sexta-feira, 10 de junho de 2016

DINASTIA: CAPÍTULO XVI - BARÃO DE FEITAL


Toda a população de Feital foi ao enterro de Domenico Vergara, seu protetor. Cecília chorava copiosamente abraçada ao marido que tentava consolá-la alegando que sempre estaria ao seu lado.

Em casa depois Valfredo, um dos principais assessores de Domenico, aproximou-se de Pepe e comentou que ele era o novo chefe. Pepe respondeu que não queria falar sobre o assunto, não era o momento e Valfredo completou que precisando era só chamá-lo, era experiente no ramo e ajudaria no que precisasse.

Zaqueu observou a tudo e se aproximou do amigo contando que não confiava naquele homem. Pepe respondeu que também não e se precaveria em relação a ele. Zaqueu perguntou o que ele faria e Pepe respondeu “é coisa minha”.

Pepe voltou ao morro de Mangueira, ao terreiro de Mãe Baiana e fez seu ritual de iniciação. Fez o Santo.

Ficou vinte e um dias em reclusão no barracão e nesse prazo foram realizados banhos, boris, oferendas, ebós. Todo o aprendizado se iniciou. As rezas, danças e cantigas.

Virou filho de Santo, raspou os cabelos, passou por um ritual onde teve seu corpo pintado com giz denominado efun. Passou por esse ritual sete dias seguidos.

Depois de três semanas saiu do barracão iniciado e tendo mais um ano com preceitos a cumprir. Mão Baiana pegou sua mão e disse que o rapaz era filho de Xangô, guerreiro e nada lhe derrubaria.

“Nada irá lhe derrubar meu filho, você tem agora o corpo fechado. Será poderoso, vencedor e só irá morrer quando for pleno em felicidade”. Assim disse Mãe Baiana.

Pepe ajoelhou-se, beijou-lhe a mão e Mãe Baiana completou “Vá meu filho, vá soldado de Xangô, você tem o mundo pra conquistar”.

E Pepe foi cumprir sua missão.

E conseguiu. Pegou o comando das bancas de Domenico triplicando o lucro e abrindo novas bancas não só por Feital como por todo o Rio de Janeiro. Em pouco tempo Pepe Granata se tornara o maior banqueiro de bicho da cidade, ficava rico.

Tornou-se uma pessoa popular, amigo da comunidade. Criou a Fundação Domenico Vergara para cuidar dos pobres de Feital e sempre acordava bem cedo para visitar as bancas. Pagava bem seus funcionários, lhes dava cestas de Natal e era amigo e companheiro dos apostadores, as pessoas mais humildes.

Gostava de parar nas bancas e conversar com eles. Ajudava a decifrar os sonhos dos apostadores indicando qual bicho deviam jogar e suas centenas e milhares. Pagava a todos os vencedores com rapidez, deu credibilidade ao jogo.

De tão popular que ficou em Feital passou a ser chamado de “Barão de Feital”.

Pepe Granata cumpria sua profecia e vencia na vida.

Da época que ganhou o apelido veio o segundo filho com Cecília, Benito Vergara Granata em homenagem ao avô Benito Granata.

Mas naquela época o nome Benito não remetia mais apenas a Benito Granata como também a Benito Mussolini. Primeiro-Ministro da Itália, o “pai do fascismo” e tornou-se um dos grandes ídolos de Salvatore Granata.

Falar de Mussolini era uma das poucas coisas que animavam Salvatore que via no homem uma salvação para sua terra natal, a volta da verdadeira Itália.

 Pepe não se metia em política, ele tinha amigos e penetração em todas as áreas da política e não via com bom tom o crescimento de Mussolini, tinha certa razão.

A Alemanha Nazista de Adolf Hitler invadiu a Polônia em 1° de setembro de 1939 com a França e a maioria dos países do império Britânico declarando guerra a Alemanha.

Em 1940 a Itália se juntou a Alemanha formando o Eixo. Salvatore vibrava, estava mais nacionalista que nunca. Pepe ignorava, se dizia brasileiro o que fazia discussões acontecerem em casa.

