domingo, 5 de fevereiro de 2012

Capítulo VIII - A explosão

Essas coisas traumatizam, machucam. Lucas chegou à maternidade triste, pra baixo, só Sophia conseguiu lhe arrancar um pequeno sorriso quendo o tio pegou no colo. Mayara perguntava o que era e seu namorado respondia que era só cansaço.

Mas não era só isso. Preconceito social, preconceito racial. Preconceitos estúpidos de pessoas estúpidas que não se tocam que quando choram a lágrima tem a mesma cor, se machucam e o sangue tem a mesma cor, fecham os olhos na hora da morte da mesma forma.

Lucas chegou em casa, entrou no quarto e no escuro ligou seu computador e procurou por uma música. Achou no youtube e ficou assistindo. Era a música perfeita para o momento.

Apesar desse problema a dupla Lucas e Léo explodiu nacionalmente graças a apresentação na televisão. Os dois foram a outros programas, a todas as emissoras e seus shows deixaram de se restringir ao Rio de Janeiro e viraram nacionais.

Um ritmo louco de apresentações. Trinta shows por mês tendo apenas a segunda e terça de descanso em casa. Dinheiro entrava, sucesso vinha junto.

E esse sucesso precisava ser mantido. Tinham que entrar em estúdio, mostrar novas músicas. Uma gravadora multinacional se interessou e eles fecharam contrato.

Deram uma parada no ritmo de shows e entraram no estúdio para gravar o primeiro cd da dupla. Lucas compôs treze músicas, eram necessárias quatorze, mas o rapaz avisou ao empresário que queria fazer uma regravação.

Wilson perguntou qual era a música e Lucas respondeu “Tributo a Martin Luther King” de Wilson Simonal.

O empresário estranhou e falou que não tinha nada a ver com o estilo da dupla, mas Lucas bateu pé que queria fazer essa gravação e mostrar outro lado dele, de consciência social e racial.

Wilson bateu na tecla de não ter o espírito da dupla. Lucas argumentou como não tinha a ver se era do Simonal, rei do balanço, do suingue que fez grande sucesso com a juventude e ainda por cima era preto como ele.

Wilson olhou pra Lucas que pediu a chance de colocar a música no cd, que ele se responsabilizava pra colocar no ritmo do funk e que daria certo.

Só restou a Wilson concordar.

Lucas e Léo entraram em estúdio e gravaram as quatorze faixas do cd. Uma entrevista coletiva foi marcada na sede da gravadora e pela primeira vez a dupla enfrentava ao mesmo tempo um batalhão de repórteres.

A dupla acompanhada do empresário sentou-se a mesa com toda a imprensa na frente tirando fotos e fazendo perguntas. Léo inibiu-se, não estava acostumado com aquele assédio e sobrou para Lucas responder as perguntas.

O rapaz estava nervoso, não parava de beber água, mas respondia a tudo. 

Respondeu sobre a origem pobre deles, o repertório do cd, agenda de shows..

..e surgiu a pergunta da regravação, do porque de “Tributo a Martin Luther king” estar no cd.

Lucas bebeu um gole de água, suspirou e decidiu contar a história com os policiais. Contou tudo em detalhes a história que ninguém sabia e deixando a todos horrorizados.

No fim disse que tinha orgulho de sua raça, de ser preto e queria ser uma referência para as crianças negras do Brasil, queria falar de sua raça assim como Simonal, assim como o cara que como ele veio de origem pobre e era negro.


TRIBUTO A MARTIN LUTHER KING
(Wilson Simonal e Ronaldo Bôscoli)


Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!
Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!
Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!
Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!

Sim, sou um negro de cor
Meu irmão de minha cor
O que te peço é luta sim
Luta mais!
Que a luta está no fim...

Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!
Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!
Oh! Oh! Oh! Oh!

Cada negro que for
Mais um negro virá
Para lutar
Com sangue ou não
                                                                                                                               
Com uma canção
Também se luta irmão
Ouvir minha voz
Oh Yes!
Lutar por nós...

Luta negra demais
(Luta negra demais!)
É lutar pela paz
(É Lutar pela paz!)
Luta negra demais
Para sermos iguais

Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!
Para sermos iguais
Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!
 
