quarta-feira, 4 de abril de 2018

TROCANDO EM ARTES: TRATE-ME LEÃO


"Trocando em artes" fala hoje de uma das peças de teatro mais importantes de nossa história. Um divisor de águas na arte nacional.

Trocando em artes orgulhosamente apresenta:


Trate-me leão



Trate-me Leão foi a terceira peça de teatro do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone. A peça foi o trabalho de maior êxito do grupo e abordava problemas, vivências e cotidiano da juventude do Rio de Janeiro. A peça surpreendeu pela inovação da linguagem, com base na experiência dos atores e criação coletiva, onde eram comuns as improvisações. A criação coletiva não ocorreu apenas do texto, mas em todo o espetáculo, com integrantes e atores assumindo funções artísticas e de produção.

Trate-me Leão tinha uma narrativa não linear, caracterizada por cenas com desenvolvimento e desfecho diferentes. A teatralização do cotidiano ocorria em um palco sem móveis, com tapumes ao fundo. Os atores realizavam a composição dinâmica dos ambientes, onde o público pudesse interpretar paredes, portas ou cenários imagináveis ao longo da peça.

Nos espetáculos anteriores de O Inspetor Geral (1974) e Ubu Rei (1975), Hamilton Vaz Pereira e os atores já utilizavam a irreverência para recriar textos clássicos. Já em Trate-me Leão, o grupo falava sobre o cotidiano de uma jovem geração. Para criar a história e as situações dramáticas, o elenco tomou como centro de investigação sua própria vivência. Ainda assim, a influência da dramaturgia clássica era constante em algumas cenas, a exemplo da adaptação de falas de Pequenos Burgueses de Máximo Gorki.

A peça chegou a ser censurada algumas vezes durante seu ensaio, porém o grupo foi modificando o texto ao longo do processo de criação. A quantidade de informações e referências no espetáculo provavelmente representou um desafio à Censura Federal, que ao final do processo de avaliação cortou apenas alguns detalhes.

Trate-me Leão ficou em cartaz durante o segundo semestre de 1977 e o ano inteiro de 1978, sem subvenção ou patrocínio, apenas com o dinheiro da bilheteria. O último espetáculo ocorreu em 26 de dezembro de 1978 no Morro da Urca.

A peça fez muito sucesso e causou forte influência em muitos jovens e artistas, transformando o cenário cultural brasileiro.


Atores e personagens:



Evandro Mesquita / Fernando; Wilson; Maracá; João Carlos; Marquito; Quem Fica; Louie; Evandro Leão
Fábio Junqueira / Perfeito; Arthur; Plínio; Caíque; César; Charles; Hudson; Caio; José Paulo Leão
José Paulo Pessoa / Perfeito; Arthur; Plínio; Caíque; César; Charles; Hudson; Caio; José Paulo Leão
Hamilton Vaz Pereira / Perfeito; Arthur; Plínio; Caíque; César; Charles; Hudson; Caio; José Paulo Leão
Luiz Fernando Guimarães / Evandro; Jorge Alberto; Cabeça; Conde; Nestor; Daniel; Djamil; Fernando Leão
Nina de Pádua / Patrícia; A do 910; Luise; Sarita; Virgínia; Luci; Beth; Nina Leão
Patrícya Travassos / Regina; Gilda; Maria Suely; Alcione; Andréa; Quem Parte; Paula Meleca; Patrícia Leão
Perfeito Fortuna / José Paulo; Roberto Busqueta; Paulo; Linhares; Dudu; Pedro; Guilherme; Perfeito Leão
Regina Casé / Nina; Julita; Vanessa; Kátia; Balu; Tereza; Manola; Julinha
Nota: a peça estreou com Fábio Junqueira, o qual foi posteriormente substituído por Hamilton Vaz Pereira e José Paulo Pessoa.


