terça-feira, 24 de outubro de 2017

QUINZE ANOS: CAPÍTULO XV - JANEIRO (FINAL)


Deitei e não consegui dormir. Olhava para o teto de meu quarto, aquele que foi o teto que velou meu sono desde pequenininho quando vim da maternidade.

Lembrei de tudo que vivi naquela casa. Quinze grandiosos anos com muita emoção. Deixava lágrima cair de meus olhos numa saudade antecipada, saudade de tudo que deixaria para trás, que nunca mais seria como antes.

Deixaria minha avó, amigos, colegas de classe, vizinhos, professores, colégio, meus cachorros, Ericka..

..e me deixaria para trás, ali nasceria uma nova pessoa.

Amanheceu e chegou a hora de ir embora. Eu, minha mãe e minha avó descemos todas as caixas para colocar no caminhão em um clima triste onde mal nos falávamos porque fatalmente se alguém falasse algo o choro viria.

Colocamos tudo no caminhão também com ajuda de Mauro, Batista e os inquilinos. Minha avó e minha mãe subiram na bolEia do caminhão para irem com o motorista e eu atrás com as caixas.

Quando o motorista ligou o caminhão lembrei-me de minha bicicleta e pedi para esperar.

Desci correndo aos gritos de minha mãe para que deixasse a bicicleta pra lá que em Barra dos Bugres compraria outra, mas nem lhe dei ouvidos. Foi com a aquela bicicleta que aprendi a pedalar e nunca a deixaria pra trás.

Coloquei no caminhão e partimos.

Eu da caçamba olhava as ruas, os lugares que deixava pra trás e mentalmente me despedia de cada esquina. Conformava-me com a despedida quando o caminhão parou na altura da Estrada do Galeão, perto do colégio.

Perguntei o que ocorreu e o motorista disse que o pneu furara e teria que trocar. Minha mãe, avó e eu descemos do caminhão e minha mãe perguntou quanto tempo demoraria pra trocar, o homem respondeu uns vinte minutos.

Minha avó deu um suspiro aliviada por termos saído com bastante antecipação e assim não nos prejudicarmos com o horário quando eu olhei bem onde estávamos e pensei “Estou perto, isso é destino”.

Enchi-me de coragem e peguei minha bicicleta da caçamba. Minha mãe perguntou aonde eu iria e eu respondi que em quinze minutos estaria de volta. Pedalei rapidamente com ela gritando para que eu voltasse.

Novamente não lhe dei ouvidos.

Parei na esquina de uma rua onde vendiam flores e comprei um buquê. Voltei a pedalar e entrei na rua que eu queria.

Parei na frente da casa que procurava e respirei fundo de novo antes de tocar a campainha. Toquei freneticamente com a pessoa do lado de dentro pedindo calma que já abriria.

Ela abriu e deu de cara comigo e o buquê.

Era a Ericka, fui a sua casa.

Ela espantada disse “Quinzinho?”. Eu entreguei as flores em sua mão e Ericka olhou para elas e depois pra mim sem esboçar nenhuma reação mantendo o espanto.

Ia subindo na bicicleta para ir embora e do nada joguei a mesma no chão. Voltei até a Ericka e lhe dei um beijo na boca, apaixonado que ela não evitou.

Não, não era mais um sonho louco meu. Esse foi real, beijei mesmo.

No fim do beijo peguei minha bicicleta do chão e dei um sorriso para minha amada. Ericka com o buquê na mão devolveu o sorriso e com esse sorriso comecei a pedalar indo embora.

Eu estava feliz, radiante. Gargalhava enquanto pedalava e sentia o frescor do vento em meu rosto.

Até que fiquei em pé na bicicleta, estendi os braços e fechei meus olhos para sentir todo aquele vento em mim.

Saudade daquele tempo.


Como é bom ter quinze anos de idade.



FIM


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