terça-feira, 16 de setembro de 2014

A LOLITA E O DINHEIRO



*Capítulo do livro "Enredo do meu samba" publicado no blog "Ouro de Tolo" em 18/1/2014


Peguei a mão de Bia e disse “Olha eu nem sei se essa história é verdadeira. Pra dizer a verdade tenho dúvidas em quase todas do livro, mas obrigado”.

Bia sorriu pra mim, respondeu que não precisava agradecer e olhou o relógio dizendo que precisava ir.

Agradeci por tudo e nos abraçamos. Nossas bocas ficaram próximas uma da outra com a sensação de quase beijo, mas caí na real e me desvencilhei. Bia olhou fixamente pra mim e disse que qualquer coisa era só procurá-la.

Voltei até a porta do quarto e vi meu pai ali deitado. Nunca vira seu Jair tão quieto. Homem trabalhador, dedicado, ativo, ali daquela forma. Pedi a Deus que fizesse o melhor para ele, não importando o que fosse.

Sentei novamente no sofá da recepção e fiquei olhando o relógio. Adormeci e fui acordado pelo médico. 

Assustado, levantei e perguntei como meu pai estava. O homem colocou a mão em meu ombro e só disse “sinto muito”. Sentei não acreditando naquelas palavras. Pedi que Deus fizesse o melhor para ele e o Senhor fez levando meu pai para sua morada.

Chorei um pouco, respirei fundo e liguei para Bia. Quando ela atendeu apenas disse “aconteceu”.

Seu Jair Agenor Natal de Oliveira. Por coincidência tinha o Agenor de Cartola e o Natal do lendário bicheiro no nome. Nomes dos maiores baluartes da história da Mangueira e da Portela. Baluartes como meu pai foi.

Homem que nasceu no samba. Começou criança acompanhando os bambas querendo aprender. Foi passista, harmonia passando a direção, chegou a ser diretor de carnaval de algumas escolas. Homem apaixonado pelo samba e fez o samba se apaixonar por ele.

Meu pai é a personificação de vários sambistas. Homens de cabelos brancos, jeito calmo, fala pausada acompanhada de uma cervejinha e muitas histórias pra contar. O Clark Kent que coloca uma calça branca, sapato branco, chapéu panamá e vira superman. Lendas vivas que se escondem por trás de um sorriso largo.

E meu pai, além disso, tudo era meu ídolo. Além de meu ídolo meu melhor amigo e ele se foi. Se foi para encontrar minha mãe.

No enterro muitos sambistas. Cemitério cheio com bambas de todas as escolas. As coroas de flores dividiam lugar com as bandeiras das agremiações que meu pai representou com tanto respeito. Mas enterro de sambista é diferente. Enterro de sambista tem samba e cerveja.

As velhas guardas do lado de fora com instrumentos cantavam sambas-enredo e mandavam salves para meu pai. Eu, desolado, fiquei dentro da capela o tempo todo acariciando os cabelos do meu velho.

Bia entrou e perguntou se eu estava bem. Sem olhar para minha ex respondi que estava sozinho no mundo. Ela se aproximou, acariciou meus cabelos e me deu um beijo na testa dizendo que nunca estaria sozinho.

Um surdo fez a marcação enquanto o caixão de meu pai descia a sepultura. 

Os sambistas, baixinho, cantavam “quando eu não puder pisar mais na avenida, quando as minhas pernas não puderem aguentar”. O caixão desceu, a sepultura fechou e meu pai virou história e saudade.    

Enquanto eu saía do cemitério dona Elza me chamou. Aproximei-me da mulher e ela me entregou um caderno. Perguntei o que era e minha ex-sogra disse que era uma vontade dele, pediu que me entregasse.

Peguei, agradeci e dona Elza começou a chorar dizendo que sentia sua falta. 

Abracei a mulher e ficamos ali quietos.

Cheguei em casa, abri o caderno e comecei a chorar. Eram histórias para o meu livro que ele tinha escrito pra me entregar. Meu velho sabia que iria morrer e antes quis me dar esse presente. Na primeira folha estava escrito “Eu te vi me seguir até o motel. Menino danado que eu amo”.

Eu também te amo e amarei pra sempre meu querido pai.

Bem..Vamos a primeira dessas histórias.

