sexta-feira, 22 de abril de 2016

UMA ILHA COM BAIXA AUTO ESTIMA


Estava fazendo uma análise sobre minha vida. Dessa mais recente de 2013 para cá.

De dezembro de 2013 até o dia atual se passaram vinte e oito meses. Nesses vinte e oito meses sete peças minhas foram apresentadas em quatro estados brasileiros, três regiões do Brasil, sete cidades diferente. As sete peças renderam vinte e oito apresentações. Média de uma por mês. Não são muitos os autores brasileiros atuais que conseguem isso.

Dessas vinte e oito nove em São Paulo, quatro em Ribeirão Preto, cidade que eu nunca tinha passado nem perto na vida, três em Salvador, cidade que nunca fui.

Três na Ilha do Governador, o meu bairro, local que moro desde que eu nasci.

Eu fui duas vezes a Ribeirão Preto com tudo pago, sem gastar um real e tendo hospedagem, transporte e alimentação pagas pela companhia local. Fui ovacionado por um teatro Municipal cheio e ainda respondi perguntas da plateia e dos atores no fim. Geralmente minhas peças são assim o que mostra que ruim não sou. Aqui na Ilha é um parto conseguir apresentar. Dessas três apresentações uma eu tive que trazer companhia de teatro de São Paulo para se apresentar em um local sem camarim, coxia ou ventilação e sem poder pagar ingresso, uma foi leitura de uma peça e a terceira agora no Teatro Óperon.

Apresentação que seria o início de uma temporada, da temporada de reabertura do teatro. Que nos acarretou gasto, trabalho de mídia e depois de uma muito bem sucedida primeira apresentação foi sumariamente interrompida por dois motivos.

O problema das ocupações de alunos em colégios estaduais foi o primeiro. Estão com medo que ocupem o Tia Lavor, colégio onde fica o teatro. Se eles quisessem ocupar não precisavam de uma peça de teatro, eles estão de segunda a sexta dentro da escola para estudar. Era só não saírem.

O outro motivo foi cobramos ingresso. Isso mesmo, cobramos ingresso.

Será que pensam que cultura é filantropia? Que artista trabalha de graça? Eles não cobram por seus trabalhos? Será que acharam que gastamos ajeitando a eletricidade do teatro, colocando cortina, luz, som, figurinos, cenários, banners, ingressos porque gostamos de gastar e vivemos de vento?

Essa é a mentalidade da Ilha do Governador. Nem é por falta de espaço, existem dois teatros aqui. O Lemos Cunha, que tem mofo, abafado e mesmo assim cobravam cinco mil reais por seu aluguel sendo que teatros como o Miguel Falabella no Norte Shopping, o principal da Zona Norte do Rio cobra oitocentos nas terças. Agora nem cobram mais cinco mil porque o teatro está fechado. O outro é o Óperon. Em condições de ser usado, mas que está fechado porque não sabiam que artista cobra.

A gente sempre vem batendo no problema cultural da Ilha do Governador, mas não é só isso. Não é a cultura da Ilha que é um problema. É a Ilha do Governador totalmente.

A Ilha é um bairro de mais de trezentos mil habitantes, onde fica o aeroporto que liga a cidade ao mundo, tem Petrobras, tem estaleiro Eisa, empresas, comércio, shopping, colada a Linha Vermelha, a Avenida Brasil e mesmo assim não tem representatividade nenhuma.

Poucos são os artistas que saíram daqui, poucas são as pessoas que tem algum tipo de representatividade e importância nacional e nasceram na Ilha. O insulano é acomodado, acha que está tudo sempre bem desde que possa ir na União da Ilha, no Iate Clube Jardim Guanabara, na Boate Provisório ou na roda se samba do Bar Provisório.

Um bairro com baixa auto estima.

Sim, baixa auto estima porque nada de relevante acontece aqui e o insulano não se interessa para que ocorra, ele não se impõe, não levanta a cabeça para mostrar a importância que sim poderia ter por seu tamanho e geografia. Os políticos da Ilha são inexpressivos. Não temos nenhum deputado federal, estadual foi cassada e vereadores são de baixo clero. Passam dentro do bairro imagem de importantes e lá na Câmara passam desapercebidos.

A Ilha não tem representatividade e por não ter representatividade nada acontece aqui. Vira a última das opções da cidade que prioriza outros locais. Enquanto vários bairros já tem Arenas culturais a Ilha mal tem uma Lona que está toda arrebentada e não terá tão cedo pela falta de relevância política.

Vereador ou candidato a vereador aqui só quer saber de patrocinar camisas de parcerias de samba enredo (O samba da Ilha em relação ao resto da cidade hoje também é inexpressivo), botar carros de som em ensaios de rua ou festas de vitória ou dar diploma de moção de aplausos para alguma entidade. Acham que só revitalizar orla é o suficiente para ser bom gestor.

Insulano acha que pela Ilha ser um dos bairros mais calmos da cidade é privilegiado, mas esquece que aqui é mais calmo (E mesmo assim já foi bem mais) porque tem um grupo que está acima da média do bairro em inteligência, organização e profissionalismo. O Tráfico de drogas.

O tráfico que não deixa ter confusão aqui, que não haja homicídios, assaltos do nível do resto da cidade, sequestros ou crimes hediondos. Porque o comércio de drogas no Dendê é um dos mais lucrativos do Rio e não interessa a eles chamar atenção da polícia ou do estado para que tenha um policiamento reforçado ou UPP. É isso, não tem muitos crimes na Ilha porque os criminosos protegem a Ilha.

Criminoso como fechamento da UPA provocando superlotação no Evandro Freire e o péssimo serviço de transportes que temos. É mais fácil depois de meia noite você ver uma freira trabalhando no Peixão (Famoso prostíbulo do bairro) que ônibus da Viação Paranapuã.

Essa é a Ilha do Governador, o bairro que eu amo e que moro. Pretendo morar aqui pelo resto da minha vida, mas queria muito que nesse tempo restante o bairro melhorasse.

Para isso tem que deixar de ser uma ilha econômica, política, social e cultural.

Ou então se separar de vez.


Quem sabe aí não está a solução?


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