terça-feira, 10 de junho de 2014

SEMANA DA COPA - JOGAI POR NÓS BRASIL





Nesse momento, uma sexta-feira, o Brasil joga seu último amistoso antes da copa do mundo. O jogo está no intervalo, 0x0 com a Sérvia e a torcida paulista vaia a seleção. Característica própria dela.

Mas tudo isso é pra dizer que o frenesi começou. Enquanto escrevo faltam seis dias para a estreia da seleção na copa, quando publicada apenas dois dias.

Dois dias para mais uma copa do mundo. Dois dias para uma copa do mundo em nossa casa. No Brasil.

Se pararmos para lembrar que o jogo anterior realizado em nosso país em copas do mundo foi Brasil 1 x 2 Uruguai em 1950 o frenesi aumenta ainda mais.

Chegou a hora, chegou o momento tão esperado. 

Costumamos dizer que poucas coisas nesse país deram certo ao longo dos anos e uma das poucas coisas que deu foi o futebol, em especial a seleção brasileira.

Não estão tão errados assim. Acho que a situação do Brasil melhorou nos últimos 20 anos, muito longe do ideal, muitos problemas sérios ainda, mas temos hoje outros motivos de orgulho. Mas inegável que sempre tivemos um caso de amor com a seleção brasileira. Um caso correspondido.

A seleção brasileira de futebol, independente de cartolas, é um dos grandes orgulhos nacionais.

Não é uma tese ufanista, é fato. O brasileiro ama futebol, aprendemos a andar e imediatamente a chutar uma bola. Seja nos grotões do interior, seja no condomínio de luxo o brasileiro corre atrás de uma bola muitas vezes como corre atrás de um sonho.

Quantas e quantas pessoas desse país o futebol tirou da miséria. O futebol é um meio de inclusão social e formador de cidadania.

Dizem que o brasileiro só mostra patriotismo no futebol. Não deixa de ser verdade já que nosso sentimento nacionalista fica mais exacerbado em tempo de copas. Bandeirinhas do Brasil nos carros e janelas, ruas enfeitadas, camisas da seleção vestindo pessoas orgulhosas e esperançosas em mais uma conquista. O país para em um jogo de copa do mundo, ninguém trabalha no momento do jogo, ruas desertas.

Mas pensem. Somos assim com futebol. Sonhamos, sorrimos, sofremos, choramos de alegria e tristeza com futebol. Tem gente que faz isso com guerras. O que é melhor?

São cem anos desse caso de amor. Momentos de alegria, depressão, sonhos, raiva, momentos de crise. Sim porque todo amor passa por crises, é inevitável. Tem horas que chamamos os jogadores de vendidos, vaiamos, mas nos abraçamos e vibramos na hora do gol.

Algumas das maiores tragédias da história do Brasil estão relacionadas a futebol. O Brasil é o país em que o suicídio de um presidente equivale em importância histórica a uma derrota em casa na final de uma copa. Futebol aqui foi usado por ditaduras e governos democráticos para campanhas junto ao povo. O povo gritava “pra frente Brasil, salve a seleção” e “ninguém segura esse país” enquanto alguns dos seus morriam torturados em porões do DOPS.

Mas como torcer contra? Esses próprios perseguidos políticos tentaram e não conseguiram. Curavam a dor a cada gol de Pelé e cia.

O presidente bossa nova fez parte de sua história em cima da construção de Brasília e porque a taça do mundo era nossa. O plano Real surgiu no meio da euforia do tetra e o clima favorável que o país vivia na ocasião ajudou na eleição de FHC.

Brasil campeão do mundo faz o povo feliz e isso faz o humor do político variar dependendo de sua ligação com o governo.

Amamos odiar Galvão Bueno. Reunimos a galera para ver o jogo comendo churrasco, bebendo e ouvindo as mulheres (nem todas, muitas entendem) perguntarem porque ninguém passa a bola pro cara com apito. A seleção e a copa fazem um congraçamento, levam para frente da televisão gente que nem de futebol gosta.  

Podem ter certeza que quinta feira você verá seja ao vivo ou por televisão a mesma coisa que a presidente da República, um brasileiro que more no exterior ou um mendigo caçando tv em um bar.

Só a seleção é capaz de fazer isso. Só a seleção é capaz de fazer o tempo parar.

Um país é feito de heróis e muitos dos heróis que esse país teve nunca vestiram uniforme verde oliva, capacete e pegaram em armas. Muitos deles foram pessoa como nós, de nosso biótipo, que seriam comuns pelas ruas se não recebessem um dom para nós divino. Saber jogar futebol.

Gente que vestiu a farda amarela ou azul em alguns momentos e foi nos representar por campos de futebol no quatro cantos do mundo, mesmo que o mundo não tenha canto e seja oval.

Tenha o formato de uma bola de futebol. O mundo cabendo em nossos pés porque sempre tivemos muitos motivos para baixo estima, abaixar a cabeça para gringos. 

Mas no futebol não. Ah parceiro, não no futebol.  

No futebol somos reis, somos gigantes. Podemos não ser o tempo todo os melhores, mas sempre respeitados, os mais respeitados. Dentro de um campo toda disparidade econômica e social dos povos do primeiro mundo com a gente some. O negrinho da favela ou o caboclo do interior valem tanto ou mais que o grandalhão europeu criado a sucrilhos.

No futebol fizemos um rei. O rei. O homem mais conhecido do planeta que nem de passaporte precisa para ser reconhecido. Homem tão famoso que nem preciso colocar seu nome. No futebol o Brasil fez de um deficiente físico, de pernas tortas alcoólatra um anjo, um gênio. Um Carlitos que em vez de chapéu coco e bengala usava uma camisa 7 e chamava os adversários de “João”.

João..Nome tão brasileiro quanto Edson, Mané, que nem nome é, mas aqui no Brasil é escrito em letras garrafais.

Dentro das quatro linhas o complexo de vira latas é exorcizado pelo psiquiatra Nelson Rodrigues e nos sentimos grandes, maiúsculos. Pelo menos ali ninguém tira onda com a gente.

De Charles Muller a Neymar. Assim prossegue nosso caso de amor eterno e mesmo que a vitória não venha ele vai continuar porque amar é bom demais.

Ok, talvez o texto tenha ficado ufanista, mas tão próximo de uma copa do mundo aqui no nosso país impossível não ser.

O amistoso acabou. Fred marcou e o Brasil venceu por 1x0. As vaias viraram aplausos.

É assim que sempre acaba o espetáculo de um grande artista. Com aplausos.

Jogai por nós Brasil.


Em nome do hexa. Amém.


Essa coluna inicia uma semana especial do blog. A “Semana da copa”. Todos os dias teremos algo aqui relacionado a futebol e hoje ainda teremos um conto inédito.

Boa copa para todos.

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