terça-feira, 6 de junho de 2017

AMAR DE NOVO: CAPÍTULO XIII - ESPERANÇA E MEDO


Samuel pegou na mão de seu filho e perguntou como ele estava, o que sentia. Francisco estava zonzo não conseguia responder nada quando o médico entrou. Samuel apontou o filho na cama e disse "Olhe, ele acordou". O médico deu um sorriso, pediu que Samuel se acalmasse e junto com a enfermeira começou a examinar e fazer perguntas a Francisco. Samuel não se continha de felicidade e imediatamente ligou para Anderson para contar a novidade.

Felicidade que era compartilhada por muitos lares naquele momento. Eu, de forma boba, perguntei a Gabriel como aquilo acontecera e ele brincou "Como pai? Velho desse jeito ainda não sabe como acontece?". Eu ri da besteira que disse e pedi permissão a Thais para tocar sua barriga. Abaixei, toquei e disse "bem vindo você menino ou menina, traga felicidade a essa família, espalhe amor".

Muito tempo que não ficava tão feliz. Eu avô, vê se pode? O tempo passa depressa demais, outro dia eu era um moleque cheio de vergonha ouvindo Pinheiro falar de masturbação e agora estava a caminho de ganhar um neto. A vida é imprevisível, passa por caminhos tortuosos, mas é maravilhosa e é tão maravilhosa assim porque de certa forma ela nunca acaba. Meu amor com Camila se perpetuou em Gabriel e já estava dando frutos. Era o ciclo da vida, aquele que não nos permite parar e lamentar porque senão te atropela com sua força.

Perguntei de quanto tempo Thais estava e a moça respondeu de seis semanas. Percebeu algo diferente quando começaram os enjoos por qualquer besteira e uma vontade imensa de comer maçã do amor. Ri e comentei com Gabriel que ele estava ferrado, nem era época de festas juninas para ter maçã do amor e ele me perguntou se sua mãe tivera desejo assim na sua gravidez.

Suspirei fundo e comentei que não lembrava, Camila não era muito dessas coisas, até que comecei a rir. Gabriel perguntou o motivo e recordei de uma vez que Camila ficou louca por um big mac. Thais riu e disse que era normal, ela também adorava e eu completei "Mas estávamos em um restaurante japonês. Ela ficou tão louca de vontade que tive que pagar a conta e sair correndo com ela pro Mc Donalds". Todos rimos e o telefone tocou. Era Samuel.

Samuel me contou a novidade e eu respondi "Que bom, hoje é um daqueles dias felizes". Ele perguntou o que mais tinha ocorrido de bom e respondi que contaria no hospital quando chegasse lá. Mandei um forte abraço e desliguei. Gabriel perguntou o que era e respondi que Francisco acordara.

Gabriel abraçou Thais e pediu que fôssemos ao hospital que era dia de celebrar e nós fomos.

Lá conversando com Samuel ele me contou como foi o acordar e que Francisco estava bem, lúcido e lembrava dos marginais que lhe atacaram, fez retrato falado e batia com os acusados. Comentei com meu amigo que ele precisava descansar e que agora tudo acabaria bem quando ele respondeu "Não é bem assim, Francisco não está sentindo as pernas.”.

Gelei quando meu amigo disse isso, mas aparentei calma e mandei que ele relaxasse, pois devia ser comum pelo que ocorreu. Samuel respondeu que não relaxaria enquanto não colocasse os marginais atrás das grades. depois de um tempo que ficamos em silêncio ele sorriu e disse "Vovô hein? Quem diria?".

Sorri e comentei que nunca podia imaginar uma coisa dessas. Samuel brincou "O pior de ser avô deve ser ter que dormir com uma avó” e eu gargalhei dizendo que esse problema pelo menos eu não teria. Ficamos mais um tempo em silêncio e ele sério perguntou "Se você será avô eu vou ser o que? Tia Avó?".

Não aguentamos e começamos a gargalhar.

Ericka, que estava namorando Jessé, seria tia avó de verdade e não gostou muito da ideia, pudera, tinha nem trinta anos. Mandou Gabriel ensinar ao menino só chamá-la de tia. Guga um dia na praia comigo também se lamentou..