Naquele momento Pepe tinha outras prioridades, guerra não estava entre elas.

Procurou Manuel na cadeia e perguntou como estava o amigo. Manuel estava mais abatido, envelhecera bastante na prisão e respondeu que vivia como dava. Já eram quatro anos na cadeia.

Pepe ouviu a tudo e contou ao amigo que vencera na vida, agora era o maior banqueiro de bicho da cidade e se tornara um homem muito rico. Manuel deu parabéns a ele e Pepe completou afirmando que lhe tiraria dali.

Manuel riu e perguntou como, se iria armar um plano de fuga para ele e Pepe respondeu que não, que daria a ele o que ele não teve. Justiça.

Manuel mandou que o amigo não esquecesse que ele era negro e Pepe revidou “Não esqueça que tenho dinheiro, com dinheiro no meio até negro vira branco”.

Pepe levantou-se enquanto Manuel continuou sentado. Andou um pouco pela sala e virou para Manuel falando.

“Você não me deixou dormir na rua, não deixarei que você durma mais na cadeia, o melhor advogado da cidade irá lhe procurar dentro de alguns dias”.

Estendeu a mão a Manuel que olhou por um tempo, levantou-se e apertou a mão de Pepe dizendo “obrigado amigo”.

O advogado procurou Manuel e conseguiu que um novo julgamento fosse marcado. Realmente o dinheiro fez com que o negro Manuel “virasse branco” e sua pena foi reduzida a dez anos e um mês.

Já cumprira mais de quatro anos, apresentava excelente comportamento e graças a esses fatores em poucos meses Manuel foi solto.

Manuel saiu da cadeira com um sobretudo, chapéu e segurando uma mala. Olhou para frente e viu nada, ninguém tinha ido lhe buscar.

Olhou novamente e viu Pepe de óculos escuros encostado em um carrão.  

Manuel andou até o amigo e lhe deu um abraço forte. Os dois homens emocionados se encontravam do lado de fora daquele presídio finalmente e Pepe disse:

“Venha meu amigo, entre no carro e não olhe para trás. Esse lugar não foi feito pra você.”

Os amigos partiram e Pepe levou Manuel até a mansão. Apresentou a toda sua família, filhos, Cecília, Zaqueu e fez questão de dizer que aquele homem salvara sua vida no Rio de Janeiro e era como se fosse um segundo pai.

Dora abraçou Manuel agradecendo por tudo que fizera por seu filho e Salvatore apertou sua mão dizendo ser uma honra finalmente conhecê-lo.

Manuel passou a gerenciar a loja com Oscar. Não apenas a loja, mas as três lojas que já existiam do grupo empresarial. As “Casas Granata” cresciam a olhos vistos com o melhor preço do mercado para artigos do lar.

Mariana continua a estudar sendo uma das melhores alunas do principal colégio do Rio de Janeiro. Giuliana permanecia no convento, Cecília e Dora faziam o trabalho de aproximar a família da sociedade, davam festas e revendiam vestidos de luxo que importavam do exterior.

Constância era a governanta de Pepino e Benito. Salvatore e Zaqueu trabalhavam com Pepe.

Todo mundo com ocupação, trabalhando, todos felizes.

Pepe não se apaixonara por Cecília, mas cumpria a missão de fazer a esposa feliz. Como disse anteriormente Cecília se tornara uma figura importante no meio social, mas também tinha o sonho de ser professora. Pepe estimulou a mulher que voltasse aos estudos e se formasse para o magistério.

O casal tornou-se símbolo de Feital. Cecília passou a ser chamada de “Baronesa de Feital” e “Mãe dos pobres”. O casal viajava pelo menos duas vezes ao ano para o exterior com as crianças e passavam imagem de felicidade.

Isso que bastava para Cecília, apesar de saber que o marido ainda pensava em Beatriz, apesar de não saber que o marido sonhava quase toda as noites com ela.

