segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Capítulo X - Período de incertezas

Um avião foi fretado para que Lucas voltasse logo ao Rio de Janeiro. Todos os shows de domingo foram desmarcados para que o rapaz pudesse se despedir do amigo.

A tv deu a notícia da morte de forma extraordinária em forma de plantão e a imprensa se acotovelava na frente do hospital. Sites de internet e TVs a cabo montaram homenagens a Léo contando sua trajetória de garoto humilde até o sucesso nacional.  

Lucas muito nervoso precisou ser medicado para seguir viagem. No Rio de Janeiro sua assessoria conseguiu que ele partisse por uma saída alternativa do aeroporto e fugisse da imprensa.

Para escapar de repórteres que cercavam sua casa e de Léo Lucas foi descansar na casa da mãe.

A preocupação com o rapaz era grande. Lucas e Léo eram grudados desde crianças e ninguém sabia como aquela morte iria lhe afetar. Mayara não deixou o marido sozinho nem por um instante.

Lucas não falava nada, apenas deixava cair algumas lágrimas de seu rosto.
O velório foi realizado na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro com presença de órgãos de imprensa de todo o Brasl e alguns da América do Sul.

Governador do estado e prefeito da cidade passaram no local para dar as últimas condolências à família de Léo.

Lucas ainda não chegara ao local. Mayara ajudou o marido a se vestir e perguntou se ele estava bem. Lucas acenou com a cabeça que sim e dessa forma se encaminhou a Assembléia com Jurema, Mayara, Jonas, Jéssica e Rubens.

Na chegada de Lucas uma grande histeria tomou conta do lado de fora com gritos de “Lucas” e “estamos com você”. Só de olharem Lucas com aquele aspecto abatido, óculos escuros para esconder o olhar de quem muito chorou e principalmente sem o seu sorriso tão característico as fãs choravam e gritavam.

Lucas entrou com a família no local do velório e todos os flashes foram em sua direção. Lucas abraçou a mãe de Léo durante longos segundos e depois Jussara prometendo a essa que nada lhe faltaria.

E chegara o momento..momento de se despedir do amigo.   

Lucas sozinho se aproximou devagar do caixão com todos os presentes e seus olhares voltados para ele. O cantor chegou perto e viu ali o irmão que a vida lhe deu deitado de forma serena como se não sofresse no fim.

Lucas não aguentou e começou a chorar de forma intensa colocando o braço sobre o caixão como se fosse um último abraço. Colou o rosto no do amigo e suas lágrimas caíam sobre o caixão em meio de dizeres de “te amo”.

A ficha caiu ali Lucas se lembrou de toda sua vida com Léo. Deles criança pegando ônibus para o Centro e assim poder trabalhar e não passar fome, os dois jogando bola, estudando juntos, crescendo, indo aos bailes funk, trabalhando, conhecendo seus amores e o sucesso.

Léo o mais tímido da dupla, o rapaz de sorriso tímido, mas encantador. O melhor amigo que Lucas poderia ter desejado em sua vida e que levaria consigo pro resto da existência.

Não sabemos ao certo porque gostamos de alguém, o que faz rolar empatia com uma pessoa a ponto de surgir uma irmandade. Que química é essa que nos faz gostar de alguém muitas vezes mais do que da própria família.

Não sabemos como uma amizade nasce. Só que ela não morre jamais.
Lucas fez o sinal da cruz e se afastou do caixão. O padre rezou a missa encomendando a alma, Rubens também falou em nome da igreja evangélica e antes que o caixão fosse fechado conduzido pela mãe Léozinho levou uma flor até o túmulo do pai comovendo a todos.

O caixão foi colocado em um carro de corpo dos bombeiros e conduzido até o cemitério do Cacuia na Ilha do Governador, sendo enterrado apenas com a presença de familiares e amigos.

A pergunta que ficava era como seria o futuro de Lucas sem Léo.

A dupla tinha um cd em espanhol e o segundo em português para lançar, mas as coisas mudavam muito sem a presença de Léo. Lucas viajou com Mayara para o interior do estado por uma semana para tentar botar a cabeça no lugar.

