quinta-feira, 30 de junho de 2016

DINASTIA: CAPÍTULO XVIII - VOLTANDO AS ORIGENS



Pepino ficou sentado no local aterrorizado com o carro em chamas enquanto as pessoas que acompanhavam a corrida chegaram ao local assustadas. Perceberam o carro pegando fogo e viram o tamanho da tragédia.

Bianca ao ver o carro do namorado em chamas começou a gritar por seu nome e tentou se aproximar do veículo. Amigos impediram e Bianca viu Pepino sentado. Começou a gritar “assassino”.

Felipe e Josué se aproximaram do amigo e lhe puxaram do chão para irem embora antes que a situação piorasse. Mas ela piorou com a chegada da polícia.

Os bombeiros e o carro do IML chegaram logo depois e todos os envolvidos no “pega” foram levados para a delegacia.

Pela gravidade do caso Pepe Granata pessoalmente foi com advogado até a delegacia ver o que ocorria. Conversou com o delegado e viu Pepino sentado no lado de fora com cabeça baixa. Aproximou-se do filho.

Pepe sem nenhum gesto de carinho mesmo vendo o sofrimento de Pepino apenas disse “dessa vez você se superou”. Pepino sem olhar o pai jurou que não tinha culpa e Pepe respondeu que da morte mesmo não, pelo menos juridicamente, mas na consciência sim.

Pepino chorando contou que não queria que Rubens morresse. Pepe comentou que conversara com o delegado e ele estava liberado, poderiam ir embora.

Foram embora, mas o problema não. Pepino foi hostilizado no enterro de Rubens e também era nas ruas a ponto de levar cuspida na cara de uma senhora. Cecília preocupada com a situação do filho pedia para que o marido fizesse algo, mas Pepe respondia que não podia fazer nada contra o povo.

A situação de Pepino estava insustentável quando Pepe arranjou uma solução e chamou o filho para conversar no escritório.

Pepino sentou-se e Pepe comentou que não tinha mais como o filho permanecer em Feital. Ligou para o irmão Oscar e ele passaria um tempo com o tio. Pepino ainda indagou “O comunista? Eu não quero morar na União Soviética!!”.

Pepe respondeu que ele não estava mais no país, estava na Itália e seria a única solução, ele passaria um tempo por lá e voltaria quando a situação acalmasse. Cecília entrou no escritório e concordou com Pepe que era a melhor decisão.

Pepino resignado perguntou quando iria e o pai respondeu “amanhã”. O rapaz tentou alegar que era muito em cima, mas Pepe completou que quanto mais cedo ele fosse melhor.

Dessa forma Pepino subiu e arrumou as malas para partir. Enquanto arrumava suas coisas bateram na porta. Era Mariana.

Mariana sorriu e maliciosamente perguntou “Pensou que não viesse me despedir?”. Pepino sorriu de volta e respondeu que já esperava a “titia”. Mariana entrou, fechou a porta e os dois fizeram amor.

Mariana era amante de Pepino já havia algum tempo. A menina
que foi socorrida por Pepe e Oscar na revolução de 1932 se transformara numa linda e fogosa mulher sendo a primeira da vida de Pepino. Ela fez com o rapaz o mesmo que Constância fez com Pepe.

Deitados na cama Mariana perguntou como Pepino se sentia. O rapaz respondeu que estava mal por Rubens, mas principalmente por Bianca lhe odiar.

Mariana riu e disse que a menina não lhe odiava. Pepino perguntou como ela sabia e a moça respondeu “conheço as mulheres”. Completou dizendo “não desista”.

No dia seguinte na hora de partir passou pela casa de Bianca. Bateu na porta da moça que abriu e ao ver quem era tentou fechar a mesma com Pepino impedindo com o pé. O rapaz comentou que estava indo embora, mas voltaria pra casar com ela. Roubou-lhe um beijo e partiu.

No aeroporto despediu-se do pai, da mãe e se despediu prometendo voltar um novo homem. Do avião olhava a janela e procurava nas nuvens sua paz, a paz que nunca encontrara na vida.

Chegou à Itália com as malas procurando a família e logo encontrou Oscar acompanhado da esposa e do filho. Oscar deu um abraço em Pepino e comentou que o rapaz era a cara do pai. Pepino envergonhado respondeu que esperava que isso fosse bom e Oscar deu um abraço no sobrinho conduzindo o rapaz ao carro.

