sexta-feira, 1 de maio de 2015

AMOR: CAPÍTULO IX - VIDA DE CASADO




Estava casado com meu amor, minha Camila. Nem acreditava. Descemos na frente do hotel que reservamos sob os aplausos de todos do busão e peguei minha mulher no colo para entrar. O elevador estava quebrado, mas não teve problemas. Subi os oito andares com Camila nos braços fazendo o melhor exercício de minha vida.

Enquanto isso Osmar chegou em casa e encontrou Suely na sala ouvindo música. Suely reclamou que o marido chegou tarde e enquanto ele subia a escadas respondeu “Nossa filha estava linda”.

Suely retrucou “Não tenho filhas” e antes de subir Osmar finalizou “Que pena porque eu tenho e ela realmente estava linda”.

O clima não estava bom entre Osmar e Suely e eu não entendia o porque daquele homem tão poderoso, rico, que conseguiu virar alguém na vida por suas próprias forças se deixava dominar daquela forma.

Mas eu estava feliz. Isso que me importava.

No dia seguinte pegamos mochilas e fomos até a rodoviária. Tinha comprado passagens para Penedo e passaríamos um fim de semana em um albergue. Tentávamos achar nosso ônibus no meio daquela confusão de véspera de feriadão quando demos de cara com Osmar.

Ficamos surpresos. Camila perguntou o motivo do pai estar ali e Osmar sorrindo respondeu “não deixaria minha única filha sem presente.

Osmar pegou de dentro do terno um envelope e entregou na minha mão dizendo “cuide bem da minha filha”. Virou-se e começou a andar para ir embora. Abri o envelope e havia duas passagens de avião para Veneza.

Camila gritou pelo pai e foi atrás dele. Osmar parou e Camila sem entender perguntou “por quê?”. Osmar deu um abraço em Camila, um beijo em sua testa e respondeu “Não sou sua mãe, nunca vou lhe abandonar”.

Osmar se virou de novo, continuou a caminhar e falou “também tem presente em sua conta”.

Tinha um dinheiro bom ali para curtirmos Veneza.

A pergunta de Camila não era porque do presente, mas porque de um cara tão bacana aceitar passivamente um casamento como aquele.

Fomos para o aeroporto. Os dois com mochilas no saguão de embarque tendo um monte de gente chique no local. Mas duvido que tivesse alguém mais feliz que nós ali.

Lá no saguão me lembrei de duas coisas. A primeira que nunca andara de avião na minha vida. Lembrando que aquela viagem pela América do Sul foi de ônibus e caronas.

A segunda é que morria de medo de aviões.

Tenso, entrei no ônibus com Camila que nos levaria ao avião. Fiquei quieto o tempo todo e minha esposa comentou “Parece o começo daquele filme que o cara para numa prisão turca, lembra? Acho que é expresso da meia noite”. 

Dei um sorriso amarelo confirmando que lembrava do filme e Camila notou que eu não estava bem perguntando “O que você tem? Ta com drogas aí não né?”.

Antes fosse..tava me cagando de medo mesmo.

Chegamos em frente ao avião e comentei “Pequeno né? Parece aquelas vans de transporte alternativo”. Camila sorriu e disse que era bem seguro. Não aguentei e falei “Invenção de brasileiro? Movido a explosão e mais pesado que o ar?”. Camila rindo perguntou se eu estava com medo e também rindo respondi “E eu vou ter medo de alguma coisa?”.

Sim. Tinha.

No avião o mesmo começou a andar e fazer todo aquele procedimento de subida. Eu queria gritar pela minha mãe, mas continuava com o mesmo semblante, normal. Camila, animada, contava do quanto gostava de viajar de avião e de uma turbulência que pegara uma vez.

O avião começou a subir, aquela pressão toda no rosto, no ouvido  e eu com medo peguei forte na mão de Camila. Ela olhou para o lado e percebeu meu estado. Em vez de rir de mim apertou mais forte ainda minha mão mostrando a companheira que era.

