sexta-feira, 20 de julho de 2018

AS MULHERES DE ADÃO: CAPÍTULO VIII - GISELE


Tudo correu bem, os bombeiros me salvaram intacto. Problema foi a vergonha nacional que passei com o ocorrido passando pro Brasil inteiro e as explicações que tive que dar numa reunião de condomínio do porque estava pelado do lado de fora. Escapei da expulsão do prédio.

Mas não escapei da morte, dessa ninguém escapa, nem Edu escapou de ter que dar explicações.

Todos ainda estavam atônitos da revelação de Grace Kelly ser Edu então ele resolveu “botar a boca no trombone”.Sem trocadilhos, por favor.

Meu amigo contou que sempre se sentiu um menino diferente. Tentou ser um “homenzinho”, gostar de meninas tanto que chegou a namorar a Bia, mas um dia se descobriu e viu que gostava de meninos. Contou para todos que passaria um tempo na Índia pra estudos religiosos quando na verdade foi pro Marrocos e fez uma cirurgia de mudança de sexo. Tio Freitoca assustado perguntou se ele cortou seu “pingulim” e ele respondeu que sim. Era uma mulher.

No caixão me lembrei dos banhos que tomamos juntos e suei frio. Ninguém percebeu.

As pessoas conversavam e Edu, Grace Kelly, sei lá o nome, disse que teria um Flamengo x Vasco decidindo o estadual daquele ano em poucas horas. Eva lembrou que eu era flamenguista fanático e que com certeza estaria no Maracanã se estivesse vivo. Edu rindo então contou minha história com Flávia.

Tudo parecia voltar ao normal quando de repente entraram vários homens com agasalhos de futebol acompanhados de dois homens que fumavam charuto e usavam cartolas. Todos pararam pra olhar quando Edu tomou um susto e gritou “são os times de Flamengo e Vasco”. Os convidados alertados pararam pra ver o rosto daqueles rapazes e reconheceram os jogadores, os dois com cartolas eram os dirigentes dos clubes.

Os travestis alvoroçados foram dando gritinhos em cima dos jogadores pedindo autógrafos e pra tirar fotos. Meus avós, meus pais e Eva se aproximaram dos dirigentes e falaram que estavam surpresos e honrados pela visita.

O dirigente do Flamengo respondeu que eu tinha sido muito importante para a história do clube e eu era um dos fatores do Flamengo ser o clube mais popular do país. O dirigente do Vasco emendou contando que eu era um grande desportista e que o futebol brasileiro devia muito a mim.

Definitivamente eu era o cara.

Do lado de fora se ouvia uma gritaria. Quando os presentes ao velório se aproximaram das janelas pra ver o que era tomaram um susto.

As torcidas organizadas de Flamengo e Vasco juntas gritavam  meu nome. Eram cantos de torcidas como “olê, olê, olê, olá Adão!! Adão!!”, “Olê lê, Ola lá, Adão vem aí, sua mina vai pegar”, “ôôôôô!! Adão é sinistro!!” e o mais bonitinho “Não é mole não!! Toda mulher um dia já deu pro Adão!!”.

As torcidas organizadas sempre com cantos graciosos. Estava emocionado no caixão.

Até meu sorriso que sumira com a história de Edu voltara.

O trio de arbitragem chegou à capela e foi muito vaiado. O juiz olhou pros presentes e reclamou “até aqui?”. Depois cumprimentou meus pais e disse que queria fazer uma homenagem pra mim. Começaram pelo minuto de silêncio que durou menos de dez segundos e sobre aplausos de todos o juiz pediu que alguém colocasse o meu pé pra fora do caixão para dar o pontapé inicial do jogo.

Colocaram então o juiz colocou a bola em frente ao meu pé e o impulsionaram pra dar um chute.

Eu era tão bom de bola que chutei uma depois de morto sob aplausos das pessoas.

Os times se preparavam pra ir embora pro Maracanã quando o dirigente do Flamengo deu por falta do craque do time, o Beto Gardenal. O safado tinha fugido da concentração pra noitada e ninguém percebera. Mas Beto chegou à capela cercado de seguranças e fãs.

Chegou com óculos escuros no rosto e cara de ressaca. O dirigente rubro-negro irritado chegou nele e disse que era bom que ele garantisse a taça pro clube. Beto não deu muita atenção pra ele, preferiu chegar perto do meu caixão e chorar.

Chorando copiosamente Beto contou que eu era um grande parceiro e foram muitas as vezes que saímos juntos pra balada, pegar as “cachorras”, beber todas. Que muitas vezes eu o ajudei a fugir da concentração até da seleção brasileira e que faria um gol em minha homenagem na final.

Recebeu uma grande salva de palmas e os dirigentes disseram que era hora deles irem pro estádio. Saindo o rubro-negro falou pro Beto que depois ele teria que explicar essas fugas comigo de concentração.

O ambiente voltou ao normal, normal dentro daquela loucura que vinha sendo meu velório. As pessoas conversando, alguns momentos uma mulher aparecia pra chorar e Bia não saindo do meu lado. As histórias do Beto eram verdadeiras, realmente curtimos algumas juntos.  Futebol e carnaval sempre foram muito presentes em minha vida e nessa história carnaval tem figura principal.