"Porra como é que vai ficar pra minha imagem ser amigo de avô? Eu sou garotão cara. Eu sou o juiz que chega no fórum de moto, que as gatinhas ficam loucas e agora todo mundo vai saber que meu melhor amigo é avô". Agradeci pelo melhor amigo e ele continuou "Eu sou seu amigo, você não é meu, você me fodeu com essa história de ser avô". Eu ri e ele perguntou "Comeu a amazonense pelo menos?". Respondi que não era amazonense e sim paraense e ele revidou "Pará, Amazonas, de Brasília pra cima é tudo floresta".

Ri e respondi que não, éramos apenas amigos e Guga continuou "Não fode Toninho, amigo de mulher é cabeleireiro e carnavalesco". Completou perguntando "Quer que eu coma pra você? Prometo fazer uns vídeos pra te mostrar." Agradeci, respondi que não era necessário e para provocar perguntei por Ericka. Ele
respondeu "Ta com o Jessé. Tua irmã é uma safada, me desculpe. Não pode ver um cara de farda que fica piscando. Ela deu o troco por você já que tomei Amanda de você".

Mais uma vez discutimos esse assunto comigo falando que não tomou e depois de um tempo em silêncio entrei num assunto que pouco falávamos "vai fazer vinte anos que a Camila morreu". Ele ficou um tempo em silêncio e sério perguntou "Eu sei, lembro muito bem daquele dia. Pretende fazer alguma coisa?". respondi que queria fazer uma missa, ele disse apenas "maneiro" e ficamos em silêncio.

Depois de um tempo ele voltou a dizer que tomara Amanda de mim e a discussão voltou.

Com Fernanda, Osmar e minha mãe saboreava as novidades na casa deles. Minha mãe brincava e reclamava que era muito nova para ser bisavó. Eu não tinha parado pra pensar nisso e exclamei "Caramba!! Bisavó!! É muita coisa!!" Rindo minha mãe mandou que eu lhe respeitasse que eu ainda era um moleque e podia me dar uns tapas.

Fernanda suspirou e comentou que ainda queria ter um amor assim. Hellen me olhou e respondeu "Às vezes o amor está mais perto do que pensamos". Olhou para Fernanda e pediu que lhe ajudasse a buscar uns canapés.

Osmar se aproximou de mim e comentou "Essa menina te ama". Desconversei e disse que era loucura dele e ele continuou "Toninho, você é malandro velho, não é possível que tenha perdido a capacidade de perceber".

Olhei para baixo, sem olhar seus olhos e falei de Camila. Osmar pediu que eu lhe olhasse e falou "Eu acompanhei sua dor esse tempo todo. Vi a forma extraordinária que começou trabalhando comigo e fez sua vida, enriqueceu. Te admiro muito". Agradeci e continuei "Não agradeça que nem tudo é elogio, eu passei por mais dificuldades que você para enriquecer e não deixei minha vida pessoal de lado pra isso".

Ainda tentei argumentar dizendo que não era fácil esquecer Camila e ele me interrompeu "Tá de sacanagem né Toninho? Quer me contar o peso da perda da Camila? Eu era o pai dela." Respondi que sabia disso e ele continuou me interrompendo "você perdeu um amor, coisa que dói. Eu perdi uma filha. Você sabe a dimensão da dor de perder um filho?  Quero que nunca saiba. É uma dor insuportável, que parece que vai te matar".

Continuei lhe ouvindo e ele prosseguiu "Dói demais Toninho , mas eu segui minha vida. Casado há quase vinte anos com a mulher mais espetacular que já conheci, tive outra filha e to aqui. Marcado pelas alegrias e tristezas da vida, mas tendo certeza que valeu a pena. Tenha certeza também, essa moça pode ser a sua certeza".

Naquele instante minha mãe e Fernanda voltaram da cozinha e Osmar encheu nossas taças de champanhe para brindar. Minha mãe perguntou ao que brindávamos e ele respondeu "Ao nosso amor, ao amor que surge todos os dias e a vida". Brindamos enquanto ele me olhava.