Manuel um dia visitou o amigo Pepe no escritório, eles trabalhavam o projeto de abrir mais uma loja e ampliar as três que existiam.

Valfredo, que ainda trabalhava com Pepe, entrou no escritório, falou qualquer coisa e saiu. Quando o homem saiu Manuel sentiu um calafrio.

Pepe perguntou se o amigo passava mal, se queria uma água e Manuel respondeu que não, só não sentira uma vibração boa vinda daquele homem.

Pepe contou que ele não era o primeiro a dizer isso e Manuel aconselhou que o amigo fosse até o terreiro de Mãe Baiana. Pepe comentou que há tempo não ia ao terreiro, mas faria o que o amigo sugeriu.

Pepe foi ao terreiro e um homem incorporou Xangô. Pepe foi ao seu encontro, beijou sua mão e disse “Pai me dê proteção”. O homem respondeu que sempre estaria ao seu lado e que inimigos tentariam destruí-lo, mas que não se preocupasse, pois, era seu filho.

Completou lembrando a frase que ele só partiria em um momento de felicidade plena.

Apesar de se preocupar com a parte dita que inimigos tentariam lhe destruir Pepe continuou seguindo sua vida normalmente. O homem não utilizava seguranças e fazia sempre os mesmos caminhos.

Uma noite Pepe voltava para a casa em seu carro quando um outro lhe fechou. Pepe não andava armado e rapidamente foi retirado de seu veículo por três homens encapuzados.

Os homens colocaram Pepe no porta malas e saíram em disparada. Pepe sentia que o drama daquela vez era maior do que quando fora levado por brutamontes ao escritório de Domenico Vergara e pedia ajuda a Xangô.

O homem foi levado até a floresta da Tijuca. Foi retirado do porta malas e mandaram que ele caminhasse. Pepe andou um pouco com os homens atrás armados e depois de um tempo mandaram que ele se virasse.

Pepe se virou e os homens atiraram. Oito vezes.

Pepe atingido por oito tiros caiu no chão enquanto os homens apressados entraram no carro e partiram. Deixaram Pepe lá caído,com a certeza que estivesse morto.

Pepe ficou algum tempo no chão, de olhos fechados na floresta quando de repente abriu os olhos. O homem agonizava, estava perto da morte quando olhou para o lado e viu uma pessoa.

Era Xangô.

Pepe olhou Xangô e disse bem fraco “pai”. A entidade se aproximou e estendeu a mão para Pepe. O homem com extrema dificuldade deu a mão para Xangô e levantou.

Xangô sumiu e só ficou Pepe. O homem mesmo alvejado oito vezes arrumou forças não se sabe aonde e conseguiu andar até a estrada. Lá acenou para alguns carros e nenhum parou. Já no fim de suas forças fez o último aceno e caiu no chão.

O carro que recebeu esse aceno parou e um casal estava dentro. O homem saiu para ver o que era e tomou um susto ao ver Pepe caído. Gritou para a mulher que perguntou o que era e ele mandou que fosse lá ver.

A mulher desceu do carro e foi ao encontro do marido, ao ver Pepe no chão deu um grito “Meu Deus!! É o Barão de Feital!!”. Ela perguntou se ele estava morto, o homem se abaixou, colocou o ouvido perto do corpo e respondeu que não, ainda respirava.

A mulher mandou que ele se apressasse e colocasse Pepe no carro para levarem a um hospital. O homem colocou e eles partiram em disparada.

Pepe estava em coma no hospital, entre a vida e a morte e rapidamente a notícia se espalhou. A família Granata toda foi para o local e uma Cecília desesperada era consolada por Dora e Constância.  

Zaqueu, Oscar e Manuel conversavam em um canto. Zaqueu perguntava aos homens se eles sabiam quem tinha feito aquilo. Oscar respondeu “Claro né, o crápula do Valfredo”. Oscar jurou vingança e Manuel mandou que o rapaz respirasse e esperasse pra ver o que seria de Pepe.

