terça-feira, 11 de outubro de 2016

AINDA LEMBRO


Ainda lembro a primeira vez que ouvi essa música...

Estava em uma van indo para o aeroporto Santos Dummont em uma época recente onde existiam vans diretas da Ilha para o Centro, antes que a máfia do transporte carioca acabasse com esse importante meio de transporte do insulano. Mas não estou aqui para falar de vans...

..e sim de lembranças.

Não era um dia feliz, muito pelo contrário. Era para ter sido o fim de semana perfeito. Chegava a minha primeira final de samba na União da Ilha do Governador com ela estando no grupo especial. Era um belo samba, talvez o melhor que já compus para a União da Ilha, não era o favorito e eu tinha exata noção que dificilmente venceria. Mas ter essa noção me dava oportunidade de curtir aquele momento. Mas não era só isso.

Era especial porque ela estaria comigo.

Era o fim de semana do aniversário dela e ela tinha optado por passar esse fim de semana comigo. Iríamos a cinema, show, final de samba-enredo, celebrar bastante seu aniversário e o nosso amor que era forte demais. Fomos ao cinema, ao show, na final de samba, mas não conseguimos celebrar o aniversário nem o amor. Por circunstâncias cruéis do destino ali era o fim do relacionamento e sabíamos disso.

Levava a ela ao aeroporto para que voltasse a sua cidade. Sabia que a levava para o aeroporto e no instante que ela pegasse aquele voo a saudade chegaria e ficaria para sempre. Eu não estava feliz, ela também não. Mas se não estávamos por quê deixar ocorrer aquele fim? Não tinha jeito. Não tinha como evitar.

Ainda lembro...

Estávamos naquela van em uma manhã de segunda-feira 18 de outubro de 2010. Um silêncio ensurdecedor tomava conta da van. Ela teve todos os motivos para ir embora logo no sábado 16, mas não foi, Ficou ao meu lado até o fim e só foi embora na manhã de segunda conforme combinado. Mas ali não tinha jeito, eram irremediáveis a partida e o fim. Apenas nós dois dentro da van. Nós e o silêncio. Nós e a saudade..A van andava pela Ilha do Governador em direção a Estrada do Galeão, a ponte da Ilha, linha vermelha, aeroporto..

Ainda lembro como eu estava. Estava cansado, esgotado como um condenado a morte que perdeu em todas as instâncias e sabia que não tinha mais jeito. Não torcia para chegar no aeroporto nem que não chegasse. Estava em uma tristeza conformada, me sentindo vazio. Era e até hoje é o maior fracasso da minha vida e olha que, modéstia a parte, eu sou um cara que já teve fracassos retumbantes, de dar inveja em qualquer fracassado. Não sou um fracassado em meu dia a dia, mas ali eu era porque era o principal responsável por aquilo que ocorria. Sou ótimo em criar histórias de amor em ficção. Quem já leu o meu livro sabe disso, mas infelizmente eu não sou o cara do livro. eu sou o cara que é capaz de deixar um amor partir por não saber conduzir da maneira certa.

Ainda lembro...

A hora que a música começou. Marisa Monte começou a cantar e nós dois começamos a ouvir. Sabia que ela ouvia do mesmo modo que eu. A conhecia bem, sabia só pelo modo de respirar o que se passava por seu coração e ficamos ali ouvindo aquela música que nunca associamos a nós. Ed Motta começou a cantar e vieram os versos, ainda lembro deles.

"O grande mal que eu fiz foi a mim mesmo".

Eu entendi o recado, ela também. Ela começou a deixar lágrimas caírem de seus olhos. Ela que sempre brincou que chorava apenas três vezes por ano se permitiu ali um choro extra. Eu entendendo o recado da música e percebendo o impacto que aqueles versos faziam em mim e nela também deixei lágrimas caírem e lhe dei um beijo na cabeça.

Sabemos bem como começam nossas histórias de amor, nossos relacionamentos. O nosso começou nas pedras do Arpoador lhe pedindo em namoro. Aquele verso e aquele beijo em sua cabeça representavam o fim do nosso. No ato do beijo se encerrou nossa história de amor de um ano e meio.

Ainda lembro...

Deixei no aeroporto e ela foi embora. Tivemos muitas histórias depois disso. Nos encontramos várias vezes, nos beijamos em algumas, fizemos amor..Mas nesses momentos eram apenas duas pessoas saudosas e desesperadas apenas para tentar reviver pelo menos por alguns instantes aquela história porque a relação acabara, mas o amor não. Só que sabíamos que era efêmero. A relação acabou naquele verso, naquele beijo. Aos poucos corações entenderam.

Ainda lembro disso.

Erramos algumas vezes um com o outro depois daquele verso na van. Errei com ela, ela errou comigo, mas hoje entendo que os erros dela foram consequência do meu. O tempo, aquele rapaz enigmático que sempre nos conduz, tratou de cicatrizar feridas. Mas fez questão de deixar a cicatriz exposta para mostrar que ali morou uma ferida doída. O tempo fez que de dois apaixonados virássemos dois grandes amigos. De dois grandes amigos, dois amigos, de dois amigos dois conhecidos...

Seis anos depois aquele casal que se despedia dentro da van, se despedia de sonhos, planos, de toda uma intimidade forte, marcante virara conhecidos. Conhecidos daqueles que passam meses sem se falar mesmo com fácil acesso um ao outro. Quando nos falamos aquela velha intimidade aparece, nos dizemos que não podemos mais ficar tanto tempo sem nos falar, conversamos animadamente..Até que percebemos que não existe mais aquela intimidade, não sabemos mais tanto da vida um do outro. Eu não a reconheço mais pela respiração. Os assuntos cessam, nos despedimos e cada um segue sua vida por mais alguns meses.

Foi assim quando vendo a capa do meu livro lembrei que eu ainda não tinha dividido com ela momento tão importante. Justo ela que começou namoro comigo no cenário daquela foto e foi a primeira pessoa a me ler quando comecei a levar esse lado escritor a sério. Justo ela que inspirou tantas histórias minhas, livros, peças, após nosso fim.

Ainda lembro...

Ainda lembro desse último papo. Deu saudade dela. Ela não me ama mais assim como não lhe amo. Não o amor que foi um dia, não aquele amor que nos faz arder, sangrar, explodir, ser feliz apenas por saber que o outro existe e nos ama. O amor que temos hoje um pelo outro é o amor pela pessoa e por aquela nossa história que sempre nos acompanhará. Ela sempre será meu maior fracasso, o fracasso mais triste e bonito e hoje é impossível ouvir a tal música sem lembrar dela. Outros amores vieram depois para nós dois. Hoje tenho um coração feliz e esperançoso esperando novembro chegar, mas amor não se substitui. Nosso coração é tão grande e organizado que sabe colocar todos os nossos sentimentos dentro dele em lugares especiais.

No dia que aquele papo se encerrou ouvi novamente a canção, assim como ouvirei quando acabar esse texto. Provavelmente mandarei para ela esse texto.

Porque, graças a Deus, ainda lembro o quanto essa moça é importante pra mim e espero ser para sempre pra ela.

Eu errei com você e só assim pude entender...


..Que o grande mal que eu fiz foi a mim mesmo...


Ainda lembro..

 

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