Os dias passaram. Gabriel e Thais começavam a comprar o enxoval do bebê mesmo ainda sem saber o sexo. Thais tinha certeza que seria menino e Gabriel menina. Francisco melhorava cada vez mais e em pouco tempo conseguiu ir para quarto comum do hospital.

Continuava sem andar e Samuel decidiu levá-lo pro Sarah Kubitschek em Brasília a fim de ajudar em sua recuperação. Meu amigo cumpriu a promessa e apresentou proposta de emenda de lei agravando a violência contra homossexuais e provocando grande discussão na sociedade.

Francisco depôs contra os suspeitos e os frentistas também tiveram coragem com os mesmos sendo indiciados. Guga mexeu os pauzinhos e conseguiu que fossem por tentativa de homicídio em vez de lesão corporal grave como queria a defesa.

Uma noite Gabriel estava em um restaurante com amigos quando viu Igor com outros. Meu filho não se fez de rogado. Levantou com seu copo, chegou próximo à mesa de Igor e perguntou "Você só bate em grupo?". Igor se fez de desentendido e ele continuou "Só é valentão em grupo pegando os outro sozinho ou encara homem a homem?".

Igor ameaçou "Não me provoque". Gabriel continuou "Por quê? Vai me bater com barra de ferro como deixou meu amigo paraplégico?". Amigos de meu filho tentavam fazê-lo parar quando ele jogou o líquido do copo no rosto de Igor e esse levantou furioso. Os dois começaram a trocar socos e se iniciou uma briga generalizada.

Todo mundo parou na delegacia e fui com Guga buscar Gabriel. Na volta, de carro eu dava bronca em meu filho dizendo que ele seria pai de família, já fora fichado na polícia e não podia se meter em confusão daquela forma. Gabriel concordava comigo pedindo desculpas e se dizendo arrependido quando Guga perguntou como estava Igor. Gabriel sorriu e respondeu "Bem machucado" quando Guga emendou com um “Boa moleque".

Protestei e perguntei “Como assim boa moleque?" e lembrei que Guga era juiz de direito e não podia incentivar aquelas coisas. Guga respondeu "Deixa de ser viadinho Toninho, o babaca mereceu e umas porradas de vez em quando não fazem mal. Vai me dar voz de prisão? Quem pode dar voz de prisão aqui sou eu".

Fiquei um tempo em silêncio e não aguentei rindo e dizendo "Bem feito para aquele filho da puta"  com nós três caindo na gargalhada.

Naquele período eu estava mais contido que o normal. Eu sempre fui um cara reservado e a morte de Camila me deixava mais compenetrado ainda. Mas aquela época era especial e me deixava mais com vontade de ficar sozinho, mais isolado. Os vinte anos sem Camila se aproximavam.

Até me afastei de Fernanda um pouco no período com a mesma entendendo a situação. Fernanda era uma grande amiga, companheira e sem dúvidas melhorou muito a minha vida. Ela estudava com afinco seu mestrado e arrumara ocupação na Fundação Oswaldo Cruz.

Marquei a missa e tentava me preparar psicologicamente para a data até que ela chegou.

Meu Deus! Vinte anos! Quantas coisas podem acontecer em um espaço  de vinte anos. Vinte anos é uma vida e pra mim parecia que tinha sido ontem. A dor era a mesma, angústia, desespero daquela noite viviam em mim. Desesperava sentir aquela dor tão presente, todas aquelas sensações e ao mesmo tempo ver que vinte anos se passaram. Era uma distância cruel, que me machucava porque era a vida me dando uma bofetada na cara e dizendo que por pior que fosse minha dor ela não parava, não me dava o direito de chorar e me deixava cada vez mais distante de Camila.

Camila. A minha linda menina, doce, inteligente, amorosa, minha amante, mulher e companheira. A esposa querida que não envelheceu, não teve cabelos brancos, não enrugou..Não ficamos velhos juntos nem dividimos copo com água para colocarmos nossas dentaduras. O amor que foi emoldurado pela saudade.

