sábado, 5 de abril de 2014

ERA DA VIOLÊNCIA 2 CAPÍTULO XVIII - A TENTAÇÃO




Falei que aquela droga não era minha e o comandante da operação perguntou se eu achava que eles forjaram o flagrante. Respondi “Claro que não, sei que a polícia do Rio de Janeiro nunca faria isso”. Perguntaram se eu estava de deboche e me deram uma porrada. Sabem nem brincar..

Caí no chão me contorcendo de dor e dizendo que prestaria queixa pela agressão. O comandante comentou “Agressão? A polícia do Rio de Janeiro nunca faria isso”.

Fui levado a delegacia. Falei para o delegado que aquela droga não era minha, alguém colocou lá. O delegado perguntou se eu falava que a polícia colocou e respondi “Não sei, só sei que não é minha”.

O delegado viu minha ficha e comentou “Você sabe que está em condicional né? Ser pego com drogas, mesmo com pouca, não é nada legal pra sua condição”. Respondi que sabia e ele completou “Acho melhor você ligar pro seu advogado, a situação complicou”.

É. Já estava me vendo de volta ao presídio. Vida bandida a minha.

Enquanto calculava quantos anos ainda teria de cadeia um policial bateu na porta do delegado. O delegado perguntou o que queria e o homem apontou para mim dizendo “Novidade no caso do cidadão aí”.

O delegado perguntou que novidade era e uma pessoa entrou na sala. Era Guilherme.

Perguntei o que ele fazia no local e sem me responder Guilherme disse “A droga é minha delegado”. Eu não conseguia dizer nada e o delegado pediu que ele explicasse a história.

Guilherme contou “Estive com meu pai, saímos, mas discutimos e eu resolvi ir embora sozinho. Tinha deixado a droga no carro dele, sem ele ver e esqueci de pegar de volta, ela é minha”.

Eu o tempo todo olhava para meu filho. Guilherme olhou de volta a mim e disse “desculpa pai”.

O delegado perguntou se Guilherme tinha certeza do que falava e meu filho respondeu “Sim, a droga é minha”. No fim acabamos liberados.

Guilherme saiu andando e falei para que ele entrasse no carro. O rapaz me ignorou e corri atrás lhe puxando pelo braço “Entra no carro agora” mandei.

Entramos em silêncio e fomos até o Arpoador. O dia amanhecia e olhávamos o horizonte. Comecei a tentar explicar “Eu não matei ninguém. Eu cubro a organização, os Cachorros velozes, mas não matei nenhuma pessoa, eu juro”.

Guilherme continuou olhando o horizonte um tempo e me perguntou “Por quê você só se mete em confusões?”. Bem que eu queria saber essa resposta. Mas nunca soube e me mantive quieto.

Depois de um tempo ele disse “Sempre soube que você era meu pai. Minha mãe nunca me escondeu. Eu até gostava mesmo com tudo que você aprontou. Melhor que aquele nojento do Rubinho Barreto”.

Perguntei se aquela droga era mesmo dele e meu filho respondeu “Claro que não, eu to limpo, saí da clínica ontem. Eu queria saber seu envolvimento com esses crimes e fui atrás de você quando te vi sendo levado”. Perguntei como ele sabia que a droga não era minha e Guilherme respondeu.

“Eu sei quem armou tudo pra você”. Olhei pra ele e nervoso pedi para que falasse. Guilherme falou “Eu ouvi o Rubinho falando no telefone e dizendo que o seu tava guardado e seria ontem. Por isso fui atrás de você”.

Era o que eu precisava.

Guilherme abriu a porta da mansão e Juliana, nervosa, perguntou onde o filho estava, tentou ligar e o celular estava desligado. Entrei como um trator passando por Juliana e Guilherme e fui de encontro a Rubinho que perguntou qual era o problema.

Respondi “Você” e dei um soco na cara do filho da puta. Ele se levantou e dei outro soco montando em cima dele e enchendo o safado de porrada. Guilherme segurou minha mãe antes que ela tentasse nos separar e eu socava e gritava “Quer me foder filho da puta? Eu te mato antes!”.