No caminho Pepino via Nápoles, uma cidade diferente da que o avô Salvatore deixara mais de meio século antes. Oscar falava das
belezas do local e como a cidade lhe faria bem enquanto Pepino tentava se imaginar no lugar de Salvatore e vivendo todas as suas histórias, revivendo suas emoções. 

Pepino estivera lá bem criança quando Pepe jogara as cinzas de Salvatore no mar, mas não lembrava de nada e tudo era novidade pro rapaz. 

Chegaram na casa. Uma casa modesta, mas confortável e Pepino perguntou se o tio ainda era comunista. Oscar sorriu e respondeu que o comunismo não se deixava de ser, estava na alma.

Oscar tinha um açougue com frigorífico nos fundos do estabelecimento na região e Pepino começou a trabalhar com o tio. Tudo planejado por Pepe que queria que o filho trabalhasse, pegasse pesado no batente para dar valor ao dinheiro.

Acordavam bem cedo junto com o Sol e partiam para o açougue. Lá realmente Pepino pegava duro. Carregava peças inteiras de carne no frigoríficos com temperatura abaixo de zero. Fatiava, vendia, fazia de tudo no açougue e no final do dia ia pra casa com Oscar. Sua tia já lhes esperava com macarronada, vinho e Oscar contava histórias.

Ia dormir esgotado, mas sabendo que tentava pela primeira vez na vida fazer a coisa certa. Pensava voltar outro homem para o Brasil.

Nas horas de folga gostava de sentar perto do mar mediterrâneo e olhar suas águas. Pepino nunca entrava na água, não sabia nadar, mas gostava do mar que lhe acalmava e trazia paz ao coração.

Pensava em Bianca, gostava da moça de verdade e queria se tornar alguém por ela.

Um dia trabalhava sozinho quando uma moça entrou falando em italiano que queria um quilo de picanha. Pepino pediu que ela falasse devagar, pois, ainda aprendia a língua. Oscar saiu de dentro do frigorífico rindo e disse em português “Oi Marta”.

A moça sorrindo respondeu o cumprimento em português e espantado Pepino perguntou se ela sabia a língua. Oscar respondeu por ela contando que era brasileira e Marta riu.

Marta estendeu a mão para cumprimentar Pepino e pediu desculpas pela brincadeira. Disse saber que ele era sobrinho de Oscar e passava um tempo na Itália. Pepino levou na esportiva e cumprimentou a moça dizendo que a brincadeira era boa e ele tinha caído direitinho.

Vendo o que poderia surgir ali Oscar perguntou se Marta não queria jantar com eles naquela noite. A moça olhou para Pepino e respondeu que seria um prazer. Oscar então marcou as oito.

Jantaram felizes. Marta e Pepino toda hora se entreolhavam como se um sentimento despertasse. Esperto logo após Oscar pediu que Pepino levasse a moça em casa, pois, já era tarde e ficava perigosa sua volta.

Caminharam naquela noite fria do inverno italiano de 1955 até a casa da moça. Ao chegar na frente do local Marta comentou que o rapaz parecia James Dean. Pepino sorriu e perguntou se ela queria ir ao cinema com ele ver “juventude transviada”.

Marta sorriu e respondeu que adoraria. Pepino contou que depois do trabalho passaria em sua casa e lhe buscaria. Deu um beijo em seu rosto e pediu que ela entrasse.

Marta entrou encantada e Pepino caminhou de volta feliz. Sentia-se
revigorado com Marta, aquela doçura inocente. Ainda amava Bianca, mas via que Marta poderia balançar seu coração.

No dia seguinte trabalhou com afinco e perguntou ao tio se ele poderia adiantar algum dinheiro para ir ao cinema com Marta. Oscar sorriu de satisfação com a notícia e entregou o dinheiro mandando que o rapaz fosse um gentleman com a moça.

E Pepino foi. Na hora marcada estava na porta de Marta esperando a moça com um buquê de flores. O pai dela fez uma série de recomendações e Pepino prometeu que chegaria com Marta em casa na hora exigida. Saíram e foram para o cinema.

Assistiram “Juventude transviada” com James Dean e no meio do filme Marta chorava vendo o astro na telona. Pepino se encheu de coragem, colocou a pipoca de lado e pegou na mão da moça.