Todos os familiares e amigos foram a missa. Até mesmo Bia que veio da Argentina com Ruben. Dei um forte abraço em minha amiga querida, surpreso com sua vinda e ela me respondendo "Não podia deixar meu irmão sozinho nessa hora". Todos nós nos sentamos e o padre rezou a missa. Eu lembrava de Camila. De seus atropelamentos, nossa dança e vitória, nossas idas ao Arpoador, ela vestida de noiva indo me encontrar, nosso casamento na praia..quanta saudade meu Deus.

No fim o padre nos permitiu falar palavras sobre Camila. Osmar foi o primeiro. Lembrou a saudade da filha e tudo que viveu com ela, sua infância, crescimento e o quanto ela fazia falta. Gabriel logo depois segurando a mão de Thais falou da falta que a mãe fazia e do pouco que lhe conheceu, mas foi o suficiente para lhe amar eternamente.

Depois foi minha vez.

Fui até a frente, respirei fundo e comecei..

"Já falei muito de Camila nesses vinte anos. Vocês conheceram bem a ela, a mim, nossa história e mesmo quem não vivenciou sabe cada detalhe. Camila foi a maior professora que eu tive porque me ensinou o que é o amor e me ensinou que o verdadeiro amor pede nada em troca. Eu queria nada em troca só a felicidade de poder amá-la. Mais do que isso. Tive a felicidade que ela me amasse também."

"Só quem teve um amor verdadeiro e foi correspondido pode ter noção do que é isso e que como cada segundo é precioso. Ah amigos, eu amei. Amei e fui amado. Sorri e recebi seu sorriso. Tive seu coração em minha mão pulsando vivo, forte e feliz. Não sou poeta, não sei escrever, mas Camila foi minha poesia. Camila foi meu melhor personagem, minha mais feliz lembrança e a dor mais bonita. Porque quando existe amor até a dor ganha cores, nem que seja de saudade".

Acabei de falar e quando ninguém mais parecia falar e nos preparávamos para ir embora uma pessoa me pediu autorização, queria falar. Era Guga. Evidente que permiti. Nunca vi meu amigo tão tenso. Ele foi até a frente, também respirou fundo e falou.

“Todo mundo me conhece como o palhaço, o boa praça, aquele que consegue tirar as risadas de alguém até mesmo nos piores momentos. Esse é o papel do palhaço, fazer rir quando até mesmo algumas vezes quer chorar. Alguns dos maiores comediantes do mundo eram tristes, mas deixavam essa tristeza de lado pelo fascínio de deixar as pessoas felizes".

"Não sou uma pessoa amarga, infeliz, graças a Deus construí bem minha vida como eu queria, mas carrego uma dor. Uma dor forte, que muitas vezes tira o ar, me faz ficar profundamente triste, mas como um campo de defesa dou uma risada, faço alguém rir e tento esconder essa dor debaixo de um tapete, mas ela sempre volta. Por baixo da carcaça do humor a alma chora".

Guga olhou pra mim e muito emocionado continuou.

"Amigo Toninho. Meu amigo de infância, meu irmão Toninho eu lhe invejo. Sei o tamanho de sua dor, acompanhei seu sofrimento esses vinte anos e sua dignidade em enfrentá-la. Mas sim, eu te invejo. Invejo porque por mais que doa, por mais que sofra você sabe o quanto ela te amou. Você tem as melhores e mais felizes lembranças. Você sabe que ela morreu te amando"

"Camila também foi o amor da minha vida, mas eu não fui o amor dela. Não tenho esse sorriso apaixonado, esse brilho no olhar de amor para lembrar. Eu fui o que sobrou, o que teve que abafar o amor para que o verdadeiro e sincero explodisse entre vocês. Te invejo por ter o amor dessa mulher e sei que de algum lugar ela te ama até hoje até porque é impossível não te amar meu amigo. Você é a melhor pessoa que eu conheci até hoje".

"Meu papel nessa história foi de coadjuvante. Foi do cara deixado na igreja para que o amor explodisse. Mas querem saber? É uma honra ter sido deixado na igreja por alguém como a Camila. É uma honra de uma certa forma ter participado do amor de vocês Toninho e eu amo vocês".

Meu amigo começou a chorar e lhe abracei forte dizendo que também lhe amava. Eu mantinha firme, sem chorar, só com minhas lembranças até que conduzindo meu amigo até as cadeiras da igreja veio a surpresa e que me fez desabar.