Joana era um piteuzinho, a norinha que mamãe pediu a Deus, uma “Lolita” mesmo, aquela que faz babar homens de todas as idades. 

No auge de seus dezesseis anos. Peitinhos empinados, bunda durinha já era pra ser passista da Unidos de Vila Santa Tereza, mas sua mãe Dora era pulso firme e não permitia a filha com pouca roupa sambando. Máximo saindo em ala da comunidade.

Dora já fora passista e até rainha da bateria da agremiação, mas depois da morte do marido tornou-se uma carola convicta. Ia três vezes por dia à missa e não queria mais saber de samba.

Mas mesmo tão fanática permitiu que Joana frequentasse o samba. Até porque a menina tinha “cabelo nas ventas” como falam os mais antigos. 

Personalidade forte e firme em suas posições.

Amava samba desde pequena, desde que sua mãe era rainha da bateria então não adiantava. Estava no sangue.

Dessa forma as duas conseguiam conviver de forma harmoniosa. Uma respeitava a liberdade e as opções da outra. Eram amigas e Joana insistia para que a mãe estava viva e tinha que arrumar um novo namorado.

Dora não queria, dizia que vivia para honrar a memória do pai e Joana insistia que era besteira. Dessa forma as duas viviam e dessa forma surgiu um homem.

Acácio era frequentador da igreja. Assim como Dora era devoto de São Sebastião e ia três vezes por dia nas missas. Cumprimentavam-se educadamente e sentavam lado a lado na igreja.

Um dia rolou festinha no local e Dora chamou Joana, mas a moça além de não ser muito chegada a igrejas tinha ensaio da escola e não compareceu. Entre salgadinhos e refrescos de groselha Acácio chamou Dora pra conversar.

O homem também era viúvo e conversaram sobre suas famílias, Deus, enfim, coisas em comum que tinham e uma amizade nasceu.

Todos os dias após a missa Acácio levava Dora até a porta de casa e se despedia com um respeitoso beijo na mão. Um dia perguntou se
podia ser mais ousado e antes que ela respondesse beijou-lhe a boca.

Dora correspondeu, mas Acácio se encheu de vergonha, pediu desculpas e foi embora.

Era um santo homem.

Mentira. Era nada.

Assim que saiu fingindo vergonha Acácio trocou de roupa e foi se esbaldar no ensaio da Unidos de Vila Santa Tereza. Lá tirou onda com os amigos que dera um beijo numa “carola muito gata, um filé”. Os amigos perguntaram o que Acácio fazia na igreja e safado o homem respondeu “as carolas são mulheres carentes e ardentes”.

Conversavam quando viu Joana sambando e comentou “essa garota ainda vai ser minha”. Os amigos riram e falaram que ele tinha chance nenhuma. Acácio completamente seduzido respondeu “vamos ver”.

No dia seguinte evitou sentar perto da carola na igreja e no fim da missa Dora foi até perto do homem perguntar qual era o problema. 

Acácio fingiu vergonha e abaixou a cabeça pedindo desculpas pela ousadia da noite anterior. Dora sorriu e respondeu que não foi ousadia, até gostou. O homem feliz convidou a mulher para tomar sorvete.

Na sorveteria se beijaram algumas vezes e Acácio pediu a mulher em namoro. Envergonhada Dora respondeu que nunca pensara em namorar de novo, queria viver em função da filha e a memória do falecido, mas aceitava sim. Beijaram-se novamente e Acácio levou a mulher em casa.

Lá se despediu de Dora e pediu que ela entrasse. Dora convidou o namorado para entrar e Acácio recusou, disse que o namoro ainda era muito recente e queria respeitar. Dora sorriu, falou que o homem era um cavalheiro e entrou.

Com sorriso safado no canto da boca Acácio comentou com ele mesmo “ainda vou te comer safada”.

Dora entrou em casa e encontrou Joana animada. A menina falou que viu a mãe com um homem, mas não conseguiu identificar quem era. Dora envergonhada disse para a filha que estava namorando e Joana lhe deu um abraço feliz e falando “Assim que tem que ser mãe, que bom!!”.