E os dois voltaram para a estrada, agora com um repertório consistente, com músicas tocando em rádio e uma banda acompanhando no show. Banda que tinha até Mayara como backing vocal.

Mayara se formou em medicina, mas a grande atração da formatura da moça foi seu namorado que teve que tirar fotos com todos seus colegas de turma e familiares.

Sempre com um sorriso no rosto e alegria por viver aquele momento. Mayara pro hora desistira de ser médica.  

Lucas e Léo tiveram oportunidade de conhecer o Brasil todo com a turnê “Momentos”, nome do maior sucesso da banda. A histeria era grande quando chegavam a alguma cidade e Mayara aproveitava que estava junto como cantora e grudava no namorado não deixando as fãs chegarem muito perto e lhe arrancar pedaço.

Uma noite depois de um show no Norte do país Lucas e Mayara cansados foram para o quarto do hotel. Lucas foi para o banho enquanto Mayara ligava a tv pra ver o que passava quando ouviram um grito. Era do quarto de Léo.

Lucas preocupado se enrolou na toalha e foi com a namorada até o quarto de Léo ver o que ocorria. Chegando lá encontraram a porta aberta e entraram.  

Entraram e encontraram Léo pelado com uma menina histérica lhe agarrando pela perna e contando que lhe amava. Lucas e Mayara começaram a rir enquanto Léo pedia ajuda.

O rapaz entrou no quarto, tirou a roupa e foi para o banheiro tomar um banho na hidromassagem. Quando entrou pelado no banheiro deu de cara com a fã escondida no local que lhe agarrou gritando que queria um filho dele.

O ritmo era intenso. Os dois não saíam de aviões para desespero de Léo que morria de medo. Cantavam em ginásios, em estádios, viraram “figurinhas carimbadas” em programas de televisão e rádio. A dupla Lucas e Léo virou uma febre nacional realizando todos os seus sonhos.

Lucas só não realizou seu sonho de jogar pelo Flamengo, mas ficou amigo de jogadores de futebol que inclusive homenageavam a dupla comemorando gols imitando as danças da dupla.

A relação de Lucas e Mayara ficava cada vez mais forte e durante uma coletiva para um show em Manaus Lucas anunciou seu noivado com a namorada e o casamento pro fim do ano.

Lucas comprou carro do ano e uma casa ampla no bairro da Freguesia na Ilha do Governador para morar com Mayara. Léo comprou a casa ao lado pra morar com Jussara. Jurema não quis sair do morro então Lucas que sempre foi um pedreiro de mão cheia mandou que construíssem uma mansão pra mãe no morro.

Com a casa pronta entregou a chave e contratou uma empregada dizendo que a mãe nunca mais precisaria trabalhar pra ninguém na vida.

Mas as coisas com o pai não iam bem.

O tratamento não surtia mais efeito e o médico contou a Lucas que a única solução seria transplante de fígado, mas a fila de espera era grande e o país tinha poucos doadores.

Sem alternativa Balão foi cadastrado na fila de espera enquanto tentava outros tratamentos para prolongar sua vida a tempo de fazer o transplante.

Lucas via o pai depressivo. Sempre sentado em uma cadeira de balanço na varanda da casa olhando pro nada e queria pensar alguma forma de ajudar Balão a ter motivo para viver.

A dupla tinha seu primeiro grande show na Ilha do Governador marcado. Seria na quadra da União da Ilha do Governador e Lucas perguntou se o pai não queria ir pra rever os amigos e a escola do coração.

Balão respondeu que não, que não gostavam dele na escola. Lucas respondeu que não era verdade, todos ali tinham uma agrande admiração por ele só que o pai tinha aprontado algumas com a agremiação.

Não adiantou, Balão não quis ir.

Lucas e Léo se apresentaram em uma União da Ilha lotada e no microfone Lucas falava do orgulho de pisar naquele palco e ser filho de Balão, um dos maiores compositores da casa sendo ovacionado.

Cantou as músicas da dupla e lembrava-se do pai.

