domingo, 28 de dezembro de 2014

O ANTI-FUTEBOL BRASILEIRO EM 2014


*Coluna publicada no blog Ouro de Tolo em 21/12/2014

E teve Copa…

A frase mais famosa dos últimos anos, a “não vai ter copa”, não se confirmou. Teve Copa, muita Copa e não tem como começar uma coluna que fala de futebol sem esse detalhe, mas também não tem como fazer sem esquecer outro.

Teve Copa, mas o futebol brasileiro não compareceu.

A festa foi linda, maior que se imaginava, contra toda a onda pessimista fizemos a maior de todas as copas do mundo. A acolhida de nosso povo como ele sempre faz, mas uma organização de improviso que só nós também sabemos fazer e que por incrível que pareça sempre dá certo. Pessoas felizes, o país colorido e virando uma “torre de babel” da alegria. Várias línguas, povos e culturas se misturando e fazendo do Brasil por um mês a capital do mundo.

Pena que o futebol brasileiro não veio.

Não veio porque como diria uma música do cantor e reprodutor Fabio Jr ficou perdido em “alguma coisa entre esses 20 ou 30”. É, ele se perdeu. Se perdeu em alguma curva de 2006 quando uma talentosa, mas bagunçada seleção brasileira fracassou.

Os “gênios” que comandam o futebol brasileiro decidiram punir tudo. Acabaram com a bagunça, mas também podaram o talento. Colocaram “treineiros” inexperientes, brucutus ou ultrapassados no período. Gente que se importa mais com o resultado que qualquer coisa e não se importa, não tem vergonha do modo que alcance. Nem que pra isso abra mão do talento e fique o tempo todo dando chutões com jogadores fracos, mas voluntariosos e que servem ao “esquema tático”.

Aí se iniciavam debates do tipo “O Fred? Fred é um cone, nem consegue chutar a gol, mas faz o papel de pivô que é uma beleza abrindo espaço pros homens de meio campo”. “O Hulk? É atacante que não faz gol, mas volta pra cobrir o lateral e ajuda na marcação”. “O Neymar? Chuta a bola pra frente que ele se vira”.

Ok. Mas… E no dia que por um azar não tivesse o Neymar?

Assim como a classe política de um país é reflexo de seu povo a seleção nacional de futebol é reflexo do futebol praticado nesse país. Alemanha e Espanha dominam o futebol nos últimos seis anos porque souberam se fortalecer depois de crises ou mesmo histórico de derrotas.

 Tiveram humildade, fizeram mea culpa e não por acaso tem hoje seleções dominantes mesmo com a da Espanha entrando em declínio. Seus trabalhos de base são sérios, com alto investimento. Produzem jogadores dessas bases assim como os clubes enriquecem e conseguem contratar os melhores jogadores do mundo. Não é por acaso que os melhores times do mundo hoje são da Alemanha e da Espanha. As duas últimas finais da Uefa Champions League foram finais caseiras realizadas por esses países.

A seleção inglesa também é reflexo de seu futebol. Tem talvez a liga mais badalada e rica do mundo, mas por esse excesso de riqueza (muito vinda do mundo árabe ou de milionários russos) não investe em base, apenas em contratações de estrangeiros e os principais clubes ingleses tem pouquíssimos nativos entre seus titulares. Isso reflete no constante fracasso da seleção inglesa, que virou uma espécie de Botafogo da Europa.

Por sinal. E o Botafogo, hein?

O Botafogo é o maior exemplo do futebol brasileiro atual. Um clube de tradição, que revelou os maiores jogadores de nossa seleção, agoniza em meio a administrações desastrosas. Com muitas dívidas, perdendo jogadores a cada dia, tendo rendas penhoradas o clube da estrela solitária foi rebaixado de forma inapelável em 2014. Como citei, é o clube que mais cedeu jogadores à nossa seleção e sua decadência evidente que reflete nela.

Assim como as decadências de Palmeiras e Vasco que em vez de títulos agora comemoram anos que não são rebaixados mesmo que façam campeonatos humilhantes; ou quando são rebaixados comemoram acesso como terceiro colocado e tomando goleadas em seus campos onde antes eram doutrinadores.

Mas não é privilégio desse três clubes. Graças a más administrações, recessão econômica, lei Pelé que deu poder a empresários tirando dos clubes, exagero na gastança com técnicos e jogadores, disparidade em cotas de patrocínios e de tv e uma entressafra poucas vezes vistas em nosso futebol o Brasil padece.

Nossos clubes hoje se dividem em quatro. Os que perceberam o momento de corte de gastos e fazem mesmo que prejudicando o futebol como o Flamengo, os que na marra terão que cortar gastos como o Botafogo, aqueles que vivem em uma bolha, gastando a rodo sem ter uma base para isso e quando a mesma estourar vão sofrer como o Atlético Mineiro e Fluminense e clubes que parecem organizados e por isso um passo a frente – como o Cruzeiro.

Cruzeiro que também é símbolo do futebol atual. Time sem craques, sem grandes jogadores que vem ganhando tudo no futebol brasileiro apenas porque é organizado. Um futebol sem graça ganhando campeonatos sem graça como os brasileiros atuais.

Mas também acho que essa discussão mata mata x pontos corridos já deu no saco. Sou a favor do mata mata, mas não vão mudar então deixa assim mesmo e não encham mais o saco com esse assunto chato.

Mesmo com esses problemas todos citados o poder financeiro do futebol brasileiro é muito maior que dos outros países da América do Sul e por isso ganhamos muitas Libertadores seguidas. Mas o enfraquecimento de nosso futebol sempre era escancarado no confronto com times europeus e humilhações que passamos.

O problema é que em 2014 nem na América sobressaímos. Um país que tem todos os anos campeão sem graça como o Cruzeiro, que enaltece bons técnicos, mas que tem nada demais e são “defensivistas” como Tite e Muricy, que tem clubes ganhando dinheiro, mas conseguindo gastar mais ainda de forma irresponsável como o Corinthians começa a pagar o preço de tanta descaso.

Aí ficamos dependentes e carentes de um menino de 21 anos que tem que sozinho salvar a pátria. Ganhar para a gente uma Copa do Mundo em casa. Nossa grande oportunidade de redenção depois de 64 anos, que nunca mais teremos uma igual. Nos pés e nas costas dele toda a responsabilidade já que os mais velhos tremeram e choraram do hino até a cobrança de pênaltis.

Tá. Mas e no dia que por um azar não tivesse o Neymar?

Ainda bem que não tivemos esse azar né? Porque para a CBF está tudo bem, o futebol brasileiro segue da mesma forma de antes da copa. Teve copa.

Mas teve gente que não percebeu.


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