segunda-feira, 4 de março de 2013

MAMONAS ETERNAS


No meio dos festejos dos 60 anos de Zico, que foi tema de minha coluna ontem no Ouro de Tolo e reproduzirei aqui quarta uma data acabou passando em branco.

E vai passar em branco também ano que vem e no outro já que mortes, mesmo sendo marcantes são mais lembradas nos anos redondos e essa só fará em 2016 quando se completa vinte anos.

Mas mesmo passando em branco esse ano essa, melhor essas, marcam demais. Marcaram toda uma geração e entraram pra nossa história como mortes do Tancredo Neves e do Ayrton Senna.

Falo dos Mamonas Assassinas.

Julio Rasec, Bento, Dinho, Sergio e Samuel Reoli. Escalação guardada na mente como a dos grandes times de futebol que vimos na infância. Esses cinco caras, muito loucos, estavam não apenas no auge de suas carreiras como no auge de vida.

Batalharam muito pelo reconhecimento. Começaram com uma banda séria chamada “Utopia” e claro que não deu certo. Bandas sérias tínhamos e temos muitas por aí e tinha nada a ver com o jeito deles.

Eles eram palhaços, foram feitos para fazer sorrir uma nação sofrida.

E foi assim que ocorreu. Do nada no programa “Jô Soares onze e meia” no ano de 1995 cinco palhaços vestidos de Chapolin Colorado apareceram na platéia e o Jô anunciou como convidados.

Fiquei curioso com aquela imagem e decidi esperar a entrevista. Foi divertidíssima e no fim cantaram um fado muito doido me conquistando de vez.

E quem me conhece um pouco sabe como sou chato com músicas ou filmes da atualidade. Pra me conquistar tem que ser algo muito sério. Ainda bem que de sérios eles não tinham nada.  

Manolos, na época poucos tinham internet então não tínhamos nem google ou youtube pra saber quem eram aquelas figuras. Eu e muitos que se encantaram com o grupo tivemos que esperar a nova aparição.

E as aparições foram surgindo. Programa Livre do Serginho Groissman, Domingo Legal do Gugu Liberato, MTV, Domingão do Faustão. Tudo isso somado ao cd recentemente lançado e a espontaneidade do grupo fez uma combinação de sucesso.

Mas faltava a cereja do bolo para esse sucesso e eles conseguiram. As crianças. Pensar que eles conseguiram tanto sucesso com as crianças é meio estranho porque as letras deles tinha nada de infantil. Muito pelo contrário às vezes resvalava no chulo, no grotesco, no quase pornográfico.

Mas tinha versos geniais que entraram pra história da música brasileira como “Quanta gente/quanta alegria/ a minha felicidade/é um crediário nas Casas Bahia” ou na mesma música a incrível rima “Quando eu estou no trabalho/Não vejo a hora de descer do andaime/Pra pegar um cinema/Ver Schwarzenegger/ Também o Van Damme”.

Na boa manolos. Tem que ser um gênio ou muito piroca das idéias pra rimar andaime com Van Damme.

E eles eram tudo isso. Músicos fantásticos que entendiam muito dos instrumentos que tocavam mostrando que sim, a banda tinha qualidade e uma alegria, uma farra, um brilho típico das crianças que encantava à todos.

Taí a explicação do sucesso com a garotada. Eles também eram crianças.

Venderam na ocasião mais de dois milhões de cds e conseguiram transformar todas as faixas do disco em sucesso. Quem nunca ouviu “Robocop Gay”, “Vira-Vira”, “Sábado de Sol”, “Sabão crá crá” ou versos como “Comer tatu é bom, que pena que dá dor nas costas”?

Mas o grande sucesso e pra mim maior sucesso nacional da década foi mesmo “Pelados em Santos”, um hino dos anos 90. Eu fazia teatro na época e o professor pediu que fizéssemos um exercício no palco e todos cantassem a primeira música que viesse na cabeça.  

Éramos uns dez e os dez mandaram “Mina, teus cabelos é da hora”.

Eu tinha vinte anos e me tornei fanático por eles. Ouvia o cd todos os dias, sabia todas as músicas e fui com uma menina que eu era afim ver o show deles aqui na Portuguesa da Ilha.

Chovia muito no dia e a menina pensou em não ir. Eu disse “eu vou, sei lá quando eles voltam aqui” e nós fomos. Um mês antes do acidente. Eles realmente não voltaram.

Naquela madrugada de um pra dois de março de 1996 eu via tv no quarto quando entrou o famigerado plantão da Globo anunciando o sumiço do avião. Na hora comecei a chorar muito, como se fosse alguém da família.
Dividia o quarto com a minha mãe e acabei lhe acordando. Ela assustada perguntou o que ocorria e eu respondi “Os Mamonas morreram”. Contei a história do sumiço e ela me consolou. Depois de uns dias começou a me zoar por chorar devido a morte de desconhecidos.       

Só me zoou por dois anos. Até o Leandro morrer e ela passar pelo mesmo.

Lembro que dormi logo depois e quando acordei os corpos já tinham sido resgatados. Foi um dia de luto não só pra mim como para todas as crianças e jovens do país. Coloquei naquela noite bem alto o cd do grupo e muitos vizinhos fizeram o mesmo.

E os Mamonas tem participação decisiva na minha vida. Apesar de já ter composto algumas coisas brincando foi no show deles que decidi que queria escrever músicas profissionalmente e foi na semana seguinte com uma coluna em forma de poesia publicada no jornal “Ilha Notícias” falando sobre eles que pela primeira vez algo que escrevi ganhou domínio público.

Dezessete anos se passaram. Aquelas crianças hoje são adultas, os jovens são pais de família, mas acho que ninguém que viveu aqueles meses onde um cometa irradiando alegria passou pelo planeta esqueceu dele. Com certeza esses caras estão em um lugar maravilhoso hoje porque Deus gosta de quem espalha o bem e a alegria.

E pelo menos eu vou perpetuar essa história, pois a Bia já viu e gostou de “Pelados em Santos” no youtube.

E sempre fica a impressão que a brasília amarela passará buzinando e dentro dela eles dirão que foi tudo uma sacanagem deles e aquele avião não arremeteu.

Obrigado Mamonas pelos meus sorrisos mais felizes daquela época, pena que logo depois vieram as lágrimas mais tristes, mas compensou. Ah se compensou..

..e termino essa coluna como terminei a do “Ilha Notícias” em 1996.

Ai como dói...

Ps. Publiquei um livro, meu primeiro. Chama-se “Dinastia” e conta a história de uma família desde sua imigração da Itália no fim do século XIX até os dias atuais. Seus dramas, amores e conflitos se confundem com os últimos cem anos de história do Brasil.

Quem quiser pode comprar pela forma impressa ou E-Book. O livro vem sendo vendido no site “Clube dos Autores” (www.clubedosautores.com.br) “Livrorama” (www.livrorama.com.br) e “AG Book” (http://agbook.com.br).

O livro é bom, apesar de pai nunca achar filho feio eu garanto. Quem comprar não irá se arrepender.

Grazie!! 






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