Joana foi ao ensaio sambar e Acácio viu a garota lá. Falou para os amigos que seria naquele instante e foi até ela. Chamou pra tomar um refrigerante e Joana recusou, para dar uma volta e recusou novamente. No fim disse que tinha uma proposta ótima pra ela. A menina era curiosa e topou.

Caminharam ate um canto da quadra e Joana perguntou o que era. Acácio foi direto ao assunto e ofereceu quinhentos reais para transar com a menina. Joana não era prostituta, muito pelo contrário, era virgem e deu um tapa na cara do homem mandando que lhe respeitasse. Saiu irritada com Acácio gritando que ainda seria dele.

No dia seguinte Acácio deixou novamente Dora em casa e de novo convidou o homem para um café. Mal intencionado ele aceitou e entrou.

Mas a filha de Dora estava em casa.

Acácio suou frio vendo Joana e lembrando da noite anterior. Achou que seria desmascarado ali, mas muito pelo contrário Joana lhe tratou muito bem, como se nada ocorrera.   

Os três conversaram um pouco sentados na sala com Dora exalando felicidade. A mulher levantou um instante para pegar mais café e Joana chegou perto de Acácio falando em seu ouvido “Aceito a proposta, mas quero mil reais e tem que ser essa noite”.

O homem pirou. Ele tinha o dinheiro no banco e topou na hora. Dora voltou com o café e nervoso Acácio disse que tinha que ir embora, pois tinha um compromisso importante.

Acácio saiu e Dora comentou com a filha que entendera nada. Joana sorriu, levantou do sofá, deu um beijo no rosto da mãe e disse “gostei dele, parece ser um homem honrado”.

Acácio foi pra casa e tomou um banho daqueles. Perfumou-se, botou a melhor roupa e passando gel no cabelo enquanto cantarolava um tango de Gardel comentou “Sou um homem de família, pego a mãe e a filha”. 
 
De noite assim que Joana chegou ao ensaio Acácio foi direto em cima dela. A moça pediu calma ao homem e seria só depois do ensaio. Perguntou se levara o dinheiro e ele respondeu que sim. Pediu que lhe entregasse logo. 

Acácio fez cara de desconfiado e Joana perguntou “Confia em mim não? Se não confia vamos desfazer o trato agora”. O homem aceitou e entregou o envelope.

Joana conferiu e tinha mil reais. Disse ao homem que se trocaria para o ensaio e depois conversavam.

Joana sambou muito no ensaio e Acácio falava aos amigos que a menina seria dele naquela noite. Os caras lhe chamavam de pedófilo e Acácio respondia “criança que faz criança não é mais criança”. O safado toda hora olhava o relógio ansioso que o tempo passasse depressa.  

Um intervalo no ensaio rolou e Joana chegou no homem já aflito dizendo em seu ouvido “vem comigo que vou te dar um presente”. Levou Acácio em um canto e lhe deu um beijo.

Os dois estavam no maior amasso quando ouviram um grito “Acácio!! O que é isso!!”.

Quando o homem olhou era Dora.

Acácio ficou branco e tentou explicar que era culpa de Joana e fora seduzido. Dora começou a bater no homem na frente de todo mundo dizendo que era mentira, pois a filha tinha avisado da proposta indecente e pedido para que ela fosse ao samba dar o flagrante.  

Todo mundo vendo a cena e no desespero Acácio gritou “Ela aceitou minha proposta, está com dinheiro meu!!”. Dora enfurecida gritou “Ta chamando minha filha de prostituta??”. Joana mostrou os bolsos vazios, abriu a mochila mostrando que tinha dinheiro nenhum e Dora voltou a bater no safado que era vaiado por todos.  

Acácio vendo que a coisa estava feira para seu lado saiu correndo do ensaio para não apanhar mais. Mãe e filha se abraçaram para aplausos da comunidade e rufar da bateria. Dora perguntou baixinho a Joana onde estava o dinheiro e a menina respondeu “escondido no banheiro”.

A bateria começou a tocar e Dora sentiu um “comichão” por dentro. Joana pegou a mão da mãe e disse “vem”. Dora não conseguiu resistir e as duas foram pra frente da bateria sambar com Dora lembrando os velhos tempos.

E o povo disse amém.



ENREDO DO MEU SAMBA (CAPÍTULO ANTERIOR)

UÍSQUE COM GUARANÁ

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