Ao voltar Lucas foi ao escritório de Wilson e contou que daria um tempo na carreira.

O empresário argumentou que ele não poderia fazer isso. Existiam compromissos a cumprir e ele não poderia jogar tudo para o alto.

Lucas revidou que fazia parte de uma dupla com Léo e a dupla não existia mais, seu parceiro estava morto e sem ele não tinha vontade nenhuma de cantar, não queria mais cantar.

Wilson lembrou que o rapaz tinha um contrato com ele e com a gravadora e Lucas mandou que lhe processassem.

Levantou e se encaminhou a porta. Antes que saísse Wilson gritou perguntando se ele queria voltar pra favela. Lucas respondeu que se fosse com Léo sim.

Lucas convocou uma entrevista coletiva e contou a todos que estava parando a carreira. A imprensa perguntava se era definitivo e o rapaz respondeu que nada na vida era definitivo, mas naquele momento sim.

O rapaz mudou um pouco com a morte do amigo. Tornou-se uma pessoa mais agressiva e passou a beber diariamente. Começaram também as discussões com Mayara após ele beber e Mayara gritando perguntou se ele queria ser igual o pai.

Lucas se aproximou gritando que ela lavasse a boca antes de falar de seu pai e levantou a mão. Mayara sem medo respondeu que só faltava isso para se igualar a Balão.

Lucas abaixou a mão e sentou chorando pedindo desculpas.

Mas apesar dos dois tentarem a situação não era boa. Lucas não cantava mais, não trabalhava e a ociosidade que ele nunca conhecera na vida não lhe fazia bem. Acabou tendo algumas relações extraconjugais não descobertas por Mayara.

No presídio Mariano recomendou ao irmão que ele mantivesse a cabeça ocupada, arrumasse algo para fazer porque mente vazia era oficina do diabo. 

Lucas perguntou como o irmão mantinha a mente ocupada no presídio e Mariano respondeu que não mantinha.

Lucas estranhou o jeito de falar do irmão, parecia mais seco e frio com a vida. Eram muitos anos de cadeia e evidente que isso marca uma pessoa.

Lucas chegou em casa e disse a Mayara que arrumaria coisas para fazer na vida, não se entregaria ao ócio contando que abriria um restaurante.

Mayara disse ao marido que ele não entendia nada de negócios e culinária perguntando como ele faria isso. Lucas respondeu que de negócios entendia sim já que desde criança trabalhou e teve que ser administrador para ter um diferencial e conseguir clientela.

E culinária ele conhecia uma pessoa que entendia muito. Jéssica que desde pequena aprendeu a cozinhar com a mãe e era uma cozinheira maravilhosa.

Lucas abriu em sociedade com Jéssica o “Planeta Funk” uma mistura de restaurante e bar temático com homenagens e materiais dele e Léo além de outros funkeiros.

Não foi fácil convencer a irmã evangélica e entrar em um empreendimento que envolvia funk, mas o cantor convenceu falando que era trabalho e Deus não vai contra os que trabalham.

A inauguração foi um sucesso com o bar/restaurante lotado de personalidades e imprensa. Não só a inauguração foi bem sucedida como o local se tornou um point do Rio de Janeiro.

Lucas pegou gosto em ser empresário e abriu com Jonas um estúdio de gravações musicais. Pensava ali em dar espaço para os novos talentos.

Mas faltava o grande projeto, o que seria a menina dos seus olhos.

Lucas queria ajudar os meninos pobres, dar a eles as oportunidades que não teve. Então procurou ajuda em empresários para bancarem sua idéia.

O rapaz tinha ótima imagem junto a população e isso evidente que fez com que conseguisse a ajuda para montar a “Fundação Leonardo Figueira”.

Lucas deu o nome do parceiro ao projeto contruído no morro do Dendê para atender a juventude pobre da favela.

O projeto consistia em dar gratuitamente aulas de teatro e música para a comunidade carente, além de culinária, futebol, basquete e voley e aulas de cidadania com ensinamento de direitos e deveres.

Além do mais importante naquele momento, três refeições por dia.

Ao mesmo tempo criou a rádio comunitária do Dendê, uma voz para a população da favela.

