terça-feira, 5 de abril de 2016

ANTES QUE EU ME ESQUEÇA


Eu tinha resolvido que não faria coluna esse ano para falar do aniversário da morte de minha mãe. Desde 2013, ano que comecei a escrever nesse espaço, lembrei em todos os anos e achava que já tinha esgotado o tema. Mas sempre aparece alguma coisa.

Alguns minutos atrás estava com Bia e Gabriel em meu quarto. Bia via vídeo no youtube e falei para ela que fazia onze anos que a vovó tinha partido. Falamos muito rapidamente sobre isso, Bia não é muito dessas coisas, e parei para relembrar.

Relembrar e me assustar por não conseguir relembrar tanto.

Evidente que lembro de muitas situações, histórias entre a gente, mas o distanciamento da data da morte faz com que a memória comece a falhar. Onze anos é muito tempo, uma vida. Lembro muito pouco de sua voz, a única coisa que ainda me recordo é de quando ela me ligava e dizia "Isio, mamãe". Mas só lembro dessa expressão, não lembro mais sua voz em situação nenhuma.

Assim como hoje me toquei que não lembro mais de sua risada. Não lembro se era expansiva, comedida, alta, baixa, pra dizer a verdade lembro nem mais se ria muito.

Isso me incomoda demais. Incomoda mais lembrar que ela morreu num tempo que não existiam celulares com câmeras, o que facilita muito para registrar momentos em fotos e vídeos. Tenho pouquíssimas fotos dela, nenhum vídeo e assim vem a sensação que daqui a pouco a imagem sumirá também.

Só ficará o sentimento, que evidente é importante, mas é pouco.

É um alzheimer emocional. O tempo faz esquecermos coisas e situações que eram vivas. Uma dupla morte. A morte de quem amávamos e a morte da memória. Não é de propósito, não é falta de consideração por mais que incomode e faz ter peso na consciência. É humano.

A vida não para, o tempo não para. Aquela que um dia foi o grande amor da nossa vida, aquela pessoa que iríamos fazer família um dia pode virar alguém com quem não temos mais assuntos para falar. O melhor amigo de anos pode virar um desconhecido com o tempo. A mãe pode virar uma remota lembrança e um dia chegarmos a uma idade que vivemos mais tempo sem ela que em sua companhia. É cruel isso tudo. Mas nunca foi dito que viver era fácil.

Um grande e inesquecível amor que vira uma saudade dolorosa e que parece que vai nos rasgar por dentro. Uma dor que serve como fogo num papel de lembranças e aos poucos consumindo e transformando em cinzas tudo que um dia foi tão importante. Que um dia a gente percebe que essa dor diminuiu, mas levou consigo tudo que era bom e bonito.

Tantas coisas ocorrem já desde sua morte!! Minha vida mudou tanto!! O Aloisio que fará quarenta anos em agosto em nada lembra o Aloisio de vinte e oito que enterrou a mãe. Parece que aquele Aloisio foi esquecido também nesse Alzheimer. Foi enterrado junto. Sufocados com novas histórias e novas lembranças que surgem a cada dia.

Dizem que a cada história que memorizamos nosso cérebro esquece de algo. Não queria esquecer..

É triste esquecer e ser esquecido.

Deve ser triste envelhecer e aos poucos esquecer das coisas, pessoas, histórias até esquecer de si mesmo. É um pedaço de morte a cada dia que toma conta de alguém até que se torna um morto vivo porque alguém sem lembranças não vive. Uma pessoa é feita de histórias e saudades.

E eu preciso sentir saudades. Todos nós precisamos.

Pensando bem faço o certo escrevendo todos os anos. É uma forma de mostrar o quanto dona Regina permanece viva em minha vida mesmo que esqueça sua voz, risadas e um dia esqueça seu rosto. Porque a cada registro aqui mostro que minha alma está intacta em seu amor.

E assim como toda forma de amor vale a pena digo que mostrar também. Vale a pena registrar o quanto alguém é especial. Aproveitar enquanto eu posso.

Antes que eu me esqueça.


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