O ano letivo na faculdade começou com todos perguntando o que ocorrera entre Flávia e eu. Eu desconversava falando que não queria saber mais desse assunto. Flávia saiu da universidade, perdi uma musa.

Mas ganhei outra.

Uma aluna nova entrou na sala. Japonesinha estilo mignon. Seu nome era Gisele e ela veio transferida da USP. Gisele não era muito extrovertida preferindo ficar mais concentrada nos estudos. Mas nem nos estudos precisou se concentrar muito. O carnaval chegou e as aulas foram interrompidas.

Estava eu no sábado de carnaval curtindo o Cordão do Bola Preta com Eva, Bia, Edu e João Victor quando vi Gisele com um grupo de amigos.Aproximei-me e perguntei se estava tudo bem com ela. Gisele não me reconheceu de cara então contei que era Adão e que estudava com ela. Gisele então riu e falou “Ah, o Adão da má fama”.

Não entendi o que ela quis dizer com isso.

Decidi não ligar pro que ela disse e continuei minha cortejada. Perguntei se ela estava curtindo o carnaval e a cidade. Ela contou que sim, era a primeira vez que vinha ao Rio e estava encantada. Convidei então seu grupo para se juntar ao nosso.

Com todos juntos reparei que ela não estava com ninguém. Ótimo sinal. Curtimos muito o Bola e depois chamei todos para irmos pra Banda de Ipanema.

Na Banda fomos pra areia e depois aproveitamos pra mergulhar, entre um mergulho e outro Gisele e eu demos nosso primeiro beijo.

O primeiro de muitos, curtimos aquele carnaval juntos. Desfilei nos tamborins da Unidos do Bebezão e Gisele me assistiu das arquibancadas. Depois saímos da Sapucaí e fomos direto pro baile do vermelho e Preto.

Nosso carnaval acabou debaixo de chuva nos beijando no Monobloco. Carnaval acabou, mas o amor de carnaval não.

Logo me apaixonei pela Gisele. Ela era uma menina bacana, tranqüila e que vivia pros estudos e seu trabalho. Gisele trabalhava com eventos.

Assim com seus horários não sendo fixos e a qualquer hora podendo pintar um evento não era sempre que nos víamos e quando o horário dava estávamos sempre colados um no outro. Não éramos de sair muito, nosso negócio era ficar no meu apartamento curtindo nosso amor.

Gisele ganhava bem trabalhando com eventos e logo comprou um carro novo e alugou um apartamento no Leblon de frente a praia. Ficava feliz pela subida de vida de minha namorada e corri atrás também, consegui um estágio na rádio Mundo e com o tempo fui efetivado.

Com emprego não dependia mais de pais e avós e conseguia viver. Trabalhava na produção de um programa até que um dia o locutor ficou rouco e precisaram de alguém pra substituir. Eu me ofereci e apresentei o programa naquele dia.

Gostaram da minha voz e graças a meu pai de quem queriam “puxar o saco” me deram um programa. Decidi então fazer um programa direcionado ao amor onde dava conselhos sentimentais e dei o nome de “ABC do amor”.

Não ganhava tão bem quanto meu amor. Mas nos amávamos e éramos felizes.

Os meses passaram e viajei com ela pra São Paulo onde conheci sua família e dei graças a Deus dela não ser fanática por nenhum time de futebol. Gisele deu uma geladeira nova e uma TV de plasma pra seus pais e um relógio caríssimo pro irmão.

Perguntava pra Gisele como era seu emprego, mas minha namorada era misteriosa e não entrava em detalhes. Também achou melhor que eu não fosse aos eventos quando me ofereci pra ir com ela. Gisele contava que não gostava de misturar amor e trabalho.

E ela não deixava de estar certa.

Meu programa ia muito bem, ganhei mais uma hora pra ele que se tornou líder de audiência no horário e nessa época Eva começou a trabalhar como modelo fazendo muito sucesso. Estava feliz no trabalho, feliz pela faculdade que escolhi, por minha irmã e pela namorada maravilhosa que eu tinha.

Ainda me incomodava com Bia e João Victor, mas nada pode ser perfeito.

Gisele trocou de carro e pegou um do ano enquanto eu continuava com o meu velhinho. Isso não me incomodava, mas Bia um dia me perguntou se eu não achava estranho minha namorada ganhar tanto dinheiro. Respondi que não afinal Gisele era uma moça batalhadora e que trabalhava sem horário fixo.

Até que um dia Eva me chamou pra conversar.

Fui até a casa de minha irmã e perguntei o que ocorria. Ela ma chamou ao quarto e ligou o computador entrando em um site de garotas de programa. No site abriu uma foto e perguntou se eu reconhecia, respondi que não. A foto era de uma mulher nua, linda por sinal com uma tarja escondendo os olhos. Eva contou que teve informações que aquela era Gisele.

Eu ri e disse que era impossível.  Gisele era tímida, reservada nunca seria prostituta, trabalhava com eventos. Eva respondeu que sim ela trabalhava com eventos, mas era uma espécie de “ficha rosa”, aquela que vai além dos eventos.