Deixou pra me gozar na descida.
Osmar enquanto isso resolveu fazer compras. 

Parou o carro do nada no subúrbio, desceu e entrou em um mercado. Olhou bastante para a prateleiras e resolveu pegar um pote de sorvete de chocolate se encaminhando para a caixa.

A caixa era minha mãe.

Osmar esperou pacientemente na fila até que chegasse a sua vez. Falou boa tarde para minha mãe que sem olhar quem era respondeu. Dona Hellen passou o produto e disse quanto era.

Osmar não tirou o dinheiro. Continuou olhando para ela que sem receber o dinheiro levantou os olhos para repetir quanto fora o sorvete.

Viu Osmar sorrindo.

Dona Hellen olhou séria para ele e disse “o dinheiro senhor”. Ali apenas Osmar percebeu que ela não lhe reconhecera e perguntou “Não se lembra de mim né?”.

Minha mãe olhou mais um tempo e sem ter a resposta ele mesmo disse “Sou pai da Camila”. Minha mãe então lembrou e respondeu “Desculpe, não lembrei, só vi o senhor duas vezes e nas duas estava nervosa”.

Foram no dia da clínica e no casamento que os dois se viram.

Osmar sorriu novamente e minha mãe de novo disse quanto era o sorvete. Osmar percebeu que não fizera sucesso e decidiu tirar o dinheiro do bolso e pagar. Enquanto saía com o sorvete minha mãe lhe chamou para fazer uma pergunta.     

“O senhor não mora muito longe para vir aqui comprar sorvete?”.

Osmar sorriu, apontou a marca e respondeu “Estava difícil achar essa marca”.

Saiu do mercado. Olhou mais uma vez pra dentro avistando minha mãe e partiu.

Algo estava começando a ocorrer.   

Eu e Camila curtíamos Veneza. Andávamos de gôndola e tirávamos fotos de tudo, principalmente de nossa felicidade. Me senti como o Antonio Fagundes com a Regina Duarte em “Por Amor” passeando de gôndola feliz, sorrindo e tocando “Per Amore”.

Em um restaurante ouvíamos um sujeito com a cara do Julio Iglesias cantando Pepino DiCapri em silêncio quebrado por Camila.

“Você é feliz?”

Não entendi a pergunta de minha esposa e pedi que repetisse. Ela repetiu e respondi “Sim, claro, to com a mulher que amo”. Repeti a pergunta e ela tomando milk shake respondeu “hoje sim”.

Perguntei o porque da pergunta e da resposta dela. Séria Camila parou de beber o milk shake, me olhou e respondeu:

“Não acredito em felicidade e sim em momentos felizes. Estamos em um momento feliz, mas assim como os tristes ele passa”.

 Continuei sem entender e perguntei se ela queria dizer que não seríamos felizes. Camila completou “Seremos felizes, seremos tristes. Cabe a nós tirar o melhor de cada situação”.

Fiquei sem entender aquilo e vendo minha confusão brincou “Sou feliz com você em qualquer canto. Poderia ser em Penedo, fui em Veneza”. Ri e ela perguntou “me ama?”. Respondi “Pra sempre”.

Ela me deu um beijo, continuamos a ouvir as músicas e eu fiquei encucado com aquilo.

Voltamos para o Brasil e fomos direto para casa da minha mãe. Não tínhamos muita grana então viveríamos lá. Dona Hellen resolveu preparar uma feijoada e foi na rua comprar uns produtos que faltavam enquanto eu e Camila nos beijávamos na sala.

A campainha tocou e levantei para atender. Era Osmar.

Fui surpreendido com sua presença e só disse “Oi doutor”. Camila viu a presença do pai, abriu um sorriso e foi ao seu encontro lhe abraçando e beijando. O homem perguntou se podia entrar. Camila me perguntou se sim e eu surpreso respondi “Sim, claro”.

