terça-feira, 17 de outubro de 2017

QUINZE ANOS: CAPÍTULO XIV - JANEIRO (1º PARTE)


Estou em Barra dos Bugres, em uma fazenda. Estranho que está tudo em preto e branco. Estou brincando pela fazenda e minha mãe grita pra eu entrar em casa que um furacão se aproxima.
Vejo o furacão se aproximar e corro pra casa desesperado, mas antes que eu consiga um tronco de árvore é arremessado pelo vento e atinge minha cabeça, com isso eu desmaio.

Acordo um tempo depois em um lugar todo colorido e as pessoas comemoram, não entendo o porquê e pergunto. Elas respondem que eu matei o bruxo mau do leste.

Quando vejo o professor Martins está vestido com roupa de bruxo e caído, quando surgi naquele estranho local caí em cima dele e o matei.

Pergunto que lugar é aquele e me respondem que se chama “Oz”. Sem nada entender eu digo que quero voltar pra casa e as pessoas mandam que eu coloque um par de butinas prateadas do professor e siga uma longa estrada de tijolos amarelos que no fim eu encontraria o mágico de Oz e ele me daria o caminho de volta para casa.

Percorro o caminho cantando “over the rainbow” e no meio dele encontro George vestido como espantalho e sendo devorado por pássaros. Consigo soltá-lo e salvar sua vida. George agradece e diz que quer ir comigo até o mágico porque quer um cérebro.

Andando mais um pouco encontramos Rodrigo vestido como lata. Ele está rijo, todo duro e passamos óleo para soltar seu corpo. Ele agradece e nos acompanha porque quer um coração.

Mais um pouco à frente encontramos Luis Felipe parecendo um leão que também nos acompanha porque quer coragem.

Conseguimos chegar ao castelo do mágico e ele nos recebe na penumbra. Com voz cavernosa pergunta o que queremos e nós respondemos. Ele diz que para conseguirmos nossos pedidos temos que matar o bruxo mau do oeste.

Nos passa as coordenadas para chegar até ao bruxo e quando chegamos encontramos o Gustavo.

Perguntamos o que ele faz ali e Gustavo nos responde que a história era minha então eu que tinha que responder a isso.

Digo que tenho que matá-lo para voltar pra casa e ele responde que não preciso ir tão longe, ele fingiria que morreu e eu tirava uma foto.

Assim ele se jogou no chão, colocou catchup na boca e eu tirei uma foto pra levar ao mágico.
Chegando ao castelo descobrimos que ele era uma fraude, na verdade era o Marco Aurélio disfarçado. Ficamos frustrados e ele nos diz para não ficarmos tristes porque a solução estava dentro de nós.

Não entendemos e ele vira para George e diz que ele tem um cérebro. George responde que não, que era burro e Marco insiste que ele tem. Os dois discutem um tempo e Marco pergunta “Você não passou de ano?”, George responde que sim e Marco diz que ali estava o motivo de sua inteligência.

Depois vira para Rodrigo e diz que ele em coração, Rodrigo não concorda e Marco lembra-se da cena de “Top Gum” que o amigo de Tom Cruise morre, Rodrigo se emociona e pede para que ele não lembre que sempre chora nessa parte, nisso Marco diz “Viu? Emociona-se porque tem coração”.
Depois vira para Luis Felipe e olha para ele durante alguns segundos até que conclui “é, você não tem jeito mesmo, é covarde”
.
Enquanto Luis Felipe se revolta eu pergunto ao mágico sobre meu problema e ele diz que o segredo estava nos meus sapatos. Pergunto se era pra bater com eles e dizer “não há lugar melhor que o nosso lar” e ele responde que não, que era pra correr com eles e ir pra rodoviária que sairia um busão “Oz/Barra dos Bugres” em meia hora.

Chego correndo na rodoviária e quando entrego o dinheiro no guichê dou de cara com minha mãe e no espanto digo “mãe?”.

E ela responde a mim sonolento na cama “sim, acorda que você tem que me ajudar a arrumar as malas”.

Levantei aliviado, fiquei muito feio de Dorothy.

Acordo em 1990 em meu penúltimo dia no Rio de Janeiro antes de ir embora. Ralei o dia todo empacotando as coisas que o caminhão levaria até a rodoviária. Eram muitas coisas e eu me perguntava se tudo caberia dentro do ônibus.

No fim do dia estava morto e só queria uma cama. Tomei um banho e deitei dormindo na mesma hora.

Quinze minutos depois minha mãe me acordou dizendo que tinha visitas.

Levantei e fui ao portão dando de cara com meus amigos George, Gustavo, Rodrigo, Marco e Luis Felipe com refrigerantes e muitos quitutes na mão. Gustavo perguntou se eu achava mesmo que eles me deixariam ir embora sem despedidas e feliz abri o portão para eles.

Foi uma noite maravilhosa, inesquecível. No meio de muitas risadas lembramos nossas histórias inesquecíveis desde que construímos essa irmandade.

Felipe se lembrou do vômito na sala de aula, Marco do medo que eu tinha de seus chutes, Gustavo de quando éramos apaixonados por Raquel, George do espanto de todos quando declarou em sala de aula que era burro e Rodrigo de nossa noite na casa mal assombrada.

Fiquei emocionado e com lágrimas nos olhos lembrando todas aquelas histórias de meus irmãos e notei que eles também se emocionaram, aqueles cinco eram os melhores amigos que um menino poderia ter e eles estão encravados em minha alma até hoje e posso dizer que pra sempre.

Sempre fui melhor escrevendo que falando, mas arrumei coragem e gaguejando falei. Disse que não sabia se nos veríamos novamente e que eu queria muito que isso ocorresse, mas se não tivesse essa oportunidade eles para sempre estariam em meu coração. Nesse momento soquei meu peito para reforçar esse sentimento.

Vi meus amigos chorando e Marco limpando as lágrimas disse que eu escrevia muito bem e pediu que um dia eu escrevesse sobre nossa história.

Olhei para ele e prometi que faria. Nesse momento os seis estenderam as mãos e colocamos uma sobre as outras firmando assim uma promessa de amizade eterna.

Minha mãe viu toda a cena e colocou um disco do Balão Mágico na vitrola. Quando percebemos começamos a cantar abraçados e a pular feito malucos ao som de “somos amigos, amigos do peito amigos de uma vez/somos amigos, amigos do peito amigos de vocês”.

A noite acabou e chegou a hora deles irem embora. Enquanto me despedia deles no portão minha mãe apareceu com uma máquina fotográfica e pediu para posarmos para uma foto.

Assim os seis se viraram abraçados e posaram para a fotografia gritando “xis”.

Um fazendo chifrinho no outro, sorridentes, com brilho adolescente nos olhos de quem é feliz e anseia por um grande futuro.

Cada um seguiu sua vida com o grupo se desfazendo aos poucos. Crescemos, viramos adultos, pais, nunca mais vi nenhum deles.

A foto desbotou, mas o amor por eles jamais.

Continua...


CAPÍTULO ANTERIOR

DEZEMBRO

Nenhum comentário:

Postar um comentário