A inauguração da fundação contou com grande presença de imprensa e políticos, como sempre querendo aparecer, além do prefeito do Rio de Janeiro.

Em seu discurso Lucas agradeceu o carinho de todos e a confiança ao embarcar naquele projeto. Lembrou de Léo que foi um menino carente como ele e queria dar seu nome ao projeto para que nunca se esquecessem do legado do amigo.

Completou afirmando que Léo não morrera, estava ali presente naquele projeto e além de grande cantor e pessoa maravilhosa agora ajudaria a salvar vidas.

O publico levantou e ovacionou Lucas que recebeu um beijo no rosto de Mayara contando que estava orgulhosa.

A relação do casal melhorou depois que Lucas largou a ociosidade e começou seus projetos de vida. O rapaz sentia-se entusiasmado com o que criava e a oportunidade de melhorar a região que nasceu e foi criado. Parou com as experiências extraconjugais e apesar de continuar bebendo mais do que o normal não brigava mais com Mayara com o casal voltando ao que era antes.  

E naquele momento a felicidade parecia voltar a vida de Lucas, ainda mais com uma notícia que recebeu.

O rapaz chegou em casa e chamou por Mayara sem lhe encontrar. Bebeu água e se encaminhou para o quarto para trocar de roupas quando viu um sapatinho de bebê preso por durex na porta.

Chegou mais próximo para ler um bilhete preso ao lado do sapato. Nele estava escrito “parabéns papai”.

Lucas começou a chorar. Ser pai era um dos maiores sonhos de sua vida e naquele instante surgiu Mayara com sorriso nos lábios. O cantor se aproximou da esposa e lhe deu um beijo apaixonado depois falou “obrigado” em seu ouvido. 

A vida estava boa. Lucas começava a sentir saudades de cantar. Revia as gravação com Léo e o DVD que a dupla gravou e sentia saudades do parceiro e pela primeira vez também de estar em um palco, a única coisa que lhe incomodava era Pachola.

O traficante não gostava da “Fundação Leonardo Figueira” muito menos das coisas que Lucas falava como dar uma vida mais decente para os meninos da favela não caírem nas mãos do tráfico.

Todas as oportunidades que tinha Lucas falava que preto tinha que ter oportunidade de um futuro melhor, preto não tinha que ser traficante.

Um dia Lucas estava na fundação assistindo oficina de teatro e sentiu falta de um dos meninos, o que ele considerava mais talentoso. Perguntou a todos se sabiam dele e responderam que não.

Até que outro menino respondeu que ele tinha entrado pro tráfico.

O rapaz perguntou ao garoto aonde achava o menino e ele respondeu que ele estava armado perto do campinho.

Lucas foi até lá e encontrou o menino com fuzil na mão acompanhado de outros. Perguntou o que ele fazia lá e o menino respondeu que Pachola ofereceu um tênis de marca para que ele largasse a fundação.

Lucas furioso perguntou por Pachola e o menino respondeu que estava na boca da rua principal. O cantor foi até a entrada da boca de fumo e gritou mandando que Pachola aparecesse.

No meio de soldados Pachola apareceu e perguntou “Qual foi playboy? Que gritaria é essa na frente de meu estabelecimento?”.

Lucas perguntou que história era aquela de oferecer tênis para um de seus alunos sair da fundação e entrar pro tráfico. Pachola encarou o cantor e respondeu que ele que devia estar puto por Lucas querer tomar a garotada dele enchendo a cabeça dos meninos de consciência social e que eles poderiam ser alguém.

Lucas emendou que tomaria sim as crianças dele e que não deixaria nenhuma delas se transformar num bandido como Pachola. Nesse instante os bandidos apontaram seus fuzis para Lucas.

Pachola mandou que os homens abaixassem as armas porque “matar cantor famoso daria um caô do caralho”.

Pachola encarou Lucas de forma bem séria e mandou que o rapaz saísse do caminho dele e não atrapalhasse seus negócios senão esqueceria que Lucas era famoso e o conhecia de criança e tomaria providências.