No fim do show os rapazes foram cumprimentados pelo presidente da escola que perguntou como estava Balão. Lucas respondeu que estava doente e perguntou quando sairia a sinopse do enredo do carnaval do ano seguinte. O presidente respondeu em uma semana então Lucas perguntou se poderia concorrer.

O presidente respondeu que seria um prazer e Lucas perguntou se poderia concorrer junto com o pai, se teria alguma proibição. O presidente sorrindo respondeu que não, os problemas que tiveram com Balão foram devido ao alcoolismo, mas ele era respeitado e querido lá.

Na semana seguinte Lucas chegou com a sinopse da União da Ilha em casa e jogou em cima do velho na cadeira de balanço. Balão olhou para o filho sem entender que perguntou “Ué, você sempre me disse que era o bom, não foi? Lê essa sinopse aí que vamos fazer um samba pra União da Ilha”.

Balão só conseguia olhar o filho que emendou “Amanhã viajo pra fazer shows, mas semana que vem to aqui pra gente trabalhar esse samba”. 

Pra quem não sabe os sambas que vão para avenida no carnaval são escolhidos através de concursos internos das escolas. A agremiação entrega uma sinopse para a ala de compositores que vem a ser um resumo do enredo que a escola irá apresentar na avenida e dessa sinopse o samba é feito.

Uma disputa numa escola do grupo especial do Rio de Janeiro, que vem a ser o grupo principal, costuma levar de dez a doze semanas e os sambas vão sendo eliminados ao longo dessa disputa. Normalmente as agremiações levam de três a quatro sambas para a final, o dia da escolha.

Por render uma boa quantia financeira de premiação essas disputas costumam ter gastos grandes como gravação do samba em um cd, colocação de torcida na quadra pra torcer para esse samba, locomoção para essa torcida, compra de ingressos para eles, bebida e comida a torcedores e pagamento de cantores e músicos que apresentam esses sambas nas eliminatórias.

Na semana seguinte Lucas estava de volta e reuniu-se com o pai. Balão no cavaco, Lucas com um balde que fazia de instrumento de marcação fizeram o samba sentados a uma mesa com papéis, canetas e gravador.

Jurema orgulhosa via pai e filho compondo e o talento dos dois reunidos fez com que fosse fácil a composição. Em algumas horas o samba estava pronto e foi apresentado a famíliares e amigos na voz dos dois poetas da família.

Sob aplausos de todos pai e filho se abraçaram comemorando a qualidade da obra. Lucas brincou com o pai que ele não esqueçera como se fazia e Balão respondeu que até que ele não era tão ruim.

Lucas pediu ao irmão que assinasse o samba como compositor junto com ele e o pai e que não deixasse faltar nada a Balão na disputa. Contratasse os melhores cantores, músicos e desse um jeito de botar o Dendê todo dentro da quadra torcendo por eles. Completou que iria sempre que a agenda permitisse, mas na final estaria com certeza.

Jonas respondeu que tudo bem, podia deixar com ele e Lucas liberou o irmão do trabalho com a dupla enquanto durasse o concurso de samba-enredo.

Lucas continuou na estrada com Léo e todos os sábados de madrugada ligava para o irmão perguntando como tinha ido o samba e abria um sorriso com a resposta que tinha ido bem e se classificado.

As semanas foram passando. A final de samba se aproximava o casamento também, a agenda de shows e apresentações na tv uma loucura até que no fim de um show no camarim Lucas teve um “piripaque” e desmaiou.

Acordou em uma emergência de hospital com Mayara segurando sua mão e perguntando se o namorado estava bem. Lucas respondeu que sim e perguntou o que ocorrera. Mayara contou que ele desmaiou depois do show, mas estava tudo bem e a agenda de shows das semanas seguintes desmarcada.

Lucas viu Léo e pediu o celular dele emprestado. Ligou para o Rio pra saber do samba e ficou feliz ao saber que se classificou para a final. Desligou o telefone, devolveu pro parceiro e disse pra namorada que fizeram bem em desmarcar a agenda porque tinha uma disputa de samba para ganhar no sábado seguinte.

E Lucas na semana seguinte estava na União da Ilha com o pai. Conduzia com orgulho Balão em uma cadeira de rodas e esse apesar de estar debilitado também sorria e acenava cumprimentando a todos.

