sábado, 26 de abril de 2014

ERA DA VIOLÊNCIA 2 CAPÍTULO XIX - RESGATE E DÍVIDA




Falei para ligarmos para a polícia e ela pediu que não. Temia pelo futuro de nosso filho. Perguntei o que fazer e Juliana pediu “Use seus contatos”.

Ri e comentei “Mas você até outro dia reclamava do meu estilo de vida, me demitiu por isso”. Juliana implorou “Por favor, é nosso filho”. Pedi que ela me contasse qual favela era e que fosse embora que eu tentaria resolver.

Liguei para Rui e falei que estava com problemas. Um encontro foi marcado no galpão e contei a situação. Galalite comentou que era impossível um resgate “Nós só somos cinco, para enfrentar traficantes complica”. Scarface engatilhava a arma dizendo disposto a subir a favela quando Rui concordou com Galalite.

João intercedeu dizendo que não podíamos deixar meu filho lá e Rui concordou “Não podemos, mas só nós cinco não dá”.  Olhamos para ele esperando por uma solução, Rui pegou o telefone e discou dizendo “Eu resolvo”.

Na mesma noite vários homens surgiram. Eram outros “Cachorros velozes” e “convidados”. Ali mesmo no galpão Rui explicou toda a situação finalizando “Temos que salvar o filho do parceiro, não podemos deixar a escória fazer mais uma vítima”.   

Os homens atiraram pro alto e partiram em comboio pra favela. Alguns conheciam bem a comunidade, locais que ficavam as bocas, pontos estratégicos dos traficantes então foi fácil que matassem os “vapores” sem ser percebidos. Estávamos encapuzados e de preto para não sermos reconhecidos pelos moradores. Na encolha e sem trocar tiros chegamos na boca principal.  

Alguns bandidos, quatro ao todo, estavam sentados com fuzis na mão e distraídos. Em um canto sentado com capuz na cabeça estava Guilherme. Pelas marcas nos braços e pernas parecia que foi machucado. Falei baixinho “Filhos da puta” e Rui pediu que me acalmasse.

O policial percebeu que a área estava tranquila e fez sinal. Com o sinal a invasão se iniciou. Os encapuzados de nosso grupo fuzilaram os quatro homens enquanto eu e João pegávamos Guilherme e saíamos com ele do barraco.

João voltou para o confronto que se intensificou com outros traficantes surgindo. O tiroteio comia solto enquanto eu me protegia com Guilherme. Puto eu gritava com o moleque “Viu o que você aprontou? Não consegue ficar com esse nariz sem coçar?”. Marrento Guilherme respondeu “Não pedi pra ninguém vir me resgatar”.

As balas passavam perto então mandei que ele se abaixasse e falei “Se proteja direito nessa porra que se você tomar um tiro sua mãe me mata”.

Depois de um tempo os tiros pararam. Levantei pra ver o que ocorrera e os cachorros tinham terminado o serviço. Todos os bandidos mortos. Os “justiceiros” se abraçavam comemorando e gritando “É o comando porra!!”. Também davam tiros pro alto.

Autorizei Guilherme a se levantar e fui até Rui agradecer pelo trabalho deles. O homem sorriu e respondeu “Foi bom, limpamos mais ainda a cidade”. Agradeci mais uma vez e me virei para ir embora com Guilherme quando Rui gritou “Ta me devendo uma professor”. Olhei para ele que completou “É sério”.

Levei Guilherme pra mansão. Juliana abriu a porta e abraçou o filho. Disse a minha ex que conversara com ele e o garoto concordara em voltar ao tratamento. Juliana agradeceu e perguntou se eu não queria entrar já que Rubinho viajara. Respondi secamente que não e fui embora deixando os dois pra trás.

Peguei o carro e saí dirigindo sem rumo. Estava magoado com Juliana desde a demissão. Aliás, andava magoado mesmo com o mundo. Tentava ser um cara correto, tempo que não me metia em confusões, mas continuava a ser tratado da mesma forma. Juliana nunca confiou em mim, nunca me deu valor e isso me machucava.

Mal ela sabia que o “garoto irresponsável” era tão responsável que lhe amava e se afastou por saber de um segredo e nunca dividir para que não lhe abalasse.

Acabou que parei em um bar daqueles bem escrotos para beber uma cerveja. Pedi e servi meu copo. Enquanto bebia e pensava na vida notei uma gorda feia sentada na mesa à frente sozinha que sorria pra mim. Ela não tinha o “artilheiro” na frente da boca e mais alguns dentes, mas estava lá se insinuando pra mim.

