sexta-feira, 19 de junho de 2015

AMOR: CAPÍTULO XII - RETOMADA




Saí daquele aeroporto abraçado com Camila e fomos direto ao nosso cantinho. Não falo de nossa casa e sim do Arpoador.

Local onde ocorre tudo entre a gente.

Ficamos um bom tempo lá abraçadinhos vendo o mar em silêncio. Depois de muito tempo Camila disse “senti saudades”. Perguntei se era do Arpoador e ela respondeu “da gente”.

Ficamos mais um tempo em silêncio. Ela virou pra mim e perguntou “me ama?”, respondi “pra sempre” e nos beijamos. Depois de um tempo nos beijando ela interrompeu e perguntou “e se um dia você deixar de me amar?”.

Não esperava aquela pergunta. Ri e respondi que aquilo era impossível. Ela insistiu dizendo que amores acabam, temos vários exemplos disso por aí. Sério olhei para ela e disse “o meu não, se eu deixar de te amar é porque morri”.

Camila se aconchegou em meus braços, voltou a olhar o mar e comentou “Pois eu não vou deixar de te amar mesmo depois de morta”.

Senti um arrepio, reclamei do frio e comentei “a gente podia continuar esse papo em casa, to com saudades de lá”. Camila sorriu, me deu um beijo e partimos.

Chegamos em casa, olhei para ela e disse “enfim sós”. Camila respondeu que só faltava um vértice de nosso triângulo amoroso. Eu não sabia de triângulo nenhum e perguntei que história era aquela, quem era o terceiro.

Camila pegou o controle remoto, olhou pra mim e disse “Raspberries”. Apontou o som e ligou. Imediatamente começou a tocar “Don`t want to say goodbye”. A nossa música.

Sorri e comentei “Pensou em tudo”. Camila respondeu “Você ainda não viu nada”, pegou minha mão e conduziu até o quarto. Abrindo a porta dei com o quarto com luz apagada, mas cheio de velas acesas.

Minha mulher realmente voltara, era a Camila por qual me apaixonara e antes que eu me recuperasse do impacto daquilo tudo ela me jogou na cama e subiu em cima me beijando.

Fizemos amor como há muito tempo não fazíamos. Corpo, alma, coração, parecíamos uma pessoa só. Bocas, línguas, mãos, sexos, cada pedaço de nós percorria o outro sabendo exatamente o que fazer, como o outro ter prazer. Nos entendíamos por pensamento e por tesão.

Tudo ao som da nossa música que realmente era o terceiro vértice do triângulo. Éramos eu, Camila e Raspberries.

No dia seguinte nos aconchegávamos na cama. A cama que eu tanto senti saudade e perguntei como ela tinha tanta certeza que daria certo, eu a procuraria e teríamos uma noite daquelas. Ela sorriu e respondeu “Se você não fizesse isso eu ligava pro meu paquera do casamento e chamava pra vir aqui”.

Olhei indignado pra ela que começou a me fazer cócegas. Ficamos naquilo um tempo até que ela parou. Perguntei o que ocorria e ela respondeu “Agora que me toquei, uma vela podia ter caído e incendiado tudo”.

Nos olhamos depois desse comentário e não aguentamos. Começamos a gargalhar e fazer cócegas um no outro.

Estávamos felizes.

Mais gente estava feliz. Minha mãe vivia um caso de amor com Osmar. Os encontros eram quase diários e os dois mal disfarçavam o que sentiam. Osmar de tanto falar que iria fazer acabou cumprindo. Comprou o mercado e deu para minha mãe de presente.

O burburinho aumentava que algo ocorria com o dois, apenas eu não percebia. Um dia fui com Camila e Gabriel visitar minha mãe e quando entrei dei de cara com Osmar de bermuda e sem camisa.

Camila já sabia do caso e disse apenas “oi pai”. Eu fiquei estupefato com aquela situação e perguntei o que ocorria. Osmar, com naturalidade, respondeu “você já é bem grandinho, deve saber”. Olhei para eles, para Camila e apenas balancei a cabeça negativamente dizendo para minha esposa “vamos embora”.

Minha mãe pediu que esperasse, Camila que não era assim e insisti para irmos. Osmar pediu para conversarmos e virei para Camila afirmando “eu vou, se você quiser fica”.