Foram para um camarote esperar a apresentação do samba e toda vez que algum órgão de imprensa tentava falar com Lucas ele apontava o pai e dizia que a estrela da noite era ele.

Na hora da apresentação Lucas conduziu o pai até o palco sob aplausos de todos e pegou um dos microfones. Iria ajudar a “defender” o samba na final.

O cantor principal deu o grito de guerra e ali se iniciou uma apresentação magistral. Torcida grande com bandeiras cantava o samba aos berros. Fogos explodiam do lado de fora e Lucas abraçado ao pai cantava com Balão deixando cair lágrimas dos olhos de felicidade.

No final deu o que todos esperavam. Balão, Jonas e Lucas venceram o concurso de sambas da União da Ilha, o samba deles representaria a escola na avenida.

Balão foi da glória ao ostracismo, decadência e com o apoio do filho voltou a ser vencedor. Era a quinta vitória do velho poeta em sua escola do coração que chorando abraçou Lucas, disse obrigado e começou a gritar que era o Balão, o melhor de todos.

Lucas sorrindo via a euforia do pai e baixinho concordava “Ele é o Balão, o melhor de todos”.

Agora Lucas tinha outra missão, o casamento. Sua irmã Jéssica lhe representava e cuidava de todos os preparativos para o casório. Mayara licenciou-se da banda para cuidar de sua parte e Lucas sem entender nada do assunto atendia telefonemas de Jéssica durante as viagens e tinha que decidir por buffet, local da festa e outras coisas que homem não tem a mínima idéia.

Até que um momento Jéssica não aguentando mais a forma como o irmão se enrolava comunicou a data do casamento e pediu que ele estivesse lá, seria sua única obrigação.

Lucas agradeceu e sorriu aliviado.

E no dia marcado estava lá. Igreja da Candelária lotada e na frente uma multidão de populares se acotovelava para ver o casamento do maior ídolo do momento. Lucas chegou acenando a todos, provocando histeria e entrando para a sacristia.

No altar perguntava ao seu padrinho, evidente que era Léo, se Mayara iria comparecer. O amigo rindo respondeu que não então era melhor eles irem embora tomar chopp na praia porque estava quente.

Lucas mandou que o irmão parasse de palhaçada porque estava nervoso e nesse momento começou a marcha nupcial. Mayara entrou linda acompanhada do pai para o pipocar de flashes de sites e revistas de celebridades.

O pai de Mayara entregou a filha e disse no ouvido de Lucas que esperava que ele tivesse aprendido a fazer pedido em restaurante chique. O rapaz riu e respondeu que vinho pelo menos já sabia escolher.

O casal virou para o padre e ouviu tudo que ele tinha a dizer. No fim trocaram alianças, o sim e o beijo.

Na festa em determinado momento Lucas e Léo foram pro lado de fora e sentados em cadeiras olhavam as estrelas. Léo perguntava se algum dia o amigo imaginou que eles chegariam  a tanto, que ele mesmo nunca imaginara.

Lucas suspirou e ainda olhando as estrelas respondeu “todas as noites”.

Léo então virou para o amigo e perguntou o que o futuro lhes reservava. Lucas ainda olhando pro céu respondeu “as estrelas”.

A situação de Balão se agravava e nada de chegar sua vez para transplante. Lucas tentava de todos os jeitos acelerar o processo, mas a burocracia do país não deixava.

Balão foi internado. Chegou a ficar em coma, mas se recuperou saindo da UTI. O carnaval chegara e Balão internado não teria como desfilar.

Lucas na tarde do desfile foi ao hospital visitar o pai e contou que a escola estava linda e ele poderia ver pela televisão. Balão então contou que estava morrendo, mas tinha um último pedido para o filho.

Lucas perguntou o que o pai queria e Balão respondeu que desfilar na União da Ilha.

O rapaz disse que não poderia fazer isso, o pai estava muito doente e poderia ser perigoso. Balão respondeu que ele no hospital com sua escola desfilando com seu samba seria uma morte dupla, de seu corpo e de sua alma.