Osmar entrou e logo depois minha mãe entrou com os produtos. Ao ver dona Hellen Osmar abriu um sorriso e perguntei “Lembra dela doutor?”. Osmar pediu que não lhe chamasse mais de doutor e minha mãe perguntou se ele gostara do sorvete. O homem respondeu que sim, era do jeito que ele gostava e nada entendemos.        

Osmar acabou sendo convidado para a feijoada e no surpreendeu ajudando minha mãe a prepará-la. Ao ser questionado por Camila Osmar respondeu “Eu morava em favela minha filha, fazia feijoada em um bar todos os domingos”.

A feijoada ficou divina e no meio dos elogios Camila perguntou pela mãe, Osmar respondeu “Não vim falar dela, vim falar de coisas boas, vim falar de vocês”.

Antes que falássemos algo Osmar sacou uma chave do bolso e disse “Esse presente é para vocês” entregando a Camila. Minha esposa perguntou o que era e ele respondeu “Um apartamento em Ipanema. Por mais que aqui seja acolhedor e dona Hellen cozinhe tão bem um casal novo precisa do seu espaço”.

Nem conseguimos respirar para responder algo e ele completou perguntando “Trabalha em que Antonio?”. Gaguejando respondi que era Dj, tocava em festas do bairro.

Osmar me interrompeu dizendo “Desculpe, mas genro meu não pode ser Dj. Camila está acostumada com nível, uma vida confortável”.

Camila protestou, minha mãe perguntou quem ele pensava que era para falar daquela forma e enquanto Osmar colocava mais couve e farofa no prato continuou:

“Calma gente. Quis dizer que ela estava acostumada com nível e você mesmo Antonio, me parece um rapaz inteligente, capaz e que merece o melhor. Passe a cerveja pra mim”.    

Passei e ele completou “Venha trabalhar na minha empresa, no meu escritório”.
  
Não soube responder, apenas disse que nem sabia o que fazer no escritório e enquanto botava mais cerveja no copo Osmar respondeu “Aprenda, você não é capaz?”    

Respondi que era e ele completou “Então aprenda”.

Na volta pra casa Osmar encontrou uma Suely enfurecida perguntando onde ele estava. Osmar respondeu “comendo feijoada” e antes que a mulher tivesse qualquer reação disse “Dormirei hoje no quarto de hóspedes”.

Segunda cedo estava no trabalho para aprender. Osmar quis me dar um cargo de gerência, mas eu não quis, queria mesmo aprender por baixo. Osmar colocou um de seus homens fortes chamado Ananias para me orientar e lhe via com cara fechada, jeito ríspido no trato comigo, além de outros funcionários que me tratavam com frieza.   

Tentava descobrir o motivo, mas não foi difícil perceber que era por ser genro do dono. Chamei Ananias em um canto e perguntei se eles tinham algum problema comigo. O homem respondeu que não, mas devolvi dizendo que não era um moleque bobo e percebia o que ocorria.

Ananias confirmou minhas suspeitas e disse “Você é genro do homem, protegido dele, o que pra você é brincadeira pra gente é ralação e trabalho”.    

Muito sério devolvi “Pra vocês é ralação e trabalho. Pra mim é ralação, trabalho e busca de adquirir confiança. Porque assim como vocês eu vim de berço pobre e preciso disso aqui pra sobreviver. Doutor Osmar é uma pessoa séria e não será a filha dele que me garantirá nada. Preciso aprender e conto com vocês”.
    
Naquele dia ganhei a confiança de Ananias e de todos.

A vida estava bacana, não tinha do que me queixar. Tinha um trabalho legal onde ganhava bem e conseguia aprender mais o ofício a cada dia. Morava na praia de Ipanema e tinha uma vista linda me esperando todas as manhãs quando acordava.

E tinha ela.

Minha vida com Camila não podia ser melhor. Era a mulher da minha vida e todos o dias tinha mais certeza disso.

