sexta-feira, 4 de abril de 2014

NOVE ANOS SEM ELA




Ano passado nessa mesma data fiz uma coluna chamada “Oito anos sem ela”. Ano que vem se eu continuar vivo, capaz e permanecer com o blog farei “Dez anos sem ela” e assim será sucessivamente porque 4 de abril é um dos feriados desse blog.

Mais uma vez é uma carta, endereçada a ela, mas permitido a quem quiser ler. Segue abaixo a carta:     

Oi mãe. Cá estou eu de novo te enchendo. Mais um ano se passou né? Como outros passaram e outros virão. Como você está? Espero que bem, aqui as coisas continuam como sempre, uns dias bem, outros mal, pra variar o Boi caiu de novo, mas parece que vai ter copa.

Jeito estranho de começar uma carta né? Mas são nove anos que não nos vemos e acaba se criando uma cerimônia por mais que a gente tenha intimidade. Poderia dizer que parece que foi ontem, mas estaria usando um clichê para mentir. Não mãe, não parece que foi ontem, faz tempo pra cacete e isso me deixa um pouco amargurado.

Porque como eu digo numa peça de teatro que finalizei essa semana “Deus inventou a lembrança e o Diabo a saudade”. O problema de envelhecermos é que essa tal de saudade fica cada vez mais presente em nossas vidas, vira algo corriqueiro.

Não que eu esteja velho, ainda estou longe disso e me considero no auge da minha vida, da maturidade, da disposição, de tudo, mas não sou mais o garoto que você conheceu e conviveu. É, é estranho dizer que não sou mais o mesmo que viveu com você, mas não sou.

O rosto muda, o cabelo muda, o jeito de andar, de pensar, de falar, pensamentos, tudo muda com o passar do tempo e eu mudei com esse passar. Nove anos não são nove dias e o mundo não é mais o mesmo de quando você o deixou.

Isso aflige um pouco porque por mais que haja amor e sei que você sabe que esse amor continua imenso e nunca diminuiu o tempo tem seu lado cruel e se encarrega de mostrar todos os dias que ele existe e distancia as pessoas que se amam. 

Ainda lembro de sua voz, mas confesso que já lembrei mais, me lembro de sua fisionomia claro, dos seus gostos, mas isso também já foi mais nítido na minha vida, essas datas como de hoje continuam mexendo muito com meu temperamento, meu humor, evidente que alguma lágrima sempre escorre num 4 de abril como escorre nesse momento, mas antes era a semana toda.

Acho que é por isso que a lágrima está escorrendo é que confesso que morro de medo de você morrer de novo. Sei que muita gente foi ao seu enterro, a sua missa de sétimo dia, algumas foram a sua missa de um mês e hoje me causa tristeza imaginar que talvez apenas eu saiba que data é essa. A vida de todo mundo continuou, a minha vida continuou, mas não quero que a sua termine. Eu não posso deixar você ser esquecida e por isso encho tanto o saco dos outros principalmente em redes sociais falando de você porque não posso permitir que isso ocorra.

Meu maior pavor é que um dia aconteça o 4 de abril ou o 27 de novembro e eu só lembre seu significado durante o dia. Acho que isso seria minha morte. 

Já me basta nos ver em fotos e eu me ver tão pouco nelas, tão pouco de mim atualmente. Se eu não nos ver em minha mente é minha morte.

Mas vamos falar de coisas boas.

Ano passado quando te mandei carta eu não estava bem. Talvez você soubesse porque escondo nada de você, mas mais ninguém sabia. Isso aprendi com você. Acho que tive depressão ano passado, não tenho certeza porque acho depressão uma palavra forte, mas te digo que meus dias felizes foram menos que o normal. Todo mundo me via rindo, brincando, mas sempre soube disfarçar bem. Muitas vezes quem “segurou minha onda” foi a Bia, mesmo sem ela saber.

Aliás, você viu como ela está? Está esperta demais, linda, grande, ela vai ser uma mulher linda mãe, dará trabalho. A Bia já sabe quem é você, pergunta porque você morreu. Respondo que você ficou dodói e ela responde que sente saudades. Eu sorrio pensando na inocência de uma criança que tem saudades de quem não conheceu, mas aí penso “será que não conheceu mesmo?”.

Vejo a Bia como sua representante na Terra, a pessoa que você mandou para que tomasse conta de mim e acho que não estou errado. Ela sempre pergunta pelo pimpão também e diz sentir saudades. Também sinto. Se ele estiver aí faça um carinho nele por mim. 
  