Depois de um tempo socando Guilherme se aproximou e disse “Já ta bom pai, chega”. Levantei, pedi desculpas a Juliana e saí com Rubinho gritando “Você ta morto!! Ouviu? Ta morto!!”.

No dia seguinte embarquei para Brasília e assim trabalhar. Juliana chegou à cidade de tarde e disse que queria falar comigo, eu já imaginava.

Entrei em sua sala do gabinete e ela estava com o jornal na mão, me entregou sem falar nada.

Eu estava na capa do jornal preso com drogas.

Falei que a droga não era minha e que foi tudo esclarecido. Ela olhou furiosa pra mim e respondeu “Eu sei, o Guilherme disse que era dele, que coisa linda né? A família toda no jornal.”

Tentei explicar pra Juliana que eu era vítima na história, tinham armado pra mim e Guilherme me salvado, ela devia ter orgulho dele e Juliana perguntou “Armado por quem?”.    

Respondi “Por seu marido, o Rubinho Barreto”.

Juliana ficou furiosa de vez e começou a gritar “Pare de tentar incriminar o Rubinho! Eu sei que vocês têm uma rixa, mas conheço o marido que tenho e sei que ele nunca faria isso!”.

Mandei que ela perguntasse a Guilherme e minha ex continuou “Você não tem jeito Gilberto, não adianta, não cresce, vai ser sempre esse moleque irresponsável se metendo em confusões. Quer saber? Cansei de tentar te ajudar”.

Perguntei o que ela queria dizer com isso e Juliana me contou “Me expor dessa forma já seria intolerável, expor nosso filho me faz ficar sem adjetivos, volte pro Rio, você ta demitido”.

Olhei para ela e perguntei se era isso mesmo que ela queria e Juliana sem me olhar nos olhos respondeu “É sim Gilberto, cheguei ao meu limite”.

Não falei mais nada. Saí da sala e na recepção encontrei Rodrigo. Ele já sabia o que ocorrera e estava com ar vitorioso. Cheguei perto do policial e disse “Você já devia saber que sempre que pensam que to morto eu levanto e como o cu do coveiro”. Furioso Rodrigo mandou que eu lhe respeitasse e me despedi.

Voltei ao Rio e trabalhando na faculdade e com meu blog, além de pegar a deliciosa da Bianca, lógico. Alguns dias depois de minha demissão tocaram a campainha e quanto atendi Bianca vestia um sobretudo e carregava um vinho e duas taças. Exclamei “Olha, que delícia!”. Ela respondeu “É porque você não sabe o que tem por baixo do sobretudo”.

Mandei que ela entrasse. Bianca abriu o vinho e pediu que eu colocasse uma música. Fui até o som, coloquei e quando voltei ela já estava com as duas taças cheias.

Ofereceu-me uma e antes que eu bebesse reparei em Lucinho no meio da sala pegando meu celular, não sabia que fantasmas telefonavam, ele fez uma ligação e o telefone de Bianca tocou.

Bianca deixara a bolsa com o telefone em um canto da sala e foi até lá atender. Enquanto ia Pardal surgiu e me deu a ordem “Troca as taças”. Não entendi e ele repetiu apressado “Troca logo a porra das taças. Não discute caralho”.

Troquei e Bianca voltou. Pegou a taça que deixei sobre o balcão e comentou “Entendi nada, fui atender e era o seu celular”. Respondi que devia ter ligado no meu bolso sem querer e propus um brinde. Ela perguntou a o quê e respondi “A nós”.

Brindamos, bebemos e um tempo depois Bianca se sentiu zonza.

Olhou assustada pra mim e falou “Você trocou as taças filho da puta”. Olhei para Lucinho e Pardal que se encontravam em um canto com ares de “papai sabe tudo”. Ali percebi tudo o que ocorria e perguntei a Bianca “Por quê? Quem foi?”.

Bianca andou cambaleando e derrubando tudo e eu atrás falando “Fala logo quem te mandou!! Você ta morrendo porra!! Fala que eu chamo um médico!!”.