Uma moça soprano, começou a capela a cantar "Don`t want to say goodbye".

Não aguentei e comecei a chorar muito, de soluçar. Minha mãe, Guga, todos tentavam me acalmar e eu não conseguia parar. Chorava muito, um choro desesperado, doído. Pedi que me deixassem e me ajoelhei chorando com as mãos no rosto e sozinho. Até que colocaram a mão na minha cabeça, sem falar nada.

Era Fernanda.

Levantei e abracei Fernanda. Chorando em seu ombro enquanto ela acariciava minha cabeça. Só Ela. Só Fernanda conseguia de alguma forma me acalmar e serenar meu coração.

Amar dói.

Mas é maravilhoso.

Mas a vida tinha que continuar como continuou nesses últimos vinte anos e dentro do possível eu estava feliz. Gabriel e Thais curtiam o momento bacana de esperar um filho. Barriga dela começou a crescer e meu filho ganhou a aposta. Era um menino.

A fase de Gabriel era ótima. Ele continuava encenando suas peças teatrais mostrando que realmente tinha talento. Era sua vocação. De tanto brilhar acabou conseguindo um teste na Rede Globo e sem nem que eu precisasse mexer os pauzinhos.

Ele todo entusiasmado veio me contar e dei os parabéns. Quem diria, meu menino que começou no teatro infantil meio como quem não queria nada agora faria teste para novela. Gabriel sempre me deu orgulho. Grande garoto, grande cara, teve seus percalços, mas sempre se mostrou com caráter, firme e dono de um sorriso maravilhoso.

Bia decidiu ficar no Brasil. Ruben expandia seus negócios no país e acabaram ficando. Saí para jantar com minha amiga, matando as saudades e colocando o papo em dia.

Determinado momento Bia comentou "Observei você e aquela menina". Fiz-me de desentendido perguntando de qual menina falava e ela disse "Não se faça de bobo, a do Pará".

Ri e perguntei "Até você Bia?". Minha amiga respondeu que era tão nítido que qualquer um percebia que algo a mais existia entre a gente. Respondi que sim. Uma amizade sincera, profunda e que estaria na minha vida pra sempre.

Do nada Bia contou "Ontem eu a vi com o namorado. Casal lindo". Tomei um susto, engasguei e perguntei que história era aquela. Bia riu e respondeu "Você tinha que ver sua cara agora. Tem namorado nenhum".

Dei um sorriso amarelo dizendo que não tinha graça e ela argumentou "Você tinha mesmo que ter visto sua cara. Ficou branco quando eu disse que estava namorando". Respondi que fora pelo susto já que era minha amiga e comentara nada comigo e Bia discordou. Ficamos alguns segundos em silêncio e ela perguntou "E se ela arrumar um namorado?".

Respondi que seria algo natural. Era jovem, bonita e qualquer homem se encantaria por ela. Bia foi direta "Então você aceitaria perder um amor pela segunda vez? Sendo que aí não teria a desculpa da morte?". Não gostei do que ela disse e perguntei se ela falara que usava a morte de Camila como desculpa. Bia mais uma vez foi direta “Usa como desculpa para não tentar ser feliz. É sua muleta. Tem medo de tentar, se magoar e acaba sim usando como desculpa”.

Disse que discordava dela e Bia continuou "Acha que não sofro com a morte do Nando? Evidente que sim. Foi meu companheiro por anos, amei demais, tivemos um filho juntos. Sofro também com a distância que tem entre Jessé e eu, mas não me arrependo. Eu queria ser feliz, precisava e me joguei de cabeça para isso. Me joguei e valeu a pena mesmo com todas as perdas que tive porque ser feliz vale a pena. Você devia tentar".

Ri que todo mundo agora tentava me dar conselhos e ela devolveu "Deve ser pra ver se uma hora você ouve e aceita".

Bia "se metia" em minha vida e tentava resolver a dela. Encontrou-se com Ericka para saber como estava o filho. Jessé já era um oficial da Marinha. Cara inteligente, que vencia na vida realizando seu sonho e viajava pelo mundo, mas não conseguia perdoar a mãe. Ericka combinou com Bia armarem um encontro.