Marta chegou a tirar a mão, mas depois voltou com a mesma e tocou a mão de Pepino que a segurou firme.

Depois do filme caminharam e sentaram em uma praça. Marta lamentou que o rapaz morrera tão jovem e Pepino citou sua célebre frase “Viva intensamente, morra jovem e seja um lindo cadáver”.

Marta perguntou o que Pepino pensava da morte e o rapaz respondeu que não pensava na mesma, tinha coisas mais importantes para pensar como no amor e na vida. Marta comentou que que pensava sempre na morte e achava que não viveria muito.                                                                                           
Pepino mandou que a moça parasse de besteiras, olhou a hora e
disse que estava na hora de partirem.

Caminhavam conversando animadamente quando foram cercados por dois homens anunciando assalto. Marta se desesperou mandando que Pepino entregasse tudo e o rapaz de forma ágil arrancou o canivete de um deles dando um soco em seu rosto. O outro partiu para cima dele e Pepino também lhe deu um soco. O rapaz sempre fora muito bom de briga e com os músculos mais fortalecidos devido o açougue ficou ainda melhor.

Brigou sozinho com os dois e levou vantagem. No fim os dois homens correram apavorados e Marta deu um abraço em Pepino agradecendo.

Chegaram na casa de Marta na hora marcada e antes que ela entrasse agradeceu a Pepino pela companhia e por defendê-la. Pepino respondeu que faria tudo aquilo quantas vezes ela quisesse e tentou beijá-la.

Marta desviou o rosto e pediu que ele não insistisse, pois, não estava na hora. Pepino se desapontou, mas mostrou entender a moça contando que esperaria o tempo que precisasse e pedindo para que ela entrasse antes que o pai reclamasse.

Marta constrangida com o ocorrido se despediu e entrou. Pepino exalando frustração foi embora se perguntando o que James Dean faria em seu lugar.

 No dia seguinte trabalhava normalmente no frigorífico do açougue carregando peças quando Oscar pediu que ele fosse até o balcão porque tinha um homem querendo falar com ele.

Pepino foi até o balcão e um homem de bigode, baixo e sorriso largo apertou sua mão se apresentando como Dória.

Desconfiado Pepino respondeu que o prazer era dele e perguntou o que o homem desejava. Dória sorriu e comentou que vira tudo o que ocorreu na noite anterior, a tentativa de assalto que ele recebeu.

Pepino não comentara sobre a tentativa de assalto e Oscar preocupado perguntou o que ocorrera. Pepino desconversou respondendo que não fora nada demais e ele tinha resolvido. Dória completou que o rapaz tinha resolvido muito bem nocauteando os dois ladrões.

Olhou para Pepino e perguntou “Nocauteou muito bem, nunca pensou em lutar boxe?”. Pepino riu e respondeu que nunca fora adepto de esportes e Dória comentou que poderia ganhar muito dinheiro no boxe.

Pepino não se mostrou muito interessado e Dória insistiu. Falou de várias vantagens, que o rapaz devia pelo menos tentar e deixou seu cartão com telefone e endereço da academia.

Depois que o homem partiu Pepino ficou olhando o cartão e perguntou ao tio o que devia fazer. Oscar respondeu que só ele poderia saber.

Naquele mesmo dia Pepino apareceu na academia de boxe e Dória viu o rapaz de longe. Aproximou-se dizendo que ele era bem vindo e Pepino respondeu que era nada certo, ele só queria ver como era.

Dória mandou que o rapaz ficasse a vontade e Pepino observou o treino dos boxeadores. Olhou por bastante tempo, se fascinou com o que viu e no fim despediu-se de Dória. O homem convidou rapaz para voltar no dia seguinte e treinar e ele respondeu que pensaria no que fazer.

No dia seguinte pediu a Oscar para sair mais cedo e voltou à academia. No local chegou em Dória e disse que queria tentar.

Pepino passou a dividir seus dias entre o trabalho com Oscar, os treinos na academia e os passeios com Marta que ainda se recusava a beijar. A moça perguntava se Pepino sabia o que estava fazendo e se o boxe não era perigoso. Pepino respondeu que era a chance de ser alguém, mostrar seu valor independente do pai.

Teve sua primeira luta marcada e treinou com afinco. No dia da luta Oscar, esposa, filho e Marta estavam presentes para dar uma força ao rapaz.

