terça-feira, 9 de setembro de 2014

INOCÊNCIA PERDIDA


*Conto publicado na coluna "O buraco da fechadura" do blog "Ouro de Tolo" em 10/8/2013


Alice levava uma vida normal. Recém chegada a adolescência estudava em um colégio público perto de casa e a tarde fazia curso gratuito de informática. A menina adorava computadores e sonhava trabalhar no ramo.
Começava a se interessar pelos menininhos tendo um em especial que chamava sua atenção na sala de aula, mas tímida não se declarava e ia as nuvens por qualquer sorriso que ele desse. Só que ao mesmo tempo em que se interessava pelo sexo oposto ainda brincava de bonecas nessa mistura de menina e mulher, exalava ainda inocência e pureza.
Filha única de Ramiro e Teônia tinha uma relação um tanto áspera com a mãe, fria onde não se entendiam muito bem. Com o pai era ao contrário, Ramiro era seu melhor amigo, com o pai se abria e contava seus medos, anseios e amores, foi Ramiro que soube primeiro quando a menina menstruou e comprou seu primeiro absorvente.
Ramiro era um poeta. Gostava de declamar poesias nos bares que frequentava, alcoólatra vivia de bicos e com isso tinha que aturar as reclamações da esposa que lhe chamava de vagabundo e que não conseguia dar uma vida decente para as duas. Alice consolava o pai pedindo para que ele não ligasse para a mãe e Ramiro respondia que já se acostumara e que um dia os poetas e loucos dominariam o planeta.
Apesar de todos os problemas que o homem tinha Alice nutria pelo pai grande orgulho e amor e ela era seu xodó. Não eram raras as vezes que Ramiro chegava em casa, até mesmo bêbado, com uma rosa na mão para entregar a sua filha querida.
Mas a vida começava a cobrar os abusos de Ramiro com a saúde. O homem contraiu cirrose e coube a Teônia a incumbência de botar dinheiro em casa vendendo empadinhas. Ramiro não conseguia sair mais de casa, mal conseguia levantar da cama e era cada vez mais humilhado pela mulher. O homem se entristecia e Alice pedia que tivesse calma deitando-se na cama e abraçando o pai.
Era um amor tão grande que nem mesmo a morte era capaz de separar e ela não foi mesmo. Depois de alguns meses de sofrimento Ramiro enfim descansou. Poucas pessoas foram até seu enterro e Alice chorava a perda não só de seu pai, mas do melhor amigo.
Teônia de forma fria assistia o caixão do marido descer a sepultura e depois olhou sério para Alice dizendo que teriam que se entender. Alice abaixou os olhos e respondeu tudo bem e que não seria problema para a mãe. Teônia falou que esperava que não fosse mesmo e chamou a filha para voltar pra casa e ajudá-la a fazer as empadas.
A relação delas não melhorou muito, mas não tinha brigas. Era frieza, um certo distanciamento. Alice sentia falta do pai, de suas conversas e risadas. Não tinha nada disso com Teônia e parecia demorar mais a se acostumar com a perda, ao contrário de sua mãe.
Teônia deixou a vida continuar, aos poucos começou a sair pra se divertir e frequentar um forró que tinha perto de casa.  Muitas vezes Alice dormiu sozinha em casa com a mãe chegando apenas de manhã e bêbada contando como se divertira.
Um dia ela chegou com uma novidade em casa. Chegou de braços dados com um homem e apresentou a Alice como Gomes, seu novo namorado. Alice sentiu um frio na espinha ao cumprimentar o homem e Teônia pediu que a filha botasse mais um prato na mesa.
Com o tempo Gomes não saía mais da casa delas até que se mudou pra lá de mala e cuia. Alice se incomodava com aquela situação, mas aprendera que o silêncio era seu novo melhor amigo. Não eram raras as vezes que pegava o casal transando e se constrangia com a cena, deitava na cama e chorava de saudades do pai.
Notava que Gomes lhe olhava de modo diferente, não apenas como namorado da mãe e isso incomodava. Não tinha com quem conversar sobre a situação, não confiava em nenhum dos seus amigos de colégio muito menos em sua mãe.
Uma noite estava deitada perto de dormir quando sentiu sua porta abrir. Gomes sentou em sua cama e perguntou se ela estava bem. Alice nervosa debaixo das cobertas respondeu que sim. O homem então debruçou se sobre ela e deu um beijo em seu rosto desejando boa noite. Encostou tudo seu corpo sobre o dela e alisou suas pernas antes de ir embora.