Olhei para os lados e percebi que ninguém olhava aquela cena constrangedora. Tomei mais um gole de cerveja e pensei “Um boquete é um boquete e boquete não se recusa”. Levantei e sentei na mesa da gorda.

Na noite seguinte em vez de estar com uma gorda Scarface se encontrou com Donato. O homem, que foi reeleito deputado, saiu do aeroporto vindo de Brasília e deu de cara com o taxista encostado no carro lhe esperando. O deputado sorriu e foi ao encontro do amado chegando a sua frente.

Scarface perguntou “Fez boa viagem deputado?”. Donato tirou os óculos, olhou o taxista e respondeu “Sim, mas estou melhor agora”. Scarface abriu a porta de trás pro deputado que entrou. Scarface também entrou no veículo e perguntou para onde iriam. Donato deu novo sorriso e olhando o taxista pelo espelho da frente do carro respondeu “Você sabe muito bem para onde vamos”.

Foram para um motel. Foderam e depois Scarface de cueca brincava com a arma na cama enquanto Donato olhava a janela. Scarface comentou “Sabia que Jesus não gosta do que a gente vive? Jesus odeia bichas”. Donato se virou e perguntou onde o taxista viu isso, o homem respondeu “Ta na bíblia. Jesus expulsou os viados do templo”.

Donato riu e se aproximou de Scarface dizendo “Curiosa essa sua bíblia que diz isso e curioso você falar essas coisas e estar comigo”. Scarface respondeu que tem uma missão no mundo e a fé em Cristo que movia essa sua missão. Donato perguntou que missão era e Scarface respondeu “Matar todos os filhos da puta”.

Donato perguntou se ele era um dos filhos da puta e Scarface respondeu “Não, você é legal, eu gosto de você”. O deputado se afastou novamente e falou “Que bom, porque também gosto de você e estou com uma prova disso aqui”.

 Scarface perguntou que prova era. Donato foi até sua pasta, tirou um pacote e jogou na cama para o amado. Scarface perguntou o que era e o deputado respondeu “Abra”.

Scarface abriu e se espantou “Nossa! Quanto dinheiro é esse?”. Donato acendeu um cigarro e respondeu que não era só dinheiro e que ele olhasse bem. O taxista reparou “Tem um passaporte aqui também”. Donato respondeu que sim, tinha dinheiro e passaporte falso ali para ele ir embora para os Estados Unidos.

Scarface levantou e pediu “Não brinca comigo que é muito sério, que papo é esse?”. Donato explicou “Você não conseguiria entrar por meios legais nos Estados Unidos. Contactei umas pessoas, chamadas coiotes, que irão te ajudar a entrar pelo México”.

O taxista incrédulo comentou “Nem sei o que dizer”. O deputado se aproximou e respondeu “Diz que me ama, mesmo que seja mentira e que vai me esperar lá”. Scarface olhou bem para o deputado e nada respondeu, apenas lhe agarrando e jogando sobe a cama.

Na noite seguinte no galpão Scarface nos contou a novidade. Galalite, transtornado, perguntou se o amigo teria coragem de lhe deixar e Scarface respondeu que era seu sonho e não poderia deixar pra trás. Rui riu e comentou “Quem diria, você conseguiu seu maluco, vai matar os mother fucker”.

Scarface gargalhou e disse que não sobraria nenhum vivo. Rui deu um tapinha no rosto do taxista e comentou “Sabe o que me deixaria orgulhoso? Que você matasse o presidente americano”. João riu e mandou que Rui não brincasse que Scarface levaria a sério.

Perguntei quando ele iria e Scarface respondeu que embarcaria no dia seguinte. Rui comentou “Isso merece um brinde, melhor, vários brindes, vamos a um puteiro que conheço aqui perto”.  

João respondeu que não poderia, tinha que ir pra casa. Rui falou “Vai porra, tua mulher é uma chata, só sabe atrasar sua vida. De um cara que dá tudo pra ela”. O farmacêutico pediu desculpas que realmente tinha que ir pra casa. Aproveitando a situação Rui perguntou “E Yolanda?”.

João não entendeu e devolveu a pergunta “Por quê isso agora?”. Rui respondeu “Ela me falou de você, disse que era um cara legal”. João ficou claramente constrangido com o papo se despedindo e indo embora. Com o farmacêutico fora Rui perguntou “Como é que é? Vamos ao não ao puteiro pra nos despedirmos do Scarface?”.

Fomos os quatro.