Pepe dormia em um coma profundo e sonhava ou se aproximava da morte. Seu espírito andava por um jardim florido, passarinhos e ao fundo ouviu atabaques e um canto, um canto para Xangô.

Por detrás daquela serra
Tem uma linda cachoeira!
É de meu Pai Xangô!
Que arrebentou sete pedreiras !
Foi água nascendo na fonte!
E espinho na flor!

Do seu medo escondido
Nasceu a coragem de ser vencedor
Punhal na mão, no peito um escudo mais fiel
De quem na terra concebeu o céu!

São sete pedreiras que ele aprendeu a quebrar
Na faísca da fúria, no raio da chuva à luz do luar!
Lavou o corpo com o vinho amargo do suor
E fez do próprio bem, de todos os males, talvez o menor!

Pepe andou procurando a música e encontrou Xangô todo vestido de vermelho com um machado na mão.

Pepe saudou Xangô dizendo “Kawó-Kabiesilé” e este mandou que retornasse, pois não era sua hora. Xangô deu um grito empunhando seu machado ao céu quando no hospital ouviu-se o barulho de um raio.

No momento do raio Pepe abriu os olhos.

Como fora dito no terreiro de Mãe Baiana Pepe tinha o corpo fechado e para espanto e alegria de quase todos sobrevivera a oito tiros. Convalesceu em casa por um tempo, mas mesmo assim continuava comandando seus negócios, cada vez mais a mãos de ferro.  

Oscar, Manuel e Zaqueu investigaram o atentado e conseguiram descobrir que o mandante fora Valfredo. Foram até a mansão consultar Pepe sobre o que fazer.

O homem sentado no sofá de sua sala respondeu “façam o que deve ser feito”.

Alguns dias depois acharam o corpo de Valfredo com mais de trinta tiros no porta malas de um carro. Os corpos dos homens encapuzados também foram aparecendo um a um.

O Barão de Feital dessa forma se tornava uma lenda da região. Cada um comentava de um modo como o homem se livrara do atentado e sobrevivera mais forte do que nunca. Também eram muitas as versões sobre o que aconteceu com os que tentaram lhe matar. Pepe não se importava com o disse me disse do povo e no fundo até gostava de virar uma lenda.

 Começou a se proteger mais, teve uma maior noção de sua importância, do que alcançara e contratou seguranças, além de começar a andar armado.  

Enquanto Pepe virava lenda em Feital o mundo parecia explodir devido a guerra. O Brasil entrara na mesma ao lado dos aliados para combater Alemanha, Japão e Itália. Do lado contrário da terra natal dos Granata.

Pepe tentava ignorar esse fato sempre bradando que era brasileiro e não tinha nada a ver com esse conflito ao contrário de Salvatore que cada vez mais nacionalista mostrava seu amor pela Itália, mesmo ficando contra o Brasil.

Salvatore, amargurado com a vida, começou a beber mais do que o normal. Ia a bares, enchia a cara e começava a cantar músicas italianas e gritar “viva a Itália” provocando confusão. Não eram poucas as vezes que Oscar era obrigado a ir até os estabelecimentos buscar o pai.

Pepe recriminava Salvatore alegando que sua forma de agir poderia trazer problemas. Salvatore revidada que não era frouxo, apesar de não comandar as pernas era um homem e um homem mantém seus princípios.

Pepe olhou firme para o pai e mandou que ele parasse de besteiras. A Itália não lhe dera nada enquanto o Brasil enriquecera a família.

Salvatore extremamente irritado gritou “Seu moleque!! Quem você pensa que é para falar assim comigo? Barão de Feital uma pinóia você é meu filho e para sempre terá que me obedecer e ter respeito!!”.

Pepe pediu desculpas ao pai que continuou gritando. Dora entrou no lugar para levar seu marido de lá.

Os Granata continuaram sofrendo em conseqüência da guerra. Lojas da família eram pixadas com frases como “Fora italianos!!” e “Brasil para os brasileiros!!”, suas janelas eram quebradas e a família insultada na rua.