Saí da casa em disparada. Camila olhou para os dois não sabendo o que fazer e Osmar mandou que fosse atrás de mim.

Eu já entrava no carro furioso quando ouvi a voz de Camila mandando que esperasse. Esperei e ela se aproximou dizendo “vai para o banco de carona, você não está em condições de dirigir”.

Entramos e fomos em silêncio até nossa casa. Chegando lá Camila pôs Gabriel para dormir enquanto eu sentei na sala. Minha esposa voltou e perguntou “podemos conversar agora?”.

Perguntei se ela já sabia daquela história toda e Camila respondeu que sim, algumas pessoas já sabiam. Me lamentei, achei que era um otário e virei para ela perguntando como poderia aprovar tal coisa.

Serena Camila respondeu “eu não tenho que aprovar ou desaprovar nada, a vida é da sua mãe”. Lembrei que a mãe dela era a traída da história e Camila retrucou “ela é casada com ele, não eu, eles têm que se entender, não eu. Além do mais meu pai nunca me abandonou, nunca nos abandonou. Não vou fazer isso com ele”.

Eu não aceitava. Levantei, fiquei andando pela sala e dizia “ta errado, isso não ta certo”. Camila continuava serena e argumentou que eles se amavam e o amor não conhecia certo ou errado. Sem querer aceitar disse que pediria demissão.

Camila olhou firme para mim e disse que seria uma atitude infantil. Perguntei qual seria a atitude de adulto e ela respondeu “falar com sua mãe”.

Pensei bem e ela continuou “sua mãe merece isso”. Aceitei e bem cedo no dia seguinte fui até sua casa. Minha mãe saía para trabalhar e perguntei e ela tinha cinco minutos para mim.

Entramos e perguntei se eles se amavam. Minha mãe respondeu que como poucas vezes amou na vida e perguntei “mais que ao Pinheiro?”.

Minha mãe respondeu que amor não se media, nem se repetia, cada amor tinha seu significado, sua importância, jamais esqueceria Pinheiro, mas precisava viver.

Eu não conseguia entender. Ela era feliz com Pinheiro, o cara que me criou e tão rápido já estava com outro homem. Ainda tentei argumentar que Osmar era casado, aquilo acabaria mal. Minha mãe repetiu “eu preciso viver”.

Fui para o trabalho e dei de cara com Jéssica. Tempo que não a via e perguntei se estava bem, sumira. Ela respondeu que sim e na verdade só tinha voltado ali para pedir demissão. Lamentei e perguntei o porque da atitude. Direta Jéssica respondeu “porque eu te amo e não quero conviver com você amando outra”.

Mais uma vez lamentei e desejei que ela fosse feliz. Jéssica respondeu “serei”, passou a mão em meu rosto e foi embora. Perguntei a Ananias se o “homem” estava no escritório e ele respondeu que sim.

Fui até o local e Osmar estava lá assinando papéis. Perguntei se atrapalhava e ele respondeu que não, me pedindo para entrar.

Entrei e fiquei em silêncio na sua frente. Osmar levantou e perguntou “veio pedir demissão de novo?”.

Respondi “não, vim aqui dizer que se o senhor fizer mal a minha mãe eu..” Osmar me interrompeu perguntando “Eu o que? Ta me ameaçando? Ameaçando seu patrão?”.

Sem pestanejar respondi “sim”. Osmar me olhou sério e depois abriu um sorriso dizendo “Veio até minha sala, sala do seu patrão, do seu sogro e me ameaçou por causa da sua mãe. Isso que eu espero de um genro, isso que eu espero de um homem”.

Continuei olhando para ele que completou “Nunca irei magoar sua mãe” estendendo a mão para mim. Apertei a sua mão e assim dei minha benção a eles.

Continuaram o caso, saíam as escondidas, mas não sabiam disfarçar direito. Parecia que esqueciam que Osmar era casado e se arriscavam demais. Isso fatalmente traria problemas.

Um dia estavam em um apart hotel de Osmar quando a campainha tocou. Osmar estava na cama e minha mãe saiu do banho de roupão para atender. Deu de cara com Suely.  