João chegou em casa tarde da noite e Fernanda esperava sentada no sofá. O farmacêutico deu um beijo na testa da esposa perguntando se ela estava sem sono e Fernanda respondeu “Estava te esperado, ver se você cumpria a promessa, mas mais uma vez não cumpriu, mais uma vez chegando tarde em casa”.

João respondeu que estava em reunião e Fernanda se levantou enfurecida “Sempre em reuniões, isso é impressionante, não tem um dia que você não está em reuniões”. João alegou que era seu trabalho e ela tinha que entender.

Fernanda continuava irritada e retrucou “É, eu tenho que entender, sempre sou eu que tenho que entender tudo”. João que andava pela casa parou e voltou para falar com a esposa “Hoje me falaram que você é uma chata e me puxa pra trás”. Fernanda perguntou quem disse isso e João apenas olhou para ela indo ao banheiro e completando “Ainda me chamaram para ir a um puteiro, mas preferi voltar pra casa, sou um idiota”.

Fechou a porta do banheiro com Fernanda enfurecida jogando um copo na parede e dizendo que odiava o marido.

No dia seguinte Yolanda e Rui tomavam café da manhã quando o telefone da mulher tocou e ela viu o nome “João Arcanjo” no visor. A prostituta comentou que era o farmacêutico e o policial sorrindo e mordendo uma maçã disse “Atende”.

Yolanda e João foram se encontrar enquanto Scarface se despedia de Donato e a campainha de Fernanda tocava. A mulher atendeu e deu de cara com Rui de Santo Cristo. 

Fernanda se assustou e comentou “Rui? O João disse que estaria com você”. Rui perguntou “Queria falar com você sobre ele, posso entrar?”.

A mulher autorizou e Rui entrou. Fernanda mandou que se sentasse e perguntou se algo ocorrera. Rui fingindo tentar encontrar as palavras comentou que a mulher devia saber que ele entrou em sociedade com João nas farmácias, por isso estavam ampliando, investindo.

Fernanda respondeu que sabia e João continuou “Ele anda estranho Fernanda. Não aparece em reuniões, não aparece nas farmácias e eu percebi um desfalque nas finanças”.

Fernanda, zonza, contou que o marido estava estranho, chegando tarde em casa e muitas vezes dizendo que estava em reunião com ele. Rui fingiu susto “Eu? Muito tempo que não vejo o João, por isso vim aqui, pra te perguntar se algo ocorria com ele”.

Irritada a mulher respondeu que João teria que explicar direitinho quando chegasse em casa. Rui pegou em sua mão e disse “Não, não parta para o confronto que ele se sentirá acuado. Observe, veja os seus passos. Você é esperta, logo descobrirá o que está acontecendo”.

Fernanda admitiu a razão de Rui e respondeu que faria isso.

João estava com Yolanda. Pensativo e deitado na cama. A mulher perguntou o que ele tinha e João respondeu “Eu gosto de Fernanda, amo minha esposa, não é certo o que estou fazendo com ela, mas também gosto de estar com você”.

Yolanda se abraçou ao farmacêutico e respondeu “Sou sua válvula de escape João, o seu desafogo, quem sabe a nossa relação até não melhore a sua com ela?”.

João pensou mais um tempo e comentou “Talvez fosse melhor que a gente parasse. Não quero te magoar, não quero magoar a Fernanda, não estou sabendo lidar com isso”.

Yolanda levantou e fingindo desespero disse “Você não pode fazer isso comigo. Eu te amo e não sei mais viver sem você”.

João se espantou com a declaração da mulher e perguntou “Como? Você disse que me ama?”. Ela novamente deitou se abraçando ao farmacêutico e fingindo chorar disse “Eu te amo, eu aceito ser outra, te encontrar só quando você puder, mas não me abandone, por favor”.

João Arcanjo sem saber o que dizer apenas abraçou Yolanda lhe consolando enquanto pensava.

Mais tarde chegou em casa e encontrou Fernanda no sofá vendo televisão. Deu um beijo em sua testa e se encaminhou para dentro das dependências. Fernanda perguntou com quem o marido estava e o homem respondeu “Em reunião com o Rui de Santo Cristo”. Fernanda apenas limpou uma lágrima e fingiu continuar vendo tv.

Scarface comeu o pão que o diabo amassou, mas conseguiu cruzar a fronteira do México com os Estados Unidos. Parou em Nova York como sonhava e arrumou emprego como lavador de pratos em um restaurante latino. Morava em um bairro barra pesada como gostava e poucas semanas depois recebeu a visita de Donato que foi numa comitiva de deputados aos Estados Unidos.