Levantei, disse que aquilo era um absurdo e fui embora. Mesmo intrigado pela prostituta ter a tatuagem de uma borboleta no pé como Gisele. Saí com minha namorada naquela tarde e ela perguntou se estava tudo bem. Respondi que sim e que não entendia a pergunta. Gisele respondeu que eu estava estranho.

Estava sim, fiquei com pulga atrás da orelha. Pulga que virou um elefante quando minha namorada recebeu um telefonema e falou que teria que me deixar porque surgiu um trabalho urgente.Gisele saiu e liguei pra minha irmã perguntando qual nome que a prostituta usava. Ela respondeu que o “nome de guerra” era Natasha Sweet Pussy. Agradeci, desliguei e corri pra casa.

Chegando em casa encontrei Edu que usava o computador e pedi um favor pra ele, que ele entrasse em um site de buscas e verificasse uma coisa pra mim. Ele entrou e pedi pra que digitasse “Natasha Sweet Pussy”. Ele digitou e apareceram várias coisas com seu nome. Fotos em que se oferecia para homens, mulheres e casais liberais e filmes pornôs que realizou.

Em nenhuma foto aparecia seu rosto, a única solução era ir a uma locadora.

Edu foi pra mim. Chegou de volta ao apartamento com cara assustada. Perguntei qual era o problema e ele mostrou uma fita que alugara. Na capa aparecia o rosto, era mesmo Gisele!! E o título do filme era “Sweet Pussy e o jegue das cinco patas”.

Colocamos o filme e nele Gisele aparecia de biquíni com um jegue. Ela acariciava o jegue, principalmente em partes impróprias e começava os trabalhos”.

Eu com o controle na mão deixava meu queixo cair a cada ato que via. Edu estarrecido falava ”cara ela aguenta rindo o que eu não aguentaria chorando e pedindo minha mãe!! Olha o tamanho do troço do jegue!!”.

Eu perplexo conseguia falar nada, então Edu disse “O teu troço devia nem fazer cócegas nela”.Eu estava tão perplexo que nem dei uma porrada nele.

Através de uns contatos descobri que ela seria estrela de um filme pro carnaval seguinte, transaria com vários caras em um salão. Em filmes desse tipo nem todo mundo atua, tem os figurantes também e usei de artimanhas conseguindo ser um desses figurantes. Fui pra produtora e lá coloquei uma fantasia de Darth Vader que carreguei. Entrei no set que ganhou jeito de salão de baile de carnaval e o filme começou a rodar.

Gisele pegou um, dois, três, era insaciável. Bem que eu sempre estranhei o fato dela tão tímida ter o fogo que me apresentava. Em um momento consegui chegar perto dela, puxei e apertei sua bunda.

Gisele furiosa começou a gritar com o diretor que eu era figurante e não podia fazer aquilo. Tirei o capacete mostrando quem eu era e disse “ah, deixa só um pouquinho Sweet Pussy”.

Gisele ficou branca a me ver e falei “surpresa amor?”. Ela não conseguia falar nada. Então tirei o anel de compromisso que colocamos semanas antes e joguei em cima dela falando pra ela dar pro jegue.

Virei e fui embora.

O problema todo é que continuávamos nos vendo todos os dias na faculdade. No começo Gisele vinha atrás de mim e pedia perdão, mas eu impassível nem lhe respondia. Com o tempo ela desistiu de tentar e comecei a sentir saudades. Pensei que estava sendo preconceituoso. Ser prostituta era um trabalho como todos os outros, a única diferença é que comiam a mulher que você ama. Ela me fazia muita falta então tomei coragem e fui ao seu apartamento.

Gisele abriu e perguntei se podia entrar. Ela deixou.

No lado de dentro pedi desculpas falando que fui muito grosseiro com ela. Gisele abriu um sorriso dizendo que sentiu minha falta e me deu um beijo. De lá fomos pro quarto e fizemos amor.

No fim ela levantou e botou seu roupão enquanto eu falava o quanto sexo era especial com ela e que eu tentaria ser um homem moderno e não ligar pras coisas que ela fazia. Nesse momento Gisele se vira pra mim e fala “são mil reais”.

Olhei pra ela sem entender então Gisele reforçou “meu programa costuma sair por mil e quinhentos reais, mas pra você que é conhecido eu fiz por mil. Só aceito em dinheiro, mas como você foi pego de surpresa aceito cheque e pediria pra você pagar logo porque tem cliente chegando”.

Levantei sem graça, peguei a carteira, o cheque, assinei e passei pra ela. Gisele pegou o cheque, olhou pra mim, rasgou e mandou que eu fosse embora.

Eu fui embora humilhado e ainda deu tempo de ver o cliente entrar.

Na rádio no dia seguinte um ouvinte ligou e perguntou o que fazer já que desconfiava que sua namorada fizesse programas. Cocei minha testa e falei pra ele não andar com talão de cheques e tomar cuidado com jegues.

Pior que eu nem sei se fui melhor no sexo que o jegue.


CAPÍTULO ANTERIOR:

FLÁVIA

Nenhum comentário:

Postar um comentário