Minha mãe ficou branca. Do quarto Omar perguntou quem era e sem perder a pose Suely disse “vim buscar meu marido”. Minha mãe nada conseguia dizer e Suely entrou passando por ela e indo direto ao quarto.

Entrou no quarto dando de cara com Osmar. O homem não sabia o que falar quando Suely mandou “Se vista e vamos para casa, a festinha acabou”.

Obediente Osmar se vestiu e foi em direção a porta junto com Suely. Ainda deu uma última olhada para minha mãe que chorava não acreditando no que ocorria. Suely ordenou que se apressassem e os dois saíram.   

Foram para casa e entrando Suely agia como se nada ocorrera. Mandou a empregada servir a janta e disse para Osmar que tinham um coquetel para ir na noite seguinte de lançamento de uma revista.

Osmar olhou firme para ela e disse “Vou subir, arrumar minhas malas e vou embora”.   

Suely não entendeu e pediu que ele repetisse. Osmar repetiu “Estou deixando você Suely. Vou pegar minhas malas e viver com a mulher que eu amo”.

Osmar começou a subir as escadas e Suely perdeu a pose. Se jogou nas escadas e pegou a perna de Osmar gritando “você não pode fazer isso comigo!! Nó temos uma vida juntos!! Construímos tudo juntos!! Você não pode fazer isso comigo!!”.

Osmar não deu atenção, se desvencilhou e subiu as escadas.

Na saída, com as malas, passou por Suely e disse que depois mandaria funcionários pegarem o restante de suas coisas. Suely já havia recuperado a pose e falou “Você vai voltar, é só fogo de palha”. Osmar olhou para ela e respondeu “não vou voltar” saindo da casa.

Suely permaneceu na sala, em silêncio e depois chamou a empregada para cancelar a janta, pois estava com dor de cabeça.

Minha mãe chorava inconsolável em casa quando a campainha tocou. Levantou para atender e quando abriu a porta deu de cara com Osmar segurando duas malas.

O homem sorriu e perguntou “tem lugar pra mim aí?”. Sorrindo e com lágrimas nos olhos minha mãe respondeu apontando para o coração “tem aqui”.    

Os dois se abraçaram, se beijaram começaram uma vida em comum. Osmar, num rompante, decidiu largar suas empresas e quis me nomear como novo presidente. Recusei por não me achar pronto ainda e indiquei Ananias para o cargo. O homem assumiu e virei seu braço direito.

Osmar largou tudo porque tinha algo para ele muito mais importante naquele momento. Gerenciar o mercado junto com minha mãe.

Minha vida também caminhava, mas ainda tinha seus sobressaltos.

Um dia caminhava pela praia com Camila, os dois abraçados, quando demos de cara com Jéssica. O fato de encontrarmos com ela já daria um desconforto. O desconforto aumentou quando notei uma barriguinha nela.

De gravidez.   

No cumprimentamos em um clima desconfortável e continuei caminhando com Camila. Caminhávamos em silêncio quando sorrindo Camila brincou dizendo “espero que esse filho não seja seu”.

Sorrindo respondi “sem chance”, mas meu sorriso era amarelo. Na verdade eu não sabia, poderia sim ser meu.

Na primeira oportunidade fui até o apartamento de Jéssica. Ela me atendeu e perguntei se podia entrar.

Jéssica me convidou para entrar e antes que eu dissesse algo falou “eu sei que você veio fazer aqui”. Perguntei se ela sabia realmente e Jéssica confirmou “perguntar se o filho é seu”.

Balancei a cabeça de forma afirmativa e ela respondeu “não sei”.

Ri, pedi desculpas e perguntei como ela não sabia. Jéssica respondeu que não namorávamos, apenas saímos algumas vezes e ela também saía com outras pessoas. Não iria me contar nada, iria criar o filho sozinho, mas acabou me encontrando e não teve como disfarçar.

Ouvi a tudo atentamente e falei que aquela situação não poderia ficar daquela forma, eu não podia viver com dúvida. Jéssica perguntou o que eu tinha a propor e respondi “DNA”.  

Jéssica perguntou por Camila, como ela se sentiria com aquela situação toda e respondi que mal, mas a gente não podia viver com uma sombra e se a criança fosse minha não deixaria desamparada. Jéssica passou a mão em meu rosto e disse “você é incrível”.