Um dia "Sem querer" se encontraram em um restaurante e Ericka convidou Bia para sentar com eles. Jessé permanecia em silêncio, sem olhar para a mãe e respondendo secamente seu cumprimento. Bia perguntou como ele ia e Jessé respondeu "Pergunte pra Ericka, com certeza você armaram esse encontro então já estão bem íntimas pra trocarem confidências sobre mim".

Ericka pediu que ele respeitasse sua mãe e Jessé respondeu "Não tenho mãe. Tive um pai maravilhoso, mas eu perdi". Bia então falou "Pois eu tenho um filho maravilhoso também, que não perdi e está vivo. Um filho lindo,forte, inteligente e no  qual me orgulho. Talvez meio cabeça dura, não entenda tanto assim da vida, mas não vou forçar porque uma mãe sempre está de braços abertos para os filhos quando a vida achar necessário".

Jessé continuou em silêncio sem olhar para Bia que completou "no dia que você quiser e precisar lembre que sua mãe está sim viva e te espera de braços abertos". Depois disso Bia cumprimentou Ericka e partiu.

Depois que ela saiu, muito irritada, Ericka se virou para o namorado e perguntou "Quando é que você decidiu virar um babaca? Me conte porque se continuar sendo eu termino com você agora". Jessé se assustou e perguntou porque ela falava daquele jeito e ela continuou "Sua mãe te ama porra!! Eu teria te mandado tomar no cu há muito tempo, mas ela sempre vem atrás de você, telefona, te procura. Quanta gente por aí chorando e sofrendo por não ter uma mãe, você tem uma mãe maravilhosa e trata desse jeito".

Jessé argumentava que ela fora responsável pela morte do pai e Ericka não concordou "Seu pai foi responsável pela morte dele, mais ninguém. Foi escolha dele. O Toninho perdeu a Camila e prosseguiu, teu pai preferiu morrer. Cada um tem direito a suas escolhas e você tem direito de escolher ser um babaca e se arrepender pro resto da vida quando perder de verdade sua mãe ou mostrar ser o homem maravilhoso que acho que é".

Levantou e antes de ir embora disse "Quando o homem maravilhoso voltar me procure". Minha irmã era danada.

Enquanto aquilo ocorria eu estava com Samuel e Bia na praia olhando Francisco. O filho de meu amigo estava em uma cadeira de rodas vendo pessoas se exercitarem na praia com semblante triste. Samuel comentou conosco "É duro isso. Um garoto cheio de vida passar por isso. Ficar inválido". Argumentei que nada era definitivo na vida e ele poderia voltar a andar quando Samuel respondeu que o médico fora sincero. As chances era bem reduzidas.

Bia reclamou que nossas vidas não estavam fáceis e lembrei com saudade do tempo que nossa preocupação era a reação de nossos pais quando viajamos sem avisar para Saquarema. Bia então comentou que ser adulto era difícil.

Meu telefone tocou e era Gabriel perguntando se eu poderia levar Thais ao obstetra já que o teste fora marcado justamente para a hora da consulta. Respondi que sem problemas e desliguei.

Avisei aos amigos que iria acompanhar minha nora e ver meu neto e ele sorriram e brincaram dizendo que pelo menos alguém ali tinha motivos de felicidade.

Saí e Francisco se aproximou de Samuel e Bia conduzindo sua cadeira de rodas. Samuel perguntou se estava tudo bem e Francisco apontou para as pessoas se exercitando na praia dizendo "Eu quero isso". Samuel perguntou isso o que e ele respondeu "Fazer esportes".

Peguei Thais e levei até o consultório. Felizes entramos e encontramos o obstetra com cara séria acompanhado de outro médico.

Nos sentamos e Thais perguntou se tinha algum problema pela cara deles. O médico respondeu "esse aqui é o Dr Jacinto. Ele é oncologista e quer conversar com você".

O tal Dr Jacinto então disse aquela frase.

"Infelizmente não tenho boas notícias".

Meu Deus..De novo essa frase...


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RENASCIMENTOS 

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