terça-feira, 7 de junho de 2016

A LUTA DO SÉCULO


Tem momentos da história que gostaríamos de ter vivido e eu não sou diferente. Maioria desses momentos que eu queria ter visto são esportivos como a final do campeonato brasileiro de 1980 entre Flamengo x Atlético MG. Provavelmente eu teria morrido do coração, mas teria valido a pena. É um dos grandes jogos da história do Flamengo.

Outro momento que eu gostaria de ter vivido ocorreu em 30 de outubro e 1974. A "luta do século".

Várias lutas ao longo da história receberam essa denominação até nesse século já ocorreu mesmo que ele só tenha dezesseis anos, mas essa que eu citei, ah meu amigo, essa foi a verdadeira luta do século XX. Não só daquele século, mas de todos os séculos que existirem o boxe.

Curioso que eu mesmo não sou um apaixonado por boxe. Acompanhei a época do Mike Tyson. Suas lutas nos anos 80 eram uma febre, reuniam todos de uma família para verem juntos e era engraçado porque duravam menos de cinco minutos e brincávamos que se fossemos ao banheiro perderíamos a luta.

Eu torcia contra o Tyson, a maioria torcia contra, não por raiva dele, mas por nossa mania de torcer pelo mais fraco. Quando ele perdeu para o Buster Douglas foi uma vibração aqui em casa. Não percebemos ali que muito da magia do boxe acabava. Acabou de vez na mordida de Tyson em Hollyfield seis anos depois.

Vários boxeadores surgiram depois, cultuados, mas minha vontade de ver boxe acabou. Não tenho a mínima ideia de quem são os campeões e também não me interesso por UFC, acho um saco, uma babaquice. Pra ser sincero não sou fã de esportes violentos, de porrada e tenho até dúvidas em chamar de esporte. Mas eu gosto dos "grandes", gosto dos caras bem sucedidos e que fazem a diferença. Amava torcer contar MIke Tyson e adoro Muhammad Ali.

Adoro Ali não só por seu boxe, o voo da borboleta com a ferroada da abelha. Ali fazia esse esporte que eu não sei se chamo de esporte ser sim esporte. Mas adoro Ali mais pelo conjunto dentro e fora dos ringues. Ativista, marrento, falastrão, de frases de impacto, extremamente carismático..Cassius Clay, Muhammad Ali foi não só um gigante, foi um dos maiores gigantes da história da humanidade e para ser gigante ele precisou enfrentar gigantes.

Aí entro na história dessa luta.

A história de Ali até chegar ao Zaire tanto daria um filme que deu. A história dessa luta tanto daria filme que deu. Cassius ganhou medalha de ouro olímpica e jogou a medalha em um rio ao sofrer racismo (sei que ele desmentiu a história, mas prefiro manter a fantasia), mudou o nome para Muhammad Ali porque Cassius era nome de escravo. Se recusou a ir a guerra do Vietnã porque nenhum vietcongue nunca teria lhe chamado de crioulo. Foi condenado, perdeu o cinturão, recuperou, perdeu de novo e se viu diante de um grande lutador. Mais jovem e mais agressivo.

George Foreman em nada era o tiozão da grelha de hoje. Era um excelente lutador, com um cartel invicto e favorito para aquela luta no Zaire. Ali soube usar sua grande inteligência e inventou o auto marketing. Chegou no Zaire se dizendo um deles. Percorreu o país aproveitando contusão no supercílio de Foreman que provocou adiamento da luta. Transformou uma luta dele, para glória dele, para ganhar dinheiro dele em uma questão maior, uma luta entre oprimidos e opressores. Quando George Foreman deu conta o Zaire inteiro era Muhammad Ali.

O genial dentro e fora dos ringues Muhammad Ali que adotou a estratégia suicida de apanhar a luta inteira de um homem forte, agressivo, de um homem que tinha explosão nos punhos. Apanhou a luta inteira encostado nas cordas e rindo. Rindo e provocando Foreman. Um raivoso Foreman batia em Ali que apenas ria e provocava. A raiva virou preocupação quando via que seus golpes não surtiam efeito e começava a se cansar. O gigante cansou, seus golpes já não tinham mais efeito e foi ali a hora de Ali.


O que se viu depois foi uma aula de boxe, algo que entrou para história. No oitavo assalto daquela luta Muhammad Ali decidiu lutar e partir para cima de um extenuado George Foreman. Nocauteou o invencível voltando a ser campeão mundial e recebendo a consagração do Zaire e do mundo.

Como Ali aguentou aqueles golpes todos não se sabe, só um gênio conseguiria. As consequências dos golpes também não sabemos. Muitos alegam que dos golpes vieram o parkinson que vitimou o gênio. Mas tenho certeza que se perguntassem a Muhammad Ali se ele toparia tomar todos aqueles golpes de novo e comprometer sua velhice, mas de novo viver todas as suas glórias ele toparia.

Ali seguiu campeão do mundo. Perdeu o cinturão, ganhou de novo e terminou a carreira campeão sem ser nocauteado. Vinte e cinco anos depois terminou a vida campeão e sem ser nocauteado. George Foreman entrou em depressão com a derrota, foi ao ostracismo, se perdeu na vida, encontrou a religião, voltou a ser campeão no boxe sendo o mais velho da história e hoje é um tiozão simático e querido que ganha muito dinheiro como empresário e passa mensagem de Deus como pastor.

E o mais importante. Ali e Foreman se tornaram grandes amigos.

Muitos anos depois daquela noite histórica no Zaire, já velhos, George Foreman ligou para Muhammad Ali e disse que queria uma revanche. Ali ficou um tempo em silêncio e perguntou "Você está louco?".

Não precisava de revanche. Na luta da história os dois venceram.


Para sempre reis.  


Viva Ali!!!


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