Fui para casa e Camila tomava sorvete vendo filme. Sem desgrudar os olhos da tv falou para que eu sentasse que era filme de Jerry Lewis, que eu adorava. Sério falei para ela “precisamos conversar”.

Camila se assustou, argumentou que essa frase nunca vem acompanhada de coisa boa. Sentei, peguei sua mão e disse que fui atrás de Jéssica. Ela perguntou porque e expliquei toda a situação. No fim disse que faria exame de DNA.

Camila ficou em silêncio e pedi para que ela falasse algo. Minha esposa olhou nos meus olhos e disse “eu vou com você”. 

Companheira como eu não esperava por ser um idiota. Porque ela sempre foi companheira e por mais incrível que fosse aquela reação era totalmente esperada.    

Fomos até o local. Camila e Jéssica se cumprimentaram cordialmente e fiz o exame. Alguns dias depois voltei ao local com a duas para pegar o resultado.

Cercado por Camila e Jéssica respirei fundo e disse “vamos lá”. Abri o envelope e elas perguntaram o resultado.

Com semblante normal respondi “não sou o pai”.

Camila deu um sorriso de alívio e Jéssica, sem graça, comentou que era melhor assim, nós tínhamos uma família e ela não queria atrapalhar.

Camila agradeceu e Jéssica se despediu dizendo “sejam felizes, vocês merecem. Ele é um cara incrível Camila”.

Minha mulher respondeu que iriam ser e Jéssica foi embora.

Ficamos os dois sozinhos e comentei que Jéssica era uma boa pessoa e importante na minha vida. Camila sorriu respondendo que devia ser, mas estava aliviada com o fim daquela história.

Falei que até que curtia a ideia de ser pai novamente e por um lado lamentava que não seria. Camila olhou para mim e perguntou “quem disse que não vai?”.

Não entendi e ela sorrindo me contou “estou grávida”. Abobalhado perguntei como e ela gargalhando me perguntou “de novo essa pergunta?”.

É. Era a terceira vez que fazia aquela pergunta idiota. Pedi desculpas e perguntei desde quando ela sabia. Camila respondeu que há alguns dias, mas queria que aquela situação terminasse para me contar.

Feliz da vida peguei minha mulher nos braços e rodopiei no hospital. Cheguei lá com possibilidade de ser pai e acabei sendo mesmo.  

Se a felicidade era efêmera eu estava em um momento desses.

Vivíamos intensamente aquela gravidez. A terceira de Camila, mas a primeira tranquila. Nós dois casados, com boa situação financeira, Gabriel com saúde e felizes. Eu queria descobrir o sexo, mas Camila continuava com aquele ritual de só querer saber no nascimento.

Minha mãe também estava feliz com Osmar. Todos felizes. Dava até medo.

Um dia estava no trabalho quando meu celular tocou. Era Bia. Minha amiga pediu que não me apavorasse, mas estava com Camila em um hospital.

Perguntei o que ocorrera. Minha amiga respondeu que estavam “batendo perna” no shopping e de repente Camila passou mal e desmaiou. Saí correndo ao encontro delas.

Chegando no hospital encontrei Bia na recepção e perguntei como Camila estava. Minha amiga respondeu que bem, mas tivera um sangramento e perdera o bebê.

Fiquei muito triste. Era um filho muito querido e desejado. Bia me consolou dizendo que éramos jovens, apaixonados e teríamos mais filhos. Pediu que eu me recuperasse e fosse consolar Camila.

Entrei no quarto e encontrei Camila deitada. Minha esposa me viu e começou a chorar. Fiz-lhe um carinho, dei um beijo em sua testa e abracei dizendo “Deus sabe o que faz. Não era o momento”.

Depois de dois dias Camila recebeu alta e eu saía com ela do hospital quando a enfermeira surgiu e disse que o médico queria falar conosco. Perguntei se algum problema ocorrera e ela não soube informar, apenas pedindo que fôssemos até sua sala.

Entramos, cumprimentamos o médico que pediu que sentássemos. Eu e Camila sentamos. O médico pegou óculos, pôs, pegou um papel, leu e disse:

“Não tenho boas notícias”.

Aquilo me assustou.


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