Uma noite estavam em reunião na sala da mansão quando jogaram uma bomba caseira no jardim sem atingir ninguém.

Pepe tentava contornar a situação aumentando as doações pra fundação, tentando ajudar mais pessoas, mas o sentimento nacionalista ficou mais aflorado. Um dia Mariana entrou chorando no escritório de Pepe.

O homem perguntou o que ela tinha e Mariana comentou que estavam lhe destratando por ser de família de italianos e na última manhã a diretora havia lhe aconselhado a trocar de colégio.

Pepe se espantou e perguntou “Como se você não é italiana, nunca esteve na Itália e é uma das melhores alunas da escola?”. Mariana continuou chorando e pediu ajuda a Pepe.

Pepe resolveu ir até o colégio.

Foi recebido por uma diretora surpresa com sua visita que lhe convidou a sentar em sua sala e perguntou “A que devo a honra da visita do Barão de Feital?”.

Pepe comentou com a diretora sobre sua irmã adotiva chegar chorando em casa por ser destratada pelos colegas da escola e aconselhada a mudar de colégio e perguntou o motivo. A diretora cheia de dedos comentou “Sabe como é senhor Barão, essa guerra entre Brasil e Itália”. Pepe cortou a fala da diretora contra argumentando “Ela não é italiana”.

A diretora respondeu que sabia que não, mas a família era e Pepe impaciente perguntou “Quanto vocês querem?”, a diretora sem entender perguntou pelo que e Pepe completou “Quero comprar o colégio, quanto vocês querem?”.

 A diretora riu e com a seriedade de Pepe notou que ele falava sério. A mulher alegou não ser a dona do colégio, ele pertencia a um casal e Pepe imediatamente pediu o número do telefone. A diretora desorientada com Pepe pegou um papel, anotou o telefone e entregou ao homem.

No mesmo dia Pepe ligou fazendo uma proposta irrecusável e comprava o colégio de Mariana. Alguns dias depois fez discurso no pátio da escola dizendo que ninguém tinha nada a ver com a guerra na Europa, a guerra era feita por políticos, não por eles e a primeira coisa que um colégio tinha que ensinar era o respeito.

Disse que a partir daquele momento o colégio mudava de nome, passava a se chamar “Romeu da Silva”. O nome de um grande amigo dele símbolo da luta pelo respeito e igualdade. Terminou afirmando que o respeito seria o principal mote do colégio a partir daquele momento, entregou o microfone a diretora e em seu ouvido mandou que ela fizesse valer suas palavras.

Desceu pelo pátio sendo aplaudido por professores e alunos e ao passar por uma orgulhosa Mariana disse “Qualquer problema me procure”.

Nunca precisou procurar.  

O período era turbulento para os Granata e a política. Ao mesmo tempo em que Pepe lutava contra o preconceito pela família italiana Oscar começava clandestinamente a militar no Partido Comunista. Participava de reuniões, de atos do partido e não demorou para ser preso.

Na prisão conviveu com gente como Luis Carlos Prestes, um dos maiores ícones do comunismo de nossa história. Com o cavaleiro da esperança Oscar aprendeu mais sobre a “Coluna Prestes”, se aprofundou nos ideais comunistas e se transformou em um novo homem.

Pepe tirou o irmão da cadeia e teve brigas homéricas com ele. Oscar que sempre foi seu fiel aliado agora era seu opositor, de seus negócios e estilo de vida.

Foi embora da mansão, largou as lojas e em alguns meses partiu para a União Soviética.

Quando a guerra acabou em 1945 Pepe Granata, o Barão de Feital, tinha bancas de jogo do bicho espalhadas pelo Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo. Tinha doze “Casas Granata” espalhadas pelo Rio de Janeiro. Lojas amplas, com bons preços comandadas por Manuel e uma recém formada Mariana.  