Lucas sem se amedrontar perguntou que providências e Pachola respondeu que ele não iria querer saber, que se fosse ele levaria aquela fundação para outro lugar.

Lucas respondeu que se Pachola fosse ele não usaria fuzil para tentar intimidar alguém.

Falou isso e começou a andar indo embora. Pachola gritou que aquela ação adiantaria nada. Ele e Léo eram caso de sorte e moleque pobre e preto só conseguia fugir da miséria se virasse traficante.

Uma noite Mayara e Lucas foram ao teatro e na saída conversavam animadamente quando Mayara começou a sentir dores. Colocou a mão nas pernas e se apavorou ao sentir sangue.

Lucas corrou com Mayara para maternidade, ela estava com quatro meses de gravidez. Lá o médico diagnosticou que a placenta estava sem água.

Lucas perguntou o que aquilo significava e o médico respondeu que o bebê não conseguiria sobreviver sem a água da placenta e se a gravidez fosse levada adiante o bebê morreria assim que nascesse.

A notícia foi um baque para o casal. Mayara chorava na cama do quarto hospitalar e Lucas pegava sua mão dizendo que eram jovens e teriam outro bebê. A moça respondia que não queria outro, queria aquele que estava em sua barriga.

Respondeu que queria ir ao banheiro e pediu ajuda ao marido que lhe conduziu até o local. Lucas saiu e ficou pensando no filho que eles não teriam, de como as coisas pareciam engrenar e sempre acontecia algo que derrubava.

Ouviu um grito do banheiro e saiu correndo para ver. Ao entrar viu a cara de horror de Mayara contando que o bebê caíra na privada. Lucas correu para chamar a enfermeira.

Dessa forma Mayara abortou e chegava ao fim pelo menos por enquanto o sonho do casal ter um filho.

O aborto baqueou um pouco o casal. Não brigavam, mas mal se falavam. Mayara entrou em depressão e Lucas chegava muitas vezes bêbado em casa além de sair com outras mulheres.

Uma noite Mayara estava na frente da televisão, mas sua cabeça parceria estar longe. Lucas sentou ao lado da esposa e comentou que eles precisavam conversar. Ela respondeu que estava com sono e precisava se deitar. Lucas argumentou que ainda estava cedo, mas em vão a mulher levantou lhe deu boa noite e foi dormir.

Lucas sentou no sofá e encostou a cabeça pensando no que fazer. Um jeito que recuperasse a felicidade e que sua mulher saísse daquela depressão. Pensou muito, lembrou que era noite de sexta e teria baile no Dendê.

Decidiu que não queria ficar em casa dentro daquele poço sem fundo. Levantou, pegou a chave do carro e saiu de casa.

Anos que Lucas não entrava no baile, desde que despontou para o sucesso e sua presença espantou a todos. Foi logo abraçando o porteiro e brincando perguntou se o homem lembrava-se dele. O porteiro rindo respondeu que sim era o rapaz que ainda garoto ele barrou e não permitiu que entrasse no baile.

Dentro Lucas abraçou velhos conhecidos, deu autógrafos e tirava fotos com fãs. Muitos perguntavam quando ele voltaria a cantar e Lucas desconversava.

Naquela noite rolava a caravana de DJ Mustang e Lucas se posicionou perto do palco para assistir.    

Os funkeiros se apresentavam e exaltavam Lucas que acenava em agradecimento. Mc Lidy foi a última a se apresentar e brincou no microfone dizendo que graças a ela, que apresentou Mayara, Lucas deixou de ser virgem.

No fim dos shows Mustang pegou o microfone e perguntou se Lucas queria cantar.

O rapaz ficou pensativo enquanto todo o púbico do palco gritava seu nome. Lucas não cantava desde o fatídico show da morte de Léo.

Os gritos aumentavam pedindo por Lucas e Mustang fora do microfone falou para Lucas “vem”.

Lucas então sorriu e subiu ao palco sob aplausos eufóricos.

Recebeu o microfone de Mustang que lhe deu um beijo no rosto. Com o microfone na mão Lucas gritou “Alô Dendê !! Eu voltei !!” cantando “O sonho”.

Ele voltou...






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