Implorou ao filho para que ele o levasse pra Sapucaí despedir-se de sua amada União da Ilha.

Na hora do desfile estavam os dois na avenida. Balão e Lucas. Muito bem vestidos com terno de linho Lucas conduzia um eufórico Balão na cadeira de rodas.

A imprensa tentava entrevistar Lucas na concentração e o rapaz respondia que tinha nada a declarar naquela noite, a estrela era seu pai.

A imprensa então entrevistava Balão que contava entusiasmado da emoção de ter seu samba cantado na avenida. Balão falava com o mesmo amor e a mesma euforia da entrevista que Lucas viu na TV quando criança.

O desfile foi magistral. A escola estava linda e cantava a plenos pulmões o samba de Balão, Lucas e Jonas. A Sapucaí aplaudia e cantava junto. Bateria com atuação maravilhosa, casal de mestre sala e porta bandeira, comissão de frente e Jurema na ala das baianas rodava orgulhosa de sua família.

No fim veio a ala de compositores e entre eles Jonas, Lucas e Balão. Lucas orgulhoso conduzia seu pai na cadeira de rodas. As pessoas esqueciam que ali estava Lucas, um cantor famoso da atualidade e ovacionava Balão, o mestre da poesia.

Balão tirava o chapéu e saudava o público em um grande momento de emoção e êxtase. A impressão que dava é que tinha ninguém ali desfilando apenas o velho poeta sozinho desfilava para seu público e sua história.

Ao som da cuíca, do surdo e do tamborim o vitorioso compositor passava. Parecia saudável, remoçado, um menino ganhando uma bicicleta ou recebendo o primeiro beijo da mulher amada. Balão e o público se misturavam e era uma pessoa só.

Pingos de chuva caíam lentamente como se fossem uma poesia, como se fosse Deus chorando de emoção e se misturavam as lágrimas que teimavam em cair dos olhos de Balão. 

No fim do desfile Lucas abraçava a todos entusiasmado com o grande desfile da União da Ilha quando sentiu um puxão em sua roupa. Era seu pai da cadeira de rodas.

Lucas olhou para o pai e perguntou se ele precisava de alguma coisa. Balão com semblante cândido, parecendo um anjo olhou para o filho e respondeu “eu fiz as pazes com o mundo” jogando a cabeça para trás e fechando os olhos.
Lucas desesperado puxou o pai e gritava que ele abrisse os olhos, mas Balão não abria. Não abria nem abriu.

Lugar de sambista morrer não é em hospital. Um bamba não morre entubado em uma UTI morre na avenida desfilando por sua escola do coração, sua amante fiel. O amor de sua vida.

E Balão morreu assim, nos braços do povo e do samba.

Lucas foi pra casa enquanto o pai estava no IML. Com o ambiente escuro ligou a TV e colocou um DVD. Nele estava o desfile que viu quando criança e seu pai moço, saudável e feliz falando com entusiasmo de seu samba.

Lucas e o pai tiveram uma relação conturbada onde só se entenderam depois que Balão ficou doente. Que ironia, a doença salvou suas vidas.

Vendo o pai na TV Lucas pegou papel e caneta e começou a escrever. O primeiro samba que o funkeiro escrevia sozinho. Escrevia em homenagem ao pai.

E no momento que escrevia o samba que chamou de “Jeito de menino” notou pela janela que um balão subia ao céu.

Com certeza a alma de seu pai é que fazia o fogo daquele balão brilhar.


JEITO DE MENINO


Jeito de menino
Olhos no espelho
Corpo tão vivido
Marcas do passado
Soma de um legado
Alguém a quem o tempo se rendeu

O rosto expressa seus anos de lutas
Troféus em forma de rugas
Agradece a Deus tudo que viveu

No samba é baluarte, é bacana
Foi na mocidade moleque sacana
Seguia os bambas querendo aprender

Intérprete da alma, mestre sala do saber
Velho poeta fez rimas com a vida em seu escrever
Hoje faço essas rimas pensando em você

Aplausos da massa pro grande menestrel
O branco de seus cabelos reflete o azul do céu
Toma forma de encanto sublime inspiração
Faz nascer na apoteose a consagração  




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