Em 1946 sofreu um duro golpe com a proibição do jogo no país. Virou um contraventor, mas continuou seu negócio amparado pela corrupção policial e pelo beija mão que recebia de políticos que lhe protegiam em troca de financiamento eleitoral.

Nessa época recebeu visita de sua irmã Giuliana a quem não via há anos.

A família Granata fez uma grande festa para receber Giuliana. A mulher, linda vestida de freira, irradiava felicidade e comentou o quanto estava orgulhosa do irmão.

Passeavam pelo jardim e Pepe falava da vida, tudo que acontecera com ele, seu casamento com Cecília, o terceiro filho que estava por vir e só lamentava Oscar virar comunista e morar na União Soviética.

Giuliana ouvia a tudo atentamente e no fim disse que tinha algo pra lhe contar. Pepe ansioso pediu que a irmã falasse.

Giuliana respondeu que o marido de Beatriz morrera. Pepe não esboçou reação em saber da notícia, a freira completou que o marido dela morrera falido.

Pepe perguntou onde estava Beatriz e Giuliana respondeu que morando no Chile, a mulher rompera com o pai e decidiu começar por lá uma nova vida.

Pepe disse “que seja feliz” quando Giuliana completou que o pai de Beatriz passava necessidades e colocara sua outrora luxuosa casa a venda.

Pepe ouviu a tudo que Giuliana contou sem dizer uma palavra. Ao entrarem em casa avistou Zaqueu e comentou que iriam a São Paulo resolver negócios.

Foram para São Paulo e dentro de um carro olhava a rua, rua que frequentou durante algum tempo, tempo feliz para ele. Pensou em como a vida mudava de minuto a minuto quando Zaqueu saiu de dentro de uma casa e foi até a janela do carro.

Pepe perguntou “Fechou?” Zaqueu respondeu que sim, já assinara contrato e queria conhecer o comprador.

Pepe saiu do carro tenso, mas sem deixar transparecer. Zaqueu abriu a porta da casa e Pepe entrou.

Quando entrou o homem logo lhe reconheceu. Trêmulo perguntou “você?”.

Era o pai de Beatriz, bem mais velho, bem mais acabado.

Pepe sorriu e comentou “Não esqueceu de mim, apesar de que nunca nem se preocupou em saber meu nome já que assinou o contrato e não lhe viu nele. Prazer Pepe Granata, eu sou aquele que o senhor humilhou quando quis casar com sua filha”.

O homem não conseguiu esboçar reação enquanto Pepe pediu a Zaqueu uma maleta. Zaqueu entregou e Pepe abriu, ali tinha uma boa quantia em dinheiro e Pepe continuou a falar.

“Aqui tem uma boa quantia em dinheiro de entrada como foi combinado. Na verdade tem até mais do que prometemos e o senhor receberá mais pela casa que o preço de mercado”.

O homem se aproximou para pegar a mala e Pepe ironizou “Quer pegar? Vem”.

Quando o homem chegou próximo Pepe pegou um maço de dinheiro e jogou no rosto dele dizendo “Desculpa, mas eu havia prometido”.

Deixou a maleta em uma cadeira e se encaminhou com Zaqueu para a porta. Zaqueu contou ao homem que como estabelecido em contrato ele tinha uma semana para sair da casa.

Antes de sair Pepe disse “Para o senhor eu não sou Pepe Granata, eu sou Barão de Feital. Dê lembranças a Beatriz, aquela que a vida o senhor estragou”.

E saiu.

Zaqueu entrou no carro e Pepe saiu andando. Perguntou se o amigo não iria entrar e Pepe contou que queria andar um pouco.

Pepe andou por aquelas ruas que marcaram seu amor por Beatriz, o sentimento mais puro e inocente que teve na vida. Em cada canto que passava lembrava do amor de sua vida e chorou.

Voltou para o Rio de Janeiro e de lá Constância contou que estavam todos no hospital. Salvatore não estava bem.

Correu para o hospital e encontrou a mãe chorando. Deu um abraço em Dora e perguntou a Cecília o que acontecera. A esposa contou que ele saiu de casa na chuvosa noite anterior sem ninguém perceber e pegou pneumonia.

