principal coisa que o moleque sempre fez e o adulto mantém é morar no mundo dos sonhos. De vez em quando aparecemos na realidade para mostrar como é a vida lá. Depois voltamos aos sonhos porque ali é que nos fortalecemos.

Dá para se tornar adulto sem virar as costas para a criança. Descobri isso e dessa forma vou escrevendo a minha história. A história de um louco. Nunca duvide de um.


E aquele garoto que ia mudar o mundo.


Não deixou o que o mundo lhe mudasse


Só está começando...


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