segunda-feira, 14 de abril de 2014

O CAMPEONATO "AMOR À VIDA"





Quando eu comecei a escrever aprendi uma lição fundamental que   levo sempre em minha vida. A história pode ser uma merda, se o fim for legal salva tudo.

Um exemplo que sempre digo disso foi o filme “O sexto sentido”. O filme se tem duas horas de duração uma pelo menos é chato, modorrento, acontece nada. Na outra hora fica legal com os acontecimentos sobrenaturais em torno do garoto, mas seria mais um dos muitos filmes legais que existem.

O que fez desse filme lendário foi o fim. Um grande fim. Inesperado, impactante, histórico que pôs esse filme como um dos grandes da história do cinema e alçou seu diretor de nome esquisito que não to com saco de ir ao google pra escrever direito um dos grandes da indústria. 

O camarada fez mais alguns filmes. Modorrentos como o “Sexto Sentido”, sem o fim de “Sexto Sentido” e sumiu.

Exemplo recente foi a novela “Amor à vida” da Rede Globo. Novela que foi muito zoada, ridicularizada, ruim de verdade, uma das piores que já passou pelo horário nobre com atores reclamando e crise de bastidores.

Mas nas últimas duas cenas, do beijo gay e da reconciliação do Félix com o pai, fez o Brasil chorar, pedir perdão de joelhos ao autor Walcyr Carrasco e a novela ruim pra cacete teve sua redenção.

Por quê digo isso?

Porque ontem escrevi para o blog Ouro de Tolo uma coluna que falava sobre o “Clássico dos milhões”. Falei um pouco da história dos estaduais, sua importância, decadência e do campeonato carioca de 2014, um dos piores de todos os tempos.

E assim foi até os trinta minutos do segundo tempo.

Porque até ali o Flamengo seria campeão com um 0x0 desonroso de um campeonato desonrado, mas aí saiu o gol do Vasco, que seria o fim da escrita, o fim de seu drama de 26 anos.

Eu tava na rua na hora desse gol e o Rio de janeiro parou. O mesmo Rio que desprezou o campeonato todo. O cobrador do ônibus, vascaíno viu pela tv antes do mesmo sair e disse “O Vasco vai meter mais gols nessa urubuzada. Vão perder igual perderam pros argentinos (sic) quarta”.

Pronto, aquilo finalmente me despertou para o campeonato. Não, não podia perder, não pro Vasco. Eu que até então estava tranquilo olhava o tempo todo pela janela do ônibus que estava enquanto ele se encaminhava para o shopping em busca de uma tv de um barzinho para ver o que ocorria. Estava com celular, fone, mas não tinha coragem de ligar, procurava pelas imagens. 

Consegui ver em uma tv o 0x1 e a informação de 45 minutos do segundo tempo. Comentei com a Hellen, minha namorada “É, vai perder pro Vasco”. 

Até que começou um pequeno foguetório. Imaginei que fosse o fim do jogo, mas ouvi o cobrador balbuciar “pqp, acho que foi gol do Flamengo”.

Exclamei “Não pode ser!!” e tive coragem de ligar o rádio. Ouvia o Penido completamente alucinado e só conseguia repetir “Não pode ser”. A Hellen me perguntava o que ocorreu e eu respondi “Não pode ser, gol do Flamengo”.

Passamos por um bar e as pessoas pulavam, gritavam, se abraçavam, começou um enorme foguetório e comentei que ainda não tinha acabado.

Ate que alguns segundos depois acabou e fiz questão de gritar que tinha acabado para o cobrador me perguntar se tinha acabado e eu sorrindo responder que sim.

E claro, depois que desci gritei “vice de novo”. O campeonato carioca se transformara no meu “Amor à vida”.

Buzinaço pelas ruas, pessoas, muitas, com camisas do Flamengo, hino tocando, ninguém mais lembrava do vexame para os “argentinos” na quarta assim como depois do lendário gol de Petkovic em 2001 ninguém lembrou mais e não lembra até hoje que quatro dias antes o clube fora eliminado da Copa do Brasil pelo Coritiba no Maracanã. 

O Vasco foi claramente prejudicado, de novo aliás, eu disse na coluna de domingo que se tivesse justiça o Vasco seria campeão, mas futebol nunca andou de braços dados com a justiça e queria ouvir o Maracanã gritando “vice de novo”.

E pela campanha foi um título justo. Foi beneficiado como foi muitas vezes em sua história e como todos os clubes de futebol do mundo já foram.

Somos muito exigentes com o futebol. Cobramos violentamente de jogadores, técnicos, dirigentes como não fazemos com políticos. 

Falamos em roubalheira no futebol, roubalheira onde os acusados na maioria das vezes são seres humanos sujeitos a falhas e trabalhadores e não cobramos os grandes escândalos desse país.

Esquecem que futebol na verdade é diversão, hobby, é zoar e ser zoado. Nunca me veem reclamar de arbitragem, ofender torcedor adversário, brigar por causa de futebol porque pra mim ele é um delicioso e apaixonante entretenimento.   

Como é um filme como “O sexto sentido” ou Novela como “Amor à vida”. O campeonato carioca 2014 ta longe de concorrer a um Oscar ou Emmy. Continua com uma história ruim, vazia, sem graça e mostrando uma saga decadente, nada mudou.

Mas teve um grande e polêmico fim que será o principal assunto hoje na escola, no trabalho, no bar e por muitos anos trará calorosas discussões e será lembrado por seu fim surpreendente.


Só que ao contrário de “O sexto sentido” nesse fim descobrimos que o campeonato carioca está vivo.


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