No nosso primeiro mês de casados ela entrou em casa e viu velas acesas desde a porta até chegar na sala. Ambiente escuro até que ela chegasse na sala e ligasse o interruptor.

Eu de chapéu Panamá e terno me virei, liguei o cd player e nele começou a tocar Lets stay together na voz de Al Green.

Dublei, representei a música toda cantando para meu amor e no fim lhe dei um beijo.

Nos dois meses de casados, ela já com uma barriguinha. Entrei no apartamento e encontrei velas como fizera. Fui até a sala, liguei o interruptor, mas não a encontrei.

Apenas tinha um bilhete “Sua janta está na cozinha”.

Estranhei o bilhete, sua ausência e forma fria do comunicado. Fui até a cozinha pensando se algo ocorrera e liguei a luz.
Camila estava sentada em cima da mesa com uma camisolinha preta presa apenas por um botão. Soltou o botão, tirou a calcinha e se deitou na mesa dizendo “vem jantar”.

Assim era nossa vida. Assim era nosso amor.

Os meses foram passando e a hora do nascimento chegando. Quando estava próximo dos nove meses Camila passeava por um shopping escolhendo roupinhas para o bebê, que ela fez questão de não saber o sexo, quando deu de cara com a mãe e uma amiga.

Camila se aproximou e disse “oi mãe”. Suely não deu atenção e continuou conversando com a amiga. Camila insistiu e Suely ironizando comentou com a amiga “Ta ouvindo alguma coisa? Eu hein? Acho que tem assombração aqui”.

As duas começaram a andar. Camila chorando suplicou “mãe, por favor”. Mas Suely continuou andando deixando a filha pra trás.

Camila, chorando muito, botou a mão na barriga e me ligou dizendo que precisava de ajuda.

Levei minha esposa para o hospital e tenso liguei para Osmar e minha mãe. Rapidamente o hospital estava cheio com familiares e amigos. Eu não entendia o porque daquilo tudo ocorrer e o médico saiu para dizer que ela estava em trabalho de parto.

Me desesperei. Respondi que ela nem estava de oito meses ainda e ao lado de minha mãe rezei para que Deus protegesse Camila e meu filho.

Depois de horas o médico saiu para dizer que o bebê tinha nascido.
 
Era prematuro e por isso ido para uma UTI. Um menino.

Perguntei por minha esposa enquanto todos comemoravam. O médico respondeu que perdera muito sangue e estavam tentando estancar a hemorragia.

Foram mais algumas horas de agonia rezando pela saúde de Camila e nosso filho. Pedi pro anjo Gabriel proteger o dois prometendo dar o nome do anjo para o bebê. A primeira a se recuperar foi Camila. Nosso Gabriel foi pra incubadora.

Dois dias depois Camila recebia alta e saíamos com a frustração de não ter nosso filho no colo. Não deve existir frustração maior para uma mãe que sair da maternidade sem seu filho. Íamos todos os dias até o local, Camila fornecia seu leite para que nosso filho se fortalecesse.

Até que um dia ele se fortaleceu e recebeu alta.

Gabriel, nosso anjo Gabriel, nosso pequeno guerreiro Gabriel, tão pequenino e tão valente foi para casa e entrou de uma forma avassaladora em nossas vidas. Era o que faltava para deixar nossas vidas perfeitas.

Não éramos mais apenas Camila e Antonio, éramos uma família agora. Tínhamos um menininho fruto de nosso amor para criar.

Um dia Camila dormia e eu acalentava nosso pequeno Gabriel em meu colo na cadeira de balanços. Ele dormia e eu pensava no conceito de felicidade que um dia minha mulher falou.

Se a felicidade era provisória eu tinha que aproveitar.  

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4 comentários:

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  2. Nem sabia que tinha algo parecido de Drummond rs Quer dizer que estou certo rsrs Obrigado amor

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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