Salvatore na noite anterior aproveitou a distração e saiu de casa. Andou pelas ruas com sua cadeira de rodas sentindo a chuva cair por seu corpo, molhar sua face e sentiu uma alegria que há muito não sentia.

Lembrou da vida em Nápoles quando tomava banho de chuva para desespero de Antonieta. De quando tomava chuva andando de bicicleta com Dora ou no navio sonhando com uma vida melhor com Morgana. Da chuva de São Paulo brincando de jogar água da poça em Manolo, fazendo amor debaixo da chuva no cafezal com Lorena. A chuva que lhe fez ser atropelado e reencontrar a família.

O homem irradiava alegria debaixo de chuva e trovões. Gritava que era um Granata, um Granata tinha medo de nada. Gritou por Antonieta, Benito, Morgana, Lorena e por fim gritou por Deus.  

Gritou olhando para o céu que se Deus gostava mesmo dele percebesse que era a sua hora.

Pepe inconsolável sentado no sofá da recepção do hospital olhava o chão quando Cecília sentou-se ao seu lado depois de conversar com uma enfermeira. Abraçou o marido e mandou que ele fosse até o quarto de Salvatore.

Pepe olhou a esposa e perguntou porque. Cecília respondeu “para despedir-se de seu pai”.

Pepe olhou a esposa sem esboçar reação, apenas deixando lágrimas caírem de seus olhos. Cecília limpou as lágrimas da face do marido e novamente pediu “vá”.

Pepe levantou, respirou fundo e se encaminhou ao quarto.

O homem entrou no quarto e viu o pai entubado, mas acordado. Ficou um tempo parado perto da porta e com o dedo Salvatore mandou que se aproximasse.

Pepe aproximou-se e sentou na beira da cama. Salvatore esforçou-se para falar mesmo com os pedidos do filho que não se esforçasse.

Com muito esforço e lágrimas nos olhos Salvatore falou “Eu tenho muito orgulho de você meu filho”.

Era a primeira vez que Salvatore falara aquelas palavras para Pepe que chorou copiosamente. Pepe deitou e abraçou seu pai dizendo que lhe amava. Salvatore respondeu “te amo meu filho, meu orgulho”.

Os dois Granata. Os dois homens de fibra, corajosos, meu trisavô e meu bisavô. Os homens que começaram nossa saga ali abraçados em um momento só deles. Como se a vida e o mundo tivessem congelado para eles.

Salvatore Granata, Pepe Granata. Dois homens abraçados a um só coração.

Em determinado momento Pepe notou que só ele continuava a chorar. O pai partira.

Pepe não quis que o pai fosse enterrado, teve uma ideia melhor. Ele e toda a família viajaram para Nápoles. Tirando Dora era a primeira vez que todos visitavam a terra mãe, a Itália.

Foram até o Porto de Nápoles e próximo das águas do mar Pepe despejou as cinzas do pai com uma Lua linda como testemunha. A Lua de Nápoles que Salvatore sempre dizia ser a Lua mais linda do mundo.

E daquela forma Salvatore Granata ficaria para sempre em sua amada Itália.

Voltaram ao Brasil e na mansão todos foram deitar. Cecília perguntou se o marido iria e Pepe respondeu para que ela deitasse na frente que ele ficaria um pouco na sala, queria ficar sozinho um pouco.

Cecília respeitou e subiu.

Pepe pegou uma garrafa de vinho, duas taças e encheu as duas. Colocou disco de Enrico Caruso na vitrola, colocou Santa Lucia.

Sentou-se ao som do artista preferido do pai, pegou uma taça brindou com a taça sobre a mesa e ergueu gritando.

“Viva Salvatore Granata”.

O dolce Nápoli
O suol beato
Ove sorridere
Volle il creato
Tu sei I`impero
Dell`armonia

Santa Lucia!! Santa Lucia!!


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SUBINDO NA VIDA

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