Bianca olhou pra mim, deu um sorriso e disse “Você é um babaca, mas fode bem”. Desmaiando e morrendo em meus braços.

Chamei a polícia que chegou com legistas e foi comprovado enfarte. A porra do veneno que ela colocara na bebida não deixava rastros e dava impressão de uma “simples” parada cardíaca. Enquanto levavam o corpo observava a tudo com Lucinho e Pardal.

Depois que todos foram embora e ficamos apenas os três perguntei como eles sabiam do que ocorreria. Pardal respondeu “Você é um babaca mesmo. No primeiro encontro a mulher te fodeu, te roubou e você ainda deu corda”. Lucinho virou pra mim e disse “Isso fazia parte de uma missão”.

Perguntei qual missão era e Lucinho respondeu “Os caras que mandam lá em cima acharam que a gente agiu errado com você aqui embaixo e deram como missão te proteger por um tempo, tínhamos que salvar sua vida e salvamos”.

Perguntei o que aconteceria a partir dali e Pardal respondeu “Agora estamos livres de você, te salvamos e não vamos mais descer”. Nem acreditei no que falei logo depois, mas eu disse “Até que vou sentir a falta de vocês”.

Lucinho riu e falou “Sempre nos demos bem, mesmo você matando a gente”. Rimos e Pardal comentou “Ta na hora Lucinho”. Lucinho olhou pra mim e comentou “Acho que agora estamos no 0x0 né?”. Respondi que estávamos e apertei sua mão. Depois olhei para Pardal e também apertei a sua, mesmo com a perda de Rebeca provocada por ele. Não tinha mais sentido mágoas.

Eles começaram a andar a uma luz, devo ter fumado muita maconha para ver isso, e fiz uma última pergunta “E Rebeca?”. Pardal se virou e respondeu “To cuidando dela”. Dessa forma os dois sumiram.

Quem diria. Salvaram minha vida.

A vida prosseguiu. Me afastei de Juliana, mas continuava em contato com Guilherme, um contato cada vez maior, quase de pai de filho. João e Fernanda continuavam entre o amor e as brigas. A mulher teve um sangramento no momento que os Cachorros Velozes executavam mais uma vítima.

João estava com o telefone desligado e só soube quando saía da missão. Correu para o hospital, mas tarde demais, a mulher abortara.

João Arcanjo soube de tudo pelo médico e entrou no quarto do hospital para ficar um pouco com a esposa. Ao entrar percebeu Fernanda dormindo e se aproximou. Pegou em sua mão e velou seu sono até que ela falou “Sai daqui”.

João ainda ficou um tempo segurando na mão da esposa até que ela disse novamente “sai daqui”. João decidiu não confrontar Fernanda e saiu.

Arrasado deixou o quarto e ligou para Rui. O policial naquele instante estava com Yolanda, viu a ligação e atendeu. No outro lado da linha João perguntou se o amigo estava ocupado e Rui respondeu que não, então João perguntou “Você pode encontrar comigo? Não estou legal”. Rui respondeu “Claro”, marcaram em um barzinho e Rui desligou. O policial virou para Yolanda e comentou “Surgiu a nossa chance”.

João estava sozinho no bar quando chegou Rui. Os amigos se cumprimentaram e Rui sentou perguntando o que João tinha. O farmacêutico contou toda a história e Rui só disse “Puta que pariu, que cagada”. João encheu mais o copo e disse “Bota cagada nisso, Fernanda ta puta comigo”. Rui defendeu o amigo “Porra, ela não vê tudo o que você ta fazendo? Você é um marido foda! Faz tudo por ela!”.

João concordou com Rui e o policial encheu os copos dos dois dizendo “Detesto mulher ingrata”. João respondeu “Somos dois amigo”. Ficaram um tempo em silêncio e João comentou “Queria ter esse bacuri, um filho sabe? Queria muito”. Rui pegou a mão do amigo lhe consolando e disse “Fica assim não meu amigo, vocês terão, não foi agora, mas virá”.