Ficha técnica



Créditos na estreia da peça em abril de 1977:

Texto e direção: Hamilton Vaz Pereira
Luz: Jorginho de Carvalho
Cenário: Asdrúbal
Figurinos: Regina Casé e Patrícya Travassos
Trilha Sonora: Hamilton Vaz Pereira, Evandro Mesquita, Fábio Junqueira e Kaká Dionísio
Produção: Paulo Conde, Perfeito Fortuna e Luiz Fernando Guimarães
Sonoplastia: Kaká Dionísio
Cartaz: Evandro Mesquita
Condução: Nina de Pádua
Divulgação: Ruth Mezek


Sinopse



Primeiro ato

1º bloco – Salve, juventude!
Abordava questões relacionadas a família, apartamento e casa. (tempo aproximado 20 minutos)

2º bloco – Sessão doméstica
Temas relacionados ao quarteirão, bairro, esquina mais próxima. (tempo aproximado 25 minutos)

3º bloco – Voluntários da Pátria
Escola (tempo aproximado 20 minutos)

4º bloco – Ânimos exaltados
Trabalho, escritório, primeiro emprego, sentimento de ganhar algum dinheiro, tristeza e conformação. No fim do primeiro ato, o cenário ia para perto de um buraco do metrô, paisagem comum no Rio de Janeiro daquele momento. O personagem de Perfeito Fortuna cai e morre no buraco do metrô, os personagens vão para o paredão. (tempo aproximado 25 minutos)

Segundo ato

5º bloco – Grilos do mato
Natureza, praia, Mauá e campo. Esse bloco quebrava a dramaticidade do 4º bloco. (tempo aproximado 20 minutos)

6º bloco – Piraí
O retorno à cidade grande (tempo aproximado 15 minutos)

7º bloco – Mocidade independente
Os personagens se reuniam em comunidade em Santa Teresa (tempo aproximado 20 minutos)

8º bloco – Trate-me leão
O bloco final ocorria no palco. Os integrantes do grupo assumem que pertencem a uma trupe chamada Asdrúbal Trouxe o Trombone (sem tempo definido). A peça encerrava com a música Sofa #1 de Frank Zappa.


Histórico de encenações



Após nove meses de ensaios, a peça estreou no Teatro Dulcina (Rio de Janeiro) em 15 de abril de 1977, com público aproximado de 600 pessoas. A peça começou com um público normal, mas que foi crescendo progressivamente com o boca-a-boca e críticas positivas, surgindo convites para apresentação pelo Brasil.

Logo após a temporada no Dulcina, o grupo partiu para uma turnê em varias cidades no sul do país entre elas Porto Alegre, Santa Maria, Curitiba e Florianópolis. A peça fez um grande sucesso em Porto Alegre, com lotação e muita tietagem.

Ao chegar em Santa Maria em 7 de setembro de 1977, todos os atores foram presos sob a alegação de porte ilegal de drogas. O grupo ficou aprisionado em um quarto por cerca de dois dias, sendo logo depois liberado e saindo de Santa Maria sem realizar nenhuma apresentação.

Ainda em 1977, o grupo continuou por Santa Catarina e Paraná, voltando a Porto Alegre em 1978, logo após um intervalo no Rio. Nessa turnê, houve inclusive apresentações em locais predominantemente rurais.

A peça foi remontada no Teatro Ipanema durante o verão de 1978 no inédito horário de seis horas da tarde, ficando em cartaz por três meses de quarta a domingo. Não era incomum os atores irem para a peça direto da praia. Essa temporada fez novamente grande sucesso.

Em seguida, o grupo encenou no Teatro Ruth Escobar em São Paulo lotando a casa de 400 lugares. Em função da grande demanda, o espetáculo foi para o Teatro das Nações com cerca de 700 lugares, obtendo lotação por três ou quatro meses.

Após São Paulo, o grupo seguiu pelo nordeste com apresentações na Bahia, Aracaju, Recife, Fortaleza, Teresina e Nordeste acima. Também marcaram presença em Brasília e Belo Horizonte.

Quando já se achava que o espetáculo havia acabado, o poeta Chacal (namorado de Regina Casé na época) sofreu um sério acidente de carro e precisou de dinheiro para seu tratamento. O grupo Asdrúbal arrecadou fundos com um último espetáculo em 26 de dezembro de 1978 no Noites Cariocas (Morro da Urca).


Trocando em artes versão teatro volta mês que vem com Antígona.


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GUERRA DOS SEXOS

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