Alguns dias depois Teônia contou que teria que fazer uma viagem pra ajudar a irmã doente e que Alice ficaria tomando conta da casa com Gomes. A menina se apavorou e pediu que a mãe não lhe deixasse sozinha e a levasse junto. Teônia recusou pedido e mandou que a filha parasse de besteira que já era bem grandinha pra ficar agarrada a saia da mãe e ainda teria Gomes pra ajudá-la no que quisesse.      
Mas Gomes não queria ajudar Alice em nada, muito pelo contrário. Os primeiros dias com Teônia viajando foram tranqüilos, mas no terceiro dia ela chegou em casa e viu o padrasto bebendo com um homem.
Gomes já embriagado chamou Alice até a sala e pediu que ela pegasse uma cerveja na geladeira. A menina apavorada foi até a cozinha pegar a bebida rezando a Deus que nada de mal acontecesse a ela. Chegou com a cerveja na sala e Gomes pediu que servisse ao amigo e ele.
Alice serviu ao homem e depois enchendo o copo de Gomes ouviu o padrasto comentar com o amigo que a enteada era muito bonita. Puxou Alice para perto dele e colocou a mão por debaixo de sua saia fazendo a menina chorar.
O amigo respondeu que realmente a menina era linda e Gomes com a mão dentro da calcinha de Alice perguntou se não era uma boa verem se ela tinha mais qualidades além da beleza. Levantou e puxou Alice para o quarto acompanhado do amigo. A menina apenas chorava baixinho e Gomes dizia pra ela ficar calma e lhe visse como um pai.
Os dois homens abusaram de Alice e no fim a menina chorava nua deitada na cama. Gomes colocava a calça e falava que Alice nem precisava ser avisada para que não contasse essa história a ninguém, principalmente Teônia e que se contasse morreria.
A vida de Alice virou um inferno. Quase todas as noites Gomes passava pelo quarto dela e abusava da enteada que tinha apenas quatorze anos de idade. Sem ter vontade Alice virou amante do padrasto e mesmo com Teônia já voltado de viagem sempre era procurada.
Até que um dia Teônia entrou no quarto da filha e pegou em flagrante Gomes em cima de Alice.
A mulher deu um grito e partiu pra cima da filha acusando de ter seduzido seu marido. Alice apenas tentava se defender enquanto Gomes vestia-se e saía tranquilamente do quarto. A menina pedia desculpas mesmo sem ter culpa de nada e Teônia furiosa mandou que ela arrumasse suas coisas e fosse embora da casa.      
Alice chorando implorava piedade a mãe por não ter para onde ir, mas Teônia transtornada apontava para a porta e gritava “rua”.
Alice não teve alternativa a partiu daquela casa.
Vagou pela rua desamparada, sem ter pra onde ir quando viu um taxista. Estava com fome e pediu dinheiro ao homem para comprar algo. O taxista olhou Alice de cima a baixo e disse que lhe daria dinheiro sim, mas queria algo em troca.
Alice foi obrigada a transar com o taxista em troca de dinheiro e no fim o homem deu a grana e disse que tinha um lugar bom para levá-la onde ganharia muito dinheiro. Alice já imaginando o que era e sem alternativa aceitou.
O taxista levou Alice até um bordel e entrou com a moça chamando por dona Lu. Uma senhora apareceu e o homem disse que tinha encomenda pra ela. A mulher chegou perto de Alice que parecia um bicho do mato e olhou seu cabelo, suas unhas, dentes e perguntou quantos anos ela tinha.
Alice respondeu que tinha quatorze e o taxista na hora emendou que era novinha, mas entendia do riscado. Dona Lu olhou um pouco mais para Alice e disse que arrumaria uma identidade falsa pra ela dando um dinheiro ao taxista pela “encomenda”.
Mandou que algumas meninas levassem Alice para o segundo andar e dessem um banho com esfregão nela além de roupas novas, queria a menina um “brinco” para os homens que chegassem mais tarde.
Alice foi levada e durante o banho mostrava-se muito assustada falando nada. As meninas tentavam tranquilizar dizendo que o primeiro dia era mais difícil, mas logo ela se acostumaria e ganharia muito dinheiro.
Alice desceu parecendo outra. Estava linda e logo chamou a atenção dos homens do bordel. Um homem logo se interessou e levou a menina para o quarto. No local Alice deitou na cama nua e fechou os olhos com o homem em cima arfando como um porco. Quando ele saiu a menina contou o dinheiro e viu que valia a pena.