Pepino que nunca fugira de uma boa briga mostrou que era bom mesmo de luta. Subiu ao ringue e não demorou muito para nocautear o adversário. Passou a ser a “menina dos olhos” de Dória.

Dória fez uma festa em homenagem a Pepino. Deu-lhe um dinheiro proveniente de sua bolsa e Pepino empolgado perguntou quando era a próxima. Dória riu da empolgação do rapaz e respondeu que seria no mês seguinte em Roma.   

Pepino se espantou com a resposta e perguntou “Roma?”. Dória respondeu que sim, era hora de vôos mais altos e pegaria um adversário mais a sua altura. Pepino sorriu empolgado com a nova carreira e respondeu que topava.   

Pepino deixou o trabalho no açougue e começou a dedicar-se o dia todo aos treinos. Marta se preocupava, mas não deixava o lado do rapaz sempre lhe incentivando. Pepino mandava cartas à família contando sobre sua vida na Itália e como se tornaria um campeão.

Aos amigos perguntava sobre Bianca e os amigos respondiam que estava bem e solteira. Pepino se dividia entre a Itália e Brasil, Marta e Bianca. Gostava cada vez mais da vida na Itália e já não sabia o que fazer de seu futuro.

Chegou o fim de semana da luta e Oscar não foi devido o trabalho, mas foi ao aeroporto desejar boa sorte a Pepino que viajou acompanhado de Dória e Marta  que mentiu para o pai contando que viajaria com uma amiga para um chalé.

Os três foram para um luxuoso hotel no centro de Roma, mas Marta não quis ficar ali e preferiu ir para um mais modesto e pagar com seu dinheiro. Queria casar virgem e nem mesmo beijo cedia. Aquela situação já incomodava Pepino que descarregava sua adrenalina e vontade no boxe.

O momento da luta chegou. No vestiário Dória desejou boa sorte, contou que o ginásio estava cheio e ele receberia um ótimo dinheiro em caso de vitória.

Pepino subiu no ringue decidido e não se importou do adversário ser maior que ele. A luta começou e partiu pra cima do outro lutador.

Conseguiu derrubar o adversário rapidamente vencendo a luta.

Dória deu uma grande festa em seu quarto no hotel e Pepino bebeu muito. Marta se incomodou com aquela situação e pediu para voltar ao hotel que estava hospedada. Pepino se ofereceu para levá-la e Dória em seu ouvido falou “boa sorte garoto”.

Pepino levou Marta até o quarto e o rapaz bastante bêbado pediu para usar o banheiro. Marta contrariada deixou que o rapaz entrasse. Pepino foi ao banheiro e ao sair do mesmo Marta pediu que ele fosse embora, pois, estava cansada.

Pepino riu e comentou que só iria embora depois de um beijo. Marta irritada respondeu que ele sabia muito bem que só faria essas coisas depois de casada. Pepino puxou a moça e lhe deu um beijo a força. Marta ao se soltar deu um tapa na cara do rapaz.

Pepino rindo passou a mão no rosto e disse que gostava de mulher selvagem. Tentou agarrar Marta que se desvencilhou. A moça desesperada pedia que Pepino parasse, mas ele respondeu que não e que ela seria dele naquela noite. Marta gritava por socorro, mas em vão, era madrugada e todos dormiam. 

Foi para sacada e gritou por socorro. Pepino respondeu que não adiantava, ninguém ouviria e não teria como fugir. Marta ficou sem saída entre a sacada e Pepino e o rapaz lhe agarrou beijando seu pescoço e acariciando seu corpo.

Marta chorando pedia que Pepino parasse e o rapaz não lhe dava ouvidos. De repente ela deu uma joelhada nas partes íntimas de Pepino que parou. 

Em desespero para se livrar de Pepino Marta pulou da sacada. Pulou do décimo segundo andar.

Morte imediata.

Pepino se desesperou e foi até a beira da sacada. De lá viu o corpo de Marta estirado no chão ensanguentado. Como por encanto sua bebedeira passou e percebeu a enorme besteira que fizera.

Vomitou no chão, andou atordoado pelo quarto sem saber o que fazer até que viu a única solução possível. O telefone.

Pegou o telefone e ligou para o pai, para Pepe Granata.

“Pai, me ajuda, estou com um problema sério”.

As confusões não acabavam na vida de Pepino.


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