Obrigado por cuidar do Gabriel viu? O doce e meigo menininho que por uma grande brincadeira do destino nasceu no mesmo dia meu e da vó e logo com um mês nos deu um grande susto. Sei que você e outros protetores que tenho foram fundamentais para a recuperação dele. Biel cresce forte, gordinho, como uma criança normal e é esperto. Já começou a engatinhar e seus dentes estão nascendo. Experimentou feijão e arroz pela primeira vez essa semana.

As coisas começaram a caminhar de novembro pra cá. Caminhando duas, três horas por dia, caminhando em direção a uma vida mais saudável, perda de peso, ganho de auto estima. Foram mais de vinte de dois quilos, quase o que quero, mas com a cautela de já ter perdido antes e recuperado. Um passo de cada vez que ainda falta muito nessa caminhada.

Fui encenado em São Paulo, nove vezes por estudantes de teatro de São Paulo, teatro cheio todas as vezes, nas últimas com cadeiras extras e peça muito aplaudida, fui muito cumprimentado. Escrevi mais algumas coisas e tudo muito elogiado. Portas se abrindo, parcerias sendo formadas, você teria adorado ver.

Como teria adorado ver o que estou fazendo no Boi. Como te disse ele caiu de novo, mas a diferença é que em vez de lamentar resolvi agir. Dei o pontapé em um movimento de resgate para a escola que conseguiu juntar muita gente boa, importante e acho que a coisa vai.

Quem diria, a escola que um dia resolvi compor samba, que você ajudou fazendo alegorias para minha torcida, comprando fogos, que você chorou quando perdi meu primeiro samba e eu teria todo esse envolvimento ainda com a agremiação.

Isso tudo que eu tive a ideia e vem acontecendo equivale a um estandarte de ouro, o mesmo que eu dediquei a você e que pus alguns anos depois uma foto em seu caixão.

Conheci pessoas bacanas, que se tornaram importantes em minha vida. Conheci a Hellen. Você já deve saber quem é. A Hellen é do tipo de pessoa especial, que não te assiste jogar, joga junto contigo. Amorosa, companheira, doce, ela e especial mãe, acho que iria gostar dela.

Sabe mãe, acho que to feliz. É esquisita essa sensação porque nós sempre somos condicionados a falar que somos felizes, mas nem sempre somos. Mas nesse momento realmente acho que estou feliz. Estou me sentindo mais corajoso, mais querido, mais confiante, mais forte. Seu que isso tudo é cíclico, mas quero que esse ciclo dê frutos.

E mesmo que eu fique diferente das fotos, que sua voz vá sumindo de meus ouvidos quero que saiba que meu coração é seu, sempre será. A você devo tudo, a minha vida, quem eu sou e acho que ainda não consegui passar a sua importância na minha vida. Já escrevi tanto sobre você, mas ainda não escrevi “a definitiva”. Vai acontecer.

Só quero, na despedida dessa carta, dizer que por mais que a distância atrapalhe, a saudade doa e eu tenha medo em relação a memória eu te carrego comigo. Com seu nome em minha pele e seu legado por meus poros. Eu sou você, sou sua continuação e tudo que eu faço, tudo que almejo, luto, conquisto faço por quatro pessoas. Por mim, por Bia, por Gabriel e principalmente por você porque eu sei que eu fui seu maior projeto, seu maior sonho e não vou deixar isso morrer. Isso não.

Acho de coração que a vida foi injusta com você, que o mundo poderia ter sido mais bacana contigo, mas eu vou “te vingar”. Vou conquistar o mundo e vou colocar uma bandeira com seu rosto no topo dele como os astronautas fizeram na Lua.

E o que nós somos senão astronautas querendo seu lugar no espaço?

Se cuida mãe. Deus te abençoe e já que você está perto Dele peça para que olhe por mim e seus netos.

Termino com o mesmo vídeo que pus ano passado com a música que fiz para você no dia da sua missa de sétimo dia. Poderia ter feito outro, mais magro como estou hoje. Mas vou deixar esse mais gordinho dizendo que a vida nos transforma. Mas algumas vezes pra melhor.

Dói muito ainda, me machuca, parece que metade de mim foi arrancada com sua partida, por isso te peço pra transformar essa dor em força, vontade, para que eu mostre a todos que você não estava errada quando apostou em mim.

Te amo.


Pra sempre.


Beijos do seu filho. 

NO ESPELHO

Como vou viver sem o teu amor
Como viver sem o ombro amigo
Naqueles momentos onde só existe dor
Como vai ser ficar sem você

Reluz uma lágrima em meus olhos
Eu sei, não vou lutar sozinho
Geralmente quando eu mais choro
Imagino teu afago, teu carinho
No espelho encontro teu olhar
A imagem que me fortalece
Vejo que estás a me acompanhar
Intensa sua chama me aquece

Legado que sigo em meu caminho
Lembranças nunca irão se apagar
Amor é como passarinho
Radiante tendo o céu a desbravar

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