Ganhou muito dinheiro naquele dia e nos dias seguintes. Logo pôde sair e comprar roupas novas, perfumes, joias. Alice era linda, jovem, atraía muito os homens e com o tempo aprendeu a usar esse poder arrancando deles o que queria.
Virou amante de políticos, empresários, artistas, a preferida da casa causando ciúme nas outras meninas.
E lá conheceu o amor.
Uma noite um de seus amantes mostrou o filho, um rapaz tímido que mal conseguia tirar os olhos do chão. O homem disse que seu filho era virgem e queria que tivesse sua primeira noite com ela. Alice sorriu e contou que seria um prazer pegando pela mão o menino e levando para o segundo andar.
Entraram no quarto e o menino ficou sentado sem reação. Alice ficou apenas de calcinha e sutiã e começou a beijar o pescoço do menino, abraçá-lo por trás e ele pediu calma perguntando se não conversariam antes.
Alice se surpreendeu, nunca ninguém pedira pra conversar e concordou. Sentou-se ao seu lado e perguntou seu nome. O menino respondeu que era Rogério e perguntou o de Alice que respondeu.
Os dois conversaram por um tempo e Rogério mostrou-se uma agradável companhia. O papo foi tão bom que esqueceram de transar e na saída Rogério contou a menina que não se preocupasse que contaria ao pai que ela foi maravilhosa.
Alice já estava há algum tempinho naquela vida, já era descolada, tinha auto estima elevada, mas ainda era uma menina e se encantou com o rapaz.
Rogério voltou mais vezes e eles batiam papo. O rapaz contava da sua vida e Alice também se abriu como no tempo que conversava com o pai. Nunca mais confiara em ninguém, mas sentia essa confiança em Rogério. Contou todos os detalhes, os abusos que sofrera do padrasto e Rogério indignado falava que ele merecia morrer.
Uma noite o rapaz se despedia de Alice que falou “espera”. Rogério se virou e ela lhe beijou, o primeiro beijo da vida de Rogério e por incrível que pareça também de Alice. Depois do beijo a menina pegou a mão do rapaz e disse “vem”. Conduziu até a cama e pela primeira vez Rogério transava, pela primeira vez Alice fazia amor.
Começaram a namorar enquanto Alice vivia aquela vida dupla. A menina começara a recuperar o frescor, a inocência perdida e não queria mais aquela vida, queria ficar com Rogério.
O rapaz também não aguentava mais ver seu amor deitando-se com outros homens e chegou na casa puxando Alice para um canto contando que iriam fugir. Ela não entendeu o que ele queria e Rogério contou que tinha muito dinheiro guardado e iria tirá-la de lá naquela noite.
A menina se apoiou completamente tonta na parede e Rogério se assustou perguntando se ela não queria. Alice sorriu e respondeu “claro que sim”. Rogério passou a mão no rosto da namorada e falou “no final da noite”.
E no final da noite Alice pulou a janela e entrou no carro de Rogério para ser feliz. O carro partiu e por coincidência no caminho tinha o bairro que ela morou com a mãe. Alice pediu que Rogério passasse na rua que morava e quando passaram devagarzinho viram Teônia saindo da residência dando um beijo em Gomes.   
Alice pediu que Rogério parasse e esperasse um pouco que ela já voltaria. Rogério perguntou o que a namorada iria fazer e ela mandou que confiasse.
Alice bateu na porta de sua antiga casa e Gomes abriu a porta. O homem se assustou com a enteada na porta e Alice perguntou “posso entrar?”.
Antes que Gomes respondesse algo Alice entrou e fechou a porta. O homem perguntou o que ela queria e Alice respondeu “fiquei com saudades” dando um beijo em Gomes. 
Gomes correspondeu ao beijo e tentou levar a menina para o sofá. Ela respondeu que não queria ali, queria no quarto da mãe onde nunca fizeram. Gomes deu um sorriso e falou “safada”.
Foram até o quarto se beijando e Alice sentou-se na cama de frente a Gomes. Abriu o zíper da calça do homem enquanto Gomes falava “vai safada, faz sua especialidade”.
Depois disso ouviu-se um imenso e terrível grito, de uma dor alucinante. Gomes caía no chão encharcado de sangue enquanto Alice levantava com sangue na boca limpando a mesma na colcha da mãe e dizendo “você nunca mais estupra ninguém seu desgraçado e se quiser achar seu pênis ele caiu embaixo da cama”.
Alice saiu da casa deixando o homem se esvair em sangue no quarto, entrou no carro e disse a Rogério “agora podemos ir”.
A vingança é um prato que se morde frio.

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