João, levemente bêbado, olhou para Rui e comentou “Você é foda irmão”. Rui fingiu timidez e respondeu “Que isso cara”. João continuou “Não é a toa que você tem meu sangue, você é foda, somos irmãos”.

É. Ele não estava “levemente”, estava bem bêbado.

Rui propôs um brinde a amizade e enquanto brindavam Yolanda apareceu e fingiu surpresa ao ver a dupla abrindo sorriso e dizendo “Rui de Santo Cristo!”.     

Rui se levantou, deu um beijo no rosto da mulher e mandou que ela se sentasse. Apresentou a João Arcanjo como seu melhor amigo e pediu um copo a mais ao garçom.

Começaram a trocar ideias e Yolanda se insinuou a João. João, completamente de porre e amargurado por tudo que ocorreu deu trela e o plano de Rui começou a dar certo. Sem que o farmacêutico percebesse Rui colocou seu celular pra tocar e atendeu.

Pediu licença e se levantou da mesa. Um tempo depois voltou pedindo desculpas a João e Yolanda dizendo que pintou compromisso e tinha que ir embora. Yolanda respondeu “Que pena” e João disse que iria pra casa. Rui insistiu que ele ficasse e não fizesse desfeita a Yolanda. A moça pediu “Fique” e o farmacêutico concordou.

João e Yolanda conversaram por mais um tempo, beberam e o farmacêutico comentou que estava tarde e tinha que ir pra casa. Yolanda pegou a mão de João e falou “Você não está em condições de dirigir, eu te levo”.

Entraram no carro de Yolanda e partiram.

Yolanda parou na frente da casa de João e disse “Está entregue”. João agradeceu e a mulher tentou beijá-lo. O farmacêutico desviou o rosto dizendo que era fiel. Yolanda passou a mão pelos cabelos de João e respondeu “Eu também” lhe beijando..

Fernanda estava internada então João e Yolanda entraram na casa e foderam o resto da noite toda. De manhã João acordou e viu a
mulher dormindo ao lado. Pôs a mão no rosto e falou baixo “O que eu fiz”. Yolanda que só fingia estar dormindo sorriu.  

Na tarde seguinte Rui foi até a casa de Yolanda. A mulher abriu a porta e antes que entrasse Rui perguntou “E aí?”. Yolanda respondeu “Eu dei pra ele” e o policial retrucou “Ótimo”. Yolanda irritada chamou Rui de “desgraçado” e o homem lhe empurrou pra dentro da casa lhe beijando.

Na mesma tarde Fernanda recebeu alta. João Arcanjo foi lhe buscar e antes que ela dissesse algo pediu “Não me mande embora”.

Fernanda respondeu que não mandaria e João, que escondia os braços atrás das costas, mostrou o que carregava. Um buquê de flores.

Fernanda pegou o buquê e ouviu o marido dizer “Me desculpa, vamos começar tudo de novo, me deixe ser o marido que eu sempre fui”. Fernanda falou que amava João, esse respondeu que também lhe amava e beijou a esposa.

Entrou em casa e pegou a mulher no colo. Levou até a cama e lhe deitou na mesma. Começou a se despir e o telefone tocou. Parou e pegou o mesmo com Fernanda fechando os olhos já decepcionada. João olhou o nome “Rui de Santo Cristo” no visor e jogou o celular em cima de uma mesa. Fernanda perguntou “Não vai atender?” e João respondeu “Você é mais importante”.

Deitou sobre a mulher e se beijaram.

Rui e Yolanda estavam na cama quando Rui, satisfeito, fechou o celular e disse para a mulher “Não me atendeu, ta com consciência pesada. Perfeito”.

Enquanto isso eu estava em casa comendo pipoca e vendo filme quando tocaram a campainha. Atendi a porta e era Juliana, que entrou em minha sala nervosa.

Perguntei a ela o que ocorrera e minha ex respondeu “Só você pode fazer alguma coisa. O Guilherme teve uma recaída e ta preso na favela. Me ligaram dizendo que vão matá-lo”.

É. Ser pai é padecer no paraíso.


ERA DA VIOLÊNCIA 2 (CAPÍTULO ANTERIOR)




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