O deputado deixou uma grana para que Scarface morasse em um lugar melhor. O bandido aceitou a grana, mas em vez disso comprou armas. Gostava de treinar tiro na frente do espelho e sair de madrugada vagando pelas ruas e conhecendo de perto o submundo.  

Rubinho aproveitou a viagem do irmão para se encontrar às escondidas com Flávia. Enquanto os dois se divertiam eu estava na clínica esperando por Guilherme com Juliana. Estávamos em silêncio até que em determinado momento não aguentei e perguntei “Você não acha que seu marido viaja demais?”.

Juliana respondeu que ele era empresário, tinha que viajar e completei “É, mas você é senadora e viaja menos que ele”. Juliana perguntou o que eu queria insinuar e em vez de responder apontei para Guilherme que saía da clínica. 

Guilherme, com bom aspecto, se aproximou da mãe e lhe deu um abraço. Juliana pediu que aquela fosse a última vez que teria que buscá-lo em uma clínica de reabilitação e nosso filho respondeu “Fique tranquila, o susto valeu”.

Guilherme se aproximou de mim e disse “Obrigado pai”. Passei a mão em seu rosto e respondi “Gosto quando me chama de pai”. Marrento o moleque retrucou “Queria que te chamasse de que? De tio? Sem sentimentalismo”. Dessa forma fomos embora como uma família feliz.

Donato voltou de viagem e foi para a empresa. Rubinho lhe recebeu na sala e comentou “Sei que você ta fazendo merda, desonrando o nome da família, mas temos uma questão mais importante agora. Salomão Silveira”.

Donato perguntou qual era o problema e Rubinho respondeu “Ele embargou a obra do estádio olímpico, suspeita de superfaturamento. Porra é muita grana envolvida ali, as Olimpíadas estão se aproximando, aquilo não pode ficar parado”.

Donato comentou “É, não é a primeira vez que ele se mete com a gente. Ta dando trabalho, o que pretende fazer?”. Rubinho pegou o telefone e respondeu “Vou ligar pro Rui”. Donato perguntou se não era muito arriscado, afinal era um juiz e Rubinho respondeu “Preciso testá-lo, ver sua eficiência para decidir se ele pode pegar aquela causa maior”.

Donato olhou para os lados pra ver se não estavam sendo observados e perguntou “Você ta maluco? Vai fazer mesmo aquilo?”. Rubinho respondeu “Sim, aquele filho da puta está roubando a gente e vai ser na abertura, para alertar o filho da puta maior”.   

Rubinho ligou e Rui atendeu. Combinaram um encontro para conversar e Rui desligou. O policial estava na frente da casa de João Arcanjo e escondido viu o momento que Fernanda entrou. Assim que a mulher entrou Rui ligou para Yolanda e disse “É agora”.

Yolanda estava com João Arcanjo em um restaurante e desligou o telefone dizendo ao farmacêutico que tinha que ir ao banheiro. João perguntou se algum problema ocorrera e a mulher respondeu “Não, coisas de mamãe”.

No banheiro Yolanda ligou para a casa de Fernanda. A mulher atendeu e sem se identificar Yolanda disse “Teu marido ta te traindo, está nesse momento no restaurante Garota de Olaria”.

Fernanda desligou o telefone e abriu a porta na hora que Rui bateria na mesma. Ela se apressou em dizer que João não estava e ela sairia pra matá-lo. Rui saiu atrás da mulher que se dirigia ao carro perguntando o que ocorria e Fernanda respondeu “Ele está me traindo e eu vou comprovar”. Antes que ela abrisse a porta Rui segurou sua mão e disse “Deixa que eu dirijo, você está nervosa”.

Rui levou Fernanda até o local e quando pararam disse “Vou esperar aqui, ele é meu amigo e não quero confusão pro meu lado”. Fernanda agradeceu a ajuda e desceu.

João estava em clima de despedida com Yolanda. Comentava “Me desculpe, sei que estou te decepcionando, mas eu preciso dar atenção pra minha mulher. Não estou sendo um bom marido e a amo”.

Yolanda fingia chorar e ao notar a presença de Fernanda no restaurante disse “Tudo bem, eu te entendo, mas me dá um último beijo”.

João fez carinho nos cabelos da moça e lhe beijou. Naquele instante ouviu um grito “João Arcanjo!!”.

Era Fernanda.



ERA DA VIOLÊNCIA 2 (CAPÍTULO ANTERIOR)

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